Lílian Miranda

Créditos da imagem: FREEDOM OR SLAVERY, Elizabeth Catlett, 1998
Estou cursando meu segundo semestre no mestrado e sou aluna da disciplina “Raça, Classe e Nação” oferecida pelo curso de História aqui na UFBA. No módulo atual, estamos discutindo a compreensão da raça tal como tratada nos romances do século XIX e também os entornos políticos dessas publicações.
No artigo “Raça e escravidão em memórias e romances: Brasil, C.1820-1870” de Ronald Raminelli, o autor traz para a discussão o posicionamento de políticos, intelectuais e romancistas do final do século XIX acerca da hierarquia racial e como eles se valiam das teorias raciais – ainda que muitas vezes não tivessem acesso direto a elas. Muitas vezes, suas posições estavam baseadas em boatos ou em acontecimentos – como, por exemplo, a revolução do Haiti – para sustentar suposições que davam corpo a ficções, memórias ou a textos publicados em jornais. Raminelli aprofunda a discussão do livro As vítimas-algozes (1869) de Joaquim Manuel Macedo, destacando principalmente as figuras do protagonista Simeão e do personagem pai Raiol.
A princípio, esse romance tinha como objetivo explicitar algumas ideias abolicionistas do autor. No entanto, ainda que denuncie as mazelas da escravidão, Macedo escolhe ficcionalizar o negro de forma negativa e estereotipada, defendendo que a abolição deveria ser um processo gradual, já que assim seria menos impactante para a economia brasileira. Raminelli, então, afirma:
“Macedo considerava que a ingratidão e a perversidade dos escravos “não se explicavam pela natureza da raça, o que seria um absurdo”. De tal modo, ele refutou a determinação racial, mas ao longo do romance essa negativa nem sempre está evidente, pois o autor recorreu constantemente a estereótipos e descrições negativas dos negros, fossem crioulos ou africanos. Para o autor, o cativeiro tanto pervertia os escravizados quanto vitimava seus senhores. De vítimas, os escravos se tornavam algozes […] ele pretendia atribuir à escravidão os principais males que afetavam a sociedade brasileira. Em princípio, não almejava recorrer à distinção racial para explicar a inferioridade intelectual e a perversidade dos escravizados, mas nem por isso ele deixou de externar seu evidente racismo.”
No livro, Simeão se torna vilão ao perceber que era um homem negro escravizado e que mesmo alforriado não alcançaria a liberdade plena. Essa discussão me levou de volta a Achille Mbembe. Em Crítica da razão negra, o autor postula que o negro representou “a cripta viva do capital” por ser comercializado e explorado como principal ferramenta para o desenvolvimento econômico das Américas, além de ter tido sua existência e corpo reduzidos a uma questão de cor e aparência pelo mundo euro-americano. Essa é a origem de incontáveis catástrofes que marcam a história dos negros africanos e seus descendentes.
É interessante pensar o papel não apenas de As vítimas-algozes, mas também de outros romances, considerados fundacionais, para a construção da nacionalidade brasileira e para as ideias que ajudaram a perpetrar. Muitas dessas obras não só tiveram a função de difundir entre os intelectuais e letrados da época os desejos econômicos e políticos das elites, como também ajudaram a forjar realidades que compõem o imaginário social brasileiro ainda hoje. Por exemplo, ao tratar da figura de pai Raiol, Raminelli chama a atenção para o fato de que a representação da religiosidade do personagem contribui para uma visão negativa a respeito das crenças cultuadas pelos africanos e por muitos afrodescendentes:
“Na história do Pai Raiol, o escritor asseverou que pessoas livres e escravas se dirigiam à noite para casebres sinistros, onde procuravam a cura de feitiços ou os meios de provocar o mal de seus inimigos. Aí empregavam instrumentos grosseiros, semelhantes aos usados em “festas selvagens do índio do Brasil e do negro d’África”. Para tanto, recorriam a talismãs rústicos, “símbolos ridículos”, se vestiam como sacerdotes e sacerdotisas, munidos de penachos e adornos emblemáticos. Preparavam-se no fogo ou na velha e imunda mesa de beberagem desconhecida, isto é, de infusão de raízes enjoativas. Esses sacerdotes se rompiam em danças frenéticas, convulsões, contorções e danças do demônio. Somente depois, eles voltavam para anunciar a chegada do espírito, “deus do feitiço”. Iniciava-se então a cura dos doentes, mas o “bacanal” somente se completava com os tormentos das iniciações, concessão de remédios e “segredos de feitiçaria”. Aguardentes e delírios ativavam as chamas “infernais das imaginações depravadas, a luxúria infrene, feroz, torpíssima quase sempre desvergonhada se ostenta”.
Assim, ainda que seja possível encontrar hoje, em muitos discursos, revisões e releituras das representações associadas às identidades negras, acho necessário também considerar que obras como, por exemplo, o romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, publicado em 1859, ficaram, durante muitos anos, relegadas ao silêncio e à margem. Neste contexto, acredito, então, que o romance de Ana Gonçalves, Um defeito de cor, objeto de minha pesquisa, tematiza todo o contexto das representações da negritude de um outro ponto de vista, como já tematizei em outro post, ao citar, por exemplo, rituais religiosos de origem africana sem o traço demonizador ou a bestialidade tão presente nas discussões empreendidas por alguns autores do século XIX. Assim, obras como as de Firmina dos Reis e Gonçalves são importantes para entender as demandas políticas de nosso presente e nos fazem pensar a literatura como um discurso que também cria representações e representatividade.