Lílian Miranda
Créditos da imagem: ‘bona’ (2015). By Zanele Muholi
Em seu trabalho de investigação, o professor e historiador norte-americano Robert Krueger mapeia o que chama por slave narratives, no contexto estadunidense e brasileiro. Ao rememorar suas aulas, ministradas no programa de Pós-graduação em História da Ufba em 2024, quero recuperar neste post, algumas de suas reflexões acerca da alfabetização de pessoas escravizadas nos Estados Unidos entre os séculos XVIII e XIX.
Sua investigação, baseia-se em fontes primárias, em narrativas produzidas pelos próprios escravizados, para concluir que nos Estados Unidos os relatos sobre a plantation aparecem em quantidade maior que no Brasil, visto que lá, a proibição de alfabetização dos escravizados não aconteceu em todos os estados. Segundo Krueger, além disso, algumas igrejas que seguiam a religião cristã protestante exerceram importante papel na escolarização dos escravizados por meio das Escolas Bíblicas Dominicais e dos missionários ingleses interessados em seus “catecismos de escravos” a fim de torná-los leitores da bíblia. A alfabetização para esse fim, impulsionou também o registro de diários, textos autobiográficos, testamentos e outros documentos do gênero.
Enquanto isso, no Brasil, nem os escravistas nem a igreja católica preconizavam a alfabetização ou qualquer nível de instrução formal para escravizados. Sendo assim, registros documentais de escravizados no Brasil costumam estar relacionados a outros tipos de documentos e os relatos – que muitas vezes aparecem como depoimentos oficiais – foram registrados por autoridades ou outras pessoas não-escravizadas. Ainda que as exceções existam, fazem parte de uma porcentagem irrisória, sugere Krueger. Considerando esse argumento, a existência de um registro como a carta de Kehinde em Um defeito de cor, seria uma dessas exceções no limiar de sua impossibilidade.
Ana Maria Gonçalves, ao ficcionalizar o prólogo de Um defeito de cor, parece conversar com essa realidade da ausência de regsitros documentais feitos pelos próprios escravizados. Ai, a narradora revela encontrar por acaso um manuscrito escrito em português antigo, que é o próprio livro que vamos começar a ler. A escolha por uma narradora como Kehinde e a invenção de um manuscrito encontrado escancaram, portanto, a escassez de documentos que registram a vida cotidiana dos escravizados. Ao mesmo tempo, o arquivo inventado ganha força, pulsão de vida, e passa a ser motivo de interesse que se concretiza nas perguntas feitas à autora em entrevistas e eventos: “mas e esses manuscritos? Onde estão agora?”
Até mesmo portais de notícias comentam o manuscrito como um documento verdadeiro que dá origem à obra. É possível ler essa interpretação como um desejo urgente de encontrar dados concretos por trás do texto porque não só sabemos que por muito tempo a história oficial recalcou o conhecimento sobre a revolta dos malês como também não é comum encontrar na literatura brasileira e tampouco na historiografia oficial, personagens que contam suas próprias histórias.
Em Scenes of Sujection, Saidyia Hartman utiliza um conjunto de documentos, incluindo narrativas de escravizados, diários de plantações, letras de músicas populares, cartilhas de libertos e processos judiciais. No livro, a autora vai delinear como os elementos do período escravista estruturam a sociedade norte-americana e mantêm uma lógica de funcionamento violenta e eficaz para os interesses políticos e econômicos do país. Esses registros contam com vozes autorais de negros escravizados e libertos, o que confirma os dados levantados por Krueger ao longo de seus mais de 50 anos de pesquisa acadêmica.
O que mais chama minha atenção é pensar que ambas as autoras, Hartman e Gonçalves, estão interessadas na investigação sobre as lacunas historiográficas do arquivo sobre a escravidão. De um lado Hartman examina registros que confirmam a violência sofrida pelos escravizados e suas estratégias de enfrentamento, valendo-se da fabulação crítica enquanto método, o que pode ser entendido como uma extrapolação do arquivo para além da violência imposta pela estrutura. Do outro lado, Gonçalves se vale de textos historiográficos e ficcionais para compor uma história que, apesar da referência documental de alguns trechos, se tomamos, por exemplo, como consulta uma obra como a do pesquisador brasileiro João José Reis quando discute e apresenta os episódios que envolvem os preparativos e o desenrolar da revolta dos malês, é uma história inventada, e que, ao mesmo tempo, desafia as fronteiras da ficção como parte de um movimento que deseja tornar visível e digna a história de um povo que ainda vivencia as ressonâncias da violência colonial.