Lílian Miranda

A imagem acima compõe um tweet original da página Musée d’Orsay (@MuseeOrsay) em 2019 na rede social X, antigo Twitter. A legenda diz: “Elle sera l’une des grandes icônes de notre prochaine exposition: le “Portrait d’une femme noire”, peint par Marie-Guillemine Benoist en 1800 ( @MuseeLouvre) vient d’être installé dans les salles du #ModèleNoir. Ouverture le 26 mars >http://bit.ly/ExpoModeleNoir.” Alguém (@Selam_S), quatro anos depois da postagem original, comenta: Her name was Madeleine, woman from Guadeloupe.

 Em Uma africana no Louvre, livro resultado da adaptação de duas conferências realizadas por Anne Lafont, historiadora e crítica de arte, a autora propõe uma “nova topografia da arte iluminista”. Comentando o quadro Portrait d’une femme noir de origem francesa que retrata uma jovem negra do século XVIII, Lafont chama a atenção para aspectos da obra que não costumavam ser tematizados na história da arte e empreende uma reflexão que sugere uma mobilidade, um deslocamento do foco de análise das investigações sobre autoria e recepção do quadro na direção de especulações sobre a modelo retratada e sua história. Esse exercício de recalibragem do olhar sugere também  “uma nova exploração dos arquivos relacionados à fatura” do quadro, uma mudança de perspectiva em relação às histórias que podem ser contadas.

Para Lafont, o quadro é interessante por “suscitar uma abordagem nova,[…] soma-se ao projeto de uma história da arte renovada pelas questões da mundialidade (conceito postulado por Edouard Glissant), bem como de uma história da África diaspórica na época do tráfico atlântico”. Para a historiografia da arte tradicional, o seio desnudo de Madeleine apontou, primeiramente,  uma pista erótica,  mas ao comentar acerca das Signares (senhoras) – mulheres negras mestiças senegalesas com condições financeiras abundantes, representadas em pinturas do século XIX, normalmente muito bem vestidas -, Lafont pontua que o amontoado de tecidos seriam um indicativo de status social,  enquanto os seios à mostra, ao contrário, revelam a função de escravizada. Ambas as representações deixam ver aspectos historiográficos de uma época e as diferenças que não são pontuadas comumente por termos acesso a uma história homogeneizada que encara negros africanos de forma única.

Embora a autora faça esse exercício no campo das artes plásticas, é possível pensar um deslocamento semelhante no modo de a literatura contemporânea lidar com as histórias que não foram contadas.

Na última segunda-feira, dia 06 de novembro, o Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (Muncab) em Salvador reabriu suas portas com a exposição “Um defeito de cor”, que contou com a curadoria de Ana Maria Gonçalves e se baseia na trajetória de vida de Kehinde ou Luisa Mahin, a personagem principal do romance. Em consonância com as comemorações do novembro negro e numa cidade cujo slogan a identifica como uma capital afro, a exposição valoriza projetos de artistas negros e a cultura afro-brasileira, espalhando pelo espaço do museu trechos do livro que são associados a trabalhos que versam sobre a ancestralidade e a religiosidade afro-brasileiras. Em uma das salas, uma linha do tempo conta resumidamente datas e eventos que compuseram uma sequência de revoltas ocorridas em território baiano e que estão embrenhados à vida de Kehinde na narrativa de Gonçalves.

A história de Kehinde em forma de exposição chegou ao museu acompanhada de uma roda de conversa com a autora do livro. Gonçalves afirmou que não importa que não haja documentos que comprovem a existência histórica de Luisa Mahin, pois Kehinde ganha vida na ficção e direito a compor também, por meio da literatura, parte da História que nos foi negada, assim como o retrato da jovem no Louvre, que se reinscreve no quadro: Madeleine, de Guadalupe.