Um defeito de cor

29 textos neste tema

Somos sementes e granadas

Fonte: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea | Publicado em: 2019-06-01 00:00

racismo, necropolítica, diáspora africana, identidade negra, psicologia preta, colonialismo

  Marina Farias Rebelo

    Faço o fogo e carrego a fogueira, xarpigrafia do artista visual Mulambö[1]

muito pouco quase nada do que se diga serve de atenuante para a dor que cada corpo-mente preta sentiu ao saber da morte do músico preto no domingo, dez de abril de dois mil e dezenove. um corpo perfurado oitenta vezes por ser o corpo racializado num mundo em que raça é uma marca no corpo marcado e colonizado pela violência e pela guerra. poucos dias depois no mesmo rio de janeiro, uma das maiores cidades do planeta, outro corpo preto é alvo de fuzilamento quando, em meio ao dilúvio, caixote pós caixote minuciosamente organizados por mãos pretas acostumadas à rua permitiram que a senhora branca idosa continuasse incólume o seu caminho com os pés secos preservados de tocarem a água suja que corria junto ao meio fio e encharcava os pés pretos descalços do flanelinha. o filósofo camaronês diz que existem muitos jeitos de morrer para além da morte do corpo físico. aqui no brasil a gente sabe que pode ser de bala na pele, de arrastamento pelo carro da polícia, de repetição do padrão de dominação, de mata-leão. corpos pretos muitas vezes morrem, mas outras muitas morrem e continuam vivos morrendo cada dia um pouco ao ver na mão da mãe preta o uniforme da escola sujo de sangue. não há o que se diga, há quase nada que se faça pra arrancar do peito preto, que se diz preto e por isso é preto diante de brancos e outros pretos, esse mal. o mundo esse que taí não se ajeita não tem jeito só há o jeito desse mundo findar e outro ser mundo criado e parece que recentemente se descobriu que deusa é uma mulher preta.

(brasil, abril de 2019)

Em meados de 2018, uma amiga muito querida e próxima, sabendo da minha constante e cada vez maior inquietação com os efeitos do racismo sentidos por mim em minhas relações afetivas, me mostrou o vídeo[2] de um jovem rapaz, psicólogo, negro, que acabara de defender a sua dissertação de mestrado e participava de um evento na Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentando uma parte de seu texto sobre psicologia preta e produção de conhecimento decolonial. Não tenho formação em psicologia e pouco li sobre psicanálise, mas os 17 minutos da fala de Lucas Veiga me deixaram profundamente tocada, não apenas pelo jeito sereno e concentrado que ele tinha de se expressar e criar metáforas simples para conceitos complexos das teorias de Freud e Lacan, mas também pelo contraste entre essa serenidade e a proposta radical de implosão do mundo, que, referenciada em Frantz Fanon[3], estava contida em seu discurso. Passei alguns dias revolvida com o que ouvi, particularmente detida em um pensamento de Lucas: nós, negras e negros, carregamos em nossos corpos a semente do porvir de um novo mundo e a granada para implosão do mundo tal qual conhecemos hoje. O vídeo, datado de 17 de maio de 2018, instaurou em mim o entendimento dessa contradição e, desde então, a possibilidade de ruir o mundo me atravessa olhos a cada leitura que tenho feito e a cada movimento que planejo e executo em direção à consciência dos espaços que ocupo como uma mulher negra no ambiente acadêmico.

Alguns meses depois do episódio do vídeo, ao realizar a matrícula em disciplinas para obter os créditos exigidos pelo doutorado em literatura, me inscrevi num curso cuja ementa girava em torno da discussão sobre racismo e necropolítica, e estava baseada na obra Políticas da Inimizade[4], do filósofo camaronês Achille Mbembe. Ao falar sobre as características que aludem à modernidade, Mbembe lista quatro aspectos que constituem a era moderna, sendo o primeiro deles - e o que mais me interessou analisar - os movimentos de repovoamento da Terra a partir das relações estabelecidas entre o império e as colônias na modernidade, principalmente no tocante à lógica de povoamento e exploração construída com base na escravidão. Se pensamos no Brasil a partir da reflexão de Mbembe, inclusive quando ele aborda o conceito de o “corpo noturno da democracia” (2017, p. 31), percebemos que a longevidade e particularidade do processo escravocrata brasileiro resultaram na democracia genocida vivenciada no país desde o seu erguimento como nação até os dias de hoje.

O processo de escravidão no Brasil teve especificidades e se diferenciou de outros regimes escravocratas das Américas. Uma das obras literárias mais importantes da literatura brasileira sobre esse período da história do país é Um defeito de cor, da escritora Ana Maria Gonçalves. Publicado originalmente em 2006 pela editora Record, o livro é narrado e protagonizado por Kehinde, uma menina africana trazida escravizada ao Brasil no início do século XIX que passa toda a sua vida desvelando-se com suas memórias ao resistir e questionar o deslocamento geográfico a ela imposto, a diáspora forçada que a trouxe para ser parte do projeto de nação que se delineava na outra margem do atlântico negro. Essa deslocação, movimento que dá início à trajetória da personagem narradora, a coloca em constante batalha pelo não apagamento de suas raízes, pela manutenção de sua identidade e pelo entendimento sobre o seu lugar como uma mulher negra no processo de formação da nação brasileira.

Ao conhecermos a trajetória de Kehinde em seus múltiplos deslocamentos espaciais, temporais, subjetivos, uma questão se impõe à reflexão: quantos e quais movimentos de resgate de memória são necessários para a construção da identidade de uma mulher negra em meio ao processo de escravidão que tivemos no Brasil e que, em muitos aspectos, não pode ser considerado inteiramente finalizado? A escrita de uma mulher negra que optou por estruturar seu romance histórico, resultado de consistente pesquisa documental, sob o ponto de vista de outra mulher negra ainda que fruto de uma construção ficcional, foi também responsável por abrir as sendas do caminho que Gonçalves trilha agora como escritora reconhecida. A relação difusa entre autora e personagem, não é gratuita ou despretensiosa, mas sim parte fundamental de minha leitura, que considera o texto de Um defeito de cor como uma escrita de si, ainda que o livro não seja uma obra diarística ou autobiográfica.  As memórias de Kehinde, contadas por ela desde que era uma criança em África, são os fios da ancestralidade que a autora busca tecer para si mesma quando cria a trama vivida pela narradora e protagonista de seu romance, num exercício deliberado de autorrepresentação. Essa aproximação permite a Gonçalves, por meio de sua criação literária, e a Kehinde atráves de seu falar, reconstruírem reciprocamente uma identidade feminina negra tantas vezes negada a elas.

Todos os trajetos feitos pela protagonista, não apenas os externos e espaciais, mas também os internos e subjetivos, se conformam como a trilha seguida por ela e cujo destino final, porém jamais acabado, é a construção de sua identidade no novo espaço, a nova nação que habita. Uma identidade que, pela construção colonial do racismo, se constitui como insurgente, cerne de um sujeito desterritorializado, cuja ontologia se mostra irrealizável, nas palavras de Fanon (2008). Para pensar essa reflexão de forma material, são essenciais os objetos que a protagonista carrega durante sua vida – imagens de santos, bonecos de orixás e outras miudezas herdadas de sua mãe, avó, irmã – símbolos de sua necessidade de pertença ao seu passado. Estes pequenos objetos, ao ressignificarem o desejo de retorno à terra natal, se transformam, ainda que não conscientemente, em um confrontamento com o tempo e com a morte. Não apenas a sua, mas as mortes das mulheres que foram essenciais na trajetória da protagonista.  Neste pequeno trecho do livro, Kehinde fala da urgência que sente em poder realizar o culto aos orixás, de recuperar pequenas memórias de sua irmã gêmea morta, de, enfim, construir uma memória de si para reter uma memória do outro, no sentido de estar ciente sobre a sua própria morte.

A Nega Florinda disse que já sabia que eu precisava falar com ela e que podia ajudar. Contei como eu tinha chegado até ali e ela disse que isso já era um sinal de que os voduns e os orixás estavam comigo, mesmo que no momento eu não pudesse cultuá-los como mereciam, pois se eu tinha sobrevivido era porque havia uma importante missão a cumprir. (...) Ela também disse que eu poderia me valer dos orixás para cultuar alguns voduns, porque, na Bahia, Mawu, Khesiobô, Legba, Anyi-ewo, Loko, Hoho, Saponan e Wu eram cultuados como Olorum, Xangô, Elegbá, Oxum, Iroco, Ibêjis, Xaponã e Olokum.(...). A Nega Florinda foi embora prometendo me ajudar, primeiro com o pingente da Taiwo, depois com a estátua dos Ibêjis, as maiores urgências. As outras coisas chegariam cada qual a seu tempo, como tinha que ser naquele lugar onde fingíamos cultuar os santos dos brancos.[5]

Subjetividades, afetos e diáspora

A construção de uma subjetividade negra diaspórica significou, para os povos africanos, a saída de um lugar ao qual se pertencia para serem transitados para um novo território onde seu corpo foi sujeito à marcação por uma ideia de raça, de diferença; e sua individualidade cerceada do direito à vida e à humanidade. No processo de construção dessa alteridade, cuja referência é o homem branco europeu, e a guerra o método de submissão de corpos negros, a violência se torna natural, tanto para quem a exerce, como para quem a recebe, sendo vista como parte necessária e inevitável do dito processo civilizatório.

A urgência que a colonização e as práticas de subjugação de povos de África impõem para o reconhecimento de um inimigo encontram eco nos medos e paranoias que o corpo racializado provoca no sujeito racista, a partir do entendimento de que é o racismo quem produz a categoria de corpos racializados. Em outras palavras, pode-se afirmar que a crença de que existe um corpo marcado por uma raça é produto do racismo. O livro Baratas[6], da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, foi uma das leituras que fiz recentemente e que ganhou intensidade com o incremento das reflexões sobre a descolonização radical, proposta por Fanon, e da leitura do livro de Mbembe. Mukasonga, ao relatar o genocídio de milhares de pessoas da etnia tutsi pelas mãos de seus conterrâneos da etnia hutu, ocorrido em Ruanda no ano de 1994, exemplifica a reflexão trazida pelo filósofo sobre a construção do inimigo, tido como necessário para a manutenção de uma paz falseada pela controversa sensação de insegurança que as democracias perpetuam. Os hutus, ao assassinarem a sangue frio mais de 800 mil tutsis, estavam imbuídos da crença que os corpos tutsis eram o os corpos racializados naquele contexto. O inimigo era o outro, a quem se devia negar e destruir. A necessidade de destruição desse inimigo, alimentada continuamente pela negação de si mesmo, traz como consequência a constituição do inimigo através de um espelho. O sujeito olha para si mesmo e a imagem que ali se forma refletida é a dele como o seu inimigo. O relato autobiográfico da escritora ruandesa tenta dar uma dimensão da violência que a colonização informa aos corpos negros, projetando nesses corpos um auto-ódio destruidor de humanidades:

Da morte dos meus, só me restam buracos negros e fragmentos de horror. O que mais sofrer? Ignorar como foram mortos ou saber como os mataram? O terror do qual foram tomados, o horror que sofreram, às vezes é como se eu tivesse o dever de senti-los, às vezes é como se eu tivesse o dever de escapar. Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar viva em meio a todos os meus mortos. Mas o que é meu sofrimento, comparado ao que eles sofreram antes de obter de seus carrascos essa morte que, para eles, foi sua única libertação?[7]

Que tipo de existência se faz possível e é honestamente desejada depois de uma experiência de morte, não apenas do corpo físico, mas dessa subjetividade que, nas palavras de Mbembe, passa a existir como morta-viva? Como romper esse ciclo, de repetição da dor causada pelo racismo, e transformar o sofrimento em autocuidado, retirando do veneno o antídoto para a cura? Para Fanon, o restabelecimento do contato consigo e com o mundo é uma estratégia para o rompimento do ciclo de doenças e degenerações que decorrem das vivências racistas, não apenas as que causam injúrias físicas, mas também aquelas que provocam feridas subjetivas, emocionais. Seria necessário, então, o renascimento da pessoa adoecida pelo racismo. O renascimento desse paciente precisa, contudo, ser acompanhado de um renascimento do mundo.

Em constante diálogo com Fanon, e apesar de apontar um caminho de destruição do mundo (ou talvez justamente por isso), Lucas Veiga é um homem extremamente afetuoso e presente. Pude conhecê-lo e estar com ele há poucos dias, num desses encontros que a vida organiza e que parecem ser afortunadamente inevitáveis. Psicólogo clínico que tem se dedicado a estudar e aprofundar as bases teóricas para uma Psicologia Preta no Brasil, Veiga se debruça sobre como desvendar caminhos de cuidado para negritude enfrentar a violência racista e desmontar os seus efeitos. Um trabalho que reestabelece o senso de pertença de mulheres e homens negros, mobiliza afetos e aposta na reconstrução de laços. Nas palavras de Lucas, outro mundo torna-se possível: o aquilombamento cura.

Referências:

FANON, Frantz. Pele negras máscaras brancas. EDUFBA. Salvador, 2008.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro. Record, 2006.

MBEMBE, Achille. Políticas da inimizade. Tradução de Marta Lança. Antígona. Lisboa, 2017.

SCHOLASTIQUE, Mukasonga. Baratas. Tradução de Elisa Nazarian. Editora Nós. São Paulo, 2018.


[2] VEIGA, Lucas. Psicologia Preta: Como curar a negritude dos efeitos do racismo. Disponível em

[3] FANON, Frantz. Pele negras máscaras brancas. EDUFBA. Salvador, 2008.

[4] MBEMBE, Achille. Políticas da inimizade. Tradução de Marta Lança. Lisboa: 2017, Antígona.

[5] GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. Rio de Janeiro. Record, 2006. P. 83-84.

[6] SCHOLASTIQUE, Mukasonga. Baratas. Tradução de Elisa Nazarian. São Paulo. Editora Nós, 2018

[7] SCHOLASTIQUE, Op. Cit. p. 136


Texto originalmente publicado em Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

A literatura e a história em romances contemporâneos

Fonte: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea | Publicado em: 2017-08-01 00:00

historiografia, romance histórico, literatura feminista, teoria queer, representatividade negra, estudos literários

Júlia Braga Neves
Humboldt-Universität zu Berlin/ King's College London

Imagem: Carrie Moyer

Em seus textos sobre historiografia, Hayden White reforça os pontos em comum entre a literatura e a história ao alegar que os dois tipos de discurso operam sob as normas da linguagem e da narratividade (White, 1999, p. 6). Assim como a narrativa literária, o texto histórico depende da seleção de informações, da interpretação de fatos e também de decisões que dizem respeito à forma, à organização da narrativa e aos discursos que esta irá comunicar. White é enfático em sua tese de que não há objetividade na produção de narrativas históricas porque estas estão sempre sujeitas a reflexões autorais e a interpretações de documentos históricos oficiais. Para White, não se trata de negar o fato histórico em si nem de defender que as narrativas históricas sejam ficções, mas de ressaltar que existem, de fato, elementos subjetivos na construção de discursos históricos e que eles provêm, em grande parte, do caráter autoral, linguístico e narrativo presentes na produção historiográfica.

É claro que a literatura apresenta características particulares no que se trata da narratividade, pois a ficcionalidade possibilita a criação de mundos que podem existir de acordo com normas sociais que diferem da realidade. No entanto, a literatura, mesmo com seu caráter ficcional, está sempre entrelaçada a discursos históricos. A relação entre história e literatura dá-se, principalmente, na forma de romances históricos, gênero consagrado pela teoria de Georg Lukács no clássico O Romance Histórico, publicado originalmente em 1937. Ao traçar o desenvolvimento do gênero desde o século XVIII, Lukács identifica o romance histórico com a emergência do estado nação moderno no final do século XVIII e aponta a obra de Sir Walter Scott como a maior influência do gênero, que utiliza técnicas realistas para conferir veracidade à narrativa histórica dentro da sua forma ficcional. O teórico húngaro atribui ao gênero a função de tratar “do despertar ficcional dos homens” que protagonizaram a história e de “figurar de modo vivo as motivações sociais e humanas a partir das quais os homens pensaram, sentiram e agiram de maneira precisa, retratando como isso aconteceu na realidade histórica” (Lukács, 2011, p. 137).

Na crítica literária feminista, a visão de Lukács tem sido criticada principalmente a partir da década de 1970 quando o feminismo ganhou força no cenário acadêmico. Ruth Hoberman, por exemplo, alega que a relação que Lukács defende entre personagens e suas conquistas históricas só pode ser realizada por “figuras que são livres para vagar, conhecer pessoas e obter poder” (Hoberman, 1990, p. 356, tradução minha). Como se sabe, as mulheres – assim como minorias étnicas e raciais – foram impedidas de acessar os privilégios de mobilidade, poder, autoria e liderança ao longo da história e tiveram de se engajar em intensas lutas para adquirirem direitos políticos e sociais. Hoberman, então, afirma que as teorias de Lukács sobre a ficção histórica apagam “as particularidades das experiências das mulheres”, o que resulta na “reiteração da ausência de mulheres dentro da história” (Ibidem, p. 357, tradução minha). O mesmo pode-se dizer sobre minorias étnicas, raciais e sexuais.

É exatamente essa questão de ‘ausências’ e ‘lacunas’ dentro da historiografia que romances históricos contemporâneos tentam preencher. Na literatura inglesa, as obras neo-Vitorianas de Sarah Waters, por exemplo, visam criar um arquivo histórico ficcional para lésbicas, tendo em vista que os registros oficiais sobre mulheres homossexuais no século XIX na Inglaterra são escassos. Por ter sido considerada crime de 1885 até 1967 na Grã-Bretanha, a homossexualidade entre homens sempre foi um tema de debate público que ganhou força com o julgamento de Oscar Wilde em 1895, no qual o escritor foi condenado a dois anos de prisão por sodomia e obscenidade. Em contrapartida, a imprensa, juristas e setores conservadores da sociedade britânica acreditavam que não seria de bom tom discutir homossexualidade entre mulheres publicamente porque isso poderia dar ideias imorais a elas, que acreditariam no amor e no desejo sexual sem a presença masculina e fora dos padrões do casamento. Porém, isso não quer dizer que mulheres não eram punidas quando flagradas em relações sexuais com outras mulheres: elas eram comumente internadas em instituições psiquiátricas ou religiosas, onde sofriam tratamentos abusivos e violentos que tentavam ajustar as mulheres a padrões de feminilidade baseados na domesticidade, na maternidade e no casamento.

Na obra de Sarah Waters, principalmente em seus três primeiros romances, a escritora propõe a criação de arquivos históricos ficcionais que representem possíveis passados para lésbicas na Inglaterra. Esses passados históricos são construídos a partir de pesquisas históricas aprofundadas sobre o período Vitoriano (1837-1901) que são retratadas a partir da reprodução crítica de técnicas e gêneros literários vitorianos, como o realismo social, o gótico e o romance de sensação. Além de entrelaçar a pesquisa histórica com tradições literárias, Waters acrescenta às suas versões do século XIX temáticas contemporâneas presentes nas teorias queer e feministas do século XX. Um exemplo é o seu primeiro romance, Tipping the Velvet (1998), que se passa no final do século XIX. Nele, Waters utiliza a cena teatral de Londres, o desenvolvimento urbano e as diferenças sociais entre o Leste e Oeste da cidade no século XIX para apresentar as discussões levantadas por Judith Butler sobre a construção de identidade de gênero e de sexualidade a partir da repetição de normas estabelecidas por relações históricas e culturais.

O teatro em Tipping the Velvet não é apenas um cenário no romance, mas é a sua essência, pois ele é representado pelo sucesso dos chamados male impersonation acts, números teatrais nos quais atrizes interpretavam homens em teatros populares na Londres vitoriana. Essas performances teatrais eram paródias do comportamento masculino e eram consideradas subversivas porque, além de ridicularizar os homens, principalmente aqueles de classe social mais alta, elas também poderiam comunicar a ideia de que as mulheres seriam capazes de ter as mesmas liberdades que os homens. Não é à toa que a artista Vesta Tilley, em quem Waters baseou sua protagonista Nancy Astley, sofreu diversas hostilidades públicas por ser considerada um símbolo de autonomia e independência. Tilley foi uma das mais famosas da cena teatral de Londres no final do século XIX com sua encenação musical de personagens masculinos. Embora Waters não apresente nenhuma personagem cuja significância tenha sido reconhecida pela história tradicional, como é o caso de Tilley, muitas delas são baseadas em mulheres de extrema importância na história cultural, social e literária inglesa. Enquanto Nancy Astley representa o talento e independência artísticos de Tilley, a autonomia de mobilidade e de atuação no espaço urbano, sua companheira Florence Banner, inspirada na ativista social e enfermeira Florence Nightingale e na ativista socialista Eleanor Marx, personifica a luta feminista da classe trabalhadora no Leste de Londres.

Não se trata, como na teoria de Lukács, de apresentar personagens históricos para validar a historicidade presente no ficcional, mas de mostrar como o arquivo histórico muitas vezes omite, exclui ou diminui a importância histórica das mulheres. Ainda há muitos teóricos e historiadores que sustentam a ideia de que mulheres no século XIX eram submissas, passivas e completamente devotas aos seus maridos e, embora esse comportamento fosse de fato dominante, sabemos que ele era idealizado e que muitas mulheres o rechaçavam. Além disso, esse modelo de feminilidade do século XIX correspondia a um ideal das classes média e alta, cujas mulheres não tinham a necessidade de trabalhar. As mulheres trabalhadoras, protagonizadas no romance pela personagem de Florence Banner e suas amigas de Bethnal Green, tinham vidas fora da esfera doméstica na rotina de dupla jornada do trabalho mal pago e do trabalho doméstico de suas casas.

No Brasil, a literatura produzida por mulheres também aborda as exclusões de discursos históricos e culturais tradicionais, conforme elucidado nesse post de Paula Dutra. Um exemplo na literatura brasileira contemporânea é o romance histórico Um Defeito de Cor (2006) de Ana Maria Gonçalves. Narrado em primeira pessoa e em formato autobiográfico, o livro conta a história de Kehinde, uma escrava capturada ainda criança no Reino de Daomé (atualmente denominado Benim) e levada para o Brasil com sua irmã gêmea e com sua avó por traficantes de escravos. A trajetória de Kehinde passa pela Bahia, pelo Maranhão, Rio de Janeiro, São Paulo e Benim e o seu relato, escrito em retrospectiva quando a personagem já é idosa, abrange a violência do Brasil colonial e também a resistência dos escravos contra a exploração e a violência escravista. Ao conseguir comprar sua liberdade, Kehinde passa a viver com um português branco com quem tem um filho, o qual é vendido ilegalmente como escravo pelo próprio pai.

No prefácio do livro, Gonçalves antecipa as origens do romance que, segundo ela, se deu por uma ‘serendipidade’, palavra usada para descrever uma “situação em que descobrimos ou encontramos alguma coisa enquanto estávamos procurando outra” (Gonçalves, 2016, p.9). Em pesquisa sobre a Revolta dos Malês em Salvador, Gonçalves mudou-se para a Bahia e passou um tempo na Ilha de Itaparica, onde, por acaso, encontrou um manuscrito anônimo supostamente produzido no século XIX que relatava a trajetória de Kehinde em forma autobiográfica. As páginas perdidas e ilegíveis do manuscrito foram preenchidas por Gonçalves, que complementou os escritos com a sua própria ficção e o seu conhecimento histórico adquirido durante a pesquisa sobre a Revolta dos Malês. Sendo assim, é possível afirmar que existe nesse romance um diálogo entre história e literatura no sentido em que o manuscrito é uma mistura de memória histórica e ficção, representada pela escrita de Gonçalves.

Não se sabe se o texto foi escrito por uma escrava ou se foi inventado por uma autora. Segundo Gonçalves, “[e]specula-se que [a história] pode ser apenas uma lenda, inventada pela necessidade que os escravos tinham de acreditar em heróis, ou, no caso, em heroínas, que apareciam para salvá-los da condição desumana em que viviam.” (Gonçalves, 2016, p. 16). Gonçalves aponta que há, de fato, precisão de datas, locais, nomes e acontecimentos históricos no manuscrito que sugerem autenticidade histórica no documento. No entanto, Gonçalves diz que “é bom que a dúvida prevaleça” (Gonçalves, 2016, p. 17), pois o manuscrito, mesmo misturando o histórico com o ficcional, relata uma história de violência, resistência e sofrimento causados pelo tráfico de escravos.

O que chama a atenção no livro são os detalhes sobre a organização de resistência entre os escravos e também o sincretismo religioso e cultural das diversas comunidades africanas no Brasil. Além disso, o romance mostra a complexidade do sistema escravocrata na esfera mundial ao entrecruzar as histórias da escravidão no Brasil e a independência de Portugal com as expedições colonizadoras da Inglaterra. O romance começa em 1810, três anos depois de a Inglaterra abolir oficialmente a escravidão em seu território nacional, ainda que ela fosse permitida em suas colônias, onde a escravidão só fora abolida em 1833. O romance de Gonçalves deixa claro que os interesses ingleses na abolição estavam mais ligados aos lucros capitalistas do que a preocupações sobre direitos humanos:

[...] fiquei sabendo que os ingleses eram contra a escravatura. Não porque fossem bonzinhos e achassem que também éramos gente, como de fato faziam pensar nos tratando melhor que os senhores portugueses ou brasileiros, mas porque tinham interesse em que fôssemos libertos. [...] Foi naquela casa que fiquei sabendo que não havia mais escravos nem em Inglaterra nem nos seus domínios, que todas as pessoas eram livres para morar e trabalhar onde quisessem, recebendo dinheiro. Era isso que os ingleses mais queriam, que todos tivessem dinheiro para comprar as mercadorias produzidas nas grandes fábricas construídas em Inglaterra. (Gonçalves, 2016, p. 220).

Ao entrelaçar ficção e história, o romance de Gonçalves toca em questões importantes sobre a escravidão não somente no Brasil, mas também no cenário colonial do século XIX. Tanto o romance de Sarah Waters como o de Ana Maria Gonçalves retratam o passado histórico em perspectiva presente, abordando o apagamento histórico referentes, respectivamente, às mulheres lésbicas na Inglaterra e às mulheres negras no Brasil. Nesses romances, não há uma busca de uma ‘verdade histórica’ ou a necessidade de representar ‘grandes conquistas dos homens’, mas de ressaltar a violência e a exclusão presentes na historiografia tradicional.  

Obras citadas:

GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de Cor. Rio de Janeiro: Record, 2016 (2006).

HOBERMAN, Ruth. “Multiplying the Past: Gender and Narrative in Bryher’s ‘Gate to the Sea’”. In: Contemporary Literature, 31.3 (Outuno 1990), pp. 354-372.

LUKÁCS, György. O Romance Histórico. Rubens Enderle (trad.). São Paulo: Boitempo, 2011 (1937).

WATERS, Sarah. Tipping the Velvet. Londres: Virago Press, 2009 (1998).

WHITE, Hayden. Figural Realism: Studies in the Mimesis Effect. Baltimore e Londres: John Hopkins University Press, 1999.


Texto originalmente publicado em Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

Literatura e religiões de matriz africana

Fonte: Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea | Publicado em: 2017-11-01 00:00

Literatura brasileira, Religiões de matriz africana, Representatividade negra, Candomblé, Cosmogonia africana

Bruna Santos

Imagem: Robson Khalaf

Lá fora, no céu dor de íris, um enorme angarô multicolorido se diluía lentamente, enquanto Ponciá Vicêncio, elo e herança de uma memória reencontrada pelos seus, não se perderia jamais, se guardaria nas águas do rio.

Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio

Falar sobre religião na literatura brasileira contemporânea nem sempre é fácil. Se pensarmos em religião ligada ao que aparece em romances, por exemplo, facilmente seremos guiados para representações de religiões cristãs. Mas, e a representação das religiões de matriz africana?

De acordo com estudo coordenado por Regina Dalcastagnè junto ao Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, sobre a representação dos personagens em romances publicados entre os anos de 1990-2004, “em relação à religião, observa-se que ela está mais presente nas representações das personagens indígenas e negras. Enquanto 62,5% dos orientais, 58,8% dos brancos e 47,4% dos mestiços não apresentam indícios de filiação religiosa, a proporção cai para 37,8% no caso dos negros e 33,3% no caso dos indígenas. Trata-se de efeito da forte vinculação destas personagens com, num caso, os cultos indígenas e, no outro, a umbanda e o candomblé. Entre os indígenas, 40% são indicados como praticantes de cultos tradicionais. E 26,5% das personagens negras aparecem como seguidores das religiões afro-brasileiras, isto é, mais de 70% dos fiéis destes cultos são negros”. Dessa forma, para que se fale sobre a ideia da representação literária das religiões de matriz africana não podemos deixar de lado o vínculo da religião à questão racial.

De acordo com os dados apresentados no censo do IBGE de 2000, 50,4% dos seguidores das religiões afro-brasileiras – umbanda e candomblé agrupados – se declaram brancos e apenas 18,2% de pretos. Ainda, os pardos são 29,8% e 0,3% de amarelos. É de se pensar porque a representação literária traz tão poucas personagens brancas ligadas a essas religiões, quando a realidade mostra uma outra composição racial.

Durante muito tempo as religiões de matrizes africanas foram (e talvez ainda sejam) consideradas como menores, são vistas como menos importantes e suas práticas foram e ainda são apontadas como coisas do demônio (terreiros são queimados, mães de santo são perseguidas, livros que tratam da religião são abolidos por pais intolerantes). Parte disso se liga ao pensamento preconceituoso de que o que veio com os negros escravizados, em oposição às religiões cristãs predominantes, é negativo, perigoso e sem valor para nossa sociedade.

 O fato das religiões de matrizes africanas terem suas tradições registradas de forma oral também contribuiu para esse pensamento. Como diz Reginaldo Prandi em Mitologia dos Orixás,             “até onde se tem notícia, data de 1928 o primeiro documento extenso escrito contendo os mitos da arte oracular, um caderno compilado por Agenor Miranda Rocha, membro letrado de um dos terreiros da Bahia, em que tradições divinatórias haviam sido preservadas à moda dos antigos babalaôs, mas esse documento somente foi trazido à luz mais de meio século depois de ter sido escrito”.

Assim, o fato de mais personagens negras serem ligados a religiões de matrizes africanas pode ser explicado pelo infeliz pensamento enraizado na nossa sociedade de que o que é “coisa de preto” não tem importância.

Entretanto, algumas obras literárias já trazem pontos de vista importantes e diferentes sobre essa situação. 

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves é uma das obras que traz a religião e religiosidade como temas que se entrelaçam e dão vida à narrativa principal. O candomblé, catolicismo e islamismo são religiões que em seus desdobramentos são importantes para a personagem durante a narrativa.

O candomblé é a religião que se faz mais presente. Kehinde, ou Luisa, conta das tradições trazidas de África e de como as adaptações aconteceram na época do Brasil escravocrata para que os cultos e a fé do povo continuassem sendo exercidos, mesmo com toda violência que foi imposta aos escravizados.

No livro, o candomblé de Jeje é o mais explorado, embora em alguns momentos as raízes Ketu e Angola também sejam comentadas: "Mas eu e o Piripiri já podíamos conversar, e achei muito bonito o que ele me contou, pois os angolas sabem respeitar e louvar a natureza muito mais do que qualquer outro povo. Para eles, todas as folhas têm seu nome e seu nkisi (...). Os Nkisis, a quem as folhas são consagradas, têm nomes bonitos como Lemba, Dandalunda, Kaiaia, Kitembu, Matamba ou Mametus, e achei que alguns também se parecem muito com orixás ou voduns, como Pambu Njila (...) ou Kavungu”.

Os Nkisis são as divindades cultuadas no candomblé de Angola, assim como os Orixás no de Ketu e os Voduns em Jeje.

 Já em Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, a presença do Nkisi Angorô é retratada pela cobra e também se faz presente de forma paralela durante a narrativa através da superstição do arco-íris: “Quando Ponciá Vicêncio viu o arco-íris no céu, sentiu um calafrio. Recordou o medo que tivera durante toda sua infância. Diziam que menina que passasse por debaixo do arco-íris virava menino. Ela ia buscar o barro na beira do rio e lá estava a cobra celeste bebendo água”.  Em Diário de Bitita, de Carolina Maria de Jesus, o arco-íris também se faz presente na história.  Carolina não gosta de ser mulher e quer virar homem e sua mãe recomenda:  “Quando você ver o arco-íris, você passa por debaixo dele que você vira homem. ” E ainda, na fala de Carolina:  “eu pensava que deveria passar por debaixo do arco-íris para virar o homem correto para auxiliar os homens. ”

A princípio não há ligação direta dessa superstição com as religiões, mas basta uma pequena busca sobre a origem dela para que a ligação com o Orixá Oxumaré se estabeleça. Como mostra Ana Maria Gonçalves em seu romance, houve uma mistura dos cultos para que a religião resistisse.  Angorô se assemelha a Oxumaré. Então, em Um defeito de cor, encontra-se uma explicação sobre o arco-íris e a cobra: “Algumas pessoas acreditam que o arco-íris é uma serpente das profundezas que vai beber água no céu, mas a minha avó dizia que ele é Oxumaré, o que controla o bom tempo. Nos dias de sol, o orixá se transforma em arco-íris e sobe até o céu, levando água para o castelo de Xangô, que fica acima das nuvens. A chuva é a água que ele deixa respingar sobre a terra, porque as mãos estão sempre ocupadas, carregando duas serpentes de ferro. Oxumaré não é homem nem mulher, mas as duas coisas juntas. Durante seis meses ele vive como homem e mora perto das árvores e durante os outros seis é uma mulher muito bonita que vive nas matas e nas lagoas”.

Pode-se entender, por essa associação, o medo de Ponciá Vicêncio em passar por baixo do arco-íris e virar menino, e o desejo de Bitita em poder fazer o mesmo.

         É relevante, então, pontuar e fazer conhecer que algumas das crenças tidas como populares e presentes na sociedade atual têm ligação direta com as religiões de matriz africana e que com o passar dos anos as referências, de forma indireta ou mais direta estão, aos poucos, se fazendo mais presentes.  O volume de obras de autoria negra no Brasil vem crescendo em número e importância, assim como as religiões de matriz africana tem ganhado um número crescente de adeptos e publicações de obras não-literárias sobre essa religião tem ganhado um pouco mais de espaço nas prateleiras de livraria.  Dessa forma, é preciso que os pesquisadores e pesquisadoras percebam a necessidade de conhecer melhor a mitologia e cosmogonia africana, para que cada vez mais análises possam ser feitas e narrativas possam ser interpretadas.

Texto originalmente publicado em Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

As vozes e os toques alabês, história pessoal e memória coletiva

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2024-10-17 12:25

Memória familiar, Candomblé, Catolicismo afro-brasileiro, Igreja do Rosário dos Pretos, História de Salvador, Pesquisa acadêmica, Identidade cultural

Lílian Miranda

Os Alabês, Carybé

“O clamor de justiça está no ar! O clamor de justiça está no ar! Ouve o clamor ê ê ê! Deste povo negro ê ê á!”. Logo após o toque dos atabaques, assim inicia a missa de Santo Antônio de Categeró, que é celebrada toda terça-feira na Igreja do Rosário dos Pretos em Salvador, e é uma celebração católica que conjuga elementos da cultura afro-brasileira. Padre Lázaro, que é responsável pelo ritual, acrescenta que o cristianismo também tem sua matriz africana que os europeus tentaram apagar.

É preciso chegar cedo para garantir um lugar para sentar, pois a cerimônia tem sempre lotação máxima. A missa dos atabaques, como é conhecida, é uma prática que passou a ser realizada a partir das decisões emitidas pelo Concílio Vaticano II e visa a valorizar os costumes e a cultura local, promovendo um processo de evangelização que esteja dentro da realidade das pessoas daquela comunidade. Meu bisavô Januário foi prior da igreja, ou seja, participava diretamente da organização da rotina da instituição, por alguns anos no final da vida, e, ao mesmo tempo, desde os 8 anos era consagrado ogã, um posto de elevada hierarquia no candomblé, tocando atabaque em alguns terreiros.

Em 2019, quando precisei fazer uma resenha autoetnográfica para uma disciplina da graduação, visitei a igreja e entrevistei Seu Nicanor, tesoureiro do Rosário. Durante três horas de conversa gravada, ele me contou parte da história da igreja, dos negros malês, da escrava Anastácia, falou também sobre as festas anuais e algumas fofocas da irmandade. Mas o que mais me chamou a atenção foi a informação de que muitos assentamentos de candomblé do passado permanecem sob os terrenos das igrejas católicas de Salvador e além disso me contou histórias de meu próprio bisavô, que mantinha um grande envolvimento com a irmandade dos homens pretos. No tour pela igreja conheci a sacristia, as salinhas e o cemitério dos escravos, um espaço no fundo da instituição, com chão de terra e algumas árvores, que fica ao ar livre. Ali se encontram os restos mortais de membros da irmandade, inclusive os do meu bisavô. Naquela época, eu sequer tinha lido Um defeito de cor.

Tenho pensado, ao longo de meu mestrado, que gostaria de fazer aproximações entre minha pesquisa sobre o livro e a vida do meu bisavô: Seu Januário. Esse desejo começou quando percebi que a obra de Gonçalves menciona algumas instituições das quais meu bisavô fez parte, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o terreiro da Casa Branca e a Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos (mais tarde chamada  Sociedade Protetora dos Desvalidos):

Agradeci quando o Fatumbi se ofereceu para cuidar do funeral porque, por mais que eu gostasse do João Badu, a lembrança da morte do Banjokô ainda estava muito viva, assim como a amizade que havia entre os dois. Despedi-me do corpo quando saiu de casa, levado por pessoas da Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos. A confraria tinha sido fundada no ano anterior na Capela dos Quinze Mistérios, e abrigava tanto cristãos como muçurumins, entre eles alguns amigos do Fatumbi. (Gonçalves, p. 301)

Os locais nos quais Gonçalves ambienta as aventuras da vida de Kehinde também foram lugares percorridos por Seu Januário. Até hoje soa como uma espécie de fábula o fato de que me reencontrei com meu bisavô por meio do romance. Depois disso, fiquei ainda mais curiosa para conhecer sobre sua vida. Minha avó, filha do Sr. Januário, está viva, mas nunca gostou muito de conversar.

Assim, tem me feito pensar muito o fato de que eu tenha de procurar outros caminhos e arquivos para dar sentido a essa aproximação. O trabalho publicado na revista Afro-Ásia do Programa de Pós-graduação em História da Universidade da Bahia intitulado “Entre as Linhas 14 e 15: histórias, trajetórias e contextos de mestres alabês soteropolitanos” de Rafael Souza Palmeira, tematiza os mestres dos atabaques de terreiros de candomblé em Salvador, traz entrevistas e explora memórias individuais e coletivas que mencionam Seu Januário e outros ogãs, comentando a participação dele e de Seu Paizinho (irmão dele, meu tio-bisavô) nas gravações de um disco de cânticos para os orixás proposto por Pierre Verger em 1958. Eu sabia que ele era ogã nascido no terreiro da Casa Branca, mas essa nova história me colocou diante de novos arquivos e novas descobertas.

Após a leitura do artigo, enviei um e-mail agradecendo a Rafael Palmeira pelo trabalho. No dia seguinte, fui atrás do livro que consta nas referências do artigo, Casa de Oxumarê, Cânticos que encantaram Pierre Verger (2020) de Angela Lühning e Silvanilton Encarnação da Mata. A obra explora fontes primárias, apresenta uma boa pesquisa bibliográfica, reproduz entrevistas, fotos e cartas que descortinam o trabalho desenvolvido por Verger, fala sobre a casa de Oxumarê e sobre os mestres alabês e seus familiares.

A leitura me levou a enveredar por parte da história da cidade de Salvador, do meu bisavô, do meu tataravô Seu Jacinto e de tias conhecidas e desconhecidas e também descortinou para mim uma faceta inusitada e encantadora de meu bisavô: ele também era baterista e fez parte de uma jazz band entre 1940 e 1950.

Mas por que conto tudo isso?

Porque os documentos guardados em arquivos, a pesquisa historiográfica sobre o passado que é parte de minha pesquisa ao desejar reconhecer melhor os territórios habitados por Kehinde e apresentados na narrativa de Gonçalves, me levam a mim, à minha família, a um bisavô que mal conheci. Nos trânsitos de Kehinde, reconheço os trânsitos de Seu Januário. Ao tatear esse arquivo me encontro com a tentativa de reconstrução de uma história pessoal e familiar esquecida e que faz parte de uma memória coletiva.

Conheci uma Salvador antiga e posso dizer algo mais sobre Seu Januário: ele foi um mestre alabê, foi aquele que zelou pelos instrumentos musicais, assumindo-se ogâ e prior, no candomblé e no catolicismo, investiu em mudanças sociais, era galante, foi mestre de obras, morreu velho. Guardo dele uma foto comigo no colo e um disco gravado por Pierre Verger com sua música.

Seu Januário, 2005, um ano antes de morrer. Print/foto de um vídeo de Marcos Resende.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Ainda sobre história e ficção: O Crime do cais do valongo

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2022-04-14 14:46

Literatura brasileira, Escravidão, História e ficção, Cais do Valongo, Identidade nacional, Memória e arquivos

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Purchase, Lila Acheson Wallace Gift, 2003

Minha investigação atual de iniciação científica debruça-se sobre a relação possível entre dois importantes romances brasileiros, Viva o povo brasileiro e Um defeito de cor. Como apontei anteriormente, o romance de Ubaldo Ribeiro encara como um compromisso a relação da literatura com a formação de uma identidade nacional.  Na obra, essa relação é construída criticamente e encenada desde os momentos iniciais do Brasil colônia com o Caboco Capiroba para culminar na interação conflituosa entre gerações dos núcleos familiares descritos na obra. Já nos primeiros anos do século XXI, Um defeito de cor inscreve-se também como ficção, mas cumpre um papel complementar à história oficial, como se a literatura pudesse preencher as lacunas de uma história que foi apagada.

Após o impacto da publicação de Um defeito de cor, que deu voz a uma personagem escravizada, é possível pensar que outras narrativas se propuseram a explorar os arquivos apagados pela história oficial, resgatando outras narrativas. É o que faz a autora e jornalista Eliana Alves Cruz em seu segundo livro publicado – O crime do cais do valongo  – que constrói uma conversa entre história e literatura. 

A obra é narrada em duas vozes e empreende um romance (histórico) policial ambientado no Rio de Janeiro de 1820. No início de cada capítulo, a obra apresenta fragmentos de jornais da época, que funcionam como títulos orientando a leitura e algumas vezes esse conteúdo também é aproveitado na trama da narrativa. Assim como em Um defeito de cor, uma das personagens principais é uma mulher negra alfabetizada chamada Muana que foi traficada para o Brasil ainda na tenra idade para servir como escrava. O outro narrador é Nuno Alcântara, um filho de mãe negra e pai branco que nasce livre e leva uma vida boêmia e corresponde ao estereótipo de “malandro”. Ambos narram suas perspectivas acerca do assassinato de Bernardo, o dono da hospedaria do Vale Longo, que também é “senhor” de Muana e de alguns outros homens e mulheres negros descritos na história.

A autora lança mão de um recurso romanesco bem conhecido: ao final da narrativa, ficamos sabendo que parte do que lemos é o manuscrito do relato de vida de Muana por ela mesma, encontrado por Nuno. Só a partir dessa leitura o crime do cais do valongo é completamente revelado:

Juro, por tudo que me é mais sagrado que…. Não posso fazer juramentos. Quem conhece a este homem, que tudo o que mais ama na vida são seus livros e uma boa farra, jamais daria crédito a um juramento meu baseado em algo sagrado, pois das missas apenas me interessavam os vinhos. Embora, depois de ler todos estes apontamentos da africana Muana Lómuè, comece a rever seriamente esta minha renitente mania de não crer em nada que ao natural se sobreponha.

É aí que, em meio à moldura documental que mostra o trabalho de pesquisa nos arquivos dos jornais da época, a autora traz um elemento metafísico como parte importante da história  e esse elemento interfere e atua diretamente nos acontecimentos da narrativa. Na trama, Muana recebe um professor inglês, um abolicionista que dava aulas para o dono da hospedaria a quem ela servia. Interessado no fato de ela ser alfabetizada, Mr. Toole decide saber mais sobre a história de Muana:

Quando já estavam ele e o senhor Bernardo em alguns meses de classes, o Sr. Toole descobriu que a negra de quem a irmã Maria do Carmo falara pertencia ao seu novo aluno. Mesmo cabreiro, o senhor Bernardo então combinou que nos deixaria em paz por algumas horas semanais, mas obviamente não sem que o inglês desse um bom desconto nas aulas e, obviamente, com a condição de falarmos apenas quando todo o serviço acabasse, e isto acontece só muito tarde. Eu não tenho a escolha de não concordar, mas se tivesse esta chance também não recusaria, pois é uma forma de visitar outra vez aqueles lugares com meus olhos da memória saudosa. O que eu tenho a perder? Ele fala um português com sotaque muito carregado, porém compreensível. O meu também tem as notas do lugar que para sempre vou chamar de meu, pois, para mim, é lá onde eternamente vai morar o encantamento.

Em meio ao desenrolar da história do assassinato, Mr. Toole visita Muana algumas vezes  e assim ela tem a oportunidade de narrar sua vida antes da travessia atlântica. Porém, no final, ficamos sabendo que o inglês na verdade é um espírito desencarnado que ela consegue ver devido à sua mediunidade.

Assim, entre a história e a ficção (que faz da religiosidade da personagem um elemento que “resolve” a trama) ficamos conhecendo o que foi de fato o crime do cais do Valongo, um assassinato documentado pela imprensa da época, mas também outros crimes, ainda hoje pouco reconhecidos, como o surgimento do cemitério dos pretos novos. Além de sermos apresentados a personagens históricos como Joaquina Lapinha, a primeira cantora lírica negra brasileira a ganhar destaque internacional, e  o livreiro Manoel Mandillo, que são retirados da história e invadem a narrativa.

O livro de Cruz explora, então, o trânsito entre o documental e o inventado, entre a história e a ficção, mas a maneira como a religiosidade de Muana é utilizada para resolver a trama é algo que merece uma interrogação. Em Um defeito de cor a religião de matriz africana é tratada como elemento inerente à identidade narrativa que vai delineando a personagem Kehinde através da fé que ela tem em seus ancestrais e orixás. Já a mediunidade de Muana parece atender mais à resolução da trama, se sobrepor aos fatos relatados (já que em nenhum momento anterior da narrativa recebemos qualquer indicação de que Mr. Toole poderia ser uma entidade espiritual). Nesse sentido, o resgate da religiosidade na narrativa não funciona como reconhecimento “da sofisticada cosmogonia e dos modos de invenção da vida dos povos saídos das Áfricas”, como afirma o pesquisador Luiz Antônio Simas, no comentário à obra, ainda que seja possível ler na obra de Eliane Cruz a dificuldade de os negros escravizados inventarem a vida em um país ainda tão desigual.  

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Curadoria como um processo de (des)montagem e reorganização

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2021-04-01 10:11

Curadoria, Literatura contemporânea, Historiografia, Brasil Colonial, Arquivologia, Ana Maria Gonçalves

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Rosana Paulino, técnica mista sobre papel. 28,5 x 38,0 cm – 2016.

No meu último post apresentei a noção de arquivo segundo Jacques Derrida (2001) e minha hipótese de como ela pode nos ajudar a pensar o trabalho feito por Ana Maria Gonçalves para composição do livro Um defeito de cor. Hoje, quero acrescentar mais uma ideia: será que é possível falar em curadoria para caracterizar o modo como a autora (des)monta, seleciona e reorganiza criticamente os documentos de que ela se apropria para a construção do livro?

O curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Cauê Alves aborda o papel do curador num contexto contemporâneo em seu textoA curadoria como historicidade viva” (2010) e explica que o curador de arte é o profissional responsável por organizar e supervisionar ou dirigir exposições de arte, seja em museus, nas ruas ou outros locais nos quais esse tipo de atividade pode ser desenvolvida. Ele aponta que a atividade de curadoria implica em reinventar trabalhos de arte suscitando outras experiências. Além disso, afirma que por estar mais próximo do campo da recepção do que da invenção, o trabalho do curador inclui compreender e relacionar as obras de que cuida à história da arte, inserindo-as em um diálogo com outros trabalhos no contexto de uma discussão atual.

Hans Ulrich Obrist em seu livro Uma breve história sobre a curadoria entende a curadoria e a atividade do curador como um trabalho de ligações e escolhas. Ana Maria Gonçalves lança mão desse processo fazendo uma seleção de obras que conversam entre si e compõem uma bibliografia de referência  que registra a história oficial do período colonial no Brasil e os eventos históricos que a autora narra ao longo do livro. Tomás Maria Tavares Diniz Neves e Castro em sua dissertação de mestrado intitulada “Curadoria como interpretação e interpretação sem curadoria: Um ensaio sobre arte”,  afirma:

Um conhecido curador [Obrist] descreveu-se uma vez como um “fazedor de ligações” entre pessoas, objetos artísticos, conceitos e muitos outros tipos de coisas. Segundo esta posição, fazer ligações é uma atividade produtiva que dá origem a novos entendimentos quando se juntam diferentes elementos.

Para Alves o curador é um sujeito que pensa, estuda e reflete sobre obras que mesmo que não sejam do seu agrado, acabam por complementar aquele trabalho que ele está desenvolvendo. Gonçalves elenca uma série de registros que inclui desde fontes primárias –  documentos, anais, revistas e jornais- até obras ficcionais como Viva o povo brasileiro de João Ubaldo Ribeiro e Memorial do convento de José Saramago, por exemplo.

Mas como pensar a curadoria na composição de uma obra ficcional?

Cauê Alves diz que é preciso lembrar que sempre percebemos parcialmente porque há  inúmeras perspectivas que podem dirigir nosso olhar. Embora a narrativa do Brasil colonial tenha sido replicada e recontada ao longo dos anos por diferentes tipos de representações, esses registros constituem partes dessas “percepções incompletas”. Gonçalves realiza uma curadoria dos arquivos que consulta para constituir uma obra ficcional que re(a)presenta uma outra possibilidade de percepção acerca do Brasil colonial e da história dos negros africanos. Representando de forma secundária figuras e eventos tidos como importantes pela história oficial e pelas narrativas canônicas, destacando eventos, costumes, cultura e personagens que sofreram com o apagamento e a impossibilidade de narrar a própria história.

Vamos citar um exemplo: a Revolta dos Malês, episódio em que Luiza Mahin se destaca como uma das heroínas sobreviventes e é comumente lembrado nos livros de história do ensino básico junto a outras revoltas que surgiram na Bahia e no Brasil ao longo do século XIX, o que é – muitas vezes –  feito de forma genérica e pouco desenvolvida. Em Um Defeito de cor a autora realiza muito mais do que uma citação ao evento, ela o ambientaliza a partir da ótica de uma revoltosa que acompanha diariamente os planejamentos para o levante, as reuniões e as complexidades que atravessavam os principais nomes ligados ao movimento, tais como Manuel Calafate e Alufá Licutan, lideranças muçulmanas que foram fundamentais para a rebelião.

Uma outra operação que poderia ser aproximada ao trabalho de curadoria diz respeito à figura de Francisco Félix de Souza, apelidado como Chachá de Souza, o traficante de escravos que é pouco mencionado pela história oficial brasileira, mas que ganha importância e destaque na narrativa de Gonçalves.  Ele foi um brasileiro mestiço que retornou à Uidá na África e cresceu economicamente com  o tráfico transatlântico de africanos de diferentes partes do continente para serem escravizados nas Américas. Chegou a ser um dos maiores traficantes do mundo, tornou-se dono de uma frota imensa de tumbeiros. Na história de Kehinde ela menciona o Chachá de Souza não necessariamente se posicionando com revolta sobre o que ele fazia, mas tampouco concordando com sua estratégia para enriquecer. Ela se relaciona profissionalmente com o personagem por conta de seus projetos de investimentos em Uidá, já que ele era responsável por tudo que entrava e saía dos portos de Uidá e dos comércios que tentavam se expandir por lá.

Ao longo da narrativa, então, são apresentadas outras personagens e episódios que encontram referência histórica, mas que também foram “esquecidos” historicamente. Explorando esses arquivos não explorados pela história, romanescamente, Gonçalves efetua um procedimento de recorte e reorganização desses arquivos, e talvez isso possa ser caracterizado como um trabalho de curadoria.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

A ficcionalização do cativeiro pelo romantismo

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2024-07-11 15:03

Escravidão, Racismo estrutural, Literatura brasileira do século XIX, Representação da negritude, História e Identidade, Abolicionismo

Lílian Miranda

Créditos da imagem: FREEDOM OR SLAVERY, Elizabeth Catlett, 1998

Estou cursando meu segundo semestre no mestrado e sou aluna da disciplina “Raça, Classe e Nação” oferecida pelo curso de História aqui na UFBA. No módulo atual, estamos discutindo a compreensão da raça tal como tratada nos romances do século XIX e também os entornos políticos dessas publicações.

No artigo “Raça e escravidão em memórias e romances: Brasil, C.1820-1870” de Ronald Raminelli, o autor traz para a discussão o posicionamento de políticos, intelectuais e romancistas do final do século XIX acerca da hierarquia racial e como eles se valiam das teorias raciais – ainda que muitas vezes não tivessem acesso direto a elas. Muitas vezes, suas posições estavam baseadas em boatos ou em acontecimentos – como, por exemplo, a revolução do Haiti –  para sustentar  suposições que davam corpo a ficções, memórias ou a textos publicados em jornais. Raminelli aprofunda a discussão do livro As vítimas-algozes (1869) de Joaquim Manuel Macedo, destacando principalmente as figuras do protagonista Simeão e do personagem pai Raiol.

A princípio, esse romance tinha como objetivo explicitar algumas ideias abolicionistas do autor. No entanto, ainda que denuncie as mazelas da escravidão, Macedo escolhe ficcionalizar o negro de forma negativa e estereotipada, defendendo que a abolição deveria ser um processo gradual, já que assim seria menos impactante para a economia brasileira. Raminelli, então, afirma: 

“Macedo considerava que a ingratidão e a perversidade dos escravos “não se explicavam pela natureza da raça, o que seria um absurdo”. De tal modo, ele refutou a determinação racial, mas ao longo do romance essa negativa nem sempre está evidente, pois o autor recorreu constantemente a estereótipos e descrições negativas dos negros, fossem crioulos ou africanos. Para o autor, o cativeiro tanto pervertia os escravizados quanto vitimava seus senhores. De vítimas, os escravos se tornavam algozes […] ele pretendia atribuir à escravidão os principais males que afetavam a sociedade brasileira. Em princípio, não almejava recorrer à distinção racial para explicar a inferioridade intelectual e a perversidade dos escravizados, mas nem por isso ele deixou de externar seu evidente racismo.” 

No livro, Simeão se torna vilão ao perceber que era um homem negro escravizado e que mesmo alforriado não alcançaria a liberdade plena. Essa discussão me levou de volta a Achille Mbembe. Em Crítica da razão negra, o autor postula que o negro representou “a cripta viva do capital” por ser comercializado e explorado como principal ferramenta para o desenvolvimento econômico das Américas, além de ter tido sua existência e corpo reduzidos a uma questão de cor e aparência pelo mundo euro-americano. Essa é a origem de incontáveis catástrofes que marcam a história dos negros africanos e seus descendentes.

É interessante pensar o papel não apenas de As vítimas-algozes, mas também de outros romances, considerados fundacionais, para a construção da nacionalidade brasileira e para as ideias que ajudaram a perpetrar.  Muitas dessas obras não só tiveram a função de difundir entre os intelectuais e letrados da época os desejos econômicos e políticos das elites, como também ajudaram a forjar realidades que compõem o imaginário social brasileiro ainda hoje. Por exemplo, ao tratar da figura de pai Raiol, Raminelli chama a atenção para o fato de que a representação da religiosidade do personagem contribui para uma visão negativa a respeito das crenças cultuadas pelos africanos e por muitos afrodescendentes:

“Na história do Pai Raiol, o escritor asseverou que pessoas livres e escravas se dirigiam à noite para casebres sinistros, onde procuravam a cura de feitiços ou os meios de provocar o mal de seus inimigos. Aí empregavam instrumentos grosseiros, semelhantes aos usados em “festas selvagens do índio do Brasil e do negro d’África”. Para tanto, recorriam a talismãs rústicos, “símbolos ridículos”, se vestiam como sacerdotes e sacerdotisas, munidos de penachos e adornos emblemáticos. Preparavam-se no fogo ou na velha e imunda mesa de beberagem desconhecida, isto é, de infusão de raízes enjoativas. Esses sacerdotes se rompiam em danças frenéticas, convulsões, contorções e danças do demônio. Somente depois, eles voltavam para anunciar a chegada do espírito, “deus do feitiço”. Iniciava-se então a cura dos doentes, mas o “bacanal” somente se completava com os tormentos das iniciações, concessão de remédios e “segredos de feitiçaria”. Aguardentes e delírios ativavam as chamas “infernais das imaginações depravadas, a luxúria infrene, feroz, torpíssima quase sempre desvergonhada se ostenta”.

Assim, ainda que seja possível encontrar hoje, em muitos discursos, revisões e releituras das representações associadas às identidades negras, acho necessário também considerar que obras como, por exemplo, o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, publicado em 1859, ficaram, durante muitos anos, relegadas ao silêncio e à margem.  Neste contexto, acredito, então, que o romance de Ana Gonçalves, Um defeito de cor, objeto de minha pesquisa, tematiza todo o contexto das representações da negritude de um outro ponto de vista, como já tematizei em outro post, ao citar, por exemplo, rituais religiosos de origem africana sem o traço demonizador ou a bestialidade tão presente nas discussões empreendidas por alguns autores do século XIX. Assim, obras como as de Firmina dos Reis e Gonçalves são importantes para entender as demandas políticas de nosso presente e nos fazem pensar a literatura como um discurso que também cria representações e representatividade. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Prosa da insurgência

Por: Luana Rodrigues

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-11-27 13:40

Historiografia, Contrainsurgência, Fabulação crítica, Arquivística, Subalternidade, Estudos pós-coloniais

Caroline Barbosa

Créditos da imagem: Black Compositional Thought | 15 Paintings for the Plantationocene, de Torkwase Dyson (2019)

Ranajit Guha, em The prose of counter-insurgency, analisa alguns registros feitos por oficiais britânicos acerca das revoltas camponesas indianas. Neles as escolhas lexicais e a organização sintática estabelecem a imagem dos camponeses como “fanáticos”, “insurgentes”, que perturbam “a tranquilidade pública” e o poder instaurado. 

Quando há o uso dessa série de arquivos “o padrão de escolha do historiador, idêntico ao magistrado, conforma-se assim a ser um contracódigo, o código da contrainsurgência”. É aí que Guha aponta o “papel intervencionista do intérprete”, pois ao selecionar e combinar uma série de documentos que reforçam um estereótipo negativo para os camponeses, evita  “um olhar mais atento ao texto” que “pode detectar as brechas que permitiram que o ‘comentário’ se infiltrasse na armadura de placas do ‘fato’”.

Saidiya Hartman, que cita Guha em suas notas de Cenas da Sujeição, propõe, em Vidas Rebeldes, Belos Experimentos, uma narrativa da insurgência. A partir do método da fabulação crítica, ela tece um uso do material arquivístico em que “a visão, a linguagem e os ritmos da insurgência modelam e arranjam o texto”. Isso significa que seu olhar não está voltado para uma repetição de estereótipos contra essas figuras consideradas menores, mas que é o ponto de vista dessas mulheres negras que será priorizado a partir do foco em suas vidas cotidianas, em seus atos de rebeldia. 

Aqui me interessa investigar como a postura de Guha contribui para o método de Hartman. Para isso, destaco que em seu estudo de alguns relatos de oficiais, Guha estabelece um método de análise: a linha reta, que foi mantida nos trechos, representa o relato, enquanto as partes que se elevam em itálico denotam a interpretação dos fatos daquele que escreve. 

Em Vidas Rebeldes, Hartman também mobiliza esse efeito de formatação, mas na obra o que aparece em itálico não é essa interpretação dos detentores de poder. A inversão é que o itálico aqui aparece a partir do coro, apresentando com pequenos trechos de romances, músicas, entrevistas, e da própria especulação acerca do que poderia ter sido, um emular das vozes das jovens negras:

O coro é o veículo para um outro tipo de história, não aquela do grande homem ou do herói trágico, mas uma em que todas as modalidades desempenham um papel, onde um grupo sem liderança incita a transformação, onde a ajuda mútua fornece recursos para a ação coletiva, nem líder nem massa, onde as músicas intraduzíveis e aparentemente sem sentido cumprem a promessa da revolução. O coro impulsiona a mudança. É uma incubadora da possibilidade, um conjunto que sustenta os sonhos de algo diferente.

O que esse gesto de Hartman representa? É uma forma de inverter o ponto de vista oferecendo uma outra saída para a proposta de Guha? Destacar que, enquanto intérprete, seu olhar pode se voltar para as outras vozes que permeiam o “fato”? Dialogar com o historiador indiano propondo que, uma vez que existe uma prosa da contrainsurgência, pode existir um método para compor a da insurgência?

Nesse momento da pesquisa, minha investigação se volta para essas relações que Hartman estabelece com autores que também se preocuparam com a discussão acerca do narrar o subalternizado. Guha parece nos oferecer um caminho para pensar a construção desse coro, um movimento que me coloca nos bastidores do método da fabulação crítica. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

“Alguém sabe quem eu sou, alguém espera por mim”

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2023-09-07 12:49

Afropolitanismo, Literatura afro-brasileira, Identidade negra, Filosofia, Subjetividade, Descolonização

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Cena do filme “Marte um” de Gabriel Martins

Meu primeiro contato com o termo afropolitanismo foi durante o desenvolvimento do meu último projeto de pesquisa da iniciação científica, que terminou no ano passado. O pensamento filosófico do autor camaronês Achille Mbembe em sua obra Crítica da Razão Negra põe em xeque a noção de raça e a compreende como “uma ficção útil de uma construção fantasista ou de uma projeção ideológica cuja intenção é desviar a atenção dos conflitos antigamente entendidos como mais verossímeis”.

 A crítica construída por Mbembe sugere que, enquanto construção social, negro é uma classificação relacionada a uma condição de existência subalternizada, uma categoria a quem foi negada humanidade. Para o autor, essa percepção econômica se inicia quando o negro é transformado em mercadoria , “a cripta viva do capital” e segue firme diante do curso neoliberal globalizado. A terminologia “negro” é uma invenção que só significa para simbolizar o “ser-outro”, ligado principalmente à relação de senhor e escravo. 

O trabalho teórico de Mbembe aponta para saídas possíveis a esse cenário que apostam numa realidade futura sem a carga negativa atribuída à raça, “mas isso só seria possível por meio da justiça, da restituição e da reparação”. Atrelado a isso, a noção de afropolitanismo é entendida como uma forma de ser no mundo, uma estilística ou tomada de posição política e cultural que recusa a identidade vitimizadora.

Desde que pensei o afropolitanismo como uma chave de leitura para o livro Um Defeito de Cor, tenho buscado outras obras que optem por um deslocamento da condição de negro vinculada a uma epistemologia branca e colonializada. Nas últimas semanas, pude ler e assistir dois trabalhos que contam histórias centradas em explorar subjetividades, sonhos e personagens-sujeitos negros e desejantes.  

 Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite, de Ricardo Aleixo, autor e poeta intermídia, é um livro de relatos pessoais que contam sua infância em Campo Alegre, bairro periférico de Belo Horizonte, mas também narram experiências que o formaram como artista, relações e influências que foram fundamentais para sua identidade como poeta. Embora tenha explicitado na capa o subtítulo “Memórias”, o livro se apresenta quase como um conjunto de ensaios que reúnem reflexões teóricas, interpretações de poemas do próprio autor, e não dispensa uma linguagem literária e poética para relatar os acontecimentos de sua própria vida.

Em entrevista ao podcast “Página cinco”, episódio 148 “o menino que o sistema literário não conseguiu deter”, Aleixo explica que o livro foi resultado de uma sugestão do editor. Seu processo de escrita de uma “memória imaginante” tratou de selecionar os acontecimentos que ele considerou que seriam interessantes para seus leitores e o representavam enquanto artista que se considera afropolita e faz parte do que chama de áfricas dispersas, num sentido de dispersão, como utilizado na botânica (noção próxima à ideia de áfricas espalhadas, que ele atribui a Sheila Walker).  Ao ser questionado sobre os entrelaçamentos entre memória, realidade e ficção, Aleixo responde: “penso que a própria circunstância de ter me tornado escritor numa família pobre na periferia de Belo Horizonte já tem seu quê de ficcional”

Outra produção a ser lida que pode deixar ainda mais claro o modo como Mbembe  pensa o afropolitanismo é o premiadíssimo Marte um, filme de Gabriel Martins. Lançado originalmente no Festival Sundance 2022, o filme retrata a vida de uma família mineira de classe média baixa vivendo no Brasil de 2018 logo após a eleição do ex-presidente Bolsonaro (embora o filme não tematize em primeiro plano esse evento).

Deivinho quer ser astrofísico, enquanto isso, seu pai Wellington sonha que ele entre para um clube de futebol profissional, ao mesmo tempo Eunice, a filha, vive uma paixão e surge nela o desejo de sair de casa, já a mãe, Tércia, sofre com as consequências de uma experiência traumática que lhe ocorreu numa lanchonete. Ainda que se centre num núcleo familiar composto por pessoas negras que vivem com algumas dificuldades financeiras, esse não é o foco da história, cada personagem tem sua própria trajetória e camadas que os constituem, com dilemas complexos referentes a seus próprios sonhos e desejos, tratados com leveza e sensibilidade, numa trama que não propõe soluções mas desenrola numa teia de relações humanas que simboliza bem o que é a própria vida.

Entendo que histórias como essas enunciam um discurso em que a raça não se dissocia dos eventos narrados mas deixa de ser o foco principal. Tanto em Um defeito de cor e Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite  quanto em Marte Um emergem gestos autorais que podem ser entendidos como afropolitanistas e desejam contar histórias que subvertem o determinismo ditado pela lógica colonial que ainda insiste em imperar sobre o imaginário brasileiro.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Afropolitanismo e Um defeito de Cor

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2022-06-30 12:44

Afropolitanismo, Colonialismo, Racismo, Literatura contemporânea, Diáspora, Epistemologia

Lílian Miranda

Créditos da imagem: MOVEMENT OF JOY AND UPLIFTMENT, Cecilia Lamptey-Botchway, 2022

Pensando na preparação do meu relatório final de pesquisa sobre Viva o povo brasileiro e Um defeito de cor, comecei a ler Achille Mbembe e sua Crítica da Razão Negra. A leitura é densa e complexa já que a obra visa um empreendimento grandioso, ao elaborar um percurso histórico-filosófico que desafia o leitor a se debruçar sobre uma outra epistemologia e lógica de funcionamento do mundo: críticas ao colonialismo, a exploração da ideia do negro enquanto “outro” e das relações entre a lógica do capital e o racismo e a proposição do que o autor chama de afropolitanismo.

O historiador e cientista político camaronês Achille Mbembe, autor do conhecido ensaio Necropolítica, reúne na obra Crítica da Razão Negra as reflexões iniciadas em De la postcolonie, seguido por Sair da Grande Noite. Ensaio sobre a África descolonizada. Mas é o conceito de afropolitanismo que me interessa para ler a obra de Gonçalves. Nas palavras do próprio autor, num artigo originalmente publicado no jornal Le Messager de Douala, em 2005, podemos compreender afropolitanismo enquanto:

“uma estilística, uma estética e uma certa poética do mundo. É uma maneira de ser no mundo que recusa, por princípio, toda forma de identidade vitimizadora, o que não significa que ela não tenha consciência das injustiças e da violência que a lei do mundo infringiu a esse continente e a seus habitantes. É igualmente uma tomada de posição política e cultural” (p.70, v.4, n.2, revista Àskesis, 2015)

Para Mbembe, como para Fanon, negro é uma categoria que significa “ser-outro”, que só significa a partir da existência do que seria o referencial, nesse caso, a branquitude. Ainda no início do livro ele afirma “o negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria – a cripta viva do capital.”. É essa mesma ideologia que faz da África um “não-lugar”,  sinônimo de atraso e  miséria. Na visão desse pensador, a noção eurocêntrica de civilização que determina a construção da inferioridade negra, só começa a ser questionada quando há uma descolonização do pensamento, mas ainda assim persiste a compreensão de que o indivíduo negro deve ser encarado como perigoso.

Em Um defeito de cor é possível visualizar essa movimentação de independência de uma epistemologia branca e de uma linha do tempo narrada pelos colonizadores. Aí, poderíamos sugerir o Afropolitanismo como uma chave de leitura da obra visto que tanto a história narrada quanto seu modo e contexto de produção opta por se distanciar da noção de negro enquanto “o outro” e colocá-lo como protagonista de sua história de uma forma que independe da branquitude. Num movimento sutil, Ana Maria Gonçalves subscreve a história de Kehinde numa malha que não se sustenta pelo racismo nem pelo branco, que aqui vira ainda menos que um antagonista, mas um coadjuvante. Kehinde vivencia inúmeras situações de barbárie e opta por não romantizá-las. Ao invés disso, privilegia a narração de suas atitudes de enfrentamento e das estratégias de sobrevivência e ascensão de vida.

Além disso, a personagem em sua trajetória está em constante travessia. De África à Bahia, passando pelo Maranhão, Rio de Janeiro e mais tarde de volta à África. A travessia é uma das características atribuídas por Mbembe ao afropolitanismo, já que a diáspora é entendida como um movimento de vaivém “capaz de permitir a articulação, a partir da África, de um pensamento da circulação e da travessia” e “à entrada de África na nova era de dispersão e circulação”.

Liana Amorim, em sua dissertação de mestrado intitulada “Pensatempos, cosmopolitismo e afropolitanismo: perspectivas híbridas do pensamento africano”, ao revisar as proposições de Mbembe acerca do afropolitanismo e a noção de escrita de si explorada pelo autor ao analisar as obras de Ahmadou Kourouma em O sol das independências e Yambo Ouolonguem que escreveu Devoir de violence, conclui que nesses escritos “não se tenta mais representar a realidade de maneira mimética, e sim produzir algo novo a partir de montagens e de discordâncias, sem resgatar a origem nem a reconstituição do passado, o que há é a recriação que almeja o protagonismo intelectual”.

É nesse momento que o processo de curadoria que Gonçalves faz não só dos momentos históricos de fundação da nação, mas também da história do racismo em nosso país, pode ser entendido como parte dessa montagem que manipula e rasura o documento, as versões oficiais de nossa História, a fim de contar uma história que não se limita a recriar ou mimetizar os fatos históricos no relato romanesco, mas que aposta na enunciação ficcional a partir de um pensamento afropolitanista: afirmação não vitimizadora pela narrativa que explora a dispersão e a imersão  na trajetória de Kehinde, realçando o que Mbembe chama de uma “modernidade africana pré-colonial” que Gonçalves explora com sua “criatividade contemporânea”.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

História e ficção em Um defeito de Cor

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2020-09-08 13:30

Literatura contemporânea, Escravização no Brasil, Historiografia e ficção, Levante dos Malês, Processo de curadoria na escrita, Luiza Mahin

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Henrietta Harris, Fixed It VIII, 2016

O romance Um defeito de cor, escrito pela mineira Ana Maria Gonçalves e publicado pela primeira vez em 2006, constrói ao longo de 952 páginas a odisséia de Kehinde, personagem nascida em Savalu no reino de Daomé, sequestrada e traficada ainda na infância para ser escravizada no Brasil junto a irmã e a avó, que morrem durante a travessia. Após cruzar o Atlântico num navio negreiro, ela desembarca na Bahia. Contada em primeira pessoa sob a perspectiva da personagem já no final da vida, Um defeito de cor é dividido em dez capítulos que reconstroem e marcam eventos importantes da vida de Kehinde. Além disso, o livro reconstrói a narrativa acerca do processo de escravização a partir de uma voz feminina que vivencia na pele diversos desdobramentos desse período. A autora propõe uma outra perspectiva historiográfica, ao manter entrelaçados a narrativa da personagem e os fatos históricos do período.

Mas aí entra a ficção: Gonçalves lança mão de um recurso bastante tradicional para começar a narrativa. Um manuscrito do século XIX é encontrado, sua provável autora é Luiza Mahin, heroína no levante dos Malês ocorrido em Salvador em 1835, e mãe do poeta e advogado Luiz Gama. Um dos objetivos da narrativa é reconstruir e dar voz a essa figura silenciada pela história.

Assim, o que chama atenção na narrativa de Um defeito de cor é o fato de a autora relatar uma sucessão de eventos históricos inseridos numa narrativa ficcional, ou seja, o que chama a atenção é a mistura entre ficção e não-ficção, privilegiando a forma intimista de descrição dos fatos que lembra um diário ou livro de memórias para apresentar, discutir e revisar uma parte da história brasileira que quase nunca é contada da perspectiva dos vencidos. Essa relação entre história e ficção é também fruto dos procedimentos utilizados pela escritora Ana Gonçalves, que realizou um extenso trabalho de curadoria selecionando documentos pesquisados em arquivos para escrever o livro.

Gonçalves relata no prólogo Serendipidades! que seu estudo acerca dos malês se inicia anos antes quando teve contato com um escrito de Jorge Amado intitulado Baía de Todos os Santos – guia de ruas e mistérios. Após ver citado ali o nome do Alufá Licutan, comandante da revolta dos malês, a escritora inicia uma extensa pesquisa através da internet, bibliotecas, livrarias, sebos, materiais emprestados e ligações telefônicas para Bahia e tempos depois toma a decisão de se mudar para Salvador e escrever o romance.

Mas como seria possível caracterizar melhor isso que estou chamando de um trabalho de curadoria na escrita do romance?

Ao longo da história a noção de curadoria ganhou diversas acepções, estando comumente ligada às artes plásticas, galerias e museus. Na contemporaneidade, o trabalho de curadoria pode ser entendido como um processo de seleção a partir de critérios específicos para constituição e organização de um projeto conceitual em que o curador assume também o papel de criador e proporciona uma nova perspectiva narrativa àquele conjunto de obras ou documentos. Claire Bishop em seu ensaio O que é um curador? A ascensão (e queda?) do curador auteur, cita Boris Groys quando ele afirma que:

 os papéis do curador e do artista são um só: posto que criação e seleção convergem no readymade duchampiano, a autoria de hoje é necessariamente uma “autoria múltipla”, mais semelhante à de um filme, uma produção teatral ou um concerto.

No caso de Ana Gonçalves, a criação e a seleção são processos catalisadores de sua escrita. E esse processo é acentuado porque, embora Um defeito de cor se constitua como romance, a autora realizou uma ampla pesquisa e revisão bibliográfica acerca de todo o contexto histórico que o livro abarca, compreendendo um espaço de tempo de oito décadas que vai desde a atenção aos costumes dos negros africanos em sua terra natal até a vida no Brasil colônia. Um dos principais eventos históricos narrados foi o levante dos Malês, que Kehinde conta com riqueza de detalhes e pessoalidade. No trecho abaixo ela revela consequências sofridas pelos negros muçulmanos que participaram do levante:

“Todos os condenados à morte eram líderes ou réus confessos, presos em flagrante com armas na mão, provavelmente na batalha de Água de Meninos, na qual o Fatumbi morreu.” (p.542)

Além disso, em outros contextos, ela cita eventualmente relações internacionais que influenciavam as dinâmicas apontadas pela trama principal, como por exemplo a atuação dos ingleses e franceses no território da África Ocidental. Assim, a autora inscreve sua personagem nos eventos, espaços e costumes de cada período que descreve.

O documento histórico pesquisado passa por uma seleção para se juntar à imaginação que dá voz ao que ficou silenciado e constitui o procedimento que singulariza o romance. O gesto de coletar, “recortar e colar” documentos dos arquivos pesquisados vai dando vida às narrativas dos personagens que projetam um desejo pelo qual lutamos ainda hoje: a liberdade de poder contar nossa própria história.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Entre história, arquivos e ficções

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2021-09-30 11:46

Literatura brasileira, História do Brasil, Ficção histórica, Identidade nacional, Arquivologia, Pesquisa acadêmica

Lílian Miranda

Créditos da imagem: AS RIQUEZAS DESTA TERRA, Rosana Paulino, 2017

Recentemente iniciei meu novo projeto de pesquisa que foi pensado a partir das discussões sobre arquivo e curadoria empreendidas no plano anterior.  Em vista das múltiplas questões que podem ser levantadas a partir da obra de Gonçalves, observamos novas possibilidades de investigações partindo também do livro Um Defeito de Cor e sua forma de composição.

Neste novo trabalho irei investigar, através de um estudo comparativo entre Viva o povo brasileiro de João Ubaldo Ribeiro e Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves, o modo como ambas as obras lidam com a história oficial de construção de nossa nação.  A pesquisa tem como objetivo observar as diferenças entre as obras a partir da análise de suas condições de surgimento, do contexto sociopolítico no qual foram publicadas e da forma como os autores optam por manipular o arquivo de documentos e  referências sobre a história oficial do país.

Ana Gonçalves chama a atenção ao trazer nas últimas páginas do livro, como elemento externo à sua narrativa, uma bibliografia repleta de materiais, arquivos e referências utilizadas para composição da obra. Além de sugerir livros teóricos e indicar registros originais disponíveis em arquivos públicos, a autora inclui também alguns livros de ficção de autores como Jorge Amado, José Saramago e João Ubaldo Ribeiro. Deste último, a autora inclui o livro Viva o povo brasileiro, obra publicada em 1984, que obteve grande ressonância e ótima recepção pelo público na época em que foi lançado. A partir desse contexto surgiu uma questão inquietante:  será que Gonçalves escolhe Viva o povo brasileiro para compor sua bibliografia como uma provocação acerca das formas de narrativas históricas canônicas?

Rita Olivieri-Godet em Viva o povo brasileiro: a ficção de uma nação plural (2014), ao considerar o conjunto de obras ficcionais de João Ubaldo aponta que:

“A ficção ubaldiana nutre-se da experiência vivida conectada ao contexto histórico e alimentada pela memória individual, familiar e coletiva. […]Ribeiro opta por incorporar múltiplas visões da nação brasileira, adotando uma perspectiva de confronto ideológico que o conduz a englobar diferentes discursos e desvendar os interesses que lhes são subjacentes” (p.28)

A narrativa de Ubaldo também se propõe a contar alguns eventos da história oficial do Brasil, dentre eles as lutas e movimentações em prol da independência, da abolição da escravatura, tematiza a guerra dos farrapos e a guerra do Paraguai, entre outros eventos descritos ao longo do livro. Viva o povo brasileiro compreende um período de quatro séculos de história e é narrado por personagens que se identificam como sendo o próprio povo brasileiro. Na obra, João Ubaldo Ribeiro mistura história e ficção para contar o processo de construção do projeto de nação brasileira, trazendo personagens indígenas, negros, europeus e, principalmente, aqueles considerados mestiços, frutos da forçosa miscigenação  característica da construção da nacionalidade brasileira.

O trabalho de Ana Gonçalves também combina história e ficção se desdobrando numa narrativa acerca da vida Kehinde, uma mulher negra africana que vivencia tanto o cotidiano de um Brasil colonial e as vicissitudes da maternidade, como também, fatos históricos como o levante dos Malês, o processo de escravização, o retorno ao continente africano e diversos outros desdobramentos desse período, no entanto quem narra sua própria história é a personagem Kehinde.

Ao ponderar sobre ambas as produções percebo que representam extensos trabalhos de pesquisa e manipulação de arquivos. Embora tenham sido publicados em séculos distintos – com cerca de 22 anos de diferença -,  cada uma das obras assume o compromisso de desmontar e propor outras enunciações acerca do que conhecemos como  história oficial do Brasil. Mas me interessa observar também se o modo de fatura das obras e a recepção que obtiveram mantêm relações com o contexto em que foram produzidas e publicadas. 

 No final do século XX, o romance de Ubaldo parece ser uma espécie de saga que quer encerrar um tema problemático para os estudos literários: a relação entre a literatura e a identidade nacional. Já nos primeiros anos do século XXI, a narrativa de Gonçalves parece mais atenta a uma transformação social que afeta a literatura de “fora”, e que sugere um país que quer (re)construir para si uma outra história. Mas se é mesmo assim só a pesquisa vai dizer, esse aqui é o ponto de partida. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Lá e cá, entre passado e presente

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-03-28 13:21

Escravidão, Historiografia, Alfabetização de escravizados, Fontes documentais, Literatura e arquivo, Revolta dos Malês

Lílian Miranda

Créditos da imagem: ‘bona’ (2015).  By Zanele Muholi

Em seu trabalho de investigação, o professor e historiador norte-americano Robert Krueger mapeia o que chama por slave narratives, no contexto estadunidense e brasileiro. Ao rememorar suas aulas, ministradas no programa de Pós-graduação em História da Ufba em 2024, quero recuperar neste post, algumas de suas reflexões acerca da alfabetização de pessoas escravizadas nos Estados Unidos entre os séculos XVIII e XIX.

Sua investigação, baseia-se em fontes primárias, em narrativas produzidas pelos próprios escravizados, para concluir que nos Estados Unidos os relatos sobre a plantation aparecem em quantidade maior que no Brasil, visto que lá, a proibição de alfabetização dos escravizados não aconteceu em todos os estados. Segundo Krueger, além disso, algumas igrejas que seguiam a religião cristã protestante exerceram importante papel na escolarização dos escravizados por meio das Escolas Bíblicas Dominicais e dos missionários ingleses interessados em seus “catecismos de escravos” a fim de torná-los leitores da bíblia. A alfabetização para esse fim, impulsionou também o registro de diários, textos autobiográficos, testamentos e outros documentos do gênero.

Enquanto isso, no Brasil, nem os escravistas nem a igreja católica preconizavam a alfabetização ou qualquer nível de instrução formal para escravizados. Sendo assim, registros documentais de escravizados no Brasil costumam estar relacionados a outros tipos de documentos e os relatos – que muitas vezes aparecem como depoimentos oficiais – foram registrados por autoridades ou outras pessoas não-escravizadas. Ainda que as exceções existam, fazem parte de uma porcentagem irrisória, sugere Krueger. Considerando esse argumento, a existência de um registro como a carta de Kehinde em Um defeito de cor, seria uma dessas exceções no limiar de sua impossibilidade.

Ana Maria Gonçalves, ao ficcionalizar o prólogo de Um defeito de cor, parece conversar com essa realidade da ausência de regsitros documentais feitos pelos próprios escravizados. Ai, a narradora revela encontrar por acaso um manuscrito escrito em português antigo, que é o próprio livro que vamos começar a ler. A escolha por uma narradora como Kehinde e a invenção de um manuscrito encontrado escancaram, portanto, a escassez de documentos que registram a vida cotidiana dos escravizados. Ao mesmo tempo, o arquivo inventado ganha força, pulsão de vida, e passa a ser motivo de interesse que se concretiza nas perguntas feitas à autora em entrevistas e eventos: “mas e esses manuscritos? Onde estão agora?”

Até mesmo portais de notícias comentam o manuscrito como um documento verdadeiro que dá origem à obra. É possível ler essa interpretação como um desejo urgente de encontrar dados concretos por trás do texto porque não só sabemos que por muito tempo a história oficial recalcou o conhecimento sobre a revolta dos malês como também não é comum encontrar na literatura brasileira e tampouco na historiografia oficial, personagens que contam suas próprias histórias.

Em Scenes of Sujection, Saidyia Hartman utiliza um conjunto de documentos, incluindo narrativas de escravizados, diários de plantações, letras de músicas populares, cartilhas de libertos e processos judiciais. No livro, a autora vai delinear como os elementos do período escravista estruturam a sociedade norte-americana e mantêm uma lógica de funcionamento violenta e eficaz para os interesses políticos e econômicos do país. Esses registros contam com vozes autorais de negros escravizados e libertos, o que confirma os dados levantados por Krueger ao longo de seus mais de 50 anos de pesquisa acadêmica.

O que mais chama minha atenção é pensar que ambas as autoras, Hartman e Gonçalves, estão interessadas na investigação sobre as lacunas historiográficas do arquivo sobre a escravidão. De um lado Hartman examina registros que confirmam a violência sofrida pelos escravizados e suas estratégias de enfrentamento, valendo-se da fabulação crítica enquanto método, o que pode ser entendido como uma extrapolação do arquivo para além da violência imposta pela estrutura. Do outro lado, Gonçalves se vale de textos historiográficos e ficcionais para compor uma história que, apesar da referência documental de alguns trechos, se tomamos, por exemplo, como consulta uma obra como a do pesquisador brasileiro João José Reis quando discute e apresenta os episódios que envolvem os preparativos e o desenrolar da revolta dos malês, é uma história inventada, e que, ao mesmo tempo, desafia as fronteiras da ficção como parte de um movimento que deseja tornar visível e digna a história de um povo que ainda vivencia as ressonâncias da violência colonial.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Kehinde e Luísa Mahin: A reelaboração de um mito

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2021-05-20 18:11

Literatura brasileira, História do Brasil, Luiza Mahin, Escravidão, Identidade, Levante dos Malês

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Dalton Paula, Luiza Mahin, 2020, oil and gold leaf on canvas in two parts.

Como já mencionei em alguns posts anteriormente, a escritora Ana Maria Gonçalves constrói a narrativa de Um defeito de cor transitando entre ficção e fatos históricos. O livro conta a história de Kehinde e sua trajetória enquanto negra africana nascida no Benin e traficada para o Brasil ainda criança. A narrativa em primeira pessoa é feita pela personagem já idosa numa viagem de retorno ao Brasil em busca de seu filho Luís, que foi vendido pelo pai na infância.

A personagem Kehinde é uma das representações ficcionais de Luísa Mahin, figura histórica. O livro de Gonçalves compõe uma história completa e detalhada acerca da vida de Kehinde, apesar de a história oficial contar com pouquíssimos registros historiográficos sobre a vida de Mahin. O que se sabe, no geral, é que a ex-escravizada participou ativamente do levante dos Malês em 1835 e que poderia ser a mãe do poeta Luís Gama.

Uma questão que me inquietou durante a leitura foi perceber que  a tematização desse evento (o levante dos malês) pelo romance de Gonçalves não deu à atuação de Kehinde grande protagonismo narrativo. Embora nós, leitores, possamos observar as movimentações dos Malês através do ponto de vista dessa personagem, fica evidente que ela não atua como líder e foge à imagem desenhada pelo imaginário comum, também apresentada em outras produções ficcionais, como em Malês, a insurreição das senzalas de Pedro Calmon que inclusive, atribui a ela o título de Rainha Africana.

A opção de Ana Gonçalves por construir a história dessa forma faz com que a representação de Mahin por meio de Kehinde ganhe outras nuances, explore outras dimensões de sua subjetividade, preenchendo uma lacuna da própria historiografia. Como aponta Aline Najara em “Entre o popular e a historiografia, uma imagem controversa: O caso Luiza Mahin”:

“Luiza Mahin é uma personagem presente em segmentos da memória brasileira, lembrada como símbolo de luta feminina e referência na resistência ao escravismo. A análise de representações e a percepção de distintas (re)construções discursivas acerca desta personagem em narrativas literárias e/ou historiográficas é o ponto de partida para compreender os mecanismos que permitiram a sua idealização e o que tais representações revelam sobre o contexto no qual foram (re)elaboradas.” (NAJARA, 2009)

No caso de Um defeito de cor, a autora (re)elabora um outro ponto de vista que narra, além da vida de Kehinde, uma parte da história do Brasil ao explorar diversos aspectos e particularidades da construção da nossa nacionalidade, por meio de seu trabalho de curadoria de documentos e arquivos, como aponta a bibliografia que a autora elenca no final do livro.

“O que estava em jogo não era apenas a participação dos pretos na revolta, mas também a defesa do país contra os pretos sem pátria  que queriam tomá-lo à força, a defesa do Deus do Brasil contra os feiticeiros da África”. Assim narra Kehinde numa passagem em que explica detalhadamente as deliberações judiciais às quais os suspeitos de terem participado da revolta dos malês estariam sujeitos diante do tribunal brasileiro, pois, ainda que fossem inocentes ou tivessem sido acusados arbitrariamente, deixariam o tribunal com algum tipo de pena, e quase sempre a maior possível. A personagem ainda reflete com indignação que na verdade esses movimentos de “tomar um país à força” eram realizados pelos brancos há muitos anos e completa: “Eles nos tiravam do nosso país e das nossas propriedades, faziam nossos batismos na religião deles, mudavam nossos nomes e diziam que precisávamos honrar outros deuses.”

Ao pisar em solo brasileiro ainda na infância, Kehinde foge ao batismo e demonstra grande expertise em recusar um nome cristão, utilizando-o somente quando necessário visto que para os brancos ela jamais poderia ser chamada de Kehinde ou manter quaisquer elementos que a ligassem à sua origem africana. Porém no seu regresso a Uidá ela assume a identidade de Luísa, seu nome brasileiro, que ela considera bonito, e cresce financeiramente através do comércio que consegue expandir a partir dos contatos que estabeleceu no Brasil e no Benin.

Essa transição representa uma série de acontecimentos e reviravoltas que a personagem narra ao longo do livro, mas, além disso, representa também o compromisso da autora em narrar uma história verossímil e humanizada que embora simbolize resistência e atribua à personagem características heróicas, não se resume a mitificar sua figura.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Fluxos e contrafluxos de um mestrado

Por: Luana Rodrigues

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-07-10 08:00

Pesquisa acadêmica, Historiografia, Arquivos, Literatura contemporânea, Ficção e história, Poder e memória

Lílian Miranda

Crédito da imagem: I’M A LADY, Mary Sibande, 2009

Um corpus é um rio de muitos afluentes. Nesta reta final de pesquisa fica a sensação de que o que sei agora é resultado de leituras, discussões e análises – muitas vezes solitárias – mas também das aulas, orientações, tirocínio docente e contatos com meus pares, nos congressos nacionais e internacionais que pude aproveitar ao longo desses dois anos. A sensação que fica é de que a pesquisa se encerra, mas abre caminho para novas especulações.

Estou finalizando o mestrado neste semestre e a favor de todos os clichês sobre o tempo passar rápido demais, sigo me aproximando da esperada defesa de dissertação. Esse trabalho final é resultado de uma pesquisa que começou ainda na iniciação científica, pois a temática que escolhi como centro das minhas investigações lá em 2020 – o arquivo -, permaneceu efervescente e central nas minhas inquietações acadêmicas e existenciais. Tendo como aliado o romance-corpus Um defeito de cor que constantemente me faz estabelecer novas relações e possibilidades de leituras.

Nesse caminho do mestrado pude vivenciar diferentes momentos da pesquisa fazendo jus ao universo em expansão que o meu corpus apresenta. As relações entre literatura e documento me levaram às aulas de história do PPGH da UFBA. Lá pude me habituar ao ofício do historiador e conheci de perto o trabalho de consulta e manipulação de arquivos. A leitura e escuta do professor João José Reis me aproximaram da narrativa historiográfica e pude estabelecer comparações entre a dicção que tem compromisso com o fato histórico/político e suas fontes e o trato dos eventos históricos pela literatura. O arquivo na literatura e as diferentes formas como se apresenta na contemporaneidade é o aspecto da pesquisa que continua me instigando.

Durante a pesquisa, li O queijo e os vermes (1976) do italiano Carlo Ginzburg que conta a história de Menocchio, um moleiro condenado pela inquisição por se opor aos ideais da igreja. O livro parece querer interrogar o que é e como se forma um arquivo. Guinzburg destaca a importância da cultura oral e popular, pouco registrada, e pergunta-se sobre quem tem o poder de enunciação e quem/o que pode constituir um arquivo. Um conjunto de documentos? Os depoimentos de Menocchio com sua autenticidade?

Os arquivos que registram a história social são perpassados pela virtualidade, aspecto que é comentado por Derrida em vista dos fantasmas que rondam a materialidade das fontes. Na história de Menocchio, ficamos conhecendo seus depoimentos registrados sob interrogatório, ocasião propícia para a formação de um arquivo no qual aparecem aqueles despossuídos de poder na ordem social e econômica de organização do mundo. Ao examinar os processos inquisitoriais contra Menocchio, Ginzburg ilustra essa dinâmica: os documentos que compõem a base de sua pesquisa – os interrogatórios – não são transcrições puras do pensamento de Menocchio, mas sim registros mediados pela lógica e pelos interesses do Tribunal da Inquisição. A linguagem, as perguntas formuladas e as interpretações registradas pelos escrivães refletem a grade de inteligibilidade da autoridade eclesiástica, que buscava enquadrar as ideias desviantes do moleiro em categorias pré- estabelecidas de heresia.

As instituições em seu papel de detentores do poder têm a autoridade para registrar. Mas quais as responsabilidades daqueles que consultam estes registros, consultando-os como historiadores ou como romancistas?

Tenho encontrado um caminho para essa resposta no trabalho de Saidyia Hartman, que já analisei outras vezes aqui no blog e é parte importante da minha dissertação. A autora parece escrutinar as fronteiras entre história e ficção ao lançar mão do termo não- ficção especulativa ao pensar o modo de tratar o documento de arquivo como uma maneira de ir além da hegemonia imposta pelas instituições que contiveram a memória de pessoas negras em registros subalternizados. Esse flerte com a especulação se dá como possível resposta à violência dos arquivos e também como uma forma de invenção da liberdade. Assim como em Ginzburg e Hartman, entendo que a escrita de Um defeito de cor por Ana Maria Gonçalves encontra no arquivo essa memória coagulada e escolhe permitir sua fluidez a partir da curadoria de documentos e da elaboração ficcional da história de Kehinde.

Ainda assim, me questiono sobre como devemos lidar com os arquivos, o que fazer com a dimensão virtual do que está e ao mesmo tempo não está nos documentos?

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Os vestígios e o documento

Por: leituras contemporâneas

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-10-30 15:51

Diáspora negra, Apagamento histórico, Arquivologia e memória, Literatura contemporânea, Ancestralidade, Escravização e racismo

João Matos 

Crédito da imagem: “Transformai as velhas formas do viver”, Aline Motta, 2025.

Um dos conceitos fundamentais para o entendimento da obra da norte-americana Christina Sharpe é o de Vestígio [Wake], que aparece no livro No vestígio: negridade e existência, traduzido para o português em 2023. Nele podemos ler, logo no primeiro capítulo, a elaboração do conceito, que aparece construído por meio de seu relato pessoal sobre a morte da irmã mais velha, IdaMarie. 

Sharpe relata que a morte de sua irmã precedeu o falecimento de outros dois familiares em um período de dez meses. Outras perdas já tinham acontecido em sua família entre 1997 e 1999. Pensando na repetição de outras mortes Negras como uma norma na Diáspora, Sharpe busca tensionar os silêncios do seu seio familiar para refletir acerca das lacunas provenientes da escravização e do tráfico transatlântico, mas que persistem, pois “o desastre e a escrita do desastre nunca estão presentes, sempre são o presente

Viver/existir no Vestígio não estaria relacionado ao preenchimento dessas lacunas, mas sim ao gesto de “perguntar o que, se é que algo, sobrevive a essa persistente exclusão de pessoas Negras, a essa negação ontológica, e como a literatura, a performance e a cultura visual observam e medeiam essa (não) sobrevivência”.

Em A água é uma máquina do tempo, livro que compõe o corpus da minha investigação de mestrado, Aline Motta também parte dos silêncios deixados pelas mortes das mulheres de sua linhagem familiar:

“Deixou um rastro de leite e sangue. Teve sete filhos, entre eles, minha bisavó. Morreu de tuberculose, mas a história que contam é que morreu de susto por causa das bombas na baía de Guanabara durante a Revolta da Armada. Militares contra militares, a República era só mais um golpe. Os vidros trincavam, as xícaras tremiam, a estrutura da casa ficou abalada.” 

O texto de Motta está inscrito junto à presença material de documentos recuperados durante a pesquisa da autora a respeito de sua história familiar. Porém, o arquivo não parece dar conta de responder às questões que circundam essa história: aparecem não como prova e sim como vestígio dessas existências anteriores. 

Assim, o olhar crítico sobre os documentos aliado ao texto de Motta torna possível ver no presente o que ficou registrado no passado apenas como falta, refletindo sobre a identidade de sua tataravó e de outras pessoas Negras sobre as quais não parece possível saber mais por conta de um apagamento histórico, que se mantém. O documento é, então, um “vestígio” que aponta para uma falta e ao mesmo tempo para a impossibilidade de preencher essa falta. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Das páginas até a avenida

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2024-04-04 14:10

Carnaval 2024, Portela, Literatura brasileira, Racismo, Matriarcado, Luiz Gama, Kehinde, Cultura afro-brasileira

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Desfile Portela, 2024

O carnaval do Rio de Janeiro em 2024 foi presenteado pela escola de samba Portela com um desfile baseado no livro Um defeito de cor.  Acompanhei a legenda na TV e ao longo do desfile já tinha decorado o refrão: “Saravá Kehinde! Teu nome vive! Teu povo é livre! Teu filho venceu, mulher! Em cada um de nós, derrame seu axé!”. A Portela repetiu o acerto de 1975 ao levar Macunaíma para avenida e escolheu o livro Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves como inspiração para a composição do desfile de carnaval deste ano e fez um trabalho centrado na maternidade da personagem Kehinde e optou por trazer o olhar do filho e poeta Luiz Gama (Omotunde, como na história do livro)  acerca de sua mãe com objetivo de retratar “a trajetória de uma negra matriarca que se confunde a tantas outras até os dias de hoje.”

A construção da história de Kehinde é uma forma de ficcionalizar o que os documentos não registram: a existência factual de Luísa Mahin, provável mãe do poeta Luiz Gama, mas também toda uma história silenciada de personagens que reaparecem resgatados do esquecimento. Os autores do enredo, Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Wanderley Monteiro, Bira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto e André do Posto 7, compuseram também uma carta com a voz narrativa de Luiz Gama como se o poeta tivesse tido chance de ler e responder ao que Kehinde “documentou” para ele em Um defeito de cor. Em um dos trechos da carta, ele diz:

Luiza, minha mãe, todas as vezes que fui ao mar eu vislumbrava o manto de Iemanjá, enxergava as ondas tecer o pano que usava Durójaiyé, minha ancestral, raiz da nossa árvore. Todas as vezes que eu fui ao mar, imaginei a dor que passou. […] Nesta carta eu te chamo pelo nome, Kehinde, teu verdadeiro nome, pois sei que muitos ainda vão lê-la e espero que não te confundam. Uma mulher negra pode ser feita de muitas outras, mas não pode ser confundida, pois cada uma carrega sua própria história e devem ter o direito de contá-las. ( Portela, Carta de Luiz Gama à Kehinde, 2024)

Ao levar para o sambódromo um elemento que não está na narrativa de Gonçalves mas que, no desfile, funcionou como uma resposta à história de Kehinde e compôs uma excelente apresentação, a Portela conseguiu (re)apresentar e popularizar uma narrativa emblemática – para nossa história e para a ficção atual-, já que, poucas horas depois do desfile, o livro Um defeito de cor em uma plataforma de venda on-line e entrou para a lista dos mais vendidos do site. Além de levar a editora Record a emitir uma nota sobre a decisão de realizar novas reimpressões do livro.

Desfilaram com destaque, representando Luiz Gama, o ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania Sílvio Almeida e os atores Lázaro Ramos e Antônio Pitanga. Em cima de carros alegóricos também desfilaram a própria autora – Ana Maria Gonçalves – e a escritora mineira Conceição Evaristo.

A escola de samba valorizou passagens importantes narradas por Kehinde, com alas representando a chegada da personagem no Brasil, a revolta dos malês, o período em que a personagem vive no Maranhão com a rainha Agontimé para aprender mais sobre os voduns de sua família, além de representações dos orixás sempre presentes na história de Kehinde. Ao final do desfile, no último carro alegórico, intitulado também como “Um defeito de cor” , desfilaram dezesseis mães que perderam seus filhos para a violência do Rio de Janeiro, exibindo fotos, camisetas e itens pertencentes aos seus filhos perdidos. Embora não tenha sido campeã do carnaval este ano, a escola ganhou o estandarte de ouro de melhor escola de samba e emocionou o sambódromo. Eu mesma,  que assisti ao desfile pela televisão, pude sentir a emoção e admirar o diálogo criado entre o samba enredo e a literatura.

 O samba enquanto cultura popular e gênero musical genuinamente afrobrasileiro, que por muito tempo foi marginalizado e é símbolo de uma resistência cultural em virtude das inúmeras perseguições que sofreu desde o início do século XX, alinha-se aqui à literatura para compor uma realidade imaginada, que é também uma fabulação crítica.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Histórias de nomes próprios e escrevivências

Por: larissanakamura

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2016-11-10 13:09

literatura afro-brasileira, escrevivência, ancestralidade, contos, identidade feminina negra

Por Nivana Silva

ancestral-masks

“Ancestral masks”, de Samuel Akainyah

Lançado esse ano pela editora Malê, Histórias de leves enganos e parecenças é o mais novo livro de Conceição Evaristo. Nele, estão presentes nuances de mistério, traços de encantamento e elementos do insólito que perpassam os doze contos e a novela que compõem a obra, desvelando filiações com uma ancestralidade de matriz africana e afro-brasileira, além de deixarem consolidadas marcas da oralidade e da memória, individual e coletiva, características que podemos associar à assinatura autoral da escritora mineira.

As narrativas, em sua maioria, giram em torno de mulheres – crianças, moças ou mães – protagonistas de suas vivências, que contam e escutam histórias passadas de geração em geração, fazendo emergir o fantástico e o imprevisível a partir de uma mescla entre a tradição e o contemporâneo. Chama atenção o não tão sutil jogo entre os nomes próprios de algumas delas e seus respectivos enredos, a exemplo de Rosa Maria Rosa, do conto homônimo, cujas axilas gotejavam pétalas de flores; Fémina Jasmine, de “A menina e a gravata”, e sua imensa predileção, desde pequena, por essa peça do vestuário masculino, especialmente as de formato borboleta, que com ela “fazia profundos voos”; ou a personagem-mãe que dá título ao conto “Os guris de Dolores Feliciana”, fortemente abalada pela perda dos três filhos assassinados e, por isso, vertia lágrimas de sangue, aplacadas, em certa medida, pelo constante retorno e presença dos meninos. A brincadeira com as alcunhas acontece também em “Os pés do dançarino”, em que o rapaz Davenir, por ter ignorado suas origens quando ganha fama, “deu pela ausência dos pés” e precisava “fazer o caminho de volta”, profecia da Bisa, “a mais velha das velhas”.

Tal como a Bisa, a presença de mulheres sábias, vigorosas e disseminadoras de crenças e valores de suas culturas é recorrente na antologia e, talvez, tenha seu ponto alto em “Sabela”, última narrativa atravessada por leves enganos e parecenças. A novela apresenta histórias entrelaçadas a um acontecimento maior, um dilúvio – que, diga-se de passagem, não tem ancoragem bíblica, tampouco culmina com uma grande arca – previsto e, literalmente, sentido por uma sábia senhora-mãe, que dá nome a história, por sua vez reconstruída pela filha, também Sabela, e pelos sobreviventes da singular tragédia, na qual “grandes e pequenos se igualaram”.

Em “Sabela”, assim como nos contos “A moça de vestido amarelo”, “O sagrado pão dos filhos” e “Fios de ouro”, as narradoras recompõem, contam e revivem memórias, mitos e rituais, reafirmando tradições familiares femininas muito fortes e passando adiante suas escrevivências, ou seja (e em linhas gerais), “textos que nós mulheres e homens negros criamos” ¹, segundo definição de Conceição Evaristo. A palavra em itálico, presente como uma marca do trabalho teórico e literário da escritora mineira, pode ser associada, também, às histórias transmitidas pelas mulheres de sua família, fonte e fundamento para sua escrita, como relata em “Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de  minha escrita” ².

Recentemente, na última edição da Flica, Evaristo diz ser possível pensar uma escrevivência marcada pela biografia das mulheres negras na sociedade brasileira, algo que está comprometido com o trabalho da ficção, com memórias ficcionalizadas. Inevitavelmente, encontramos esse registro em Histórias de leves enganos e parecenças, que não deixa de abordar questões ligadas à diáspora africana, às favelas do Rio de Janeiro, à fé e à natureza, sempre sob uma leveza onírica e imprevisível, mas sem deixar de agenciar um compromisso com a resistência e com a solidariedade feminina negra, afinal de contas, trata-se de construir uma assinatura por meio das escrevivências que não podem ser lidas, como afirma a própria Evaristo em seu blog, “como histórias para ‘ninar os da casa grande’ e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”.

[1] Conforme a fala de Conceição Evaristo na Flica 2016, na mesa “As águas dos contrassonetos e os olhos da vândala insubmissão”.

[2] Texto disponível no blog da autora.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Há, no entanto, um além da clausura

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2024-08-15 16:21

Historiografia, Pesquisa em arquivos, Relação entre história e ficção, História do Brasil, Metodologia de pesquisa

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Lingomba ya Muta Nionso, Zemba Luzamba, 2023

No mês de Julho participei de dois eventos dá área de História, o encontro estadual da ANPUH Bahia, que ocorreu na UESC, em que pude compartilhar com pesquisadores da historiografia o que tenho desenvolvido no mestrado acerca das relações entre história, ficção e arquivos, e também estive presente na conferência “De escravista a abolicionista: Trajetória de uma família negra na Bahia c. 1807-1930” ministrada pelo professor João José Reis. O  evento ocorreu na ALBA e fez parte do 19° Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia.

Em suas primeiras palavras, Reis provocou a plateia com uma frase que chamou minha atenção pelo tom polêmico com que começou sua fala: “História não é ciência”. Na mesma hora, anotei no meu bloco de notas “mas por quê?”

Nesta palestra, o autor delineou os caminhos da nova pesquisa que está desenvolvendo e as impossibilidades diante dos arquivos que não encontrou ou daqueles de que ainda está à procura. Reis narrou a história de Manoel Joaquim, um ex-escravizado que se torna dono de cativos, enriquece bastante e perpetua a fortuna legando-a a seus descendentes. Avançando na linha do tempo, seus filhos e netos também se destacam ao se associarem a outras figuras notáveis da história oficial do Brasil, e assim, gerações depois, a família, que emerge num contexto escravocrata, passa a figurar nos cenários de luta pelos direitos das pessoas negras no Brasil.

É interessante ver como funcionam as lacunas na pesquisa em arquivos. O autor aponta a invisibilidade das mulheres influentes da família ao longo das gerações, que somem dos documentos ou que aparecem vertiginosamente.

Fazendo a leitura de O Alufá Rufino, pude encontrar também mais uma evidência dessas imprecisões do documento. Ainda que a narrativa preserve as datas, os testemunhos, depoimentos e eventos que conversam entre si, é possível encontrar também trechos que demonstram que existem muitas lacunas a ser preenchidas:

 Rufino declarou ter deixado o Rio Grande do Sul e seguido para o Rio de Janeiro “quando começava a guerra dos Farrapos”, segundo a notícia de sua prisão publicada no Jornal do Commercio em 1853. Tanto essa notícia como a transcrição de seu depoimento dão a impressão de que a viagem para o Rio se seguiu logo ao registro de sua alforria em meados de dezembro de 1835. Há, no entanto, a possibilidade de uma história alternativa a essa. Já dissemos que por ocasião da suspeita de conspiração malê em Porto Alegre, em 1838, os papéis então confiscados foram enviados à cidade de Rio Grande e ali interpretados por um liberto haussá, a quem se dera o nome de José no Brasil.

Em Um um defeito de cor, Gonçalves aproveita o documento e constroi sua ficção, sem compromisso com o que de fato aconteceu. Ao observar o trabalho do historiador em O Alufá Rufino, me deparo com a evidência e o factual, mas também com uma forma de pensar a história que precisa elaborar hipóteses sobre o que não é verificável, mas apenas imaginável. Será que a afirmação de que “história não é ciência” se apoia também nesse discurso que permite afirmar que “há, no entanto, a possibilidade de uma história alternativa a essa”? Mas como falar dessa história que falta ou que se faz presente no que não se mostra como evidência?

Ao revisitar Vidas rebeldes, belos experimentos de Saidyia Hartman, me encontro com as fronteiras entre história e ficção sendo estreitadas, pois ainda que seja tudo verdade, Hartman parece olhar para o arquivo como quem diz: há possibilidade de uma história alternativa que corresponde ao provável e ao possível de ter acontecido. E tudo isso a partir de uma sólida pesquisa em arquivos e documentos, anos dedicados à investigação.

Minha pesquisa me leva a investigar como Gonçalves lida com a historiografia para escrever seu romance. Esse movimento me interessa também porque desperta minha atenção para o modo como a própria historiografia tem lidado com as lacunas, com as possibilidades especulativas para construir uma outra história.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Viver uma vida: qual?

Por: Luana Rodrigues

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-09-11 08:00

Caroline Barbosa

Crédito da imagem: “Conversaciones no. 2”, de Giana de Dier, 2023. 

No artigo, Vênus em dois atos, ao traçar as características do seu método de escrita, a fabulação crítica, a pesquisadora norte-americana Saidiya Hartman indica que gostaria de realizar uma biografia coletiva, em que transformaria “o exorbitante em exemplar”. Ela argumenta que os registros acerca das vidas dos sujeitos negros durante a escravidão ignora a subjetividade e o cotidiano desses indivíduos. São arquivos que remontam ao “encontro com o poder”, ou seja, nomes em um caderno comercial, anotações no diário de um feitor e processos judiciais, muitas vezes relacionados à perda do que era considerado apenas mercadoria. Isso é o exorbitante: o arquivo que sujeita a individualidade apenas à violência. O tornar exemplar, segundo o argumento da autora, é efeito da fabulação crítica, pois através de estratégias como a especulação e a complexificação do que está nas bordas do arquivo, Hartman reformula a exorbitância criando outras maneiras de compreender as vidas engendradas pela violência.

A partir dessa interpretação de Hartman, busquei investigar, numa comunicação apresentada recentemente no Congresso de Pesquisa realizado pela UFBA, a noção de biografia coletiva e a maneira como ela é tratada na História e na Literatura. A ideia de uma biografia coletiva me interessa porque pode se tornar um mote para compreender como as experiências individuais podem também apontar para uma coletividade. 

Em Vidas Rebeldes, Hartman analisa diversas fontes históricas para investigar a vida de jovens que saíram dos campos do sul na direção do norte dos Estados Unidos na virada do século XX, no pós-abolição. A estudiosa quer ampliar a maneira como podemos conhecer a existência dessas jovens, questionando e especulando sobre os registros que as relegavam ao lugar de criminalidade. A dimensão dessas vidas que não foi registrada e não pôde ser contada é fabulada como experimentos de liberdade, que sugerem não uma subjetividade específica, mas apontam para a possibilidade de ler dessa maneira um coletivo de jovens em busca de seus direitos. 

E na literatura, como seria possível pensar esse deslocamento do pessoal para o coletivo?  A narradora de Cartas a uma negra de Françoise Ega, que compartilha com a autora dados biográficos, escreve sobre suas percepções da vida, seu cotidiano, sobre as interações com colegas, também migrantes da antilhas, e sobre o trabalho de faxineira em Marselha, na França, após ler um perfil de Carolina Maria de Jesus e se identificar com as situações vividas pela escritora brasileira. 

No livro de Ega, acompanhamos, ao longo das cartas, o relato que se debruça sobre momentos de satisfação vividos ao lado de sua família, o prazer experimentado por ela em dias ensolarados, as conversas com a amiga Solange e a tranquilidade que lhe dá uma caminhada na volta para casa. A dor está presente no relato crítico sobre o comportamento dos tantos patrões para os quais trabalhou ao longo da vida, nas humilhações compartilhadas e na injustiça do sistema, mas sua vida é mais que isso.

Embora minha intenção na comunicação fosse tematizar as noções de exorbitância e exemplaridade utilizadas por Hartman, quando comentei o livro de Ega, selecionei apenas  trechos que remetiam a um lugar de violência: Ega defendendo a amiga Yvonne dos desmandos de uma patroa abusiva e suas reflexões acerca das jovens antilhanas que vão cheias de sonhos para a França, mas são obrigadas a lidar com empregadores sádicos e com a ausência de oportunidades fora da esfera doméstica. Mas, como disse, a narrativa se detém também nos detalhes, no cotidiano, nos quais a narradora está vivendo e contando uma vida, sua vida.

Será que a alegria crítica de Ega não pode nos oferecer um caminho para pensar uma coletividade de mulheres negras que sorriem, apesar de

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Her name was Madeleine

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2023-11-09 14:36

História da arte, Diáspora africana, Escravidão, Literatura contemporânea, Museologia, Representatividade negra

Lílian Miranda

A imagem acima compõe um tweet original da página Musée d’Orsay (@MuseeOrsay) em 2019 na rede social X, antigo Twitter. A legenda diz: “Elle sera l’une des grandes icônes de notre prochaine exposition: le “Portrait d’une femme noire”, peint par Marie-Guillemine Benoist en 1800 ( @MuseeLouvre) vient d’être installé dans les salles du #ModèleNoir. Ouverture le 26 mars >http://bit.ly/ExpoModeleNoir.” Alguém (@Selam_S), quatro anos depois da postagem original, comenta: Her name was Madeleine, woman from Guadeloupe.

 Em Uma africana no Louvre, livro resultado da adaptação de duas conferências realizadas por Anne Lafont, historiadora e crítica de arte, a autora propõe uma “nova topografia da arte iluminista”. Comentando o quadro Portrait d’une femme noir de origem francesa que retrata uma jovem negra do século XVIII, Lafont chama a atenção para aspectos da obra que não costumavam ser tematizados na história da arte e empreende uma reflexão que sugere uma mobilidade, um deslocamento do foco de análise das investigações sobre autoria e recepção do quadro na direção de especulações sobre a modelo retratada e sua história. Esse exercício de recalibragem do olhar sugere também  “uma nova exploração dos arquivos relacionados à fatura” do quadro, uma mudança de perspectiva em relação às histórias que podem ser contadas.

Para Lafont, o quadro é interessante por “suscitar uma abordagem nova,[…] soma-se ao projeto de uma história da arte renovada pelas questões da mundialidade (conceito postulado por Edouard Glissant), bem como de uma história da África diaspórica na época do tráfico atlântico”. Para a historiografia da arte tradicional, o seio desnudo de Madeleine apontou, primeiramente,  uma pista erótica,  mas ao comentar acerca das Signares (senhoras) – mulheres negras mestiças senegalesas com condições financeiras abundantes, representadas em pinturas do século XIX, normalmente muito bem vestidas -, Lafont pontua que o amontoado de tecidos seriam um indicativo de status social,  enquanto os seios à mostra, ao contrário, revelam a função de escravizada. Ambas as representações deixam ver aspectos historiográficos de uma época e as diferenças que não são pontuadas comumente por termos acesso a uma história homogeneizada que encara negros africanos de forma única.

Embora a autora faça esse exercício no campo das artes plásticas, é possível pensar um deslocamento semelhante no modo de a literatura contemporânea lidar com as histórias que não foram contadas.

Na última segunda-feira, dia 06 de novembro, o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (Muncab) em Salvador reabriu suas portas com a exposição “Um defeito de cor”, que contou com a curadoria de Ana Maria Gonçalves e se baseia na trajetória de vida de Kehinde ou Luisa Mahin, a personagem principal do romance. Em consonância com as comemorações do novembro negro e numa cidade cujo slogan a identifica como uma capital afro, a exposição valoriza projetos de artistas negros e a cultura afro-brasileira, espalhando pelo espaço do museu trechos do livro que são associados a trabalhos que versam sobre a ancestralidade e a religiosidade afro-brasileiras. Em uma das salas, uma linha do tempo conta resumidamente datas e eventos que compuseram uma sequência de revoltas ocorridas em território baiano e que estão embrenhados à vida de Kehinde na narrativa de Gonçalves.

A história de Kehinde em forma de exposição chegou ao museu acompanhada de uma roda de conversa com a autora do livro. Gonçalves afirmou que não importa que não haja documentos que comprovem a existência histórica de Luisa Mahin, pois Kehinde ganha vida na ficção e direito a compor também, por meio da literatura, parte da História que nos foi negada, assim como o retrato da jovem no Louvre, que se reinscreve no quadro: Madeleine, de Guadalupe.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Escrever sem determinar

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2024-07-25 13:07

Ética da representação histórica, Fabulação crítica, Literatura contemporânea, Subjetividade de mulheres negras, Escrevivência, Estereótipos raciais

Caroline Barbosa

Créditos da imagem:  “O concreto que evapora”, de Manuela Navas (2022)

No artigo “Vênus em dois atos”, Saidiya Hartman expõe o que chama de “ética da representação histórica”. Com a expressão, a autora deseja problematizar o difícil equilíbrio entre as poucas informações documentadas sobre a vida dos sujeitos investigados e a liberdade concedida pela fabulação.

Em um dos capítulos de Vidas rebeldes, belos experimentos, Hartman apresenta a história de Mattie, uma adolescente negra que sai da Virgínia para Nova York em busca de novas possibilidades de vida no começo do século XX. Na nova cidade, encontra apenas trabalhos domésticos e faz amizade com um jovem mais velho que se apresenta como uma maneira de lidar com o desgosto pela ausência de oportunidades e de dar voz aos seus desejos.

Hartman, a partir dos documentos encontrados acerca da vida de Mattie, não busca estabelecer um juízo de valor acerca das suas ações e nem retirar a responsabilidade dos homens com os quais ela se relacionou. A historiadora aposta na complexidade, no questionamento e na parca liberdade que a menina podia ser permitir em um contexto no qual as mulheres negras tinham sua subjetividade negada e sua sexualidade objetificada.

No autos de Bedford Hills, um reformatório feminino do estado de Nova York, Mattie aparece apenas como uma jovem que roubou a sua vizinha. Ao estabelecer uma investigação detalhada acerca de outros documentos da vida de Mattie e fazendo uso da fabulação crítica, Hartman compõe uma contranarrativa que respeita o “ruído negro” que se faz presente na vida de Mattie, assim como na de todo um coletivo de meninas negras que tiveram suas vidas silenciadas.

Dessa forma, a historiadora busca reconfigurar estereótipos negativos sobre a experiência de mulheres negras e respeitar sua subjetividade ao mesmo tempo em que não pretende preencher lacunas sobre o que é ser uma delas ou usar sua voz como poder autoritário para deliberar sobre a vida dos sujeitos negros.

Movimento similar pode ser observado no romance Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo. Elaborado a partir de capítulos que parecem pequenos contos sobre a vida de personagens negras, a obra aposta na complexidade da vivência desses sujeitos sem buscar uma narrativa única do que é ser mulher negra.

Evaristo não deixa de lidar com uma dimensão coletiva ao propor um movimento pendular entre a subjetividade particular de suas personagens e o coro de um coletivo feminino. Uma jovem mulher negra que conseguiu alcançar a universidade, mesmo com todas as dificuldades, não pensa da mesma forma que a mãe, também uma mulher negra, que saiu da Nigéria para dar melhores condições para a filha. Uma dramaturga negra lésbica não compactua com a amiga negra sobre o feminismo. A filha de uma delas acha que a mãe “ficou muito esnobe com os colegas de teatro que continuam na luta, como se ela sozinha tivesse descoberto o segredo do sucesso”.  

A partir do investimento na individualidade de cada personagem, a autora elabora um cenário amplo sobre as relações entre cada uma de suas personagens e a diversidade identitária de tantos sujeitos. Esse movimento tanto na história quanto na literatura exige de seus produtores um trabalho de questionamento constante e de abandono de certezas. Para minha pesquisa de doutorado, que se inicia agora, interessam tanto a fabulação crítica como a escrevivência como tentativas de especular sobre a tensão entre ficção e fato e a discussão da forma como contribuem para uma “ética da representação”.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

“Toda fabulação é fabricação de gigantes”

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2023-07-13 14:34

Historiografia, Literatura brasileira, Fabulação crítica, Curadoria, Escravidão, Memória histórica, Saidiya Hartman, Ana Maria Gonçalves

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Movement of Meditation, 2022. Cecilia Lamptey-Botchway.

Ao rememorarmos a construção da historiografia do Brasil e de outros países da América Latina, compreendemos que o controle das narrativas que compõem o que temos por história oficial sempre esteve sob o comando dos países colonizadores e ao longo do tempo essa estrutura se mantém refletindo nas mais diversas instâncias das sociedades latino-americanas.

A quem foi negado o direito de narrar? Saidiya Hartman – autora de Perder a mãe (2021) e Vidas rebeldes, Belos experimentos (2022) – em seu ensaio intitulado “Vênus em dois atos” sugere a fabulação crítica como sendo o método-guia de sua prática de escrita que joga com elementos históricos, “rearranjando-os, reapresentando a sequência de eventos em histórias divergentes e de pontos de vista em disputa”.

 Com o desejo de dar continuidade ao percurso de pesquisa que iniciei em 2020 durante meu primeiro projeto de pesquisa de iniciação científica que explorava as relações entre literatura e documento na obra Um defeito de cor, irei investigar no mestrado as noções de fabulação crítica e curadoria, aprofundando um pouco mais a reflexão sobre o romance de Gonçalves e expandindo as discussões da iniciação científica.

Recuperando eventos registrados na história oficial do país e os horrores da escravidão, Gonçalves reconstrói situações e experiências vividas por sujeitos historicamente apagados dos registros documentais oficiais. Minha grande questão é: será possível articular a noção de curadoria (de documentos, narrativas, arquivos) com a noção de fabulação crítica, entendida como uma ferramenta utilizada pela autora para ficcionalizar os “não-ditos” pela história oficial?

A construção da história de Kehinde é uma forma de ficcionalizar o que os documentos não registram: a existência factual de Luisa Mahin, provável mãe do poeta Luiz Gama, mas também toda uma história silenciada de personagens que reaparecem resgatados do esquecimento. Para Hartman, “A fabulação crítica emergiu como um conceito e uma ferramenta para mim porque os arquivos e registros históricos são construídos pelo poder dominante, pela violência e por esses silêncios incríveis. Então, como seria possível narrar a vida dos escravizados, da classe trabalhadora, de quem não tem posse ou quem vive na miséria? Portanto, a fabulação crítica é tanto um desafio ao conhecimento produzido pelos poderosos quanto uma tentativa de honrar as memórias dos dominados”

Daí surgiu a ideia de aproximar um conceito das artes plásticas à literatura para entender a curadoria como um procedimento de elaboração da obra para pensar a relação entre história e literatura no livro de Gonçalves como um exercício de “fabulação crítica”, investigando melhor essa noção.

Tratando de um velho tema, a relação entre a história e a literatura,  minha proposta de pesquisa para o mestrado quer  incorporar as noções de curadoria e a ideia de fabulação crítica para arriscar a possibilidade de ampliar as  perspectivas sobre essa relação.

Créditos da imagem: LOST, Eddy Kamuanga Ilunga, 2015

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Biografia coletiva: entre a fabulação crítica e a escrevivência

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-06-19 14:45

Fabulação crítica, Biografia coletiva, Escrevivência, Historiografia, Literatura e subjetividade negra

Caroline Barbosa

Crédito da imagem:  “Tudo é sonho / improviso impermutável e a impossibilidade de ser”, Manuela Navas, 2025

A pesquisadora e professora Saidiya Hartman, ao traçar os contornos da fabulação crítica, tem como um dos seus objetivos elaborar uma biografia coletiva dos cativos e cativas e dos sujeitos negros no pós-escravidão. Segundo Carla Beatriz de Almeida, o uso da biografia coletiva, também conhecida como prosopografia, remonta ao século XVI. Ela é definida como um método que busca, dentro da História e das Ciências Sociais, “definir uma população a partir de um ou alguns critérios e estabelecer assim uma descrição bibliográfica cujas nuances possibilitarão traçar um perfil de sua dinâmica social,  privada, pública, cultural, ideológica ou política”. Nesse sentido, a pesquisa de vidas individuais se torna mote para pensar a totalidade de um grupo. 

Na obra  Vidas Rebeldes, Belos experimentos, de Hartman, há o destaque para as narrativas individuais de jovens que viveram durante a virada do século XX. Por meio delas, uma janela se abre para a biografia de outras jovens que não figuram no arquivo historiográfico, mas que viveram na mesma sociedade e, assim, passaram, de forma geral, pelos mesmos cerceamentos e discriminações que as jovens retratadas. 

Para convocar o leitor a refletir sobre essa coletividade e ir além das vivências pessoais, Hartman faz uso do coro, esse conjunto de vozes que aparece em itálico ao longo da obra, fazendo menção a romances, músicas, relatos de autos prisionais e outras formas documentais que se destacam da história individual e assinalam aquilo que ecoa na existência de outras meninas:

”E como qualquer artista sem nenhuma forma de arte, ela se tornou perigosa” ( Trecho do romance Sula, de Toni Morrison, utilizado por Hartman)

”Se pudesse sentir profundamente, ela poderia ser livre” (Trecho de Sister Outsider, de Audre Lorde, utilizado por Hartman)

Aqui me interessa pensar os sentidos do uso do romance como um dos recursos utilizados pela autora para estabelecer o procedimento que se esvai do individual e convoca um grupo de sujeitos negros. Como pensar a escrevivência nesse cenário? Em trabalhos diversos das ciências humanas o neologismo é utilizado como ferramenta epistemológica por estabelecer relações com experiências comuns de ser negro, mas na literatura há um trabalho estético que vai além do anseio de retratar o real.

Há um movimento contínuo de aproximação e distanciamento da perspectiva autobiográfica, que nos leva a refletir o que a noção de biografia coletiva, pensando a partir de Hartman, pode levantar sobre o termo. Isso porque na escrevivência o elemento factual nem sempre está atrelado às vivências pessoais do autor, mas sim a uma experiência coletiva dos sujeitos negros. Será que é a isso que Hartman se refere quando usa os romances como um dos recursos para elaborar o coro? 

Isso me leva, nesse momento da pesquisa, a mapear essas obras romanescas utilizadas por Hartman e observar se é possível pensá-las na chave da escrevivência, uma vez que elas auxiliam na especulação acerca das vidas dessas jovens. Nesse jogo, uma espécie de imaginação biográfica parece estar em cena, o que pode levar a uma percepção da escrevivência para além de recurso documental, sendo sua própria forma próxima da fabulação crítica. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

“um arquivo do exorbitante. Um livro dos sonhos pela existência diversa”

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2023-12-14 13:06

Fabulação crítica, Historiografia, Estudos subalternos, Arquivos históricos, Literatura e história, Saidiya Hartman

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Retrato de Billie Holiday e Mister, Nova York, c. fev. 1947. William P Gottlieb Collection, Library of Congress Music Division

Para compreender melhor o conceito de fabulação crítica, recentemente iniciei a leitura do livro Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais, de Saidiya Hartman. A autora inicia com “Uma nota sobre o método” e comenta sobre a escolha por narrar histórias íntimas ou que nunca foram pensadas fora de um imaginário escravocrata.

Hartman recria vozes e deseja dar vida com riqueza de detalhes a personagens reais que tiveram suas histórias reduzidas e cristalizadas em “registros de cobradores de aluguel; pesquisas e monografias de sociólogos; transcrições de julgamentos; fotografias do gueto; relatórios da delegacia de costumes, assistentes sociais e oficiais de condicional[…]”. Nesses documentos as personagens tinham suas existências marcadas pela imposição da subalternidade e eram vistas como problemas para a sociedade norte-americana de sua época.

As personagens listadas por Hartman ainda nas primeiras páginas ganham uma breve descrição ao lado do nome. Personalidades como Ida B. Wells, Billie Holiday e W. E. B. Du Bois entram na narrativa assim como Mamie Sharp – “uma beldade de dezenove anos que aluga um apartamento de três cômodos em um cortiço na Saint Mary Street, Filadélfia” – e muitas outras figuras anônimas aparecem nos arquivos com os quais Hartman entra em contato:

Quem se dedica a historicizar a multidão, as pessoas despossuídas, subalternas e escravizadas, se vê tendo de enfrentar o poder e a autoridade dos arquivos e os limites que eles estabelecem com relação àquilo que pode ser conhecido, à perspectiva de quem importa e a quem possui a gravidade e a autoridade de agente histórico.

Dentre as principais obras estudadas para a escrita da minha dissertação Vidas rebeldes, belos experimentos tem sido até o momento a que melhor delineia o processo de curadoria de arquivos para construção de narrativas que apostam nesse lugar de ficção e não-ficção ao mesmo tempo. A fabulação crítica pode ser lida como esse modo de contar a história partindo de um olhar humano e atento que dá possibilidade de existências plurais para figuras homogeneizadas pelo registro histórico.

Ainda que o livro apresente uma forma inespecífica e não seja fácil encaixá-lo em um gênero exato (no site da Amazon.com aparece nas categorias “Literatura Comparada”, “Ensaios (livros)” e “Estados Unidos em história”), em vista da divisão de capítulos, do uso das imagens e da mescla de linguagem poética e teórica, Vidas rebeldes vai construir narrativas de vida a partir de rastros que tornam coletivas as experiências. É por isso que chama ainda mais a atenção a existência de um personagem chamado “o coro” e que é definido como sendo “Todas as jovens sem nome da cidade tentando encontrar uma forma de viver e em busca da beleza”.

Ao final, ao longo de mais de 60 páginas, constam notas, referências e um índice remissivo das inúmeras imagens e da grande quantidade de dados mencionados ao longo do livro, que se constitui como um trabalho de pesquisa admirável e fundamental para (re)pensarmos relações entre a História e o documento.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Possibilidades corais

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-05-15 14:41

Literatura, Sexualidades dissidentes, História das mulheres, Ficção e factualidade, Feminismo

Caroline Barbosa

Créditos da imagem: Silencio n.2 / tudo o que me liga a você, Manuela Navas, 2025

Na obra As filhas de Safo, Selby Wynn Schwartz discute as sexualidades dissidentes a partir da vida de mulheres que viveram entre o final do século XIX e início do século XX. Elas eram escritoras, pintoras, cantoras e atrizes, em sua maioria. Assim, somos levados a conhecer nomes que revolucionaram a Europa, como Lina Poletti, Rina Faccio, Anna Kuliscioff, Sibilla Aleramo, Virginia Woolf e Natalie Barney. 

Juntas, elas constroem um coro no qual a própria narradora em terceira pessoa se insere. A figura que rege a obra é Safo, uma poeta grega que viveu na Ilha de Lesbos durante o século 6 a. C. Schwartz vai apresentando Safo para o leitor por meio dos fragmentos que restaram de sua obra: “nós vivemos/ … oposto … / … audácia”. As personagens buscam interpretá-la, traduzi-la, mas também emulam o modo de viver conhecido por meio dos fragmentos dos poemas, pois lutam contra a patologização da sexualidade e contra as leis que cerceiam seus direitos.

Vislumbramos parte da história do século XX por meio da vivência dessas mulheres: as grandes guerras, a ascensão do fascismo, a luta pelo direito de votar, a colonização e as tensões da modernidade, por exemplo.  E também vamos nos aproximando paulatinamente de suas singularidades:

Mas Ada Bricktop Smith também aprendeu coisas que nunca saberemos: como era pintar o rosto de preto quando, na verdade, ela já tinha a pele preta, por exemplo, só para ganhar a vida cantando canções de menestréis para entreter os sulistas brancos.

Nós a convidamos para ir à casa  de Natalie Barney lanchar sanduíches de pepino, mas ela sorriu com discrição e disse que estava muito ocupada. Verdade que um dos nomes de Ada Bricktop Smith era rainha.

Schwartz  menciona Vidas Rebeldes, Belos experimentos de Saidiya Hartman em uma nota bibliográfica para comentar o uso que a pesquisadora americana faz da lógica coral de composição. Hartman escreve a vida de jovens negras que se deslocavam do Sul para o Norte dos Estados Unidos em busca de condições melhores de vida. Mas nem tudo o que deseja descobrir é encontrado na intensa pesquisa que realiza. É nesse contexto que sentenças,  que aparecem em itálico ao longo da obra, formam um coro, para dar voz àquelas mulheres sobre as quais tão pouco se sabe.  Schwartz afirma que a lógica coral de que lança mão é diferente, pois em Hartman, o coro ressoa as vozes das mulheres “sem nome”, mas As filhas de Safo são personagens reais.  

A coralidade é o elemento que me impulsiona a aproximar as duas obras.  Ambas partem de figuras factuais para descrever vidas em seus contextos históricos, mas fazem uso de termos como personagens e narrador e fabulam criticamente o que não pode ser verificado, mobilizando um arquivo de fontes documentais. Me interessa, então, especular o papel que esses procedimentos têm para a desestabilização das fronteiras entre o referencial e o ficcional. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Ficção e não ficção: escrevivência e fabulação crítica

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2024-05-02 16:19

Escrevivência, Literatura contemporânea, Fabulação crítica, Subjetividade negra, Historiografia, Descolonização, Autoficção

Caroline Barbosa

Créditos da imagem: Soldados (2006), de Rosana Paulino.

A noção de escrevivência, criada por Conceição Evaristo, alcança hoje amplo reconhecimento na cena literária do presente e está fortemente entrelaçada às vozes de mulheres negras que se autorrepresentam evocando suas experiências para conectá-las coletivamente.

Um dos objetivos de minha dissertação de mestrado, defendida em março deste ano sob o título de “Escritas de si, escrita de nós: a tensão entre autoficção e escrevivência na literatura contemporânea”, consistiu na tentativa de ampliar a discussão sobre o termo, seu papel político e estético, pensando-o também em relação à produção de outros autores brasileiros, como  Jeferson Tenório e Geovani Martins, e a obras de literatura estrangeira como Garotas, Mulher, Outras, de Bernardine Evaristo.

Explorando um pouco mais a expansão da noção, observei que é possível ainda coaduná-la às questões sobre a autodefinição da subjetividade negra, a partir de bell hooks, e ao modo como Grada Kilomba pensa a descolonização. No campo da  historiografia, a fabulação crítica estimula a pensar as tensões entre o fato e a ficção na elaboração das vozes dos sujeitos negros, como o faz Saidiya Hartman.

Partindo da análise do corpo de Saartjie Baartman, conhecida como Vênus Hotentote, Hartman comenta os registros acerca da existência da jovem cativa nascida no sudoeste africano e exibida entre 1810 e 1815 como uma atração de circo na Europa por conta de suas características físicas. O que Hartman encontra nesse arquivo diz respeito apenas a cifras e a dados sobre as relações comerciais que destituíam o corpo de Baartman de qualquer memória ou subjetividade.

Aí, então, começa o movimento da fabulação crítica: para reparar a violência que permeia os dados de arquivo acerca desses sujeitos, a fabulação crítica surge como uma maneira de romper o silêncio e realizar um movimento de contra-História, pautada no que Hartman chama de uma “ética de representação histórica”, que se encarrega de reconstruir uma narrativa sobre a vida desses sujeitos (considerados apenas corpos para a força de trabalho ou para exibição pitoresca ou traduzidos em cifras financeiras). Assim, as narrativas são construídas com base nas lacunas que permeiam o arquivo já existente e propõem uma intersecção entre a ficção e a história.

Dois movimentos paralelos: na literatura do presente e na cena historiográfica atual. Essa hibridez entre o ficção e a não ficção, a literatura e a história, o estético e o político permeia tanto a escrevivência quanto a noção de fabulação crítica de Hartman. O que esse movimento nos diz sobre a subjetividade do sujeito negro, seus modos de falar e sobre a maneira como são ouvidos?  Essa questão  mobiliza a investigação que eu gostaria de realizar a partir de agora em uma nova pesquisa de doutorado.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Imaginação e escrevivência

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2025-02-06 13:50

Literatura, Escrevivência, Subjetividade negra, Crítica literária, Experiência da imigração

Caroline Barbosa

Créditos da imagem:  Fé e Magia, Larissa de Souza, 2024. 

Léonora Miano, no romance Stardust, mascara sua história pessoal na criação da personagem Louise. A narração em terceira pessoa se dá, segundo a autora, para afastar “os perigos inerentes a uma travessia do próprio infortúnio”. A vida da jovem camaronesa, nesse momento vivendo na França, é transformada após uma gravidez acidental. 

Sem o apoio da família e do pai da criança, Louise vê a necessidade de recorrer às instituições francesas para reconstruir a própria vida. Nessa busca por uma casa materno-infantil, ambiente que proporcionaria à personagem estudar e trabalhar, ela precisa constantemente ser “cadastrada, avaliada, fichada”. A esse escrutínio de sua vida íntima a personagem reage à sua transformação em “um mero caso social”.  

Poderíamos pensar na obra de Miano como uma expressão da escrevivência? No livro, o trânsito entre indivíduo e coletividade se apresenta através do questionamento. A experiência de Louise, com seus medos, desejos e interrogações abre uma janela para as outras mulheres no centro de acolhimento e reinserção social. Ela as observa e se afasta da forma como as outras mulheres levam a vida, aos gritos, prontas para a briga, mas também se aproxima, se reconhece, sabe que todas estão no mesmo barco. Na tensão entre essa jovem negra cheia de lacunas, pronta para lutar por si e sua filha, há também um coletivo impossível de apreender em sua completude, pois “não é fácil conhecê-las. Só se pode presumi-las.”

Pesquisadores do termo escrevivência defendem que essas obras não se esgotam no relato autobiográfico, apostando, também, em diferentes estratégias de ficcionalização. Na obra da escritora camaronense, há espaço para a dúvida, para a especulação sobre a complexidade humana exploradas por meio do mergulho no mundo interior de Louise e em sua maneira como olha o que está a seu redor. Podemos pensar, então, que em Stardust há a abertura para “jogos de imaginação” do mundo interno do sujeito negro a partir da aposta na incompletude de sua representação, já que “os vazios da subjetividade” abrem-se para “múltiplas possibilidade de identificação” com os leitores.

Nesse sentido, Léonora Miano pode ajudar a pensar a escrevivência ao investir na vivência de pessoas negras e na potência imaginativa de suas múltiplas possibilidades de representação. 

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA

Falar de nós, escrevendo a vida

Por: Samara Lima

Fonte: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2022-03-17 10:39

Escrevivência, Literatura afro-brasileira, Conceição Evaristo, Estudos literários, Racismo, Subjetividade

Caroline Barbosa

 Créditos da imagem: Lebohang Kganye (Untitled, 2011)

No artigo Intelectuais escreviventes: enegrecendo os estudos literários, Lívia Natália aponta que o termo escrevivência, cunhado por Conceição Evaristo, vai além da cultura escrita por nascer do corpo, existir através da vida vivida. No entanto, ela destaca que o nascimento da narrativa a partir dessa vivência não está apoiado em uma base narcísica, pois o sujeito negro ao ficcionalizar sua experiência transborda o texto literário e atravessa as experiências do coletivo.

Ainda segundo a teórica, a narrativa da população afro-descendente não surge de um lugar autocentrado porque para este sujeito a elaboração de uma imagem de si é mediada pela opressão e o racismo, que afirmam que o sujeito negro está  “em descompasso com aquilo que se crê ser o modelo”.

Assim, a noção de escrevivência pode ser pensada como uma maneira desse sujeito forjar sua voz e apresentar a outros indivíduos esse processo de elaboração das suas vivências. Um exemplo disso dentro do texto literário ocorre quando o narrador da obra  O avesso da pele, de Jeferson Tenório, utiliza o pronome pessoal ”você” para se referir ao pai, um homem negro, mas ao mesmo tempo transborda aquela experiência individual e interpela todo um coletivo:

Você apenas pensou que havia um problema com você, mas talvez nunca tenha percebido que toda aquela vontade de ficar calado, que toda aquela vontade de permanecer quieto, pudesse ter a ver com a cor da sua pele. Que o seu receio de falar, seu receio de se expor, pudesse ter a ver com as orientações que você recebeu desde a infância: não chame a atenção dos brancos.

Assim, podemos pensar que a noção de escrevivência é um gesto maior que apenas um elemento da exacerbação das subjetividades no presente, que também atua como uma forma de resistência para resgatar o que ficou recalcado.

Texto originalmente publicado em Literatura Contemporânea - UFBA