Caroline Barbosa

Créditos da imagem:  “O concreto que evapora”, de Manuela Navas (2022)

No artigo “Vênus em dois atos”, Saidiya Hartman expõe o que chama de “ética da representação histórica”. Com a expressão, a autora deseja problematizar o difícil equilíbrio entre as poucas informações documentadas sobre a vida dos sujeitos investigados e a liberdade concedida pela fabulação.

Em um dos capítulos de Vidas rebeldes, belos experimentos, Hartman apresenta a história de Mattie, uma adolescente negra que sai da Virgínia para Nova York em busca de novas possibilidades de vida no começo do século XX. Na nova cidade, encontra apenas trabalhos domésticos e faz amizade com um jovem mais velho que se apresenta como uma maneira de lidar com o desgosto pela ausência de oportunidades e de dar voz aos seus desejos.

Hartman, a partir dos documentos encontrados acerca da vida de Mattie, não busca estabelecer um juízo de valor acerca das suas ações e nem retirar a responsabilidade dos homens com os quais ela se relacionou. A historiadora aposta na complexidade, no questionamento e na parca liberdade que a menina podia ser permitir em um contexto no qual as mulheres negras tinham sua subjetividade negada e sua sexualidade objetificada.

No autos de Bedford Hills, um reformatório feminino do estado de Nova York, Mattie aparece apenas como uma jovem que roubou a sua vizinha. Ao estabelecer uma investigação detalhada acerca de outros documentos da vida de Mattie e fazendo uso da fabulação crítica, Hartman compõe uma contranarrativa que respeita o “ruído negro” que se faz presente na vida de Mattie, assim como na de todo um coletivo de meninas negras que tiveram suas vidas silenciadas.

Dessa forma, a historiadora busca reconfigurar estereótipos negativos sobre a experiência de mulheres negras e respeitar sua subjetividade ao mesmo tempo em que não pretende preencher lacunas sobre o que é ser uma delas ou usar sua voz como poder autoritário para deliberar sobre a vida dos sujeitos negros.

Movimento similar pode ser observado no romance Garota, mulher, outras, de Bernardine Evaristo. Elaborado a partir de capítulos que parecem pequenos contos sobre a vida de personagens negras, a obra aposta na complexidade da vivência desses sujeitos sem buscar uma narrativa única do que é ser mulher negra.

Evaristo não deixa de lidar com uma dimensão coletiva ao propor um movimento pendular entre a subjetividade particular de suas personagens e o coro de um coletivo feminino. Uma jovem mulher negra que conseguiu alcançar a universidade, mesmo com todas as dificuldades, não pensa da mesma forma que a mãe, também uma mulher negra, que saiu da Nigéria para dar melhores condições para a filha. Uma dramaturga negra lésbica não compactua com a amiga negra sobre o feminismo. A filha de uma delas acha que a mãe “ficou muito esnobe com os colegas de teatro que continuam na luta, como se ela sozinha tivesse descoberto o segredo do sucesso”.  

A partir do investimento na individualidade de cada personagem, a autora elabora um cenário amplo sobre as relações entre cada uma de suas personagens e a diversidade identitária de tantos sujeitos. Esse movimento tanto na história quanto na literatura exige de seus produtores um trabalho de questionamento constante e de abandono de certezas. Para minha pesquisa de doutorado, que se inicia agora, interessam tanto a fabulação crítica como a escrevivência como tentativas de especular sobre a tensão entre ficção e fato e a discussão da forma como contribuem para uma “ética da representação”.