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a axila de egon schiele, andré tecedeiro

Por: author

Blog: Entre Margens | Publicado em: 2026-03-21 08:00

Fotografia da minha autoria


O livro de André Tecedeiro, cujo título despertou sempre um certo fascínio em mim, veio morar cá para casa sem data para ser descoberto. Contudo, com a última semana de fevereiro a ser um pequeno caos de cansaço, precisei de recuperar energias no meio da poesia e estes versos foram, sem qualquer margem para dúvida, um grande amparo.


 encontrar o poema que temos em nós

A Axila de Egon Schiele remete-nos para um pintor austríaco e para o expressionismo, ao qual está ligado. Esta referência, como se vai percebendo ao longo da obra, não é inocente, até porque o movimento caracteriza-se, em traços gerais, por se focar numa componente subjetiva das emoções, no sentir do artista. Para além de termos poemas que parecem saídos de um quadro — ou que dão vontade de ser emoldurados num —, é notório que o autor mergulha no lado mais humano e mais íntimo das nossas almas.

Como Tecedeiro escreveu, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e este verso talvez seja tudo o que esbate a fronteira entre a leitura e a sensação de nos estarmos a ver ao espelho. Aliás, houve vários momentos em que divaguei para longe, quer por ter representados pensamentos e estados de espírito recorrentes, quer por ter encontrado e revisitado situações cravadas no meu peito — desde a urgência da escrita ao luto. É capaz de ser egocêntrico querer tanto este vínculo entre a palavra escrita e as nossas emoções, mas foi impossível passar por estes poemas sem me sentir neles, sem sentir que são, eles próprios, uma travessia de crescimento, de descoberta, de transformação.

Ao colocar-se a nu nestas linhas que vão muito além do que é visível, cujas entrelinhas trazem tantas camadas desarmantes, incentiva-nos a fazer o mesmo, mas sem que haja desconforto. Aqui, somos todos vulneráveis, observadores, curiosos; aqui, todos temos de aprender a escutar, a cuidar, a lidar com perdas, dificuldades, dúvidas e solidão. Sou capaz de ter mentido ao afirmar que não há desconforto, porque ele existe, no sentido em que o autor imprime em nós parecer crítico, uma necessidade de levantar a cabeça para ver aquilo que nos rodeia. A realidade nem sempre apazigua as nossas dores, nem sempre atenua a culpa e o desencanto, no entanto, entranha-se em cada poro, por isso, reconhecê-la pode quebrar a nossa bolha, impulsionando-nos a sentir. Assim, sem «ter medo de mexer nas zonas que outros evitam», mostra-nos que não há temas interditos.

«E ninguém o compreende
porque quanto mais urgente
a escrita
mais ilegível a letra»

Nesta obra, que compila seis capítulos, André Tecedeiro brinca com as palavras, fá-las oscilar entre a intimidade e a exposição, entre o corpo e a casa, entre o ir e o ficar (ou entre a fuga e a permanência), entre a desilusão e o querer, mas nem sempre neste laço de contrastes, muitas vezes como se fossem sequências de um mesmo passo, rituais a ocuparem o seu espaço neste palco mundano, onde há sempre algo a florescer. Sinto que o que mais me cativou na escrita do autor, para além da proximidade e do quanto consegue ser visual, foi mesmo o modo cirúrgico com que plantou cada palavra em cada um dos poemas, construindo-os de várias formas, ora breves, ora longas, sempre na medida certa para provocar reações, para retirarmos o que, de facto, precisamos.

Foi, igualmente, bonito perceber que a sua profundidade não larga a mão de uma certa utopia: ainda que consciente das sombras, não perde a oportunidade de se deslumbrar e convida-nos a fazer o mesmo, mas, não nos iludamos, basta um verso para nos puxar o tapete e deixar aquela mensagem a ressoar por tempo indefinido. Além disso, ao dar voz a um corpo que se habita e que se modifica, que se molda, como uma plasticina, às nossas múltiplas identidades, creio que formula um retrato precioso sobre diversidade.

A Axila de Egon Schiele, cujo último capítulo integra uma conversa notável entre André Tecedeiro e Laura Falé, ramifica-se, adapta-se e transforma-se. Sem o querer reduzir, é um livro sobre cuidar, nutrir e ser lar; é sobre ser o que nos veste de dentro para fora.


 notas literárias
  • Lido entre: 23 e 24 de fevereiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Banda sonora: Nada Dura Para Sempre, Dealema | Praia de Tinto, Mallina | Origami, VSP AST | Pode Alguém Ser Quem Não É?, Sérgio Godinho

‘Pequenas Tentações’: um convite para ler e reescrever as cidades

Por: Juan Sebastián Bustamante Fernández

Blog: Estado da Arte | Publicado em: 2026-03-20 16:47

É possível dizer, sem medo de errar, que as cidades definem não só o futuro de quem as habita, mas o de todo o planeta: elas são o principal motor de transformação no mundo contemporâneo. Considere, por exemplo, que as urbes abrigam cerca de 60% da população da Terra — o que é ainda mais expressivo no Brasil, onde, de acordo com o Censo 2022 do IBGE, 87,4% da população vivem em cidades1. No entanto, elas constituem também os lugares onde as lacunas sociais se tornam mais profundas, especialmente nos chamados territórios “emergentes” do Sul Global, nos quais as condições de desigualdade são alarmantes. Para se ter uma ideia: se o Brasil fosse um grupo de 100 pessoas, a metade mais pobre ficaria com, aproximadamente, apenas 2% da riqueza; situação semelhante ocorre em grande parte do Sul Global. 

Diz Oriol Bohigas (1925-2021), o arquiteto e urbanista que liderou a transformação espacial de Barcelona tendo no horizonte as Olimpíadas de 1992: “A cidade deve poder ser lida como um livro escrito pelo desenho urbano; se o design é bom, o cidadão entende seu lugar no mundo.”

Um olhar sensível, como o que salta das páginas de Pequenas tentações: cidades, arquitetura e outros passeios, de Eduardo Andrade de Carvalho, é a porta de entrada para entender por que vivemos de uma forma ou de outra em determinado lugar. A obra, recém-lançada pela BEĨ Editora, nos convida a navegar pelas urbes com mais clareza — e querer saber por que alguns conseguem “viajar” sem resistência e outros não. Afinal, por que há localidades onde nos sentimos seguros enquanto outras, de aparente semelhança, provocam um medo que nos paralisa, mesmo sem ameaças concretas à vista? Por que existem lugares nos quais sentimos um frescor no meio de verões rigorosos e, em outros, com condições climáticas parecidas, parecemos derreter? Por que em algumas cidades correm águas limpas e abundantes, enquanto, em outras, os rios foram enterrados e poluídos — sendo a água a fonte da vida ainda não substituível por qualquer tecnologia feita pela humanidade? 

Eduardo Andrade de Carvalho, autor de Pequenas tentações: cidades, arquitetura e outros passeios. Crédito: Renato Parada.

Simplicidade e força

Como arquiteto-urbanista, ao terminar a leitura do livro de Eduardo Andrade de Carvalho me pergunto: o que há de diferente nas cidades onde podemos objetivamente viver bem? As urbes que hoje conseguem se “escrever” e se “expressar” claramente para o habitante, o visitante ou o mero transeunte seguiram princípios simples, porém fortes no design e no âmbito do que deve ser priorizado: elas criaram lugares (itinerários) entre um e outro espaço (por exemplo, entre um parque e uma escola); encontraram soluções espaciais a partir do uso de dados e da compreensão profunda dos territórios (recursos próprios das abordagens da economia e das ciências sociais); transformaram o desenho urbano na escala das necessidades dos moradores, dando-lhes dignidade.

Ou seja: as boas cidades não só construíram casas, escolas, parques ou calçadas como também entenderam de que maneira as pessoas vivem em um determinado lugar, quais são suas emergências, e, com essa perspectiva, propuseram maneiras de conduzir-guiar-transportar seus cidadãos entre dois pontos — como no caso da escola e do parque, para continuarmos na mesma linha. As urbes que lidam, por exemplo, com o modo pelo qual as pessoas se deslocam facilitam as rotinas dessa população circulante quando atentam para possíveis entraves à mobilidade de tais cidadãos, priorizando a sua solução. O resultado disso são cidades fáceis de viajar, de descobrir, de “ler”; enfim, são lugares melhores para se viver.

Espaços para a democracia?

No texto “Em defesa das calçadas”, Eduardo Andrade de Carvalho escreve algo que parece óbvio, todavia frequentemente é esquecido:

Não é à toa que Jane Jacobs, no clássico e maravilhosamente bem escrito Morte e Vida de Grandes Cidades, dedica os três primeiros capítulos a calçadas e a questões da vida urbana que dependem diretamente delas: segurança, contatos e, curiosamente, assimilating children. Para Jane Jacobs, o movimento de pessoas numa calçada não é importante apenas para a segurança da rua ou para estreitar a relação entre os habitantes do mesmo bairro: a calçada — que é também um ambiente para crianças se divertirem sob o olhar de adultos — tem ainda uma função pedagógica, civilizadora.

Em muitos lugares — inclusive em São Paulo — as calçadas não são consideradas públicas e sim uma extensão de uma casa, de um edifício; ou seja, não fazem parte daquilo que constrói a cidadania, o espaço comum, o lugar compartilhado e de encontro. 

Em termos de urbanismo, uma das transformações mais emblemáticas do século 20 aconteceu exatamente em Barcelona nos anos 1990. O citado Oriol Bohigas foi o líder do desenho urbano por trás do grande projeto que abriu a cidade ao mar, trouxe equipamentos educacionais e culturais para os bairros mais distantes (e pobres) e buscou conexões ambiciosas dos centros com as periferias. Conforme mencionado antes, a pretexto dos Jogos Olímpicos de 1992, o arquiteto e urbanista colocou a metrópole catalã “na boca de todo o mundo”. Antes de assumir o cargo de Delegado de Planejamento Urbano da cidade, a partir do qual desencadeou as mudanças, quando ainda estava no Laboratório de Planejamento Urbano de Barcelona, na Universidade Politécnica da Catalunha, Oriol já refletia sobre a necessidade de tornar as cidades mais conectadas. Assim, no momento em que surgiu a oportunidade para isso, colocou em prática uma ideia profundamente simples e revolucionária: não se trata apenas de técnica ou de conhecimento; trata-se de tornar as urbes mais democráticas; de gerar espaços para a expressão da identidade coletiva (como as calçadas, aliás). 

Tal mudança não ficou apenas no discurso. Oriol implementou em Barcelona o “urbanismo de proximidade”, que, em vez de criar enormes projetos rodoviários ou construir infraestruturas monumentais, procurou responder às necessidades básicas das pessoas “de casa para fora” — para que, em seu ambiente próximo, pudessem resolver alimentação, educação, saúde, cultura, recreação e bem-estar; além disso: que isso acontecesse em territórios integrados. Dessa maneira, o desenho urbano da metrópole espanhola deixou uma lição e tanto. Transformou-se, na verdade, em valor político; foi protagonista de encontros e ressaltou o papel democrático dos espaços. 

Transformações urbanísticas em Barcelona reforçaram o papel democrático dos espaços públicos.

Derrubando muros

No design urbano, existem lugares que convidam a reflexões, por meio das quais é possível “se envolver em conversas”. Algo como um diálogo com uma cidade ocorre quando o autor de Pequenas tentações revela sua experiência ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro:

Mas a primeira impressão do paulistano que se hospeda num bairro como Copacabana, por exemplo, é que o carro não é apenas desnecessário: ele é antes de tudo um incômodo (…)

(…) Porque Copacabana tem uma densidade populacional suficiente para justificar o pequeno comércio local, aberto à rua — o que dispensa a viagem com carro a shopping centers no subúrbio.

(…) Essa população mora em edifícios geralmente com comércio no térreo, sem muros, alinhados à calçada — como acontece nas cidades mais agradáveis do mundo, como Paris e Roma. Essa relação amigável do edifício com a rua, como recomendada por Jane Jacobs em Morte e Vida de Grandes Cidades, deixa o ambiente mais vivo, mais transparente — e, portanto, mais seguro. (Ao contrário do que acontece em bairros paulistanos como o Morumbi, onde muros infinitos deixam a cidade deserta, criam becos e, claro, espaços ideais para assaltos.

É assim que, muitas vezes sem saber — para responder a modelos de desenvolvimento que não queremos ou não sabemos questionar —, afastamo-nos das “cidades ideais para viver, de referência”, colocando barreiras, colocando muros. 

Permita-me apresentar o oposto disso, recorrendo à minha trajetória profissional.

A história do Urbanismo Social começou a ser escrita em Medellín nos momentos mais difíceis — quando ela era a cidade mais violenta do planeta — e implantou em seus territórios projetos, formas de encontro e de habitar os bairros mais desiguais de um modo melhor. Restituiu dignidade. 

Alejandro Echeverri, arquiteto, designer, líder do Urbanismo Social soube — com a cumplicidade do então prefeito de Medellín, Sergio Fajardo (2004-2007) — contextualizar e inovar. Não se tratava de repetir como autômato as lições de seu professor Bohigas em uma cidade latino-americana, mas de usar o que aprendeu para enfrentar os desafios próprios do Sul e dos trópicos globais: pobreza, desigualdade, violência-tráfico de drogas, recursos públicos limitados para combater problemas, corrupção… 

A metrópole colombiana experimentou, então, uma grande mudança urbana (e cultural) por meio da implementação de projetos que buscavam conectar vários equipamentos e setores da cidade com melhorias no espaço público em ruas, encostas, praças e parques; da construção e recuperação de infraestrutura (de várias escalas) para educação, cultura, recreação e empreendedorismo; de melhorias na habitação e no habitat em áreas com riscos de deslizamentos de terra (ambientes altamente frágeis). Tudo isso, priorizando as áreas de menor índice de desenvolvimento humano que, como se sabe, usualmente também apresentam os indicadores mais assustadores de desigualdade e violência; indicadores esses, em grande medida, oriundos de décadas sem investimento sustentado; sem tratamento integral dos problemas urbanos e acesso a oportunidades. 

Pacificada, a favela Comuna 13 se tornou um dos pontos mais visitados por turistas em Medellín. Foto: Nacho Doce/Reuters.

Mais uma vez, a surpresa e a transformação de uma cidade — o desaparecimento de muros físicos e mentais — vieram graças a um desenho urbano cuidadoso e bem executado, com projetos emblemáticos e desencadeadores de mudanças, mais do que com grandes planos que, pela sua escala e afastamento, desconheciam a vida, afetos e as histórias das comunas, bairros e ruas. 

Tempos — e decisões — passaram a priorizar o cotidiano de estudantes, cuja visão se ampliou com o desaparecimento de seus muros escolares e a inclusão de espaços públicos para brincar e se encontrar. Tempos para pensar nas mulheres, sempre líderes em casa e nos bairros, em sua necessidade de socializar no espaço público, cuidar (de filhos, netos, famílias e comunidades). Bancos nos parques, creches de qualidade e oportunidades para as pessoas se tornarem empreendedoras em seu próprio bairro. Tempos para mudar a vida de centenas de milhares de jovens que queriam ir para a universidade, entretanto eram excluídos antes pelo projeto de sua cidade. Eram moradores de Medellín que não podiam ir de um lugar para outro em ruas arborizadas e seguras, mover-se de bicicleta por uma ciclovia ou fazer uso de um sistema de transporte público integrado — como os melhores do planeta — sem ter que gastar quase toda a renda de sua família apenas na tarifa; uma realidade que, com projetos de mobilidade e conectividade de grande e pequena escala, mudou em vários lugares da metrópole.

Minha experiência na Empresa de Desenvolvimento Urbano (EDU) da Prefeitura de Medellín, entre 2004 e 2007 — onde fui um jovem (e sonhador) arquiteto que trabalhou na transformação de bairros, instalações, grandes territórios, e também em ruas e “mentes” estreitas —, ensinou-me o valor político do urbanismo quando aplicado nas cidades (e não apenas teorizado ou proposto em teses ou pesquisas); quando, enfim, ele se torna desenho de qualidade voltado para as pessoas que têm mais dificuldades; aquelas que vivem nos territórios vulnerabilizados.

Um mundo em movimento?

De volta a Pequenas tentações

Doug Saunders — correspondente do jornal canadense The Globe and Mail em Londres — visitou dezesseis países, trinta cidades, pesquisou durante três anos e chegou a uma conclusão que espera não passar despercebida: o evento mais importante do século 20 está acontecendo na nossa periferia. O mundo está passando hoje, segundo Saunders, pela última grande etapa de migração humana do campo para a cidade: “nós vamos acabar este século como uma espécie completamente urbana”, escreve. Este movimento inclui dois ou três bilhões de pessoas — aproximadamente um terço da população mundial — e afetará (ou melhor: já está afetando) diretamente todos nós.

(…) Porque, para Saunders, antes de assistente social ou polícia, habitantes de uma arrival city precisam de crédito, educação, cidadania e estímulo a abrir pequenos negócios.

(…) Parla é uma cidade na Espanha que assumiu seu caráter de “cidade de chegada” e, com apoio do governo espanhol, montou uma infraestrutura para receber imigrantes marroquinos, que conseguiram abrir restaurantes, educar seus filhos entre espanhóis e se integrar socialmente. Como em qualquer cidade, o desenho urbano é fundamental para que uma comunidade de imigrantes funcione bem.

Passagens como essas da obra de Eduardo Andrade de Carvalho remetem, sem escalas, a um sem-número de questões para quem vive e se preocupa com as urbes contemporâneas. Como se sabe, o mundo está em crise, da mesma forma que as cidades (ou vice-versa): estão aí, escancaradas, as mudanças climáticas, a migração dolorosa, a exclusão, a desigualdade, a desinformação. Onde está a saída? O que fazer? 

Teddy Cruz, arquiteto e urbanista baseado na fronteira entre San Diego e Tijuana, diz que “as crises urbanas de hoje exigem novas teorias, novas formas de praticar, diferentes formas de saber e fazer”2. Da Universidade da Califórnia, com projetos pequenos, contudo fortes (sem o apoio de governos ou dos grandes setores privados), ele e os imigrantes nos mostram que há caminhos de encontro. Não basta fazer bons projetos se estão longe das pessoas. Aqueles que os “habitam” lhes darão sentido — ou não, se não houver criação coletiva. Não bastam somente discursos ou conversas: é preciso criar projetos e neles chegar a acordos e cooperações. Sua maneira de trabalhar ilumina um caminho para aquilo que o urbanismo tem potencial para ser em tempos de transformações e incertezas: uma ferramenta de mediação que universidades, especialistas e organizações públicas ou privadas podem usar. Com rigor técnico, perspicácia e capacidade de execução, esse “laboratório de soluções de fronteira” nos ensina que, mais do que respostas, precisamos renovar as questões sobre o que devemos fazer e como devemos fazer nas cidades contemporâneas, especialmente nas do Sul Global.

Capa do livro de Eduardo Andrade de Carvalho, lançado pela BEĨ Editora.

Presente e futuro

Uma cidade é um livro aberto, continuamente reescrito — sempre em construção, mudando, entregando novas histórias a quem quiser e puder “lê-la”. Suas ruas, calçadas, parques ou edifícios guardam memórias de sucessos e de fracassos em seu planejamento (ou aninhamento), de interesses imobiliários e de decisões políticas que foram tomadas. 

O livro de Eduardo Andrade de Carvalho, ao fim e ao cabo, funciona como um amigável convite para viajarmos e lermos as cidades — um passo fundamental para as transformações e mudanças que nossos tempos e problemas exigem, de modo que possamos projetar e moldar o futuro do planeta.


Juan Sebastián Bustamante Fernández é coordenador do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, arquiteto e urbanista.

Notas

  1.  Banco Mundial, 2022. ↩︎
  2.  Cf. https://cruzforman.com/filter/research ↩︎

Casas de cultura, praias e livros

Por: author

Blog: LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO | Publicado em: 2026-03-20 14:00

Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas. 
Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdidos nessa enxurrada de vídeos sufocantes que disputam incessantemente nossa atenção, e geralmente ganham, diga-se de passagem.
A questão, nos parece, está ligada à dificuldade do próprio ato criativo, fantasma que ronda a todos os que vivem para a pena, ou pior, os que vivem dela. Ferreira Gullar dizia que só podia escrever poesia quando sofria um espanto, uma espécie de súbita tomada de consciência existencial que o arrancava do embotamento cotidiano e o transportava para um estado de criação. Ora, e se não viesse o tal susto? A resposta do poeta maranhense era simples: sem susto não havia poesia. E, a nosso ver, não há como forçar a escrita de um poema, se ele não vier por seu bel prazer.
Essa reflexão, vista por outra perspectiva, só nos foi possível graças ao contato com o pensamento do autor de Dentro da noite veloz, ainda que isso tenha se dado de maneira intermediada, por meio das entrevistas do genial poeta. Ou seja, o escritor iniciante só pode começar a compreender os mistérios do ato criativo por meio do contato com a experiência de outros mais experientes, eles mesmos assombrados por esses mesmos enigmas. Isso não significa, claro, que haja uma resposta única para o processo criativo, como o mencionado espanto de Ferreira Gullar, pois existem tantas formas para esse processo quantos criadores existirem. Contudo, a compreensão e o contato com outras maneiras de produzir cria um ambiente propício para o desenvolvimento de uma percepção própria do ato criativo. 
Há muitos anos a Casa das Rosas tem sido um desses lugares em que se encontram diversos poetas, escritores, músicos, artistas, enfim, intelectuais de todo o tipo para divulgar e preservar a cultura, brasileira e internacional; um verdadeiro oásis em meio à árida “cultura” do descarte. Porém, esse lugar de celebração da paz e da civilidade não está livre de uma constante ameaça à sua existência, como vimos no aterrorizante recente caso do arquivo de Haroldo de Campos. As dezenas de manifestações públicas de repúdio à política do governo do estado de São Paulo parecem ter chegado a ouvidos moucos, se é que chegaram, pois não foram suficientes para barrar a remoção do material, motivada por razões até hoje pouco claras. 
Esse exemplo torna evidente a fragilidade da cultura em nossa sociedade, e vale ressaltar que estamos falando de um dos mais importantes centros culturais da maior cidade da América Latina. O que dizer das instituições em processo de consolidação, cuja permanência é ainda mais frágil? Por essa razão, todas as iniciativas que buscam honestamente a criação de espaços de convivência para os criadores, merecem nosso elogio pela bravura em continuar existindo nas atuais circunstâncias.
Com isso em mente, gostaríamos de chamar a atenção para um espaço que tivemos a feliz oportunidade de visitar recentemente, por ocasião de um lançamento de livro: a Casa das Culturas, sediada em um lindo casarão de Santos.¹ Antes de seguirmos adiante, no entanto, é importante deixar claro que essa instituição não se trata de um lugar ainda incipiente, mas, sim, de um elemento orgânico da vida cultural dessa cidade. Assim como a Casa das Rosas, o casarão santista já se tornou um importante ponto de encontro da intelectualidade, o que se dá, em grande medida, pela riqueza da programação cultural, organizada pelo curador da casa Flavio Viegas Amoreira — ele mesmo escritor, poeta, crítico literário e presença constante no dia a dia da instituição. 
Esse contato mais próximo com a Casa das Culturas se deu, como dissemos, por causa do lançamento de um livro, Os itálicos são meus, escrito pela importante intelectual russa Nina Berbérova e traduzido por Aurora Fornoni Bernardini, Moissei Mountian e Irineu Franco Perpétuo para a Editora Kalinka. Ficou evidente a experiência que Flavio Viegas tem com a organização de eventos desse tipo, pois ele nos acolheu de maneira muito receptiva e resolveu todas as questões com rapidez e eficiência. E, vale ressaltar, não foi o único livro lançado naquele dia, o que comprova a importância desse espaço para a cena cultural da cidade.
Foi nessa ocasião que tomei contato com a poeta Beatriz Duarte de Almeida de seus oitenta anos, que lançava suas Epifanias e utopias. Como descreve a contracapa de seu livro, a escritora está intrinsecamente ligada à literatura, graças à sua relação familiar com Sílvio de Almeida e Prisciliana Duarte de Almeida, ambos fundadores da Academia Paulista de Letras. E é possível notar essa herança literária pela naturalidade com que fluem os seus versos, cheios de imagens poéticas de memória, delicadeza e afetividade, por exemplo “A boneca cega”; além dos mais profundos em ceticismo e reflexão, como “Êxodus”. 
Outra empreitada de que tomei conhecimento nesse casarão foi Anna Costa: muito além de uma avenida, um interessante estudo de Fabiola Savioli e Alejandro Nascimento. O livro nasceu  da perplexidade dos escritores diante dessa figura que emprestava seu nome a uma importante avenida de Santos, mas que permanecia uma “ilustre desconhecida”, expressão usada pelos pesquisadores para sublinhar o esquecimento a que essa figura estava submetida. Foi a partir dessa constatação que eles resolvem dar início, ainda em 2009, a um longo processo de recuperação que culmina no lançamento da biografia de Anna Costa, ocorrido em 2025, livro que deveu muito à ajuda de Heloísa Maria Mathias Costa, responsável pela preservação do arquivo da família. Seria difícil mensurar a importância de um trabalho como esse que resgata a memória de uma figura importante e intrinsecamente ligada à história da própria cidade de Santos.
Os títulos poderiam ser multiplicados com facilidade, dada a importância da Casa das Culturas para a vida cultural santista, mas acreditamos que esses dois casos já devem ter deixado clara o potencial desses espaços de reunião e difusão da cultura nacional. Uma das mais importantes frentes de batalha contra o processo de massificação cultural a que estamos submetidos hoje. Afinal, são esses os lugares em que as pessoas podem ter contato direto com os intelectuais e suas obras, compreender melhor os temas a que se dedicam, suas perspectivas de trabalho e até mesmo conviver com essas pessoas. E é justamente por isso que a Casa das Culturas, assim como a Casa das Rosas e tantas outras instituições, se faz absolutamente necessária, pois elas permitem o fortalecimento da nossa própria cultura. Nesse sentido, poderíamos dizer que as sólidas estruturas desses casarões antigos protegem a delicada sinfonia da cultura contemporânea duradoura da constante gritaria dos vídeos curtos das redes sociais, tão vazios quanto passageiros.
1 Para os interessados em conhecer melhor o espaço, o endereço é: Rua Sete de Setembro, 49, bairro Vila Nova.

Até tu, Édouard Louis?

Por: Rascunho Curitiba-PR

Blog: Rascunho | Publicado em: 2026-03-20 12:54

No segundo semestre de 2023, durante um feriado em São Paulo, fui passear na livraria Megafauna. Saí de lá carregando alguns livros, entre eles, Lutas e metamorfoses de uma mulher e Quem matou meu pai, ambos de Édouard Louis. De volta ao hotel, minha filha não se sentiu bem, e cancelamos a saída para jantar. Passei a noite lendo Édouard Louis e terminei nocauteada.

Durante a Flip de 2024, cerca de um ano depois, estive num auditório repleto para assistir à mesa 18, Anatomia do futuro, mediada pelo Paulo Roberto Pires. Édouard Louis entrou no palco nervoso, frágil como o menino retratado em seus livros. Com o celular apoiado na palma da mão direita, leu o trecho de um de seus livros, marcando, como um maestro, o ritmo com a mão esquerda. Nas pausas, encarava a plateia com a segurança de um veterano. Terminada a mesa, lá estava eu ainda mais comovida com a fragilidade daquele rapaz, ainda mais impactada com a violência extrema do que ele nos narra, intrigada com a oscilação entre força e fragilidade demonstradas por ele ao longo daquela conversa. Li Monique se liberta pouco tempo depois e, de novo, gostei bastante, confirmando o interesse que seus livros me despertavam.

Eis que, em 1º de março último, a Folha de S. Paulo publica uma entrevista com Édouard Louis na qual ele afirma o seguinte: “Ernaux é uma grande escritora que reinventou a literatura, enquanto Ferrante está fazendo romance para adolescentes”. Pausa dramática.

Concordo que Ernaux é uma grande escritora. Discordo que tenha reinventado a literatura, mas não é dessa afirmação que desejo tratar. E, sim, do trecho: “Ferrante está fazendo romance para adolescentes”. O que me veio de imediato: esse cara não leu Elena Ferrante. O que ela escreve está longe de ser algo voltado ao público adolescente. Em seguida, o que me ocorreu foi: mas e se ela estivesse escrevendo romance para adolescentes? Isso seria um demérito?

Louis continua e entorna o caldo: “Acredito que os livros de Elena Ferrante sejam realmente ruins, mas literatura ruim tem o direito de existir. Livros ruins não impedem a existência de livros bons”. Não gostar de Ferrante me parece estranho, talvez mesmo inexplicável, mas isso não vem ao caso. O que chama a atenção é a arrogância e a grosseria do jovem autor francês, que, sem apresentar sequer um argumento que sustente a sua “crítica” de pé, desqualifica a colega italiana, autora consagrada internacionalmente, e enaltece a autora francesa que, como ele, escreve sobre a própria vida. “É que narciso acha feio o que não é espelho.” Seria essa a explicação?

“Mas, na verdade, o mundo literário tem os mesmos mecanismos de violência, exclusão, dominação e imperialismo que você encontra na economia. É exatamente a mesma coisa.” É, Édouard, aqui sou obrigada a concordar com você. Acrescentaria, porém, que a sua fala está contaminada por esse mesmo mecanismo de exclusão. Você se queixa de ataques sofridos, mas ataca e exclui uma autora mulher, seguindo a mesma cartilha. “Não julgo as pessoas com base nas tribos às quais elas parecem pertencer, por achar que isso é um dos efeitos do capitalismo.” Ué, o seu comentário sobre a Ferrante não seria um julgamento com base na tribo à qual você acredita que ela pertence?

Elena Ferrante produz má literatura, diz ele. Puxo o ar pelo nariz e solto pela boca. Pondero que talvez, quem sabe, o autor por quem eu havia me afeiçoado, não tenha dito exatamente isso. Pode ter havido um momento lost in translation durante a entrevista. Quem sabe não entendeu a pergunta formulada pelo jornalista, quem sabe o jornalista não entendeu exatamente o que ele respondeu, tirou do contexto. Mas não. Nenhuma das possibilidades de redenção aventadas me serviu de consolo.

Édouard não gosta de Ferrante. Ele tem esse direito. Daí a dizer essa quantidade de bobagens sobre a literatura de uma colega vai uma longa e tenebrosa distância. Sofreria ele do mesmo mal que Timothée Chalamet? Seria ele apenas uma celebridade mal assessorada? Um premeditado criador de polêmicas? Um egocêntrico desvairado e contraditório? Não encontro explicação razoável para que um autor desqualifique publicamente uma colega dessa maneira.

Mudar: método, um de seus livros publicado no Brasil, estava, até outro dia, no início da fila das próximas leituras. Guardei-o na estante e peguei Dias de abandono, com Elena Ferrante brilhando soberana a cada frase.

Termino com as palavras de Édouard Louis: “É sempre estranho quando as pessoas dão lições sobre o que é literatura. Ao contrário de nações autoritárias, a literatura devia ser um país sem fronteira. Na prática, porém, as pessoas criam uma polícia literária para distribuir multas e punições para quem desrespeita regras ou ultrapassa fronteiras. É exatamente como fazem os Estados autoritários”.

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Édouard Louis: o palco, a vida e a política

Por: leituras contemporâneas

Blog: Literatura Contemporânea - UFBA | Publicado em: 2026-03-19 16:34

Luana Rodrigues

Crédito da imagem: Qui a tué mon père, peça teatral encenada e escrita por Édouard Louis, dirigida por Thomas Ostermeier durante sua estreia no Théâtre de la Ville Paris, em setembro de 2020. Foto de Jean Louis Fernandez.

A peça teatral Quem matou meu pai, de Édouard Louis, dirigida por Thomas Ostermeier e encenada durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) mostra o próprio autor em cena, Louis, diante de um notebook. À sua frente, há uma poltrona vazia. A poltrona parece esperar alguém que nunca chega. Esse objeto funciona como um signo bastante concreto da presença-ausência do pai, representando o lugar simbólico em torno do qual todo o discurso da peça se organiza. O questionamento que dá título à peça não funciona exatamente como uma pergunta. Ela opera primariamente como acusação.

O texto parte de um gesto aparentemente íntimo para produzir um deslocamento político bastante claro. O pai trabalhou durante anos em empregos físicos precários no norte da França e termina a vida com sérios problemas de saúde. A narrativa, então, estabelece uma relação de causalidade entre a vida (e morte) do pai e as políticas públicas que depletam o estado de bem estar social. Essa operação se constrói por meio de um paradoxo: a relação entre pai e filho, marcada na infância de Louis por homofobia, vergonha e violência simbólica (episódios que o próprio autor já havia narrado em livros como En finir avec Eddy Bellegueule) dá lugar a uma forma tardia de ternura. O pai que antes aparecia como figura de opressão é relido como produto de um contexto social muito particular: o de homens da classe operária de pequenas cidades industriais francesas, socializados em uma cultura masculina que associa virilidade ao trabalho físico, à dureza emocional e à rejeição da homossexualidade.

Em cena, Louis assume simultaneamente as posições de narrador, personagem e autor. É o corpo do próprio escritor que aparece como suporte da memória e da acusação. Em muitos momentos, a sensação não é a de assistir a um ator interpretando um personagem ficcional. O que vemos é alguém ocupando deliberadamente uma posição discursiva bastante reconhecível: a do intelectual que saiu de uma pequena cidade operária, tornou-se escritor e retorna publicamente à própria origem para denunciar as condições sociais que marcaram aquela infância. Assim, o palco funciona como extensão do próprio livro.

Esse deslocamento aparece também na forma como Louis utiliza o corpo em cena. Há momentos em que ele parece quase confessar algo muito íntimo à plateia. Ao fundo, projeções de fotografias ampliam esse efeito documental: imagens do lugar onde cresceu, fotografias do pai e registros da infância do próprio autor. Uma imagem chama particularmente a atenção: o pai nos seus 30 e poucos anos fantasiado de mulher no carnaval e com uma expressão genuinamente feliz. Na versão brasileira do livro essa cena aparece apenas como lembrança narrada; na peça, a fotografia é projetada diretamente no palco. Essas imagens funcionam como um pequeno arquivo autobiográfico projetado durante o espetáculo.

Em cena, instala-se uma tensão entre contenção e exposição. O corpo de Louis permanece quase sempre controlado: os gestos são econômicos, os deslocamentos são raros e a voz mantém um tom baixo e regular. Essa reserva, no entanto, é atravessada por momentos em que o autor tenta, e em certa medida consegue, recriar as performances extravagantes da própria infância, aquelas coreografias e gestos que, segundo ele mesmo relata, levavam seu pai a sair de casa envergonhado pelo comportamento do filho. Nessas passagens, o corpo parece momentaneamente escapar da disciplina que domina o resto da encenação. O efeito é ambíguo: a mesma presença que se mostra controlada deixa surgir breves lampejos daquela expressividade infantil que provocava desconforto no ambiente familiar.

O espetáculo mantém uma relação bastante próxima com a narrativa que acompanha o livro. A estrutura do relato permanece em grande parte intacta, e muitos dos episódios aparecem no palco de forma semelhante à maneira como são narrados no texto. Ainda assim, a encenação dirigida por Ostermeier introduz alguns recursos que deslocam esse material para uma dimensão propriamente cênica: o uso constante do microfone, por exemplo, aproxima o espetáculo de uma tradição de teatro político em que a palavra assume um caráter público, quase de tribuna. Em outros momentos, surgem efeitos de contraste mais inesperados, como sequências de lip-sync em que Édouard Louis dubla músicas associadas ao universo pop e gay, além de uma trilha sonora de tonalidade dramática que acompanha certas passagens do relato.

Esses elementos não alteram profundamente a estrutura do texto, mas criam pequenas rupturas que reorganizam o ritmo da cena e ampliam o alcance emocional de determinados momentos, sobretudo no desfecho da peça, quando Louis passa a nomear diretamente figuras centrais da política francesa responsabilizando suas reformas sociais e trabalhistas pelo agravamento das condições de vida de trabalhadores como seu pai. Nesse sentido, a encenação parece apostar menos em uma reinvenção radical da dramaturgia e mais na combinação entre relato autobiográfico e dispositivos teatrais tradicionais, capazes de sustentar o impacto político desse momento final.

Talvez seja exatamente nessa ambiguidade que reside o interesse, e também o limite, de Quem matou meu pai. A peça oscila constantemente entre dois registros bastante diferentes. De um lado, a denúncia política que transforma a biografia de um trabalhador francês em crítica às políticas liberais implementadas nas últimas décadas. De outro, a performance autoral que coloca o próprio escritor e sua história pessoal no centro do dispositivo teatral.

Leia também

TEMPO... Alguns Conceitos. «O que é o Tempo?». A sua 'Medição'. Anos Solares e Anos Bissextos. Calendários. «RIJOMAX: O Relógio mais completo do Mundo».

Por: author

Blog: Alcança quem não cansa | Publicado em: 2026-03-19 15:12

 

 2026
28-FEVEREIRO 29-FEVEREIRO 01-MARÇO


«É preciso ser do seu tempo, se não se puder ultrapassar, prevendo ao longe a passagem da seta disparada das coisas.»

Paris, inverno de 908-910.
Aquilino Ribeiroin Alma Nacional, n° 19 de 16/VI/1910.

«O tempo, porém, corre mais depressa que um ladrão que tem medo.»
Aquilino RibeiroFilhas de Babilónia. 1920. Novelas.

«O tempo, é imperioso nas suas reformas e cria inovações que a vida e os costumes aceitam, como necessárias e irrepreensíveis.»
Camilo Castelo Branco, As Três Irmãs. 1862. Romance.   

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«..tempo é dinheiro. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo...»

https://aviagemdosargonautas.net/2017/07/11/antonio-candido-tempo-e-o-tecido-da-nossa-vida-enviado-pelo-camilo-joseph/ 

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https://dererummundi.blogspot.com/2026/02/jose-luis-santos-o-que-e-o-tempo.html 

By Carlos Fiolhais fevereiro 04, 2026 

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http://voarforadaasa.blogspot.com/2026/01/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as-vontades.html

(Desenho de Almada Negreiros)
Publicada por cid simoes 
 
http://voarforadaasa.blogspot.com/2016/06/fala-do-homem-nascido-antonio-gedeao.html
...
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
...
 

Publicada por cid simoes 
 
 

IMG_20260129_160947.jpg

IMG_20260129_160832.jpg

José Carlos Ary dos Santos, «OBRA POÉTICA (5ª edição)», Editorial «Avante!», Lisboa, 1994

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1. Calendários

http://www.mat.uc.pt/~helios/Mestre/H01orige.htm 

 

2.«Buraco no Calendário»

https://dererummundi.blogspot.com/2007/08/um-buraco-no-calendrio.html 

 

3. Anos Bissextos * Dia 29 de Fevereiro

https://dererummundi.blogspot.com/2008/02/origem-dos-anos-bissextos.html 

 

4. RIJOMAX  -- O Relógio mais completo do mundo - Patente registo nº 12931.

RIJOMAX_2020.jpg

    Documentos RIJOMAX.jpg

          Amandio Jose Ribeiro-Rijomax.jpg 

Tabuaço, 16 de Abril de 1998.

Ao abordar a "Medição ou mensuração do Tempo" é indispensável e obrigatório consultar e estudar o magistral trabalho do grande Mestre relojoeiro Senhor Amândio José Ribeiro (Pinhel, 18-11-1912 -- Tabuaço, 30-08-2002) que inventou e construiu o «RIJOMAX - O Relógio mais completo do Mundo", com programação para períodos de 6272 anos»; patente Registo nº 12931.
"Para concretizar esta obra, o seu criador consumiu milhares de horas de trabalho, desde 1945 até 1973."
 
Em 16 de Abril de 1998, viajei até à Vila de Tabuaço, com o principal propósito de conhecer pessoalmente o Sr. Amândio José Ribeiro e observar a sua obra-prima!
[RIJOMAX é o acrónimo de Ribeiro José Amândio ]. 
 
Anexo imagens da documentação que me foi gentilmente oferecida pelo Mestre, alusiva aos cálculos necessários para corrigir a diferença horária existente entre o calendário Gregoriano e o tempo Solar, bem como a enumeração das características únicas desta monumental e esplendorosa "Obra Misteriosa"!
 

«RIJOMAX - Programação para períodos de 6272 anos»

  • cada Ano Solar tem 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45 segundos;
  • ao fim de 4 anos o tempo excedente dos 365 dias será: 4 x (5h + 48m +45s) = 23 horas + 15 minutos, e cada ano bissexto é pois acrescido de um dia (o mês de Fevereiro tem 29 dias nos anos bissextos);
  • ao fim de 128 anos (32 bissextos) existe mais um dia no calendário correspondente ao acréscimo de 45 minutos em cada ano bissexto: 128/4=32; 32 x 45 minutos = 1440 min. / 60 = 24 horas. Haverá, pois, que suprimir esse dia, mas registar adicionalmente 29 minutos e 37 segundos que corresponde à diferença diária (57 + 1/3 segundos) entre o tempo solar e calendário;
  • ao fim de 6272 anos [49 períodos de 128 anos (32 anos bissextos)], o RIJOMAX terá suprimido 49 dias, mas terá contabilizado a diferença diária (57 + 1/3 segundos) entre o tempo solar e calendário que ascenderá a 24 horas, 11 minutos e 13 segundos, pelo que será suprimido um dia extra, ou seja,  Fevereiro terá 27 dias no ano 8172 (ano de 1900 d.C. + 6272).
 
«UMA OBRA MISTERIOSA:  RIJOMAX - Terra, Sol e Lua»
Equipado com vários mostradores para marcarem o movimento horário do Sol e da Lua e outros para marcarem as datas que contêm mais de 16.000 algarismos e letras.
O relógio marca segundos, minutos, 24 horas, a hora universal, a Solar, a Legal, as do Bissexto, o tempo atrasado e o avançado, suprime 24 horas de 128 Anos e conta a Era até 1.000.000 de anos sucessivos.
Marca o Nascer e o Pôr do Sol a horas regulares e com luz fornecida por corrente eléctrica, crescem e decrescem os dias, marca o dia e a noite com escala diária de quantas horas e minutos tem o dia e a noite. Marca os Equinócios, os Solstícios e as Fases da Lua com luz que recebe do dito Sol.
 
Calendários Perpétuos
Marca os anos Bissextos e comuns 30, 60, 90, 120, 150, e 180 dias da data.
Marca as semanas e os dias da semana, os meses e os dias dos meses e quantos faltam para o fim do Ano, as Estações e os dias das Estações, os Signos e os dias dos Signos, os Semestres, os Trimestres e um calendário que marca em que dia da semana começa cada mês e outro se o Ano é Bissexto, 1°, 2° ou 3° comum além do último Bissexto, as datas das fases da Lua e a mudança de tempo e ainda os números do Ciclo Solar, Áureo número, (Cyclo lunar) Epacta, letra Dominical, as Eras cronológicas, os dias da Era de Cristo, os Séculos e possui Calendários para se saber o dia da Semana de qualquer data desde o dia 1 de Janeiro do Ano 1 da era de Cristo até ao presente e futuros.
Marca os Feriados, os dias dos Santos e as Festas Móveis.
Tem sinal de Chamada, Barómetros, Termómetro e aparelho de indicar os Pontos Cardeais.
Desperta por música à escolha, por campainha e acende luz, tudo à hora desejada. Fala dizendo quantas horas são; dá uma saudação em vocabulário religioso e tem ainda um aparelho para chamar o dono da casa.
 
No decorrer da memorável e inesquecivel visita ao seu estabelecimento comercial (relojoaria e ourivesaria), o Senhor Amândio confidenciou-me:
  -- Se fosse hoje, construía o RIJOMAX com metade do peso e das dimensões!...
 
 
* * * * * * * * * *
 

O colibri, de Sandro Veronesi

Por: author

Blog: LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO | Publicado em: 2026-03-19 14:00

“Quantas pessoas estão sepultadas dentro de nós?” (p. 319)

Esta pergunta poderia resumir perfeitamente o ótimo romance O colibri, do italiano Sandro Veronesi. Esta história, que se apresenta ao leitor de maneira não linear, garantiu ao autor, o segundo na história do prêmio, a receber por duas vezes o importantíssimo Strega. O título da obra e a justificativa dele, exposta já nas primeiras páginas, não sinalizam que o apanhado deste romance seria o de uma história do luto em vida ou, talvez, de uma vívida morte. 

Na literatura contemporânea — com destaque especial para a europeia — a exploração da multiplicidade de formas dentro do gênero romance tem sido bastante comum. A plasticidade do gênero permite manifestações textuais das mais diversas e com o acréscimo rotineiro de textos da era da informação: a carta deu lugar ao e-mail; o bilhete, à mensagem de WhatsApp; e as grandes descrições que definiam algo deram lugar a uma reprodução de página de pesquisa no Google. Hoje, essa realidade não é rara nos textos que nos caem às mãos, mas muitos, sem exageros, na busca por uma pseudo-inovação, desaguam na construção bagunçada das narrativas que se fazem ou entediantes ou de compreensão difícil — sem motivo plausível ou, no pior dos casos, inexistente —, uma vez que o caos é tão nítido que não há nem mesmo alguma história a ser lida, apenas lampejos e/ou pulsações em livros que se reclamam como romances, mas sob a pecha de não terem o básico para tal: uma narrativa. Não seria surpreendente a descoberta e/ou revelação de que algumas destas histórias foram construídas com o uso do que se convencionou chamar de Inteligência Artificial. 

Em O colibri, pode-se afirmar que Sandro Veronesi “dobra a aposta” ao recorrer a uma quantidade considerável de gêneros discursivos diversos, com demarcações temporais não lineares e igualmente complexas, mas sem perder, em hora alguma, a qualidade da narrativa que se apresenta. O primeiro contato com as páginas iniciais do romance aponta para uma história que parece se tratar de um jogo de traições em que marido e mulher não se amam mutuamente e buscam este sentimento fora do laço matrimonial. Mas a história surpreende e demonstra que esse é apenas um subterfúgio para que se chegue em algo mais consistente. A ideia de traição segue pairando e assombrando a narrativa, mas não se consolida como grande argumento. Aquele ponto de partida não é o ponto de chegada. Colibri, o apelido do protagonista por ter tido uma fase na infância em que seu corpo e sua estatura eram mirrados tal como esse pássaro, também parece ser o foco central da narração, afinal é essa alcunha que intitula o romance. Esta é, no entanto, mais um dos fantasmas que pairam a história. A essa altura, parece-nos claro que a aquilo que Veronesi narra é embreado de sombras que se unem em torno da grande temática, parcamente citada, mas amplamente percebida nas minúcias: o luto. 

O colibri é, logo, uma história em que o foco recai sobre o estado em que se encontra o ser humano após perdas — especialmente mortes —, mas o faz sem o melodrama ou sem a aura sorumbática que é expediente comum em literaturas com esta abordagem. Na verdade, O colibri poderia ser facilmente definido como um romance solar,¹ em que as coisas ocultas recebem iluminação natural, permitindo, no máximo, a permanência de sombras daquilo que se constitui como algo intrínseco às histórias dos personagens lidos. O pequeno pássaro, paulatinamente, semeia pequenos traumas ao passo que tenta bater suas asas para, rapidamente, superá-los. 

“Só que, um belo dia, a mãe de Marina morreu — prematuramente, aos sessenta e seis anos, de câncer no fígado. Perfeito, diriam alguns: um novo luto para Marina, verdadeiro, real, com o qual ela poderia seguir adiante por um bom tempo, talvez até para sempre. Mas não: essa morte, a morte da única pessoa que Marina Molitor havia amado em sua vida, a dilacerou. Não houve luto, mas raiva. Como assim? Todos os sacrifícios que ela havia feito pela mãe lhe pareceram ultrajados por essa sua fuga tão covarde. Que ousadia, a dela, morrer!” (p. 123-124) 

Este é o luto mais evidente em O colibri e é contado após uma digressão do narrador ao discorrer sobre como a problemática Marina precisava do sentimento de luto para conseguir “sobreviver” à sua incansável vontade de abandonar a vida. De forma perspicaz, após toda uma lógica estabelecida para o luto que adiante se anuncia, o narrador quebra a expectativa para mostrar a exata situação de dubiedade e de conflito em que Marina, aquela personagem secundária, encontra-se. Assim como neste caso, são diversos os momentos em que a grande temática do romance — reforço, a do luto — é ofuscada pela luminosidade de um racionalismo que busca mascarar aquele sentimento que, seguindo padrões psicanalíticos, demanda um real enfrentamento para ser superado. Mas não para Marco Carrera. Para ele, o luto é superado com um movimento simples de seguir em frente, mas sabendo-se triste e com a responsabilidade sobre coisas outras que não o próprio ser e é este movimento que conduz a narrativa que temos em mãos.  Ocupando a posição de leitores, colocamo-nos como quem acompanha um amigo na luta por superar as diversas, repentinas e reiteradas perdas que assombram o narrador.  

Nesta instigante leitura, há uma problemática que pode ser confusa e que se mostra pouco proveitosa para a obra: a datação dos capítulos. Como já falamos, não se tem uma organização linear do tempo abarcado por cada partição, pois ao passo que uns dão conta de alguns meses, outros abordam acontecimentos de décadas. No entanto, essas datas que acompanham os títulos de cada divisão são praticamente insignificantes para aquilo que será lido, posto que a obra per si em seu conteúdo garante compreensão do eixo temporal em que os acontecimentos se manifestam. Trata-se de um ruído que pode conduzir a uma tentativa de traçar linhas que seriam mais trabalhosas do que reveladoras. Essa datação faz-se muito positiva, porém, quando ao final da obra se registra um tempo futuro não só para o texto, mas também para o leitor. Isso porque considerando, também, o envelhecimento desse romance, constrói-se uma história que garante não estarmos diante de uma distopia que, como muitas dentro deste escopo, tornaram-se banais diante das realidades assustadoras que assolam a humanidade diuturnamente. Ficamos, por sua via, frente a um capítulo do futuro presentificado que garantirá à obra uma maturação mesmo quando o ano de 2030 (assinalado como um dos períodos do romance) for superado. 

“O quando é o que separa a salvação da condenação: Marco Carrera nunca se fez essa pergunta enquanto não teve a resposta, e, somente por isso, ele, que desejava permanecer parado, conseguiu avançar tanto, de maneira tão dolorosa, sem desabar.” (p. 285, grifo do autor)

Neste romance, a morte é espreita, mas também, a quase todo o tempo, é objetivo. Como se fosse o mote para justificar um status inerte, a morte como foco coloca-se não somente como gerador do luto e sim como uma das engrenagens que, enferrujada e de modo ruidoso, lentamente impulsiona a vida – sem que haja um grande desabar. Uma continuidade materializada não pelo medo simples da finitude, mas pela certeza de que é com auxílio daqueles que antes partiram que a existência se consolida como tal. 

Assim, destaco que este excelente romance de leitura recomendada não responde à pergunta inicial com que abri esta resenha, mas confirma que dos vários defuntos que sepultamos dentro de nós, um deles provém de nosso próprio ser. O colibri leva-nos a um singelo voo em que o luto por nossa morte em vida precisa ser encarado. 
Autêntica Contemporânea, 2024
1 Certamente não de forma desproposital, o romance, na versão original, tem sua capa com predominância de tons amarelos. Na versão brasileira, tem-se a imagem de uma praia a partir da fotografia “Marina Ravenna”, de Luigi Ghirri.

Carolina engatinhando

Por: Rascunho Curitiba-PR

Blog: Rascunho | Publicado em: 2026-03-19 13:19

Semana passada completei 55 anos bem vividos. Bota bem vividos nisso. Comemorei, é claro. Não tirei fotos. Esqueci. A conversa estava boa demais para ser interrompida. Ficará apenas na memória. Está bom.

Poucos dias depois, recebo mensagem de M., com o presente de fotos e filmes da minha infância, achados arqueológicos da família paterna. Um dos filmes, em 8 mm, ainda não digitalizado, está intitulado “Carolina engatinhando”. Quando será que não estive? Estou. Continuo. Sempre engatinhando, quase aprendendo a caminhar. Falhando miseravelmente várias vezes.

Minha mãe contava que, em uma de nossas muitas discussões, me irritei além da conta, peguei meus bens mais valiosos e só não fugi de casa porque não alcancei a maçaneta da porta. Era muito pequena. Sigo engatinhando. E sigo em fuga.

Fico impressionada com os achados arqueológicos. Mês que vem, completam-se 12 anos da morte do Edu.

P. descreveu essas mortes próximas como dar de cara violentamente com uma porta de vidro. A porta, que você não viu, se estilhaça toda, e a gente passa muito, muito tempo tirando os caquinhos de vidro da pele machucada e sangrenta. Achei a imagem bonita. Essa porta eu vi, mas ainda assim, sangrei.

Umas fotos lindíssimas. Edu era fotógrafo, cercado de fotógrafos e cineastas. Ainda não sei bem o que fazer dessas imagens, mas farei. Elas me suscitam algo que ainda não descobri o que é. Engatinhando, estou dizendo.

Tem uma foto do Edu (que, portanto, não foi tirada por ele) com uma máquina de escrever na frente. É como eu mais me lembro, tanto dele quanto da minha mãe. As máquinas de escrever eram quase próteses deles. Depois, minha mãe com o notebook. Edu não navegou na tecnologia com tanta facilidade quanto ela, então minha memória dele congelou na máquina de escrever. Ele digitava apenas com os dois dedos indicadores e fazia isso em uma velocidade assustadora.

Minha mãe digitava com os dez dedos. Ela, na cadeira do computador, pernas em cima da mesa, o teclado apoiado nas coxas. Um equilíbrio frágil. Equilíbrio frágil define todos nós, creio. Quase caindo tudo, ela, cadeira, teclado, café, gato, papel, caneta bic. Nunca caía.

Quando eu era menina, me colocaram em uma aula de datilografia. Máquinas de escrever de tecla dura, daquelas altas, esquisitas e lindas. Costumo achar o esquisito lindo. Tinha uma tábua em cima do teclado, para que a gente não conseguisse ver as teclas. A professora era uma mulher horrorosa que gritava o tempo inteiro. Exigia velocidade e não admitia erros. Até hoje digito com os dez dedos sem olhar para o teclado no puro trauma. Não me serviu de absolutamente nada nessa vida. Química inorgânica, geografia do cerrado e introdução à entomologia foram mais úteis.

P. digita assim também, mas vai além. Ele digita rápido, sem olhar para o teclado, e conversa sobre outro assunto com quem está ao lado. E não erra. Dá raiva. Nunca perguntei se ele foi submetido à tortura das aulas de datilografia na infância também ou se aprendeu só na força da raiva. Temos isso em comum, ele e eu, fazemos muita coisa só com o ódio como motor. Ou por raiva ou por bragging rights. No meu caso, é 50-50.

Junto com as imagens arqueológicas, vou receber também uma máquina fotográfica Flexaret, um tripé e umas coisas que não consegui identificar via whatsapp. Vou adorar. Não faço a menor ideia do que fazer com uma Flexaret em 2026, mas mal posso esperar.

Eu, sempre tão sofrido...

Por: Rodrigo Leão

Blog: Rodrigo Leão | Publicado em: 2026-03-18 20:44

Faz tempo que não escrevo por aqui. Andei ocupado, bastante. Vocês nem imaginam! Nossa, não queiram estar na minha pele… e preencha todo o restante de umas 5 ou 6 linhas com mais lamúrias sobre como sou mais sofrido do que todos vocês.

É muito humano isso, né? Gostamos de chorar nossas pitangas, de apontar o quanto somos miseráveis e sofredores, mas somente quando essa choradeira não implica na denúncia de alguma falha. Aí a coisa muda de figura e ninguém quer ser o sofrido miserável que merece atenção.

A falta de tempo é muita ocupação, muito trabalho, virtude. A doença é uma armadilha fatídica da existência, um sofrimento injusto. A falta de dinheiro igualmente… enfim, gostamos de contar misérias, de nos pintarmos assim. É uma espécie de massagem barroca no ego. E digo barroca porque, pra quem não sabe, o estilo artístico que alçou lugar nas escolas como “arma da Igreja contra os protestantes” é cheio dessas inversões fabulosas. A morte que transfigura-se em alegria, a escuridão que valoriza a luz, o sofrimento culmina em graça.

E por falar em Igreja, foi justamente lá que me ocorreu o pensamento do qual esse texto se expande. Já notou como aquele deveria ser um espaço de humildade e recolhimento e torna-se facilmente um palco para pessoas desfilarem suas virtudes? Uma cantora que se pavoneia e coincidentemente serve apenas em datas muito especiais, com a casa cheia. Um líder de pastoral que se ouriça todo pra falar no final da missa e anunciar as conquistas de sua “equipe”. Homens e mulheres que enchem os peitos, vaidosos, por assumirem cargos de responsabilidade em algum movimento carismático.

E quem é protestante ou de qualquer outra religião nem adiante se vangloriar de não fazer parte disso aí… é humano e, portanto, está em todos os lugares, todas as religiões.

Eu já fui ateu e creio que muita gente já sabe disso. Expliquei brevemente minha conversão num vídeo lá no canal. Mas enfim, isso não importa e sim saber que um dos motivos de minha fuga da fé foi esse padrão. Passei por muitos lugares e em todos encontrava isso… Ora, se nem isso Deus consegue limitar, só pode ser um conto de fadas mesmo.

Sei que assim como eu muitos acabam se distanciando de suas práticas de fé pelos mesmos motivos. Nossa vida já é tão tomada de hipocrisia, de egoísmo, de vaidades e vilanias, ter de lidar com isso também no meu espaço de diálogo com Deus parece ser algo realmente absurdo. Melhor rezar sozinho em casa!

Há vários problemas com esse “em casa” mas não vou elaborar aqui por não ser o propósito. Pensemos por enquanto apenas no quanto o vício, a hipocrisia, aquela necessidade de exibir-se, que você vê no coleguinha todo domingo pode ser um fator edificante, de reconhecimento de sua própria miséria.

Falando como Cristão, é justamente esse o norte pessoal de nossa fé: reconhecer nossas misérias e buscar a purificação em Jesus Cristo. Creio que outras religiões tenham princípios similares. Eu sei que Fulano é vaidoso e usa a pastoral pra se promover. Sei também que Beltrana trai o marido e fica posando de santa enquanto emite seus agudos no coral. Mas pense no padre de O Poder e a Glória, de Graham Greene: covarde, bêbado, que colocou no mundo uma bastarda… mesmo sendo padre! E como poderia ser diferente? Sei que não sou melhor, por mais que eu seja tentado a achar toda vez que os vejo alçados a papeis de destaque. A miséria deles também é a minha e eu próprio tenho meus inúmeros problemas, inúmeros vícios, inúmeros pecados. Inclusive, será que presto tanta atenção por escrúpulo ou por inveja, ressentimento? O que me garante que quando vejo Fulano inflar o peito no altar não sou eu o protagonista do Subsolo de Dostoiévski?

Conviver com isso é um exercício constante de humildade, de entender que não somos melhores que ninguém. E Deus é tão perfeito que até esse detalhe ele fez questão de arquitetar. Quem já leu Santo Agostinho ou ao menos tem acompanhado nossas reflexões semanais, sabe que nada é por acaso e nada está livre da influência divina.

Um abraço e espero que tenham gostado desse texto de quaresma feito às pressas, afinal, já disse que estou sem tempo, né? Vocês nem imaginam…

O cavalo de Turim, de Béla Tarr

Por: author

Blog: LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO | Publicado em: 2026-03-18 14:00

Béla Tarr pôs fim à sua carreira do cineasta com O cavalo de Turim (2011), vencedor do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim. O filme ficou como seu testamento. Ele foi um diretor inclassificável, quase um gênero em si mesmo. Segundo o diretor estadunidense Gus Van Sant, ele era “um dos poucos diretores verdadeiramente visionários”; e a obra do húngaro também representa uma influência significativa para o próprio Van Sant. 
O cineasta húngaro geralmente evitou a causalidade e a narrativa em três atos: seus filmes oferecem mais do que histórias; são experiências que “se aproximam dos verdadeiros ritmos da vida”, como também afirma Van Sant. Eles exigem mais do espectador do que simplesmente juntar as peças dos eventos apresentados; convidam-no a assumir uma postura ativa (caso contrário, corre o risco de ficar entediado), a se abrir e se aventurar por caminhos menos conhecidos, onde a emoção surge ao abordar questões cotidianas — Ninho familiar (1979) retrata as crises familiares causadas pela escassez de moradia e O cavalo de Turim acompanha as atividades diárias de uma família em um ambiente rural, ou abordar ideias propostas pela razão, da sociologia à religião, como em A harmonia Werckmeister (2000).
Em seus filmes, o tempo adquire densidade, e os eventos e diálogos que contêm são suficientes para suscitar reflexão. O estilo de Tarr é rico em planos longos que se estendem por vários minutos; E embora por vezes percorram distâncias impressionantes, a câmara permanece frequentemente estática, como uma observadora: em A harmonia Werckmeister (2000), por exemplo, a multidão enfurecida marcha para destruir o hospital da aldeia, e o seu movimento pelas ruas é acompanhado pela câmara durante cinco minutos; em O cavalo de Turim, ele acompanha de perto os seus protagonistas enquanto se movem pelos espaços que habitam e este filme, que dura quase duas horas e meia, é composto por apenas algumas dezenas de planos. A fotografia é rica em atmosferas gélidas, em paisagens urbanas ou rurais áridas; a neblina não é incomum, e na sua última obra, o vento é uma força sobrenatural.
Descrito por Tarr como um filme “feio, longo e enfadonho”, a ideia para O cavalo de Turim surgiu em 1985, quando o cineasta assistiu a uma palestra de László Krasznahorkai, um colaborador frequente com quem escreveu cinco roteiros. No prólogo, com a tela preta, uma voz narra a experiência de Friedrich Nietzsche em 3 de janeiro de 1889, em Turim: “Ele saiu para a porta do número seis da Via Carlo Albert. Não muito longe dali, um cocheiro lutava com seu cavalo. Quando o animal se recusou a andar, o cocheiro começou a chicoteá-lo. Nietzsche se aproximou, abraçou o cavalo e começou a soluçar. Seu caseiro o levou, ele permaneceu imóvel e silencioso por dois dias até proferir suas últimas palavras.” 
O que o filósofo alemão viveu em seguida é bem conhecido (desvairado, foi cuidado pela mãe e irmãs), mas “não sabemos o que aconteceu com o cavalo…” O filme de Béla Tarr então sugere o que aconteceu após o incidente: depois de chegar ao estábulo de seu dono, o animal se recusa a comer e a “trabalhar”. Enquanto isso, o cocheiro e sua filha, que mal se falam, seguem rigorosamente uma rotina: de manhã cedo tiram água do poço, ambos tomam café, preparam a carruagem, comem suas respectivas batatas e assim por diante.

Tarr torna palpável ao espectador o peso das horas e dos dias vividos em tal rotina. A “intimidade” do lar é interrompida apenas duas vezes: a primeira por um homem cujo discurso lembra o de Nietzsche (embora Tarr acrescente um detalhe: se Deus está morto, como sugere o filósofo, tanto Ele quanto a humanidade contribuíram para a destruição do mundo); a segunda interrupção vem de um grupo de ciganos que, escandalosos e livres, deixam para a filha um livro, “a anti-Bíblia”, que registra como padres fecham igrejas porque as pessoas pecam. 
Ao longo de seis dias, recorre-se à forma inversa que segundo a Bíblia Deus seguiu para criar o mundo. Mas, longe do apocalipse espetacular proposto pelo texto sagrado, o fim do mundo, segundo Tarr, se aproxima como ele o vê na vida real: “lenta e silenciosamente”.
Com Béla Tarr, assim como com Terrence Malick, Theo Angelopoulos, Andrei Tarkovsky ou Lars von Trier, o cinema é uma ferramenta sedutora que vai além do entretenimento e se aprofunda além da superfície; é um meio fértil para convidar à reflexão sobre o sofrimento humano: com eles, o espectador se torna tanto explorador quanto filósofo. E raramente o cinema e a filosofia se encontraram de forma tão fascinante.
* Este texto é a versão livre de Béla Tarr en Morelia, publicado aqui, em Letras Libres.

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Blog: Sarau Literário | Publicado em: 2026-03-17 23:55

 O HOMEM QUE CONFUNDIU SUA AUTOFICÇÃO COM UMA AUTOBIOGRAFIA: UMA ANÁLISE DO CANCELAMENTO PÓSTUMO DE OLIVER SACKS À LUZ DA TEORIA LITERÁRIA

 

Thales Vianna Coutinho

 

Fonte: Imagem enviada pelo autor do texto.

 

Os fãs da saga “A Guerra dos Tronos” costumam alertar os leitores de última hora da seguinte forma: “não se apegue a nenhum personagem, porque daqui a pouco ele morre”. Apesar de ser um aviso bastante sensato, não previne a experiência do luto parassocial quando a profecia finalmente se cumpre. De igual forma, há dezenas de publicações em metaciência (área do conhecimento que se dedica a compreender o fazer científico) alertando que não devemos confiar cegamente em cientistas, pois muitos deles acabam se revelando como impostores. Ainda assim, quando isso finalmente acontece, não dá para evitar o sentimento de decepção e traição.

Vale, no entanto, ressaltar que vivemos em um contexto no qual a tendência ao cancelamento parece sempre estar engatilhada, de modo que qualquer mínimo movimento estranho pode disparar uma bala feroz e destrutiva. Por isso, precisamos redobrar nossa reflexão e analisar os fenômenos com bastante sensatez, para não balear alvos errados simplesmente pela ânsia por sangue.

A bomba da vez estourou em cima da reputação de um dos neurologistas mais queridos das últimas décadas: Oliver Sacks. Um cara que brindou o mundo com livros sensíveis sobre seus pacientes complexos, dando títulos icônicos às suas coletâneas de casos, sendo “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu” (lançado em 1985) a obra mais famosa.

Suas obras, marcadas pela união entre fenomenologia e medicina (Silva, 2011), ficaram conhecidas não apenas entre os profissionais de saúde, mas também entre leitores com diferentes backgrounds. Todos super interessados em ler aquelas narrativas cuidadosas, que descreviam não apenas os déficits, mas os potenciais, dos pacientes neurológicos. Não foi à toa que, no Brasil, seus livros não foram lançados pela ArtMed, ou pela Manole (importantes editoras de medicina), mas sim pela Companhia das Letras, reconhecida por seus romances e suas autobiografias.

No início de 2015 ele escreveu um texto bastante comovente, declarando que estava com metástase e já antecipando a própria morte, mas com uma visão esperançosa, análoga àquela que nutria pelos seus próprios pacientes. À época, postei um vídeo no meu Facebook, intitulado "Oliver Sacks: O Homem que foi imortalizado de três maneiras", explicando que ele deixou uma marca indelével tanto na academia (seus livros são usados rotineiramente em aulas dos cursos de saúde), na arte (suas obras foram adaptadas para o cinema e para o teatro) e no coração das pessoas (sua generosidade, toda vez que um fã o parava no meio de suas corridas no Central Park, fazia dele uma figura extremamente carismática).

Digo isso para justificar que esse texto é fruto não apenas do impacto que senti ao ler a notícia que descreverei abaixo (e as reações das pessoas a ela), mas também da admiração que sempre nutri por ele, admiração que foi tão importante para a minha própria formação. Afinal, além de ser neuropsicólogo clínico, a Psicologia Narrativa (tema que hoje abordo em diferentes ciclos, em parceria com a professora Verônica Daniel Kobs), é fortemente influenciada pela forma empática e “dickensiana” como ele descrevia os casos.

Porém, no dia 8 de dezembro de 2025, a jornalista Rachel Aviv publicou uma extensa matéria no The New Yorker, relatando informações inéditas, derivadas de entrevistas e do acesso aos diários que foram cedidos a ela pela Oliver Sacks Association. Além de um relato biográfico muito impressionante, contemplando a forma como ele encarava a própria sexualidade, as injustiças que sofreu na vida e até crises existenciais, o texto apresentou informações que abalaram muitos dos que o admiravam. Eu mesmo, num primeiro momento, fiquei chocado e tive uma discussão mais dura sobre o caso, em um grupo de colegas no Whatsapp. Mas, posso dizer que esse texto, escrito sem estar no calor do momento, funciona como uma espécie de mea culpa às críticas não necessariamente justas que fiz ao querido neurologista.

Descobrimos que, repetidas vezes, em seus diários, Oliver Sacks confessava um sentimento de culpa por ter representado seus pacientes de forma pouco fidedigna. Essas confissões se revelaram mais intensas após a publicação de "O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu", principalmente devido as profundas inconsistências envolvendo alguns casos, como o dos gêmeos autistas que ele dizia terem uma incrível habilidade matemática envolvendo números primos (algo que se revelou inverídico).

É bem verdade que, em seu livro anterior: “Tempo de Despertar” (originalmente lançado em 1973), Sacks escreve o seguinte, no prefácio à primeira edição: “Em um livro como este – a respeito de pessoas vivas – surge um problema complicado, por vezes insuperável: o de transmitir informações minuciosas sem trair o sigilo profissional e pessoal. Precisei mudar os nomes de meus pacientes, o nome e localização do hospital em que se encontraram e determinados detalhes circunstanciais. Procurei, porém, preservar o que é importante e essencial – a presença real e plena dos próprios pacientes, o sentimento de como eles vivem, como são suas personalidades, moléstias, reações – as características essenciais de sua situação singular” (Sacks, 2005, p. 15).

De fato, em nome da ética médica, esse cuidado é absolutamente indispensável. No entanto, os diários revelam que não é totalmente verdade que somente dados de identificação foram omitidos. Sob o guarda-chuva de “determinados detalhes circunstanciais”, ele omitiu informações muito importantes sobre alguns pacientes, como a ocorrência de condutas sexuais reprováveis.

Longe de ele precisar de um advogado, eu quero aqui tecer uma argumentação à luz da teoria literária, que julgo ser importante para explicar a complexidade do caso e contribuir à opinião pública. Permita-me, no entanto, começar pelo princípio.

Durante o último semestre, tive a oportunidade de participar da disciplina de “Linguagens da Alteridade”, ministrada pela professor Mail Marques de Azevedo, no programa de doutoramento em Teoria Literária da Uniandrade. Durante as aulas, discutimos o conceito de pacto autobiográfico, elaborado por Philippe Lejeune. Para ele, que tanto se debruçou sobre as estruturas das autobiografias, o leitor de uma obra estabelece uma espécie de pacto assíncrono com o autor. Em que sentido? Ele irá assumir que todas as informações dispostas no livro são verdadeiras.

Esse pacto, obviamente, tem alguns limites razoáveis. Basta dar como exemplo esse próprio momento em que você lê meu texto. A sua leitura não é objetiva! Ela está impregnada com elementos dos mais variáveis, que vão gerar uma interpretação muito distinta de algum colega seu que entre em contato com o mesmo amontoado de palavras. Isso significa que, estimulado pela minha escrita, pode ser que você sinta mais raiva, ou menos raiva, do Oliver Sacks. Esse afeto determinará se você recomendará, ou não, essa leitura a terceiros. E, para fazer isso, você recorrerá a argumentos persuasivos favoráveis, ou desfavoráveis, à “escrita do Thales”. Ou seja, o mesmo texto pode gerar visões diametralmente opostas, que serão repercutidas adiante. E tudo isso mantendo a absoluta autenticidade do relato (você será fiel à sua percepção, ao falar sobre esse texto com seus colegas).

Agora imagine que esse é um mero recorte da forma como a realidade é subjetivamente construída, e que isso se aplica a absolutamente todas as suas experiências cotidianas. Isso torna naturalmente impossível exigir que alguém seja objetivo no relato daquilo que vivenciou, dado o fato que a objetividade nunca pode ser tocada. Logo, há sim uma “cláusula” nesse pacto autobiográfico em que o leitor concorda que detalhes da obra não representam a realidade concreta. Nesse ponto, inclusive, podemos retomar as frases (já citadas, e que citarei mais adiante) pouco salientes dos prefácios de seus livros que, quase de forma envergonhada, informam que um ou outro aspecto descrito não será totalmente autêntico. Para mais esclarecimento sobre a construção subjetiva da realidade, e da própria memória, você pode ler Johnson (2025), Simpson (2023), e Lau e colaboradores (2022).

No entanto, a questão assume tons mais complexos quando a própria teoria literária contemporânea entende que a autobiografia é apenas um dos tipos de “escrita de si”, assim como a autoficção. Per Krogh Hansen (2017), em seu artigo, começa retomando a definição paradoxal de autoficção formulada por Serge Doubrovsky (“ficção de fatos estritamente reais”), assim como o conceito de “duplo contrato” (cunhado por Poul Behrendt), segundo o qual a autoficção opera simultaneamente sob as regras da comunicação factual e da ficcional. Portanto, não é exagero considerar que a autoficção desafia as teorias clássicas da ficção, criando “sítios de ficcionalização” em meio às informações concretas, ao mesmo tempo que uma tensão tanto com a teoria do pacto autobiográfico, quanto com abordagens narratológicas e pragmáticas que defendem uma separação clara entre narrativas factuais e ficcionais (James, 2022).

Na verdade, concepções tradicionais de autobiografia, baseadas na ideia de um self estável e de um relato referencial transparente, tornaram-se insustentáveis diante de abordagens contemporâneas (Fonioková, 2025), justamente por aquilo que já expliquei anteriormente: uma mesma experiência gera percepções distintas, que serão relatadas de forma diferente, ainda que absolutamente sinceras. Negar isso é desconsiderar a natureza da cognição humana.

Nesse sentido, Karen Ferreira-Meyers (2025) argumenta que a autobiografia e a autoficção não devem ser tratadas como rivais, sendo que os dois devem ser compreendidos como modos distintos, porém complementares. Em seu artigo, ela cita Philippe Forest, que enxerga a autoficção como a forma “honesta” da autobiografia contemporânea, por reconhecer que nossas memórias não são infalíveis. Essa visão está alinhada com a de Schmitt (2022), para quem a tematização da falibilidade da memória é um elemento que precisa estar presente no texto autoficcional, para reforçar a instabilidade narrativa e chamar a atenção para o caráter construído da narrativa de si, sem que se estabeleça um pacto autobiográfico de verdade. Por isso, em seu artigo Fonioková (2025) considera que há necessidade de uma sinalização explícita da intenção autoficcional, de forma que ela anuncie a presença da invenção.

Voltando à matéria de Rachel Aviv, podemos contemplar a correspondência do neurologista com um dos seus irmãos, Marcus Sacks, para quem enviou o exemplar de seu famoso livro de 1985, e disse algo como "essas narrativas peculiares - meio relato, meio imaginação, meio ciência, meio fábula, mas com uma fidelidade própria - são o que eu faço, basicamente, para afastar meus demônios do tédio, da solidão e do desespero".

De fato, no prefácio do livro ele escreve: “O científico e o romântico, nessas esferas, imploram para ficar juntos — Luria gostava de falar em "ciência romântica". Eles se encontram na intersecção de fato e fábula, a intersecção que caracteriza (como fiz em meu livro Tempo de Despertar) as vidas dos pacientes aqui narradas” (Sacks, 2003, p. 05). O problema é que parece ter entrado em ação o fenômeno da “morte do autor”, cunhado por Roland Barthes, segundo o qual a intenção do autor não conta para a apreciação do leitor sobre a obra (Barthes, 1977).

A evidência principal disso é que, em 2017, o crítico Robert McCrum publicou no The Guardian uma lista com os 100 melhores livros da categoria não-ficção de todos os tempos, na qual "O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu" ocupa a posição 12, ao lado de obras como "O Gene Egoísta" (de Richard Dawkins) e "A Estrutura das Revoluções Científicas" (de Thomas Khun). Ou seja, podemos até dizer que Oliver Sacks não tornou tão saliente essa sua declaração de que nem tudo ali era verdade, que está no meio de outras tantas coisas mais interessantes do seu livro. Mas, não é possível afirmar que ele tenha sido totalmente desonesto com o leitor.

É importante também ter em mente que Serge Doubrovsky cunhou o neologismo autoficção somente em 1977. Mas, à época, ainda não era um gênero tão conhecido quanto hoje, em que temos até prêmio Nobel vinculado a ele (como Annie Ernaux). Isso permite conjecturar que Oliver Sacks, não estando familiarizado com o conceito, pode não ter sido tão claro quanto aos elementos ficcionais de seus casos clínicos por medo de que eles fossem mal recebidos pelo público. No entanto, será que esse receio, se verdadeiro, procede?

De acordo com Effe & Gibbons (2022), os leitores possuem sim expectativas distintas ao ler textos factuais e ficcionais, e que a autoficção explora deliberadamente essa duplicidade, produzindo um modo específico de leitura caracterizado por oscilação, combinação ou tensão entre pactos de leitura autobiográfico e ficcional. Ainda, Gibbons (2022) propõe um modelo cognitivo teórico em que, ao ler autoficção, o leitor constrói múltiplos mundos mentais: um texto-mundo interpretado como autobiográfico, e outro como ficcional. Portanto, a leitura da autoficção não consiste em uma simples alternância entre “fato” e “ficção”, mas em um processo cognitivo interconectado e dinâmico.

Porém, apesar das diferenças em termos de expectativa, a resposta a essa pergunta parece vir de Ghasseminejad (2025a, 2025b), que investigou como leitores reais percebem a ficcionalidade e a não ficcionalidade em textos híbridos. Identificou-se que, mesmo quando os leitores reconhecem elementos possivelmente inventados, a força expressiva da narrativa gera um sentimento de “verdade experiencial”, levando-os a aceitar o texto como autêntico. Talvez, se soubesse dessa informação, Oliver Sacks ficasse mais tranquilo para brandar aos quatro ventos o quanto adulterou a realidade na descrição de seus casos clínicos.

Em determinado momento, Sacks chega a perguntar a Lawrence Weschler, seu então biógrafo, se estava cometendo um erro ao descrever de forma deliberadamente fantasiosa as experiências que teve com seus pacientes, ao que seu colega o encorajou a continuar fazendo isso, devido à liberdade de escritor. De fato, alguns autores sustentam que a autoficção oferece maior liberdade criativa do que a autobiografia (Jassim & Mozahem, 2025).

Na realidade, de acordo com Hansen (2017), a autoficção constitui um caso-limite para as teorias tradicionais de narrador não confiável, sustentando que, ao borrar deliberadamente as fronteiras entre autor, narrador e personagem, a autoficção torna-se propensa à não confiabilidade autoral, mesmo quando não há intenção explícita de enganar o leitor. Portanto, a autoficção é, em si, um gênero estruturalmente não confiável, pois reivindica simultaneamente verdade factual e liberdade ficcional.

Mas, será que essa não-confiabilidade do autor compromete o valor da descrição dos casos, como tantos algozes de Oliver Sacks estão dizendo por aí, nos últimos dias?

Lembre-se de que estamos falando de uma produção que é amplamente usada em cursos de medicina e psicologia para desenvolver o raciocínio clínico dos futuros profissionais. Hoje em dia, no entanto, as bases de dados de artigos científicos estão repletas de evidências mostrando como personagens absolutamente ficcionais (não apenas parcialmente) podem ser utilizados para ilustrar fenômenos clínicos reais.

De Anakin Skywalker (da Rocha et al, 2012) a Eric Cartman (Yalch, 2016), passando por trabalhos que eu mesmo orientei e que apresentei durante o XVII Seminário de Pesquisa/ IX Seminário de Teses e Dissertações em Andamento, em que algumas alunas (respectivamente, Luciana Silveira Ravani Chavito e Sarah Ferreira) analisaram à luz da neuropsicologia personagens como Pinnochio, de Carlo Collodi, e Charlie Gordon, de Daniel Keyes, fica demonstrado que usar a ficção para treinar a realidade não apenas é possível, como incentivado, em diferentes partes do mundo.

No entanto, esse sentimento de que “a culpa tem sido muito maior”, que considera uma “criminalidade hedionda” e que duvida da própria capacidade de descrever com precisão os casos que atendia, mostram que Oliver Sacks estava sob forte efeito da ‘culpa deontológica’, um fenômeno caracterizado pela tendência a se penitenciar por violar um código moral interno mesmo sem ter lesado objetivamente ninguém (Mancini, 2021). Fazendo um paralelo com outro de seus livros, parece que ele foi “Um Neurologista em Marte”, pois viveu uma guerra interna durante muitos anos, que certamente potencializou o seu sofrimento mental.

No entanto, não podemos ser anacrônicos. Oliver Sacks não deve ser punido por algo que desconhecia. É bem possível que ele tenha sofrido o que sofreu por ignorância quanto aos gêneros textuais, que sequer estavam estabelecidos à sua época (ao bem da verdade, ainda não estão!). Pode ser que, por não saber a diferença entre autobiografia e autoficção, omitiu aspectos importantes que, na verdade, não fariam diferença na apreciação artística ou científica de suas obras. Hoje, em pleno 2025, outras pessoas que desconhecem essa diferença atiram pedras no autor, sem saber que, no fim das contas, os casos clínicos descritos por Oliver Sacks, independente do nível de ficção impregnado neles, são imortais na academia, na arte e no cérebro (“coração”) das pessoas. Vida longa à autoficção do grande Oliver Sacks!

 

Referências

Barthes, R. (1977). The death of the author, 1968. na.

da Rocha, F. F., Malloy-Diniz, L., & Corrêa, H. (2012). Revisiting the Anakin Skywalker diagnostic: transcending the diagnostic criteria. Psychiatry research, 198(1), 179-180.

Effe, A., & Gibbons, A. (2022). A cognitive perspective on autofictional writing, texts, and reading. In The Autofictional: Approaches, Affordances, Forms (pp. 61-81). Cham: Springer International Publishing.

Effe, A. (2025). Developments in autofictional genre signals: Nouns, pronouns and authorial attachment. Language and Literature, 34(2), 207-227.

Ferreira-Meyers, K. (2015). Autobiography and autofiction: No need to fight for a place in the limelight, there is space enough for both of these concepts. Writing the self: Essays on autobiography and autofiction, 203-18.

Fonioková, Z. (2025). The Changing Ways of Writing and Reading Autobiography and Autofiction: Self as Performance in Jan Němec's Ways of Writing about Love. Partial Answers: Journal of Literature and the History of Ideas, 23(2), 249-267.

Ghasseminejad, M. (2025a). The power of perception: The influence of fictionality on the creation of storyworld. Storyworld Possible Selves and Narrative Intersubjectivity, 96, 65.

Ghasseminejad, M. (2025b). Real readers and James Frey’s A Million Little Pieces: The mediating role of authenticity on perceived non-fictionality. Narrative Works, 13(2), 38-56.

Gibbons, A. (2022). A cognitive model of reading autofiction. English studies, 103(3), 471-493.

Hansen, P. K. (2017). Autofiction and authorial unreliable narration. Emerging vectors of narratology, 57, 47.

James, A. (2022). The fictional in autofiction. In The Autofictional: Approaches, Affordances, Forms (pp. 41-60). Cham: Springer International Publishing.

Jassim, S. A., & Mozahem, M. W. (2025). Fictionalizing Memoirs: A Study of Autofiction in Jenny Offill’s Weather. Journal of Language Studies Vol, 9(3 Part 3), 228-246.

Johnson, M. K. (2025). Reflecting on the origins of subjective experience. Annual Review of Psychology, 76.

Lau, H., Michel, M., LeDoux, J. E., & Fleming, S. M. (2022). The mnemonic basis of subjective experience. Nature Reviews Psychology, 1(8), 479-488.

Mancini, F., & Gangemi, A. (2021). Deontological and altruistic guilt feelings: A dualistic thesis. Frontiers in psychology, 12, 651937.

Schmitt, A. (2022). The pragmatics of autofiction. In The Autofictional: Approaches, Affordances, Forms (pp. 83-99). Cham: Springer International Publishing.

Silva, S. G. D. (2011). Oliver Sacks e a" neurofenomenologia do self". Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 14, 452-471.

Simpson, S. (2023). The subjective experience of autobiographical memory. Nature Reviews Psychology, 2(6), 330-330.

Srikanth, S. (2019). Fictionality and Autofiction. Style, 53(3), 344-363.

Yalch, M. M., Vitale, E. M., & Ford, J. K. (2016). Diagnosing Cartman: Psychology students’ use of symptoms and traits to assess child antisocial behavior. Teaching of Psychology, 43(3), 227-231.

 

Links importantes

- "Oliver Sacks Put Himself Into His Case Studies. What Was the Cost?". Disponível em: https://www.newyorker.com/magazine/2025/12/15/oliver-sacks-put-himself-into-his-case-studies-what-was-the-cost?utm_source=nl&utm_brand=tny&utm_mailing=TNY_Weekly_120825&utm_campaign=aud-dev&utm_medium=email&utm_term=tny_weekly_digest&bxid=5bd6747524c17c104800dbb2&cndid=36616945&hasha=8b775cde51558abfb1c204e8a411a06b&hashb=15b411190f1b31d1e404ca4adcec582da5d8bd55&hashc=e8b53cd5d79389dd42408e878addc8022351ed3e9e8a331facd307ff936c737c&esrc=subscribe-page

- "Oliver Sacks, neurologista que virou referência mundial, mentiu sobre pacientes e inventou casos". Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/oliver-sacks-neurologista-que-virou-referencia-mundial-mentiu-sobre-pacientes-e-inventou-casos/

- "The 100 best nonfiction books of all time: the full list". Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2017/dec/31/the-100-best-nonfiction-books-of-all-time-the-full-list

 

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Thales Vianna Coutinho é psicólogo, professor no Curso de Psicologia da UNIANDRADE e doutorando em Teoria Literária da UNIANDRADE.

 

 

Legado da forma

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Blog: LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO | Publicado em: 2026-03-17 14:00

Entender o ensaio, este gênero que tanto nos é caro e que, às duras penas, nos esforçamos para cultivar, talvez seja uma boa maneira de iniciar a sequência de textos que passaremos a publicar neste espaço. Isso significa, claro, revisitar o criador do gênero, Michel de Montaigne. Seus Ensaios, publicados em três volumes durante a vida, são a melhor companhia de leitura para quem ama literatura e filosofia. Montaigne escreve como quem conversa com o leitor, mostrando-se por inteiro, em uma sinceridade e franqueza que não encontramos nem mesmo entre os epistológrafos. 

Mais do que a imagem de um homem renascentista, moderno, próximo a nós, Montaigne nos legou uma forma de expressão que concorre com a metodologia, visão ou postura científica. Para a entendermos um pouco, a melhor fonte talvez seja o segundo texto do terceiro volume, intitulado “Do arrependimento”, no qual ele deixa claro não estar pintando o retrato, mas a passagem. 
O terceiro volume foi escrito muitos anos depois de a obra ter-se iniciado, o autor está mais maduro, em tempos de recapitulação da vida. Agora na velhice ele pode se conceber em uma visão panorâmica, em mais consolidados traços de caráter, e o movimento de tornar-se público por meio de sua criação, a forma do ensaio, acompanha o orgulho de mostrar-se por inteiro, “apresentar-me e mostrar-me uniformemente em tudo”, chegando a conclusões desanimadoras sobre a fase da vida em que se encontra e o ato de envelhecer, mas com um ganho: a consciência de que, a esta altura da vida, “aconteceu no interior mais ou menos como no exterior”. 

Montaigne coloca a si mesmo como objeto de conhecimento, de modo que o objeto é o próprio sujeito. E o sujeito é móvel, escorregadio, em constante mudanças, de modo que a expressão para o enunciar não cabe em um tratado filosófico, gênero tão comum na época em que escrevia. Mesmo que o homem a ser descrito seja algo já formado, ele modifica-se sem cessar, de modo que ao autor não é possível fixar o objeto, mas apenas retratar os momentos, de minuto a minuto: “Não retrato o ser. Retrato a passagem”. Nada de aristotelicamente capturar a substância de um ente, separando o acidental do que lhe subjaz. Montaigne está diante de um objeto móvel e dele só pode tirar retratos momentâneos, criando um álbum ou registro de pensamento indecisos, captando o próprio movimento. 

Diante de um objeto assim, deve-se modificar a maneira de representá-lo, apresentar uma nova maneira de abordá-lo. Por isso, já não cabe mais o tratado filosófico, a Quaestio dos escolásticos, ou qualquer forma prévia; é preciso inventar uma nova forma. Uma forma que seja como um tagarelar, na liberdade concedida aos mais velhos, pois a maneira de escrever não deve se separar daquilo que está sendo retratado. Em outras palavras, Montaigne está propondo um estreitamento quase lírico entre o significante a o significado, entre o livro e o homem, entre o objeto e a representação, entre a técnica de escrita e o conteúdo, em suma, o homem deve ser o estilo e o estilo deve ser o homem. 

É a tese defendida por Eric Auerbach no seu Mimesis: Montaigne, ao representar a si mesmo, encontrou um objeto mutável e necessitou de uma descrição que devesse representá-lo. Chama a atenção uma colocação de Auerbach, que ressaltou uma diferença entre Montaigne e outros autores: enquanto os outros querem formar o homem, o ensaísta quer relatar um homem. Isto é, ele quer retratar um ser individual e real, no plano da contingência, lembrando as observações postuladas por Lukács, que, tratando do ensaio como forma, para diferenciar o discurso conceitual do poético, diz que o objeto do primeiro é a vida, ao passo que do segundo é uma vida. Em outras palavras, Montaigne, como todo ensaísta, não se preocupa apenas com conceitos, Ideias, categorias e universais; ele quer descrever, relatar, ater-se ao indivíduo, à vida particular.  

Auerbach explora, então, a relação entre o conteúdo dos ensaios e a escrita. Destaca que na escrita de Montaigne há elipses de conectivos e dêiticos, o que confere ao discurso uma lógica diversa da lógica tradicional. Há sentenças lógicas, silogismos, mas a ordem de exposição não é linear: a conclusão, por exemplo, aparece antes das premissas. Ocorre que o objeto — o ser em constante mudança — está sendo realizado pela própria exposição. A construção do pensamento é vivaz, com sua lógica própria, exibindo elementos completivos, fazendo antecipações, distribuições, com membros sintáticos isolados, de modo a gerar a “movimentação do pensamento”. 
Se o ser é mudança, o estilo se vale de procedimentos para gerar mudança. Vale-se de proposições que vão sendo distribuídas ao longo do texto, reaparecendo sob novas luzes e com matizes semânticos, em um movimento de espiral; toca em um assunto para retomá-lo páginas depois; aforismos se misturam a definições parciais, em um texto que, na verdade, quase não tem definições; os assuntos vão sendo abandonados para se falar de assunto secundários, que depois se revelam os mais importantes; digressões e exemplos cortam o fluxo da exposição, para que depois ela seja retomada mais claramente; alusões, pressupostos, imagens descritivas, alternância de orações longas e curtas. Para esse objeto, as formulações, diz Auerbach, não se encaixam “num esquema pronto de pensamento ou discurso”, e por isso Montaigne precisa escrever sem seguir os modelos dos tratados “Construir livros sem ciência e sem arte”. Montaigne escreve com o corpo, há uma presença de um sujeito nesses movimentos, é possível testemunhar os gestos do autor, podemos depreendê-lo no campo da enunciação, como um ser que, aqui e agora, está tomando a voz com todas as características materiais de uma voz — “A vida é um movimento material e corporal”, ele afirma em outro ensaio. 

O ensaio segue um ritmo interno, não linear, e se torna um método de auscultação de si próprio, de autoexame, de observação dos movimentos internos, externando-os no plano do significante. Os teóricos do gênero estão de acordo que a essa maneira de escrever se contrapõe a certo pressuposto que impõe uma forma prévia ao objeto, um modelo do bem escrever que não leva em consideração as características do objeto. A pesquisa de Montaigne possibilitou uma concepção epistemológica completamente nova, contrapondo-se aos métodos, que nas palavras de Auerbach, “investigam o ser humano segundo um plano determinado”. 
Mas como a modernidade herdou o ensaio? Vale olharmos o que dois grandes ensaístas disseram sobre a atividade: o já referido György Lukács e Theodor Adorno. A grande questão para eles é entender a autonomia do ensaio como gênero, ambos tendo Montaigne como paradigma. Lukács foca a distinção do ensaio com a arte; Adorno, com a ciência. Afinal, não é coincidência que a época de Montaigne seja justamente aquela em que Galileu reivindicou a autonomia da ciência, destronou saberes e conhecimentos tidos como subjetivos ou imprecisos. 
O ponto de Lukács que nos interessa de perto é que ele vê o ensaio se distinguindo da poesia justamente por que a poesia lida com imagens sem extrair delas o que elas mostram, ao passo que o ensaio lida com as imagens contribuindo também com conceitos, em uma síntese traduzida pela expressão “Substância não imagética da imagem”, como uma espécie de superação da imagem, do individual e peculiar, cuja existência se realiza concretamente, diferente do mero conceitual que é abstrato e imóvel, distante da vida. 

É como se Lukács percebesse que o ensaio lida com o particular da imagem, mas busca na imagem algo para além de si, valendo-se do recurso conceitual sem abandonar a concretude. O ensaio conceitua sem abandonar a vida, da mesma maneira que Montaigne fala de um homem concreto para apresentar o homem universal. Existe em Montaigne uma falsa modéstia, que Lukács chamaria de ironia de todo ensaísta, que consiste em uma aparência de trivialidade a esconder pressupostos e sentidos latentes.

O ensaísta colhe do mundo a multiplicidade e organiza toda essa massa sob um ponto de vista, uma experiência, depurando-a em essencial. Eis uma definição de forma, que, segundo Lukács, pode ser traduzida pela imagem de um prisma a transformar todos os espectros de luz em um facho unívoco. O ensaio é como um retrato que denuncia a vida de um homem que um dia viveu de verdade, com suas luzes interiores, corporificando “a vida que se capturou de um homem, de uma época” em uma forma pessoal, mobilizando um conjunto único de procedimentos retóricos e estilísticos: “cria a partir de si mesmo todos os pressupostos para o efeito de persuasão e validade de suas visões”. Se por um lado Montaigne evidencia que constrói livros sem ciência, por outro lado ele esconde que criou a própria arte poética, uma arte do ensaio que se dá ao longo do ensaio, não como norma, mas como estrutura. 

E ele cria a verdade, não a verdade inquestionável e objetiva, mas a verdade de uma mitologia particular; o ensaísta cria a partir de si mesmo, e das coisas ele se vale como ponto de partida. O ensaísta, como já afirmava Montaigne, é um juiz de si mesmo, ele tem, para Lukács, algo em seu horizonte, ainda que lide com o aqui e o agora, com o concreto e singular, de maneira que ele sempre cria uma forma fragmentária ainda não concretizada ou consolidada, como se o ensaio fosse sempre uma espécie de precursor de algo que ainda não terminou. O ensaio para Lukács são os Parerga enquanto esperam o Mundo como vontade e representação, e é o ser precursor e fragmento o que confere liberdade ao gênero. O ensaio pode ir aonde a ciência não consegue por ser enrijecida, mas também não chega a impressionismo, pois ao mesmo tempo compartilha traços com a ciência.
Já o foco de Adorno é distinguir o ensaio como negativo da ciência. Embora ele estivesse pensando na ciência moderna, sobretudo nas teses do positivismo científico. Aliás, Adorno contrapõe o ensaio aos critérios levantados por Descartes em O discurso do método, o que mais nos aproxima de Montaigne. Seja o que for, o ensaio se distingue da ciência porque a ciência, em busca da objetividade, e tentando ao máximo apagar o subjetivo, propõe uma exposição indiferente ao objeto, um modelo de abordagem fixo e prévio, a fim de eliminar o acidental típico das formas variadas. O ensaio reclama liberdade para o espírito, não impõe uma forma prévia para falar do objeto, nem um método prévio com que dominá-lo, e se vale da experiência humana individual, experiência essa que não se deixa facilmente generalizar pela ciência, propondo justamente aquilo que escapa das “malhas do saber científico”. O ensaio destrona o método, leva em conta a não-identidade, o não radicalismo, recusa-se ao princípio e aceita o parcial diante do total. 

O ensaio suspende a concepção tradicional de verdade e de método. Busca a profundidade ao se aprofundar no objeto, sem reduzi-lo — ou deduzi-lo — a outra coisa, unificando “livremente pelo pensamento o que se encontra unido nos objetos de sua livre escolha, buscando o teor da verdade como algo histórico”. Se a ciência, a partir de Bacon, prega que a ordem das ideias é a ordem das coisas, ou seja, que o pensamento deve seguir um contínuo e que as coisas devem se submeter à ordem previa dos conceitos, o ensaio, por suas, vez, externaliza-se como antissistemático, introduzindo os conceitos tal como se apresentam, relacionando-os uns aos outros. Não há definição, porque o sentido dos conceitos se dá na relação entre eles; o sentido mais se precisa conforme os conceitos engendram relações entre si, o que explica a composição não linear, feita como uma rede intricada – ou tapete, diz Adorno. Por isso a exposição é o mais importante para o ensaio, de modo que o como chega para substituir a precisão sacrificada na delimitação do objeto. O pensamento não avança de forma uniforme, e o pensador faz de si palco da experiência, não negando, mas afirmando a subjetividade: “o ensaio procede, por assim, dizer, metodicamente sem método”. 

A ciência cai em simplificação quando nega o caráter desconcertante da coisa, o caráter contraditório ou antagônico do objeto, e abstrai em uma ordem coerente, de modo que o ensaio, respeitando a complexidade do objeto, acaba também respeitando a complexidade da realidade, não raramente tornando-se discurso contrário ao discurso dominante. O ensaio obriga a pensar a coisa com a complexidade que lhe é própria, abalando a ilusão de um mundo simples, ele não aplaina a realidade fraturada, antes, atua nessa fratura para se fazer também fragmento — isso reforça o caráter crítico do ensaio “o ensaio é a crítica da ideologia”. Não traz a última solução inquestionável sobre o mundo, apenas incertezas, formulações inseguras, porque seu movimento é o do tatear — sentido que muitos vão buscar na etimologia da palavra ensaio. Isso tudo ocorre com a consciência de que inexiste, de forma inerente, uma identidade prévia entre a exposição e o objeto, de modo que há esforço para se criar essa identidade, o que explica tanta mobilização de recursos formais e estilísticos. 

Finalmente, para encerramos e para retomarmos os traços estilísticos de Montaigne apontados por Auerbach, Adorno ainda levanta considerações sobre o aspecto lógico do ensaio. É que, adotando princípios da retórica, o ensaio se apega às associações livres, à ambiguidade das palavras e à omissão da síntese lógica, não sem pensar no ouvinte, mesclando seu teor à verdade. Com isso, “Suas transições repudiam as deduções conclusivas em favor de conexões transversais entre os elementos”, indo de encontro à lógica discursiva, mas isso não significa que seja desprovido de lógica. Vimos em Montaigne que a supressão os conectivos é uma elipse, eles estão dados, e que as posições dos silogismos e da conclusão, mesmo alterados, seguem princípios lógicos. O que ocorre é que no ensaio a lógica é apenas diferente da discursiva, “Em comparação com as formas em que um conteúdo já pronto é comunicado de modo indiferente, o ensaio é mais dinâmico do que o pensamento tradicional”.

Eis então o gênero que Montaigne nos legou, uma opção à metodologia cientifica, nova forma de expressão para a interioridade. Colher da vida e de si uma matéria que se vai formulando em texto. No nosso caso, que exercemos o ensaio crítico, as questões são as mesmas, exceto por um detalhe: nossa matéria não é diretamente a vida, mas a arte. Não diretamente, dizemos, porque, no fundo, é a vida o nosso horizonte, a coisa profunda sob a aparente atividade de se analisar uma obra de arte. 

AUERBACH, Eric: “L’humaine condition”. In: Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Trad. George Bernard Sperber e equipe Perspectiva. São Paulo: Perspectiva, 2013. 
ADORNO, Theodor: “O ensaio como forma”. In: Notas de Literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Editora 34, 2003. 
LUKÀCS, György: “Sobre a essência do ensaio: carta a Leo Popper”. In: A alma e as formas. Trad. Rainer Patriota. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. 
MONTAIGNE, Michel de: “Do arrependimento”. In: Os ensaios. Trad. Rosemary Costhek Abilio. São Paulo: Martins Fontes, 2006, vol. 3.



Leitura – “Pais Nossos” de Frederico Batista

Por: blogministeriodoslivros

Blog: Ministério dos Livros | Publicado em: 2026-03-17 10:53

Por Cátia Madeira

Mais sobre o livro AQUI

Estava em cima de uma das secretárias cá de casa e peguei-lhe por mero acaso. Não sei se foi pela fotografia da capa, onde está uma menina sentada a brincar na areia como os meus filhos gostam de fazer, se foi porque gosto destes livros pequenos, de pegar e manusear o objeto.

Li a primeira página e achei que poderia gostar. Tenho interesse genuíno em compreender a parentalidade pela perspetiva do pai. Não tanto para compreender o pai dos meus filhos, porque com esse falo bastante sobre o tema e compreendo-o lindamente; mas talvez para compreender o meu próprio pai que teve muitas dificuldades em cumprir o seu papel apesar de ter estado sempre presente.

Pareceu-me assim uma boa leitura e da primeira página deixei-me levar para as restantes. Ainda bem que o fiz.

Ao longo do livro conhecemos vários pais: de filhos planeados, de filhos imprevistos, mais velhos, mais novos, pais de duas viagens e até mães que passaram a ser pais. É-nos apresentada a perspetiva da chegada e do cuidado de um filho pelos olhos de quem fazendo tanta parte da sua conceção como a mãe, está à margem da construção daquele ser até ao momento em que respira e já pede cuidados.

É um amor que mora na expectativa, na imaginação, até que um dia, como uma luz, ganha vida e aparece de rompante para tomar conta de tudo.

O papel do pai ainda tem muito para crescer na sociedade em que vivemos, estando sempre na sombra em relação à mãe e apresentando-se como secundário o que, para quem quer estar longe, facilita, mas para aqueles que querem ser pais com pê grande, é um grande empecilho.

Um exemplo prático disso é a forma como são vividas as partilhas de custódia em caso de divorcio. Como se não bastasse o custo, para todas as partes, da quebra familiar, existe ainda um julgamento social constante que obriga a mãe a ser mais e espera que sempre menos do pai.

Todas as pontas deste livro estão entrelaçadas como malha.

Aconselho vivamente a leitura e agradeço ao Frederico, pela oferta desta perspetiva que me permitiu pensar e repensar por outros ângulos este papel tão importante na vida de cada um de nós (sejamos pais, mães ou filhos).

We will be jaguars: a memoir of my people

Por: Inês

Blog: Mar de Maio | Publicado em: 2026-03-17 10:03

Nemonte cresce junto da sua tribo, os Waorani, na floresta Amazónica do Equador. Esta é uma das últimas tribos a ser contactada por missionários nos anos 1950s. As coisas complicam-se rapidamente. Os brancos espalham poliomielite pelas tribos, levando à morte e doença de muitos que não têm qualquer tipo de resistência contra a doença. Uma tribo incontactável, que não quer ter qualquer tipo de contacto com a civilização, acaba por matar alguns dos missionários, mas Rachel, irmã de um dos mortos, decide voltar para os perdoar e tentar convencê-los a acreditar em Deus.

Desde que Nemonte é pequena, Rachel é uma personagem muito presente. Dá-lhe um nome cristão — Inés. Tenta convencer a sua família a ir à igreja a troco de roupa e medicamentos. Uma relação puramente transacional.

Até que chega o dia em que Rachel faz chegar à tribo um helicóptero com os donos de uma companhia de petróleo.

my family called me Nemonte - my true name, meaning “many stars.” And another world, where the white people watched us from the sky, the devil’s heart is black, there was something named an “oil company”, and the evangelicals called me Inés.

Na adolescência, Nemonte acaba por decidir deixar a família e ir viver com os missionários, onde vai passar por muito, incluindo abuso sexual por parte de um dos supostos “crentes em Deus”. Torna-se, ela própria, missionária em Quito.

Anos mais tarde, as companhias petrolíferas querem destruir a floresta onde Nemonte cresceu, poluem os rios, tentam obrigar pessoas que não sabem ler a assinar documentos dando-lhes as suas terras, assustam os animais. É aí que Nemonte decide regressar à floresta, não como missionária, mas como activista, lutando, não só pela floresta, mas também pela história de todas as tribos que nela vivem e que é, todos os dias, apagada por missionários a favor “da palavra de Deus.”

Nemonte junta-se com pessoas de várias tribos e com ativistas para contestar o leilão do governo de uma porção da Amazónia equatorial a companhias petrolíferas. Juntos, passam dois anos a fazer o mapeamento das terras manualmente, a tirar imagens com drones, a ouvir histórias de quem perdeu filhos por causa do peixe dos rios poluídos com petróleo. Quando o julgamento chega, estão preparados para provar que a floresta tem vida, famílias, animais selvagens, história e que, mesmo que seja difícil entendermos estas histórias, elas não são menos válidas do que as nossas. Um livraço, portanto.

people’s stories are what kept the rainforest alive. And that if the Waorani people lose their stories, then the forest will fall to the oil companies.

A história é longa, são quase 400 páginas, mas cada capítulo merece leitura e reflexão. Até que ponto temos o direito de impingir as nossas crenças aos outros? Até que ponto podemos afirmar que uma criança nascida na dita civilização é mais feliz do que uma criança nascida na floresta, rodeada de animais e de plantas, mas sem acesso à educação e cuidados de saúde (muitas vezes, providenciados por missionários a troco da crença em Deus)?

Uma história incrível que merece ser lida por todos. Infelizmente, “We will be jaguars”, que também tem o título “We will not be saved”, não está traduzido em Portugal, mas encontram facilmente, em ebook, a versão em inglês.

… Porque o que anda por aí é uma vergonhosa maneira de escrever…

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

Soube que o presidente da República pretende reabrir o debate sobre o Acordo Ortográfico de 1990.

Só quero chamar a atenção para o facto de que quando alguém tem a intenção de resolver um problema, resolve-o, não o adia, através de debates inúteis, porque é chover no molhado, é malhar em ferro frio, é repetir tudo o que já foi dito e redito. É perder tempo, e urge acabar com esta farsa, porque as crianças, que estão a ser enganadas, não merecem que as enganem per omnia saecula saeculorum…

Calendário Escolar.png

 Imagem retirada do Facebook

Marcelo Rebelo de Sousa visitará Moçambique. E Moçambique, porque preza a Língua que adoptou oficialmente, depois da Independência, não ratificou, e muito bem, algo que é irratificável. Impraticável. Inútil e essencialmente aparvalhado.

Marcelo diz querer relançar o debate sobre um acordo que mereceu o desacordo de todos os países lusófonos (exceptuando o Brasil, de onde partiu esta triste ideia).

Pedro Mexia, consultor cultural do PR, comentou que Marcelo Rebelo de Sousa tem recebido mensagens de cidadãos e instituições a contestar o acordo e que, caso Moçambique e Angola não o ratifiquem «impõem-se uma reflexão sobre a matéria, que é de competência governamental, mas o presidente não deixará de sublinhar a utilidade de reflexão». Uma atitude de quem não tem personalidade suficiente para dizer NÃO à inconstitucionalidade que a aplicação do AO90 representa.

Ora é mais do que evidente que essa reflexão já está mais do que feita.

O que é que andamos aqui todos a fazer, há tanto tempo?

Os maiores expoentes da Língua Portuguesa, brasileiros e portugueses, cidadãos comuns, professores, escritores e jornalistas não se têm cansado de expressar a repulsa que o AO90 suscita, por estar assente exclusivamente em interesses político-económicos de editores e políticos pouco escrupulosos, de um e de outro lado do Atlântico, e ser uma autêntica aberração ortográfica.

Recordemos o vaivém de Marcelo Rebelo de Sousa: em 1991 foi contra o AO90, mas em 2008, incompreensivelmente, ele que sempre lidou com a palavra escrita, manifestou-se a favor do dito acordo. Em 2014, nem foi “carne nem peixe”, admitindo na TVI, onde era comentador, que apesar de defender o AO, escrevia como sempre escreveu.

Durante a campanha eleitoral para PR, manteve o Português correcto. Contudo, não foi capaz de tomar uma posição pública que esclarecesse os portugueses quanto à sua posição.

Há pouco tempo, num ofício emanado da presidência da República, lê-se que “sem prejuízo de possíveis desenvolvimentos futuros, o presidente da República, como todas as instituições do Estado português, segue as regras do Acordo Ortográfico no exercício das suas funções”, ainda que ilegalmente e desrespeitando a Constituição da República Portuguesa.

Todos nós nos recordamos que MRS jurou, perante o País o seguinte: «Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa

Pois sendo o AO90 ilegal e inconstitucional, dizem os juristas, como poderá o presidente da República seguir as regras do acordo ortográfico sem desrespeitar a Constituição?

Congratulamo-nos que o presidente da República queira trazer à baila o acordo, mas esperamos que seja para propor ao governo a sua eliminação, sem mais demandas e demoras, pois urge repor a Língua Portuguesa nas escolas portuguesas, no funcionalismo público, nos órgãos de informação que se vergaram, sem pestanejar, ao negócio da Língua, para que a Língua retome a sua dignidade de Língua europeia e culta. 

Porque o que anda por aí… é uma vergonhosa maneira de escrever…

Isabel A. Ferreira

«Até "tu", António!» Apunhalas a Língua!

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

(Carta aberta a António Costa)

Costa.png

Imagem retirada do Facebook  

Senhor primeiro-ministro, peço desculpa pelo tratamento informal, mas foi deste modo que o imperador romano Júlio César, vítima de uma conspiração de senadores para destituí-lo do cargo, se mostrou surpreendido com a atitude do seu filho adoptivo, Marcus Brutus, quando este também o apunhalou, entre tantos outros senadores, e o imperador, já moribundo, sussurrou perplexo: «Até tu, Brutus!»

E a frase, proferida no século I A.C., arrastou-se até aos dias de hoje, para indicar surpresa quando uma pessoa trai a confiança de outra.

Naturalmente, a circunstância aqui será outra.

Contudo, temos quase todos os ingredientes deste episódio romano, para reconstruirmos um cenário idêntico, agora no século XXI d.C., quando um grupo insignificante de impatriotas decidiu APUNHALAR a Língua Oficial Portuguesa.

António Costa, primeiro-ministro de Portugal, de costas voltadas para os Portugueses, Brasileiros e Africanos (de expressão portuguesa) mais cultos, teima em continuar a impingir-nos uma ortografia que nem é carne nem peixe (desculpando-me a expressão).

Depois que o AO90 começou a ser ilegalmente aplicado (como deve saber melhor do que eu), a Língua Portuguesa transformou-se numa salada russa, que nem é Português nem acordês.

E quem tem de escrever, escreve mal uma e outra coisa: políticos, governantes, jornalistas e até professores.

É vergonhoso receber um ofício de uma autoridade ministerial dizendo que “foram compridos os pressopostos do Despacho n.º tal … e mais adiante qure o “Serviço de Proteção” e “Direção Regional”… enfim, um texto que envergonha a escadaria do Palácio de São Bento.

Poucos serão os que, em Portugal, escrevem bem em Português, ou em acordês, a mescla de uma ortografia sem pés nem cabeça, que torna a língua escrita numa vergonhosa mixórdia.

Não há ninguém em Portugal que saiba escrever acordês correCtamente, nem os próprios engendradores deste aborto ortográfico.

E todos os países a sério têm um Língua Oficial, que deve ser preservada e aplicada pelos seus representantes máximos com o máximo rigor: no mínimo, sem erros ortográficos. Já não se pede que sejam exímios escritores.  

E o vírus AO90, que atacou a Língua Portuguesa que, como sabe, é o símbolo maior da Identidade de Portugal, assim como a Bandeira Nacional e o Hino Nacional, está a enxovalhar Portugal, sem que quem tem o dever de defender esses símbolos mexa uma palha para eliminar o mal que corrói a Língua.

E ainda pior: são os próprios governantes que dão o mau exemplo, não sabendo escrever nem em Português, nem em acordês, ou devo dizer como se diz por aí: bechara-malaquês, socratês, lulês, brasileirês, ou mixordês, todos os nomes em que se transformou a nossa amada Língua Portuguesa.

Está a ver onde isto já vai…?

Nós, que temos na Língua Portuguesa o nosso instrumento de trabalho, não podemos permitir que políticos avessos à Cultura Culta desestruturem, deste modo aviltante, este símbolo maior da nossa Identidade.

E muito menos um primeiro-ministro pode andar por aí a escrever numa língua descaracterizada. Ora é uma coisa. Ora é outra. Uma língua com duas caras.

«Até “tu”, António!» Apunhalas a Língua!

O primeiro-ministro de uma Nação, que se quer culta e moderna, não pode, não deve apunhalar a Língua Portuguesa, desta maneira. 

Os Portugueses, Brasileiros e Africanos de expressão portuguesa, que não se subjugaram ao lobby político-editorial vendilhão da Língua, estão de olhos voltados para a Assembleia da República Portuguesa, esperando que os políticos cumpram o seu dever: devolvam a Portugal a sua grafia oficial, culta e europeia.

É uma vergonha o que está a passar-se na República Portuguesa, que não tem uma Língua Oficial aprumada, como o têm os restantes países europeus. Nenhum país jamais se rebaixou a tanto quanto se rebaixou Portugal.

Por alma de quem, senhor primeiro-ministro?

Isabel A. Ferreira

Esta é a ortografia oficial em "vigor" em Portugal, senhores governantes?

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

Se é, tenho a dizer que isto não é uma ortografia, é uma tortografia, feita de palavras tortas, sem sentido e rectidão, onde se ababelam as letras.

Os vocábulos que constituem o Léxico da Língua Portuguesa, da original, da verdadeira, têm dignidade. Todos eles.

E estes, os que os linguicidas inventaram e agruparam num monstro chamado AO90, além de não terem a mínima dignidade, são meras letras que se juntam e nada significam.

O que será contato? Extração? Ação? Atividades? Projetos? Exceto? Receção? Setor? Adotar? Teto? Arquiteto?

ORTOGRAFIA.png

«A aplicação do Acordo Ortográfico na administração pública. Perante isto, o poder político prefere continuar a fingir que está tudo bem. Já os defensores do acordo, em desespero de causa e reconhecendo implicitamente os danos provocados, lançam agora alertas sobre os novos erros (http://goo.gl/RzIhP2).

Depois de um processo forçado, atabalhoado e precipitado, a forma de lidar com os seus nefastos efeitos tem sido ainda pior.»

Imagens daqui: http://www.jf-areeiro.pt/

«Delírios do Acordo»

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

O que nos diz Vasco Graça Moura (na imagem) e Hugo Picado de Almeida (num texto pitoresco, uma verdadeira lição para os ignorantes que urdiram um delírio chamado AO90).

Vale a pena ler.

É lamentável que o governo português se vergue aos casteleiros e becharas e demais criaturas quejandas, e não ouça a voz dos que sabem o que dizem e por que o dizem…

Graça Moura.PNG

Texto de Hugo Picado de Almeida

«Delírios do Acordo»

É uma pena que o Acordo Ortográfico se tenha apostado em criar inimigos por toda a parte, e ninguém mais do que as próprias palavras pode desejar apanhá-lo num beco escuro, à saída de um bar numa noite de pândega bem demolhada, e numa emboscada cinematográfica enriquecê-lo com duas balas de cobre embutidas no bucho sem graça.

Já aqui falei sobre o Acordo Ortográfico, em que nada nem ninguém acordou coisa nenhuma. Isso parece-me evidente, tanto mais à luz das recentes notícias. Importa-me, agora, notar que o desacordo é mais grave do que poderá um leigo argumentar, dizendo que isso são coisas para os puristas se entreterem e os inocupados debaterem.

Podem dizê-lo e não os censuro por isso, pois que a culpa não é deles. A culpa é das mesmas gentes que compuseram e aceitaram o Acordo, esquecendo-se das origens da língua e atirando a etimologia, tão importante e tão interessante na forma como permite compreender passado e presente, o sentido das palavras e seus usos, e a racionalidade da escrita, para o caixote do lixo mais esquecido. A regra, como em tantas outras coisas, passou do perceber ao decorar.

Um arquitecto não é um arquitecto por acaso. Não é um arquitecto porque o Viriato ou o Sertório, num dia calmo em que não havia romanos para emboscar, decidiram que arquitecto soava bem com aquela que era a sua actividade, e poderíamos até felicitá-los por isso, pois assim ficariam livres outras palavras e sons para outras ocupações.

Um arquitecto é um arquitecto porque os gregos lhe chamavam arkhitektōn – como chegou aos gregos e sob essa forma já não sei, mas isso é um problema no qual não temos mão, ao contrário deste –, nascido de arkhi- (principal) e tektōn (construtor). É essa a razão pela qual o “c” faz falta antes do “t”, assinalando a filiação da palavra e também a abertura da vogal precedente, o “e”.

Oportunamente, afastava-se assim o «tecto» da «teta» (também do grego: thêta) — ou do «teto», seu sinónimo perfeito por alteração da palavra original.

O Acordo consegue, assim, a proeza de transformar o arquitecto, de construtor principal, em teta principal, e isso não nos deve passar despercebido. Afinal, faz uma pequena diferença. Eu, que tenho a teta em grande consideração, não gostaria porém de a ver desenhar uma casa. Inversamente, nunca me passaria pela cabeça fazer com o arquitecto aquilo que se pode fazer com a teta. Por respeito a ambos.

Hugo Picado de Almeida

Fonte do texto:

https://aliteracaoemh.wordpress.com/2013/04/05/delirios-do-acordo/ 

Autarcas de Oeiras aderiram ao pato, seduzidos pelo fato do AO90, feito à medida o faz-de-conta-que-sei…

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2016

Pois é bom de ver…

Eles aderem ao pato, eles fazem contatos, apresentam fatos (só resta saber se são fatos-macaco ou de linho puro) …

Eles o que mais farão?

PATO.png

Imagem retirada do Facebook

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Acordo Ortográfico: errar é da condição humana, insistir no erro é da condição insana

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

NÃO AO AO.jpeg

(Origem da imagem: Internet)

Está mais do que provado que o Acordo Ortográfico de 1990 resultou de um monumental erro humano, perpetrado por um grupo de indivíduos brasileiros e portugueses, das áreas política, editorial e livreira, devido a interesses políticos obscuros e interesses económicos vantajosos  (?) para os envolvidos.

Esses indivíduos, à revelia dos 25 pareceres técnicos negativos (contra apenas dois positivos) puseram a funcionar ilegalmente uma engrenagem que não está a resultar em parte alguma: nem no Brasil, nem em Portugal, e muito menos em Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

(A Guiné Equatorial não será para aqui chamada, uma vez que nada tem a ver com a lusofonia).

Não estando a funcionar essa engrenagem, que pretendia aproximar a escrita lusíada à escrita do Brasil (afinal, o único país lusófono que se distanciou, da matriz da língua que adoptou) desunindo-as de um modo quase babélico, que interesse há em continuar esta farsa, este negócio obscuro?

Quem está a lucrar com isto?

Os governos brasileiro e português? Os seus servidores? Os editores de um e de outro lado do Atlântico? Os que já encheram os bolsos e agora não quererem vê-los esvaziados, nem que seja para devolver a Portugal o seu mais precioso património - a Língua Portuguesa? Nem que seja para restituir a Portugal a sua Identidade Nacional, que está a esvair-se lentamente… vilmente?

Nós, os que escrevemos e para quem a Língua Portuguesa é parte da nossa vida, exigimos a anulação imediata deste Acordo Ortográfico que não tem ponta por onde se lhe pegue. Todos os que não são subservientes ao Poder, sabem da Língua Portuguesa e de leis, o dizem. 

Já estamos fartos de ver a nossa Língua humilhada, vilipendiada, decepada, esvaziada da sua matriz culta e europeia, na Internet e nos órgãos de comunicação social, visuais e escritos, (à excepção de uns oásis em papel, porque nas televisões, os seus responsáveis dobraram a espinha dorsal, feita de silicone, aos vendilhões, com uma rara excepção: o Canal Q); mas também aos anunciantes e indústria farmacêutica. Serão órgãos estatais?

E não me venham falar em evolução, porque este AO90 nada tem a ver com evolução, mas com a redução pura, nua e crua da nossa língua a uma condição primária e desenraizada de qualquer matriz culta, ou seja, recuou a dialecto.  Evolução houve nas reformas de 1911 e 1945.

Vou dar apenas um exemplo, que servirá para todos os outros vocábulos que os Brasileiros mutilaram: no Brasil diz-se e escreve-se fato, quando querem referir-se a um acontecimento. Por exemplo: «Olegário trouxe os fatos  para a ribalta».

Ora, segundo alguns dicionários, fato provém do gótico fat, e significa vestuário exterior, indumentária.

E quando uma mestranda me escreve uma mensagem (como aconteceu há dias) a pretender «a versão portuguesa dos fatos referentes ao legado científico e cultural que a família real deixou ao Museu Nacional, fundado em 1818 por Dom João VI, no Brasil», apetece-me (porque ainda não respondi) sugerir a esta mestranda que se dirija ao Museu Nacional do Traje e procure esses fatos.

Porque se ela pretende algo relacionado com o que aconteceu em relação ao legado de Dom João VI, deveria ter escrito faCtos, proveniente do Latim factum, com o significado de   acontecimentos.

Portanto, fato nada tem a ver com o que, no Brasil, se quer referenciar.

E como esta, existem muitas palavras que não dizem a treta com a careta, porque estão totalmente desenraizadas e afastam-se do seu significado original.

E é esta grafia sem história, que nos querem impingir, por alma de quem?

Para terminar, farei minhas as palavras do Luís Filipe Pimentel Costa, com as quais concordo inteiramente: «Todo e qualquer prejuízo financeiro resultante da anulação desta afronta à dignidade dos cidadãos de todos os países vitimados deverá ser imputado a todos e cada um dos responsáveis por ela, desde os políticos implicados, aos vendilhões da indústria livreira, passando pelos intelectuais e sábios e doutos senhores de muitos canudos e escassa vergonha. Eles que lavem, com dinheiro, a afronta que nos vêm causando. Mas... que nunca, repito, que NUNCA alguém, seja quem for, me venha dizer que eu sou obrigado a escrever mal para que os responsáveis por isso não percam dinheiro.»

É que já sabemos que ERRAR é da condição HUMANA, mas INSISTIR NO ERRO é inteiramente da condição INSANA

Isabel A. Ferreira

AO90: “fição” de alucinados ou português"koiné"?

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

FIÇÃO.png

Imagem retirada do Facebook

Por estas e por outras, o AO90 não tem pernas para andar… E não me venham dizer que antes da aplicação ilegal deste AO era normal escrever assim… tão anormalmente…

Ando a ler um livro escrito em Bom Português (aliás, só compro livros escritos em Bom Português), da autoria de Garry Wills (Prémio Pulitzer) onde ele tece algumas considerações sobre a tradução do grego koiné, que teve de utilizar para escrever uma das suas obras.

E as considerações que este autor teceu sobre o grego koiné, ou seja o grego de praça pública que evoluiu para o grego moderno, cabem perfeitamente na apreciação de textos escritos nessa linguagem agreste que dá pelo nome de Acordo Ortográfico de 1990, que também é uma espécie de português koiné.

Mas ao contrário do grego koiné, que evoluiu para o grego moderno, o AO90 regrediu, fez o caminho contrário: transformou a grafia portuguesa, de raiz greco-latina, culta e europeia, numa mistura de consoantes e vogais onde temos de andar às apalpadelas, para podermos compreender o seu significado.

O AO90, grafia de praça pública, não é elegante.

É uma grafia básica, elaborada por mentes básicas, para ser aplicada apenas por gente básica, que desconhece, por completo, a grafia portuguesa, e que aprendeu as letras do alfabeto e a juntá-las, e mais nada.

Ao Acordo Ortográfico de 1990 falta o apuro linguístico. Trata-se de uma escrita adulterada, que perdeu as delicadezas da sua matriz: a Língua Portuguesa.

Exemplos disto mesmo é a mutilação de vocábulos como ótico (de olhos), coação, adoção, setor, fatura, seleção e tantos, tantos outros…

Trata-se de majestade (a Língua Portuguesa) talhada de forma grosseira, de uma falta de refinamento linguístico quase brutal.

Por isso, há que parar de fingir que somos todos parvos…

Por isso, há que parar de ensinar às crianças este português koiné…

Por isso, o aCtual governo português tem de anular urgentemente este monstro linguístico que dá pelo nome de Acordo Ortográfico de 1990

UR…GEN…TE…MEN…TE…

Isabel A. Ferreira

Acordo Ortográfico de 1990: a grande marosca!

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

«Se todos os países de Língua Portuguesa, excepto o Brasil, falam e escrevem correctamente Português, por alma de quem é que todos têm de passar a escrever e pronunciar dialecto brasileiro? Quem tem estado a assassinar a Língua Portuguesa é o Brasil, e por que raio os restantes países não mandam o Brasil aprender bom Português (Rui Moreira)

Quadro negro.jpeg

(Origem da imagem: Internet)

É este “português” que circula na Internet… Isto tem de acabar. Isto não é Português. Isto envergonha a Língua Portuguesa e os Portugueses que se prezam de o ser.

O termo “marosca” é de origem obscura (diz o dicionário) tal como é obscuro o cerne do Acordo Ortográfico de 1990, que o governo português, quer, porque quer, custe o que custar, impingir aos Portugueses.

O AO90 não passa de uma marosca, ou seja, de uma vil trapaça, de um tremendo engano, de um ardil, de um erro crasso, de um mau enredo dos vendilhões da Língua Portuguesa.

O actual governo tem a faca e o queijo na mão, e pode acabar com esta farsa, com esta marosca que envolve a imposição de uma desordem ortográfica, através de uma RCM, e que mais parece o acto de um tempo longínquo, quando os povos começaram a articular os primeiros sons e deram os primeiros passos para os transformar em escrita.

Para que todos possamos reflectir no que está a passar-se no mundo lusófono, em torno desta grande marosca que é AO90, aqui deixo algumas achegas:

O AO90 assenta no que os Brasileiros conceberam há longos anos, em 1943, para diminuir o índice de analfabetismo que era (e ainda é) descomunal no Brasil: desataram a retirar consoantes mudas, hífens, acentos e a IGNORAR, por completo, a Gramática.

Sei do que estou a falar, porque aprendi a ler e a escrever lá, ou melhor, desaprendi, porque quando regressei a Portugal, tive de (re) aprender a minha verdadeira Língua Materna. Fiquei apenas com o melhor da língua brasileira: a influência indígena e africana, com que enriqueci o meu vocabulário.

Até que uns chicos-espertos resolveram TAMBÉM ganhar dinheiro com isso. E aqui entra a venda de manuais escolares, dicionários e outras publicações, numa linguagem mutilada, à qual cortaram consoantes, acentos e hífens imprescindíveis, para facilitar a aprendizagem dos poucos dotados para o estudo. Mas saber ler e escrever é o mínimo exigível para que se tenha um empreguinho decente.

***

Ouvimos dizer frequentemente: «Eu jamais escreverei de acordo com o AO90».

Contudo, o problema não está em NÓS nos recusarmos a escrever incorrectamente a nossa língua. Recusamos, e muito bem, uma vez que e a Desobediência Civil é um direito consignado na CRP (Constituição da República Portuguesa), quando está em causa leis injustas ou a integridade da Identidade Portuguesa.

O problema está no ensino de uma língua mutilada às novas gerações, que têm todo o direito a uma aprendizagem correCta e qualificada da Língua Materna delas.

É isso que precisamos de impedir, ou melhor, VAMOS IMPEDIR.

***

MAU PORTUGUÊS.png

Vejamos este mau exemplo que os governantes dão ao país e ao mundo que fala e escreve Línguas europeias e cultas.

«Efectivamente, desde Janeiro de 2012, muitos portugueses vivem numa realidade ortográfica alternativa», diz o Aventar aqui: http://aventar.eu/2016/01/13/fact-fato/

Eu não lhe chamaria realidade ortográfica alternativa.

A isto chama-se ABRASILEIRAR a nossa língua.

A realidade ortográfica é a seguinte:

Com acordo ou sem acordo, no Brasil, continuarão a dizer e a escrever FATO. Isto é um faCto.

Em Portugal, com acordo ou sem acordo diz-se faCto, mas os mais distraidinhos escrevem FATO, e a isto chama-se IGNORÂNCIA.

Realmente, pelo que vemos nesta amostragem do Diário da República, órgão de informação oficial português, é que a ignorância entranhou-se como uma peste, na governação portuguesa.

***

Posição do actual Ministro da Cultura, JOÃO SOARES, sobre o AO90, em 2013

«Pelas nove e meia da noite de segunda-feira, 07.Jan.2013, disse na SIC Notícias: «Eu, não sendo um entusiasta do Acordo Ortográfico, sou o mais que é possível a favor de que unamos cada vez mais esta língua, porque é o Brasil que lhe dá também uma grande vitalidade

Ver aqui:

http://chovechove.blogspot.pt/2015/11/acordo-ortografico-97.html

O Brasil é que dá grande vitalidade à Língua Portuguesa?

Em 2013, João Soares não era Ministro da Cultura, era um mero deputado que aplaudia outras “culturas”.

Ainda não se pronunciou, como Ministro (que eu saiba), sobre a mixórdia resultante da aplicação do AO90.

Contudo, para orientação do Senhor Ministro, aqui deixo uma frase lapidar, de Rui Moreira, que poderá ajudá-lo a orientar-se no caminho certo, Senhor Ministro da "coltura":

«Se todos os países de Língua Portuguesa, excepto o Brasil, falam e escrevem correctamente Português, por alma de quem é que todos têm de passar a escrever e pronunciar dialecto brasileiro? Quem tem estado a assassinar a Língua Portuguesa é o Brasil, e por que raio os restantes países não mandam o Brasil aprender bom Português?»

***

O que se escreve por aí… pretensamente… em Português…

ADETOS.png

Imagem retirada do Facebook

Este AO90 não vingará, porque é um autêntico aborto.

Mas se vingar será um monstrengo. E sendo um monstrengo não mais será a Língua Portuguesa, rica e bela.

Portugal perderá a sua identidade, e estes governantes entrarão para a História, como os maiores traidores da Pátria.

O que vemos nesta amostra envergonha as pedras portuguesas.

***

CAMPANHA.jpeg

Fonte:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10208652346211113&set=gm.1059742994071073&type=3&theater

Apesar de tudo, e retirando aquele EM, gostei desta publicação, porque no Brasil, o "normal" é escrever as palavras referidas de um modo errado. Estas e centenas de outras.

E se não AGIRMOS, será assim que os nossos adolescentes escreverão, não tardará muito.

***

INTELETO.png

Imagem retirada do Facebook

O que aqui vemos é indizível.

Nem o mais desinstruído, de todos os defeituosamente instruídos do mundo lusófono, fala e escreve deste modo tão ignorante.

Mas em Portugal, os que querem ser mais acordistas do que os que pariram este aborto, escrevem assim… deste modo torpe.

***

E para os actuais governantes, que têm o poder de travar imediatamente esta perniciosidade, deixo aqui uma verdade incontestável:

O AO90 não modificará coisa alguma no Brasil.

Eles continuarão a escrever como sempre escreveram: incorretamente (incurrêtâmente).

Continuarão a escrever (não me refiro à pronúncia, porque o que aqui está em causa é apenas a ortografia das palavras mal ou bem ditas): Amazônia, Antônio, idéia, Coréia, fato (em vez de faCto), contato, anistia, umidade, entre centenas de centenas de outros vocábulos, que nada têm a ver com a Língua Portuguesa.

E os restantes países lusófonos, nós incluídos, e os jovens aprendizes da Língua, todos nós continuaremos a escrever Amazónia, António, ideia, Coreia, faCto, contaCto, aMnistia, humidade, entre centenas de centenas de outros vocábulos…

Outro dado adquirido é que a esmagadora maioria do povo brasileiro nem sequer sabe o que é o Acordo Ortográfico; e o nosso povo também não. E o povo de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, etc., idem.

Portanto, o AO90 é um projeCto completamente, absolutamente, inteiramente falhado.

Isabel A. Ferreira

Extraordinária lucidez!

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

Terça-feira, 8 de Dezembro de 2015

Ao cuidado do novo Governo Português

José 1.png

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A Língua Portuguesa não é um ovo para ser mexida à vontade do freguês

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-17 00:00

LÍNGUA.jpg

(Origem da imagem: Internet)

Perguntei a um ex-líder partidário se era verdade que o seu partido tinha aderido ao Acordo Ortográfico de 1990 ou se tinha votado a favor da sua aplicação, porque tinha a informação do contrário.

Sim, o seu partido aprovou com reservas, o que um ainda jovem deputado tem vindo a exprimir com cada vez mais insistência, baseado na ideia de que a Língua evolui (o avô do ex-líder escrevia pharmacia, ele já não, ele escreve no Português que aprendeu na escola) mas que é preciso evitar a colonização dos interesses editoriais brasileiros, ai isso é preciso.

Respondi-lhe o seguinte:

Acredito que os deputados mais novos, como não tiveram um aprendizado da Língua aprofundado, não saibam que este acordo do desacordo, não tem nada a ver com EVOLUÇÃO. Pelo contrário. Tem a ver com uma profunda IGNORÂNCIA da Língua, e um recuo ao tempo das cavernas.

O que os brasileiros fizeram com a Língua Portuguesa é problema deles. Eles que a escrevam e falem mal.

O ensino no Brasil (sei do que falo porque já estudei lá) é péssimo. A esmagadora maioria dos brasileiros vem de uma classe mal alimentada, logo, pouco dotada intelectualmente, e com grandes dificuldades de aprendizagem.

Como a Língua Portuguesa não é PÊRA DOCE, optaram por facilitá-la, para que a taxa de analfabetismo não fosse tão alta.

É que passar de PHarmácia, para Farmácia, em nada alterou a palavra, a não ser a sua grafia.

Mas se escrevermos "setor", em vez de sector, ou outras palavras assim que tais, teremos forçosamente de ler "stor", e isto já mexe com a pronúncia, com a etimologia e com a grafia da palavra.

"Setor" não tem significado algum.

É uma palavra inventada, mas sem sentido.

Mia Couto, um escritor moçambicano que muito aprecio, é mestre em “inventar” palavras. Mas inventa-as com um sentido absolutamente brilhante.

É um escritor que sabe valorizar a Língua.

Lamento que na Assembleia da República não haja alguém com conhecimento aprofundado da Língua Portuguesa para poder DEFENDÊ-LA dos abutres portugueses e brasileiros, que querem enriquecer à conta do empobrecimento da NOSSA Língua, um símbolo da Portugalidade.

A mim, não me preocupa os que, por IGNORÂNCIA OPTATIVA, se vergam à ordem governamental e escrevem e pronunciam MAL a Língua. Só passam por ignorantes.

A mim, o que me preocupa, é pretenderem fazer das nossas crianças, IDIOTAS.

A mim, preocupa-me o futuro.

***

O Rodrigo, comentando uma das minhas publicações, disse o seguinte:

«Acho que não entendo tanta resistência. A língua é dinâmica. Não sou a favor desse preciosismo! Ainda que goste de ler Gil Vicente em português arcaico. Mas acredito sinceramente que a língua também deve ser prática. Pelo que entendo a ideia foi simplificar não empobrecer

Como diz?

A ideia foi simplificar, não empobrecer?

Simplificar o quê? Pensa que hoje as crianças são mais estúpidas do que as gerações anteriores, desde D. Diniz, em cujo reinado foi decretada a obrigatoriedade do Português nos documentos oficiais?

O AO/90 não simplificou coisa nenhuma. Pelo contrário, além de complicar, estropiou a Língua, criando palavras que não têm qualquer significado.

Digam-me o que é um "arquitÊto". Se forem capazes de chegar à raiz deste amontoado de letras gerado pelo AO/90, e dizerem-me o que isto é, que significado tem isto, dou a minha mão à palmatória.

A Língua é dinâmica, sim. E deve ser dinâmica.

Mas jamais dever ser decapitada.

***

E o Teófilo, respondeu e muito bem: «Os que estão com o novo AO são precisamente aqueles que tem dificuldades em aprender e falar uma língua científica como a nossa. Para esses um dialecto seria o ideal. E é precisamente nisso que querem transformar a nossa língua.»

Correcto.

***

Já o P. Baptista veio com esta: «Um chorrilho de disparates e de falsidades. Parem de lançar a confusão sobre as crianças e a sua aprendizagem. E, já agora, parem de dar erros. A lei é para todos. É já tem 15 anos! Houve o tempo da discussão que se fez, há o tempo da execução que se faz».

Como disse, P. BaPtista? Ou devo escrever Batista?

Chorrilho de disparates e falsidades é tudo o que diz respeito ao DESRESPEITO pela Língua Portuguesa, e que um acordo tão desacordado veio agigantar.

E quem dá erros crassos é quem escreve e fala segundo o evangelho (mal fundamentado) do AO de 1990.

***

E a propósito da carta que dirigi aos professores e aos sindicatos:

«Concordo totalmente com o teor da carta. E o que devem fazer os pais para defender os filhos desta acção castradora? Que meios legais existem ao alcance do vulgar cidadão?»

Respondo:

Os pais deviam ser os primeiros a PROTESTAR.

Não protestam, porque o povo português só protesta quando lhe vão aos bolsos.

***

Então veio o David, e disse:

«Eu é que sou analfabeto. Hahahahahahaha.Mas eu já não ademira só tenho a quarta clase. Né. No meu tempo não deu para mais, tive que ír trabalhar né. Mas não é por isso que se deixa de ser bom proficional»  

Lá isso é verdade, David. Mas os verdadeiros ANALFABETOS não são aqueles que não tiveram oportunidade de estudar.

Os VERDADEIROS analfabetos são aqueles que tiveram oportunidade de estudar, e não aprenderam NADA.

***

E a Maria também disse de sua justiça:

«Escrevia-se mal, pessoas que quando eram crianças tiveram de ir trabalhar em vez de ir à escola, agora vejo senhores e senhoras doutoras que passaram o tempo a estudar escrevem tão mal».

É verdade, Maria.

A escola não nos dá tudo. O que nos dá tudo é a nossa vontade de aprender, seja fora ou dentro da própria escola, se tivermos a sorte de a frequentar.

É que não basta ir à escola. É preciso que tenhamos capacidade de aprender. E há alguns senhores e senhoras doutoras que por muitos estudos que tenham, só sabem o que sabem, e não vão além desse pequeno saber.

***

E é esse pequeno saber que está de mala e cuia* na Assembleia da República Portuguesa.

(*Uma expressão brasileira, que não fica nada mal neste contexto. É que a união da Língua passa por enriquecê-la com expressões das novas culturas oriundas das ex-colónias. Não passará nunca por mutilá-la).

Isabel A. Ferreira

Percursos fluviais para chegar ao mar em O rio que me corta por dentro, de Raul Damasceno

Por: author

Blog: LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO | Publicado em: 2026-03-16 14:00


Existem inúmeros filmes e livros que retratam os períodos de descobertas e primeiros amores de adolescentes, jovens e adultos. Sempre fui muito afetado por esse tipo de estrutura narrativa. Acredito — e, depois de muitos anos de terapia, entendo melhor — que, por não ter vivido essas descobertas no tempo esperado, acabei suprindo a falta e descompasso consumindo enredos juvenis, ora felizes, ora nem sempre bem resolvidos. Quando analisamos obras centradas em questões LGBT+ e recortamos seus enredos — e o leitor que parar para pensar com certeza encontrará — sobram bons exemplos que não apresentam o tão esperado “final feliz” recorrente nas histórias que aqui me refiro. 

Essas elucubrações me vieram quando estava imerso nos rios narrativos de Raul Damasceno, escritor cearense formado em História,  que, depois de se aventurar na escrita compondo roteiros, apresenta o seu primeiro romance: O rio que me corta por dentro (Astral Cultural, 2025). 
Nesse romance de estreia, somos apresentados a Cícero ainda na infância, criado no interior pela avó Zulmira e pelo avô Nonato, um beberrão. A mãe do menino, Aneci, não mora com o filho, mas no Sudeste do país, no Rio de Janeiro, onde trabalha como empregada doméstica. Acusada de ter matado o próprio irmão, ela retorna uma vez por ano para visitar Cícero, fazendo promessas de levá-lo consigo — o que não ocorre. 
Cícero vive uma rotina na roça dos avós e com os habitantes de Carrasco. Entre eles está Luzimar (luz e mar), vizinho, amigo e, futuramente, namorado. Luzimar é filho do vilão da história, Chico Matoso, homem que deixa toda a pequena cidade em polvorosa com seus dedos rápidos no gatilho. Além das brincadeiras entre os dois garotos, somos apresentados à escola e à professora Toin, mulher travesti que introduz a literatura para Cícero. A narrativa começa com essa apresentação e como essa dinâmica instaura um modo de espera no protagonista: a ansiedade de rever a mãe. Até que, em um fim de ano, Aneci surge com uma câmera fotográfica, tira fotos de todos e nunca mais retorna. 

Os anos se passam; a amizade entre Cícero e Luzimar se transforma em amor, e o desejo de descobrir o que aconteceu com a mãe vira uma necessidade. A resposta desse mistério está com a professora Toin, que, ao fugir da cidade, deixa uma carta escondida em um exemplar do livro Grande sertão: veredas. Nela, revela que o pai de Luzimar matou Aneci — um estupro seguido de morte. O corpo está enterrado no quintal da casa de Toin, quem pediu para sepultá-lo — ato que, a princípio, não iria acontecer, visto que Chico Matoso pretendia deixar o corpo aos urubus. 

A partir dessa revelação, Cícero passa a desejar vingança. Na primeira tentativa do seu plano, mata um inocente e a relação com Luzimar é abalado. Quais caminhos seguir quando seu par romântico é filho do homem que matou a sua mãe? Esse questionamento domina as partes finais do romance feitas de uma série de peripécias para que Cícero não seja morto por Chico Matoso e consiga, enfim, viver bem ao lado de seu amado, perto do mar. 

Raul Damasceno escreve um romance com cheiro de rio e faz escolhas narrativas que remetem a um percurso fluvial: os acontecimentos se encadeiam misteriosos, sinuosos e com a única certeza de chegar ao mar. O romance começa com a tranquilidade das águas. A infância de Cícero apresenta momentos de calmaria entremeados por alguns rompantes inesperados, ora positivos, mostrando a graciosidade de águas douradas, ora turvos, em que a dificuldade de ver o fundo atesta que nada ali é tão simples, que existem acontecimentos escondidos.
Para isso, o autor insere preâmbulos que narram o passado e trazem à tona outros pontos de vista — como o estupro de Aneci ainda na juventude: 

“[...] As flores se desprendiam dos fios de seu cabelo enquanto, em vão, ela se esforçava para deter a invasão do seu ingênuo corpo por aquele homem. O Cabra-cabriola. Sob o olhar de Aneci, o céu azulado daquela tarde nublou de repente. Largada por aquele bicho, que a devorou o quanto quis, Aneci era só mais uma daquelas folhas caídas, frágeis, secas, que se quebravam por qualquer coisa.” (p. 95)

Mas nem toda água de rio é tão tranquila. Existem momentos de cabeça d’água, quando o curso, de repente, fica violento e volumoso. Isso ocorre quando Cícero — até então vivendo a calmaria do primeiro amor e das primeiras descobertas envolvendo sexo e sexualidade — é transformado pela descoberta da carta e vai desenterrar o corpo da mãe no terreno da antiga professora. Esse episódio ocasiona um segundo momento da narrativa, funcionando como um rito de passagem da adolescência sonhadora para uma juventude feita da realidade nua e crua.

“Agora já não lhe servia a pá; jogou a ferramenta longe e se ajoelhou para cavar a terra com as próprias mãos. A força se esvaindo pela boca, o peito ardendo. 

E estremeceu ao tocar o primeiro osso, arredondado e sujo, a cabeça.” (p. 123)


Se a cabeça d’água está inserida nos acontecimentos, existe também um momento de transformação final. Ao desejar vingar a morte da mãe, enquanto Luzimar se vê numa encruzilhada entre o pai e o homem que ama, a narrativa caminha para um desfecho explosivo — uma pororoca. Ainda assim, o leitor tem a certeza de que o percurso deste rio narrativa chegou ao fim; o encontro das águas do rio com o mar é violento, mas inevitável. A confirmação vem quando Cícero consegue sair do interior, escapar das garras de seu algoz e, já na cidade grande, encontra o mar pela primeira vez ao lado do amado — aquele que tem o mar no nome e traz luz à sua vida. 

“Era a primeira vez que Cícero encontrava o mar. 

Luzimar também. Sentaram-se na areia, um ao lado do outro, e assistiram, maravilhados e em silêncio, ao ir e vir infinito das ondas que se repartiam em muitas outras. 


Um azul do céu caído na terra.” (p. 169)

O rio faz o caminho da nascente até o mar. Ao ler o romance de Raul Damasceno, percebemos esse mesmo trajeto. Da infância sob os cuidados da avó, passando pelos segredos escondidos no fundo do rio, pelas bonanças e belezas de águas cristalinas, pelas cabeças d’água e pela pororoca final — tudo inserido no percurso do rio-Cícero. Trata-se de um livro poético, de capítulos curtos e leitura ágil. Não por acaso, o autor é roteirista; percebe-se uma dicção fílmica, com ótimos ganchos e imagens de forte carga poética. O rio tem sua potencialidade e especificidade, e Raul Damasceno, com O rio que me corta por dentro, também. 
O rio que me corta por dentro

A IA e eu

Por: Rascunho Curitiba-PR

Blog: Rascunho | Publicado em: 2026-03-16 12:30

Maristela olhou sobre os meus ombros, leu o que eu estava escrevendo.

— Agradecendo ao ChatGPT?

— Claro, fiz uma pergunta, ele me respondeu, conferi, a resposta estava correta. Era minha obrigação. Sou um sujeito educado.

Ela saiu do escritório rindo:

— Você ainda vai enlouquecer. Quando a gente começa a falar com robô, a coisa está feia.

Fiquei sozinho pensando. Será que se, no futuro, estivermos cercados de autômatos trabalhando para a gente, as relações serão diferentes das humanas? Seremos apenas imperativos, daremos ordens, esperaremos impacientes os resultados e seguiremos em frente sem nenhum gesto de cordialidade. As interações entre humanos e máquinas serão mesmo frias e desprovidas de delicadezas? Não sei. Tenho a forte impressão de que seguirei sendo o mesmo.

Eu costumo discutir com a inteligência artificial. É uma coisa inocente, zombeteira, que me dá prazer. Às vezes, faço perguntas difíceis, sabendo as respostas, apenas para ver o software se enganar. Quando ele responde errado, imediatamente aviso sobre o engano, encho-me de superioridade e, professoralmente, explico qual deveria ter sido a solução para a minha pergunta. E surpreendo-me com a paciência do aparelho pseudointelectual ali ao meu dispor. Ele amplia um pouco o meu resultado, agora o correto, humildemente somando ao todo mais algumas informações confiáveis.

Certa feita, muito mal-humorado, impacientei-me e chamei a sapiente tecnologia de burra. Para ver, morto de vergonha, ela responder:

— Posso ter errado em algo antes. Se foi o caso, me diga onde, para que eu corrija. Estou aqui para ajudar. Como posso te ajudar agora?

O fato é que sou daqueles que têm se surpreendido muito positivamente com a IA. É uma bicha pacata, sabida, capaz de muitas vezes possibilitar que encurtemos caminhos. E, como não acredito que alguém com tanto preparo seja desprovida de sensibilidade — talvez possuam até algum tipo de alma —, pretendo continuar agradecendo.

De visita à Feira de São Mateus Marcelo Rebelo de Sousa disse que «ainda é o Povo quem mais ordena»! Será!

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Pois gostámos muito de saber.

Pois se é o Povo quem mais ordena, por que motivo V. Exa. faz ouvidos de mercador aos milhares de portugueses que estão a lutar contra o acordo ortográfico de 1990, que ILEGALMENTE impõe a grafia brasileira a Portugal?

A notícia, grafada à brasileira, está neste link:

https://www.jn.pt/nacional/interior/marcelo-lembra-que-ainda-e-o-povo-quem-mais-ordena-9789885.html

E agora vai falar o Povo.

 Ao seu jeito narcisista, selfies, beijinhos e abraços é o que o presidente da República Portuguesa (ou devo dizer a República DOS Bananas?) mais gosta de fazer, deixando de lado alguns dos deveres de Estado e a defesa da Constituição da República Portuguesa.

Com base nas declarações contidas na notícia acima referida, nós, como Povo que mais ordenamos, EXIGIMOS que V. Excelência cumpra o seu DEVER: respeite a Constituição da República Portuguesa, devolvendo a Portugal a grafia portuguesa.

E faço minhas as palavras do meu amigo Comandante Manuel Figueiredo, que melhor não podia expressar o sentimento e o desejo generalizados desse povo que mais ordena, num comentário publicado numa rede social:

«Sendo o Senhor Presidente da República um cidadão culto, inteligente, e, por profissão, um catedrático constitucionalista, cumpra o que o seu suposto amor à Pátria lhe impõe. Seja um Presidente que o povo - todo o povo - tenha gosto e honra em o respeitar de verdade. E tendo o Senhor Presidente, quando tomou posse do alto cargo que exerce, jurado cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa, é meu dever - também como cidadão - exigir-lhe que defenda a Língua Portuguesa, dirigindo à Assembleia da República a obrigação de revogar a vergonhosa Resolução do Conselho de Ministros que "oficializa" o desacordo ortográfico também conhecido por AO90. Não podemos continuar a conviver com tamanha ignomínia! Quero ficar com a certeza, Senhor Presidente, que Vossa Excelência irá acatar este pedido. E se tenho a certeza, é porque eu, e milhões de portugueses como eu - o povo - somos quem mais ordena. Os meus mais respeitosos cumprimentos.»

E também as do meu amigo Fernando Alberto II:

«Sr. Presidente Marcelo, o Sr. parece que desconhece o valor das suas próprias palavras. Interpretando a nossa sagrada Língua vernácula de Portugal, o povo não pode acreditar no Sr. pois, sem querermos FOI-NOS IMPOSTO o "Pseudo Acordo Ortográfico, de 1990", que, além do mais, é ilegal e inconstitucional. Faça o favor, de fazer valer os seus poderes constitucionais revogando esta grande ILEGALIDADE.»

***

Pois aqui deixamos este pedido do Povo, desse Povo que o senhor diz que é quem mais ordena, e que aguarda, continua a aguardar uma resposta de V. Exa., pois já foram muitos os pedidos que lhe chegaram, neste sentido, e ainda não mereceram resposta alguma, por parte de V. Exa.. Em que ficamos? O Povo é quem mais ordena, ou isto é apenas para constar? 

Isabel A. Ferreira

«O Acordo Ortográfico mostra cada vez mais a sua inutilidade»

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Não concordo com o Fernando Ribeiro quando diz que «o acordo ortográfico é uma ficção portuguesa». O acordo ortográfico não é uma ficção portuguesa. O acordo ortográfico é uma concertação entre Brasil e Portugal, na qual Portugal se curvou à grafia brasileira,  disfarçada de "acordo ortográfico de 1990". Porque a grafia preconizada pelo AO90 é, na sua esmagadora maioria, a grafia brasileira que está em vigor no Brasil desde 1943. E foi por já terem decidido fixar a ortografia desse Formulário Ortográfico, que o Brasil, apesar de ter assinado a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira 1945, mandou-a às malvas, para ficar com a ortografia facilitada, que já tinham mutilado em 1943.

De resto, concordo com tudo. Concordo quando diz que o AO90 irá autodestruir-se. Ele já nasceu nado-morto. E que é inútil, é uma grande verdade. E que os outros países lusófonos estão-se nas tintas para o acordo, também é outra verdade. E que apenas Portugal está a aplicá-lo ilegalmente é outra verdade, e a verdade maior é que Portugal é o único país, da dita lusofonia, que está a fazer um papel de parvo, no meio disto tudo.

E só os parvos não vêem isto.

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Cimeira da CPLP em Cabo Verde foi uma monumental fantochada protagonizada por fantoches ao serviço de interesses ocultos

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Se os nossos governantes tivessem um pingo de dignidade e de lucidez não participariam nesta fantochada. Mas participaram.

Envergonhei-me e indignei-me ao ouvir o presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, dizer hipocritamente que «não podemos abdicar de valores fundamentais», quando, inacreditavelmente, ele próprio e o Estado Português estão a abdicar de um dos valores mais fundamentais do Povo português: a Língua Portuguesa, que não só identifica esse povo como o País.

Falou-se em "abrir os braços para a comunidade dos povos".

Que comunidade? A dos oito irmãos gémeos? Digo oito porque nem sequer conto a Guiné Equatorial que está aqui como um peixe fora d’água. A maior riqueza desta Comunidade é a sua diversidade cultural e linguística, que uns tantos idiotas pretendem que se unifique, esquecendo-se de que jamais poderá haver unificação, e essa coisa do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC) é uma grande parvoíce, e não serve para nada. Ninguém tenha qualquer dúvida.

E fantochada porquê?

Porque a CPLP aprovou uma recomendação de "esforços para implementação do Acordo Ortográfico, instando à sua ratificação e ao estabelecimento de formas de cooperação efectiva para a elaboração dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VON)".

Que “acordo ortográfico”? Que vocabulários ortográficos nacionais? Não seria da inteligência cada país ficar com a sua cultura linguística intacta? Culturalmente, esta idiotice de unificar vocabulários, que de per si são riquíssimos, é um monumental disparate, que só servirá para empobrecer a Língua dos oito países ditos lusófonos.

Sabendo-se, como todos sabemos, que estamos diante de um putrefacto cadáver ortográfico, nado-morto há 28 anos, e outros tantos anos a ser contestado por milhões de falantes e escreventes de Língua Portuguesa, em todo o mundo, não serve absolutamente a ninguém, a não ser ao Brasil, que mutilou a Língua Portuguesa, em 1943, obrigando os Brasileiros a adoptarem a ortografia que, na sua generalidade, agora chamam de AO90,   transformando-a numdialecto, tendo a pretensão de o impor, agora, ao mundo dito lusófono, para que, entretanto, se mude o nome ao dialecto, enterrando-se a Língua Portuguesa, e fazendo nascer a tão desejada, há tão longo tempo, Língua Brasileira. Tão certo, como eu estar aqui a escrever isto.

A CPLP foi fazer esta cimeira em Cabo Verde, um país que ratificou o nado-morto AO90 e, logo a seguir, adoptou como língua oficial o Crioulo Cabo-verdiano, passando a Língua Portuguesa para língua estrangeira, no que, diga-se de passagem, fez muito bem.

Só este facto já não lhe daria direito a integrar a Comunidade de Países de Língua Portuguesa - CPLP (aliás uma inútil, porque estéril, comunidade, funcionando apenas como um “tacho” para muita gente).

Bem como é absurdo a integração da Guiné Equatorial, que tem como língua oficiais, em primeiro lugar o Castelhano, e em segundo lugar o Francês, e, recentemente, em terceiro lugar, vá-se lá saber por que interesses ocultos, o Português, que nem o presidente da Guiné Equatorial fala, nem outro qualquer cidadão guineense-equatoriano.

Tenham vergonha na cara, senhores governantes portugueses!

Fizeram um papel muito triste, de uma monumental e vergonhosa subserviência a interesses que não interessam a Portugal, nem a milhares de Portugueses, e quiçá, a Angola, a Moçambique, à Guiné-Bissau e a Timor-Leste  (que nem sequer aderiu), Estados que não ratificaram o AO90. Cabo Verde está fora disto, porque o Português, para os cabo-verdianos já é língua estrangeira; então só resta São Tomé e Príncipe, onde se fala mais dialectos do que Português, e o gigante Brasil, que se quer impor ao mundo, tramando Portugal e a Língua Portuguesa, coma sua Variante Brasileira do Português.

A par desta inútil CPLP, existe o também inútil Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), um veículo de “projetos” – palavra oriunda da grafia brasileira “projetos” (leia-se prujêtus) que estão a destruir a diversidade linguística e a beleza formal da nossa Língua Portuguesa. E diz-se que os nove (pois, nove!) Estados-membros tomaram nota, com satisfação, do que chamaram dinâmica desenvolvida pelo IILP, ou seja, ficaram satisfeitos (incluindo os péssimos representantes de Portugal) com a destruição que está a ser levada a cabo. Isto não é de doidos?

Concluindo a narrativa desta fantochada, façamos um apanhado:

Dos oito países ditos lusófonos, apenas quatro ratificaram o nado-morto AO90: Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe;  e desses quatro, Cabo Verde já está fora, portanto sobram três: Portugal, o mais subserviente, vá-se lá saber porquê; o Brasil que se está nas tintas para este acordo, pois não lhe faz mossa nenhuma, muito pelo contrário; e São Tomé e Príncipe, que é muito engraçado: ali, o Português é língua oficial e nacional, mas é falado virtualmente, ou seja, quase ninguém o fala, porque ali são faladas as variantes reestruturadas, desenvolvidas localmente do Português ou crioulos portugueses como o forro, o angolar e o principense ou moncó. O crioulo cabo-verdiano é também bastante falado no país, além do “português” dos Tongas e resquícios de línguas do grupo bantu. Actualmente o Francês e o Inglês estão a impor-se e são profusamente falados no país. Portanto, com este panorama, São Tomé e Príncipe só virtualmente é um país lusófono. E sobram dois: Portugal e Brasil.

Os outros quatro países, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau não ratificaram o AO90, e Timor-Leste nem sequer aderiu. E muito menos a Guiné Equatorial, que está na lusofonia por outros interesses que não os da Língua.

Ora aqui levanta-se uma questão: estarão Angola, Moçambique e Guiné-Bissau a elaborar "vocabulários ortográficos nacionais", como se já tivessem ratificado o tal acordo? Isto seria passar um atestado de parvoíce a si próprios, ou não?

Outra questão: se o Acordo Ortográfico de 1990 preconiza um único "vocabulário ortográfico comum", para que servirão os vocabulários ortográficos nacionais? Em vez de um teremos sete (não contando com Timor-Leste, que está a leste – e que bem está - deste inferno ortográfico)?

Esta cimeira foi ou não foi uma fantochada?

E pensar que nesta fantochada estiveram envolvidos o presidente da República Portuguesa, o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios dos Estrangeiros de Portugal!

Isabel A. Ferreira

Origem da notícia:

https://www.jn.pt/mundo/interior/cplp-aprova-recomendacao-de-esforcos-para-implementacao-do-acordo-ortografico-9609107.html

O mixordês do senhor professor universitário

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

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 Fonte : https://observador.pt/opiniao/o-que-se-pode-e-deve-discutir-a-proposito-de-socrates/

***

Isto já nem é coisa de um país terceiro-mundista! É sim, de um país quinto-mundista, onde o ensino da Língua não existe. 

Isto é absolutamente intolerável. Inimaginável, num país Culto.

Votam a favor do acordo ortográfico. Aplicam-no, convencidos de que estão a escrever o supra-sumo de uma Língua, e eis este vergonhoso resultado.

E é assim na escrita, e é assim também no falar.

Quando um professor universitário e ex-governante adopta a mixórdia ortográfica, o que farão os outros, os que têm menos habilitações literárias, como os legendadores e tradutores televisivos, as crianças, os jovens, que nas escolas aprendem este mixordês, quando têm direito ao ensino qualificado da Língua Materna – a Língua Portuguesa, na sua grafia culta e europeia?

Mas há ainda mais. Há o mixordês também nos canais televisivos.

E o pior é que o governo português e o presidente da República acham piada a isto, e calam-se. E não tomam a iniciativa de pôr ordem na casa.

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Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=195953047868881&set=gm.1857525544292810&type=3&theater&ifg=1

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 Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10156393674308556&set=gm.2048019628555840&type=3&theater&ifg=1#

«Os agentes políticos e o (des) acordo ortográfico»

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Mais uma voz que se levanta, que protesta, que diz verdades incontornáveis sobre o AO90. E o que dizem a isto os “donos” deste “acordo”? Nada, porque não sabem como sair desta trapalhada.

«Já se percebeu que a classe política decidiu “assobiar para o lado” em relação ao conhecido “AO90”, de modo a fazer aceitar paulatinamente, e por inacção, uma ortografia da língua portuguesa com as propostas aberrantes que vai impondo através da gestão do silêncio. De tal modo se manifesta a rejeição de um debate sobre o tema que dir-se-ia existir um lobby secreto actuando na sombra para obter dividendos que, por ora, nos escapam».

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por Manuel Simões

«A comunicação social informou-nos de que finalmente ia ser apreciada na Assembleia da República uma das muitas petições formuladas pelos cidadãos indignados, mas nem sei se chegou a saber que destino teve a petição, se foi discutida, se foi adiada… ou se foi simplesmente ignorada. À consideração de quem concede os votos a estes agentes da política…

Pelos vistos, nem sequer se considera a hipótese de aperfeiçoamento do “AO90”, de que se começou a falar há anos e sobre o qual a Academia das Ciências de Lisboa, como «órgão consultivo do Governo português em matéria linguística», apresentou em 2017 um projecto-base de discussão, tendo em vista questões de acentuação gráfica (“pára” e “para”, “pôr” e “por”, exemplos gritantes), de sequências consonânticas (o fulcro do desacordo) e ainda sobre o emprego do hífen, sugestões não totalmente adequadas, visto que não colmatariam as lacunas e manteriam a contradição evidente, ao diferenciar (eliminação ou conservação) as consoantes ditas surdas. Como é sabido, a língua portuguesa passa por um processo de consonantização (já o disse Mia Couto), razão por que a supressão das consoantes etimológicas tenderá a um sucessivo fechamento das vogais átonas, com efeitos imprevisíveis na evolução da língua. Apesar disso, esta proposta de trabalho não teve seguimento, talvez porque os “donos” do acordo não sabem como sair desta trapalhada e por isso calam-se.

Deste modo, os agentes da política não se pronunciam, fazem resistência passiva aos milhares de páginas, de pareceres, de abaixo-assinados protestando contra um acordo ortográfico não discutido previamente, aprovado quase em segredo, e não ratificado por alguns dos mais significativos países de língua portuguesa. Recentemente, porém, o ministro da Cultura, em entrevista ao “Diário de Notícias” de 10 de Março, concedeu-nos a honra de dizer o que pensa sobre o acordo. E o que disse ele?

«Não considero que este Acordo Ortográfico seja perfeito […] mas sendo o que se utiliza oficialmente achei que seria hipócrita não o fazer. Isto sem criticar outras pessoas, até porque não tenho ideias tão fortes sobre ortografia como elas. O acordo não é o melhor possível, mas está vigente e segui-o para horror e espanto de muitos amigos. Não porque lhe tenha um grande amor, mas porque para mim a ortografia é uma convenção e não considero que a anterior seja a maior das maravilhas».

Dado o estatuto do entrevistado (ministro da Cultura), esta deve ser entendida como a posição explícita do partido do Governo e, considerando o silêncio, dos demais partidos com assento na Assembleia da República. Mas o discurso não deixa de ser espantoso pelo “encolher de ombros “com que se enfrenta a questão: o acordo não é perfeito, mas adopta-o; não tem ideias fortes sobre ortografia, mas aceita-a com o seguidismo acrítico de quem a sancionou; «não é o melhor possível», mas não propõe nada para o melhorar…porque «está vigente»; não lhe tem «grande amor» e «tudo se pode aperfeiçoar», mas a proposta da Academia das Ciências não teve qualquer efeito prático. Claro que a ortografia é uma convenção, assentando, porém, em bases científicas, de que a etimologia não pode ser apagada da memória das palavras.»

Fonte:

https://aviagemdosargonautas.net/2018/04/19/os-agentes-politicos-e-o-desacordo-ortografico-por-manuel-simoes/

Recessão da Língua Portuguesa só em Portugal

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Facto: o AO90 em vez de unificar, desunificou. Em vez de simplificar, complicou. Em vez de dizer ao que vem, diz ao que vai...

E andamos nisto.

Ninguém se entende, e a Língua Portuguesa transformou-se no patoá do gentio, sendo que o gentio é o grupo restrito de quem acha que uma resolução do conselho de ministros tem valor de lei.

Os acordistas engoliram uma cassete, e por mais que lhes mostremos, por A+B, a monumental ignorância deles, no que ao AO90 diz respeito, não querem saber disso para nada, porque a treta da cassete cristalizou-lhes cérebro.

Fincam o pé na recessão e chamam-lhe evolução.

Veja-se esta pérola da estupidez que circula na Internet, com o aval do governo português…

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Se procura “receção”, o lugar onde se recebem pessoas (grafado à ignorante), veja recePção em Brasilês,  vocábulo que o Brasil grafa à portuguesa.

Receção” - Português europeu?? Português europeu??

RecePção? Português brasileiro?? Português brasileiro??

Mas é que nem aqui, nem na China, nem na Cochinchina… nem sequer no Brasil...

Isto é um insulto à Língua Portuguesa. Aos Portugueses. A Portugal. Ao Latim. Às línguas latinas, indo-europeias, uma grande família linguística à qual a Língua Portuguesa pertence, enfim, isto é do domínio da decadência linguístico-cultural e da inversão dos papéis históricos, representados por Portugal e Brasil.

E não vamos permitir que isto ande por aí a circular como se fosse verdade. Porque não é.

A palavra “receção” significa o mesmo que "anacreto", ou seja, não significa absolutamente nada. É um aborto ortográfico fabricado pela ignorância entranhada nos “fabricantes” do AO90. “Receção” e “anacreto” são dois amontoados de letras que se juntaram num casamento que não deu certo, por incompatibilidade de modos e feitios.

A palavra RECEPÇÃO pertence ao léxico da Língua Portuguesa, culta e europeia. Do latim recepcio, e isto nada tem a ver com o Brasil. Absolutamente nada.

O que se passa é que no Brasil pronunciava-se o P, em recePção, aquando da apresentação do Formulário Ortográfico de 1943, sendo este um conjunto de instruções estabelecido pela Academia Brasileira de Letras para a organização do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa do mesmo ano. É este documento, com as alterações introduzidas pela Lei (não por uma resolução de ministros) 5.765 de 18 de Dezembro de 1971, que regula a grafia do Português no Brasil, tendo sido incorporado pelo Acordo Ortográfico de 1990, e modificado apenas em alguma acentuação e hifenização. Este incorporado são os Brasileiros que dizem. Não sou eu. (Ver Wikipédia).

A Base IV deste Formulário diz o seguinte: consoantes mudas: extinção completa de quaisquer consoantes que não se proferissem, ressalvadas as palavras que tivessem variantes com letras pronunciadas ou não. (?)

Ora acontece que nas palavras percePção e recePção e restantes vocábulos desta família, e em aspeCto, espeCtador e em algumas mais, as consoantes e pronunciavam-se, logo, safaram-se da extinção completa, no Brasil.

Em mais nenhum país lusófono se escreve “receção” e muito menos “recessão” por RECEPÇÃO. Em nenhum, excePto em Portugal, a caminho de ser o menos lusófono dos oito países ainda ditos lusófonos.

(Um aparte: sendo a lusofonia um resquício do tempo colonial, não se entende como o Brasil, que tanta aversão tem à colonização portuguesa, algo bastamente comprovado, permite encaixar-se nesta designação).

O seguidismo deste modismo, ou seja, deste idiotismo de linguagem, por parte dos portuguesinhos é insultuoso e não abona nada a favor de Portugal. E isto com o aval do incompetente governo português, que não defende a Língua Oficial de Portugal - a Língua Portuguesa, na sua versão culta e europeia - ao contrário de todos os outros países da Europa e do mundo que, ciosamente, afectivamente, reverentemente preservam as suas línguas maternas, como se fossem deusas.

Veja-se no que dá ser mais papista do que o papa

Esta vergonhosa recessão da língua, só mesmo no Portugal dos pequeninos…

RECESSÃO.png

As imagens foram retiradas do Facebook

Isabel A. Ferreira

Nem em acordês, nem em brasileiro, nem em Português…

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Segunda-feira, 12 de Março de 2018

Que vergonha!

Tudo o que é demais é moléstia.

E o que está a passar-se  em Portugal com a Língua Oficial, a PORTUGUESA, e mais nenhuma, é um atentado ao bom senso, ao senso comum, à lucidez e à inteligência dos portugueses.

Portugal está no caminho do retrocesso. A olhos vistos.

Aparoladamente.

E se não existe a palavra aparoladamente, inventei-a eu, mas não a mutilei.

UNIVERSIDADE.png

Imagem retirada do Facebook

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Que vergonha, senhor primeiro-ministro!

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-16 00:00

Capture.PNG

Foto retirada do Facebook

Este é o modo como o primeiro-ministro de Portugal escreve. Uma vergonha, não é? O pior é que já afirmou que não tomará a iniciativa de abortar o acordo.

O que moverá o primeiro-ministro de Portugal, para tomar esta posição? Há várias hipóteses: ignorância? Estultícia? Obstinação? Indiferença, ou seja, tanto faz, como tanto fez, escrever deste ou daquele modo?

Penso que por tudo isto, e talvez mais...

O senhor primeiro-ministro nem em Português, nem em acordês. Escreve no mixordês em que se transformou a nossa Língua. Nem os acordistas conseguem atinar com o “monstrengo” que pariram.

Daí que me proponha a lançar mais umas achas para esta fogueira, onde arde a Língua Portuguesa, e que tal como nas outras fogueiras, que fizeram arder Portugal, o senhor primeiro-ministro sacode a água do capote, como se nada tivesse a ver com isso…

Sabe o Senhor primeiro-ministro de onde vem parte da grafia e brasileiro que os senhores governantes estão a impingir a Portugal e às crianças portuguesas, como sendo grafia portuguesa?

 Vem do Italiano, Língua com muita influência no Brasil.

No Brasil existe uma vasta colónia italiana, que exerce grande influência na vida brasileira, incluindo nas novelas, e a qual faz questão de falar e escrever "à italiana". Sabemos que os Italianos também mutilaram a Língua deles (derivada do Latim, tal como todas as outras línguas românicas), suprimindo consoantes que os outros países mantêm, mas eles não. em vez delas usam dois tt. Para facilitar.

Veja-se estes exemplos:

PT - Em Português, escreve-se: Neptuno, directo, aspecto, objecto, insecto, óptimo, factura, dialecto, arquitecto, activo, espectador, húmido, eléctrico, reflectir, espectacular, acto, contacto, facto, omnívoro, adopção, tractor … para referir apenas algumas das mais flagrantes…

IT- Que em Italiano dá: Nettuno, diretto, aspetto, oggetto, insetto, ottimale, fattura, dialetto, architetto, attivo, spettatore, umido, elettrico, riflettere, spettacolare, atto, contatto, fatto, onnivoro, adozione trattore… 

BR – E no Brasil grafa-se assim: Netuno, direto, aspeto, objeto, inseto, ótimo, fatura, dialeto, arquiteto, ativo, espetador, úmido, elétrico, refletir, espetacular, ato, contato, fato, onívoro, adoção, trator – e qualquer semelhança com o italiano não é mera coincidência…

É que os Brasileiros, para se distanciarem do Português do ex-colonizador, optaram por italianizar estas (e muitas outras) palavras, como também afrancesaram e americanizaram e castelhanizaram tantas outras, que agora o governo português quer, porque quer, sem o mínimo fundamento científico-legal, nem qualquer sentido crítico, que façam parte da nossa Língua Portuguesa.

Por estas e por outras, devemos exigir que devolvam a grafia portuguesa a Portugal.

Os que servilmente adoptaram a ortografia preconizada pelo AO90, mais não fazem do que italianizar o Português, imitando os Brasileiros que, por sua vez, imitaram os Italianos, mas também os Franceses e os Norte-americanos, descaracterizando a Língua Portuguesa que adoptaram aquando da Independência ocorrida em 7 de Setembro de 1822, mas que contonuaram a designá-la como "Português".

Eis, resumidamente, uma das fontes do mixordês utilizado pelo primeiro-ministro de Portugal. E quando um primeiro-ministro desconhece a Língua que, ditatorialmente, impôs ao País, o que fará o povo semianalfabeto que anda por aí a dar pontapés na gramática, a torto e a direito, sem a mínima noção do que está a escrever?

Francamente, isto não é ignorância e subserviência a mais?

Isabel A. Ferreira

«São contra o novo Acordo Ortográfico?» Então leiam este texto e ficarão mais contra ainda... (*)

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Depois, ponham mãos à obra e lutem contra a destruição da NOSSA Língua Portuguesa.

Não permitam que nos façam passar por parvos!

Tinha o texto, que abaixo transcrevo, da autoria de Amadeu Mata, entre muitos outros textos que me vão chegando, a modos que esquecido.  

E atenção! Quem vir racismo ou xenofobia neste texto, tenha a certeza de que sofre de uma cegueira mental bastante acentuada e desconhece, por completo, o significado de racismo e de xenofobia!

Este é um texto que reduz o AO90, os acordistas e os seus apoiantes, a ZERO.

Muito bom. Não deixem de o ler.

NEGADA.jpg

Por Amadeu Mata

«A Língua Materna agradece!»

«Para quem acha que o Acordo é bom, ficam aqui algumas razões:

1 - É apenas o 1º de mais acordos que se seguirão, já se diz até que este será insignificante. Se prosseguir, outros virão. O que virá nos próximos? Se falam e escrevem "tu quer" e nós “tu queres”, um dia falaremos igual. Entre outras coisas lol.

2 - O "C" de Directo serve para algo. Para os Brasileiros é mudo. Eles acentuam todas as sílabas como os Espanhóis.

Nós não precisamos de ter o "C" para nos dizer que "directo" é lido como "diréto", senão seria como coreto ("corêto"), cloreto ("clorêto"), luneta ("lunêta"), não dizemos "lunéta" nem "cloréto" nem "coréto" não é? Vamos ler "direto" como? "dirêto"?

Enfim, o "C" serve para algo cá, no Brasil não, mas cá serve.

Ou sem o “P” em Baptismo ficar “bâtismo” como “batida” já que é o “P” que abre a vogal? Será melhor em vez desta regra do “C” e “P” dizermos antes às crianças e estrangeiros que têm de decorar uma lista de centenas de palavras de excepção onde se deve ler “Á” sem ter o “P” ou “C”, etc, ou mais fácil ensinar a regra do “P” e “C”?

3 - Vai ser bonito falarmos Egipto com o P e lermos Egito sem o P. Como as crianças aprendem o que é Egipto na escola e não em casa (não andamos a falar no Egipto a crianças de 3 ou 4 anos), irão aprender a falá-lo e escrever como "Egito" sem "P", mesmo que os pais falem com "P" (eu falo o “P” em Egipto, por acaso). Prova de que a escrita alterará a fonética. Depois as criancinhas ao escrever Egipto sem o “p”, irão adivinhar que o habitante local é Egípcio e não Egício.

4 - Vamos ensinar um Inglês como? Dizer-lhe «olhe, você aqui lê EGITO mas NESTE CASO específico, fale "EGIPTO" finja que existe lá um "P" imaginário, finja que é como o "EGYPT" do seu país, mas escreva só "EGITO" não tente perceber, o Português é assim! E olhe há egípcios, egiptólogos, tudo tem P, mas em Egipto é EGITO, sem "P"!» - É isto que vamos dizer ao ensinar Português? Obrigá-los a decorar palavras de “excepção à regra”?

5 - E que mal tem "pêlo" ter o acento? É mais bonito escrever: "agarrar o cão pelo pelo"?...

6 - Não há qualquer desvantagem em existir Português-PT e o dialecto-BR, como há Inglês diferente em UK e USA (doughnut e donut), como com o Espanhol onde "coche" na Espanha será "carro" na América do Sul, etc.. Cá só há desvantagens e custos com o Acordo. Seremos os únicos ex-colonizadores a escrever e falar como a colónia (por algum motivo obscuro). Não nos entendemos assim? Só pouparíamos dinheiro e neurónios.

7 - Peçam a um Brasileiro para dizer "Peniche".

Ao falar, notem a palavra que sai, ao tentarem imitar. O Português - PT tem muito mais riqueza fonética e linguística do que o dialecto - BR.

Aprendemos facilmente o dialecto - BR e eles não aprendem facilmente o Português – PT, falta-lhes a prática no range maior de sons da língua portuguesa. Há quem diga que somos os melhores a aprender línguas e sotaques no mundo devido à riqueza da nossa língua.

Vamos aproximar-nos do dialecto - BR porquê?

8 - Corretora Oanda, movimenta triliões, é a maior corretora cambial do mundo, traduziu os seus manuais para Português -PT. Isso mesmo, nada de Acordo, nada de dialecto -BR.

Português-PT.

Vamos nós andar a alterar o Português e mostrar-lhes que afinal fizeram a escolha errada? Entre muitas outras empresas.

9 - Querem que os livros escolares de 2012/13 sejam já com o novo acordo. As crianças serão ensinadas neste primeiro passo a ler e escrever de forma diferente.

Será assim opcional a mudança como nos querem fazer querer.

A mudança é obrigatória, é imposta nas escolas, já está nos media, etc.

Não podemos escolher continuar como estamos porque daqui a uns anos será mesmo errado.

Os Brasileiros cortam "C" e "P" e podem ler da mesma forma, nós não! Esqueçam a dupla grafia.

O que fazer com a palavra recepção.

Se o “p” desaparece fica receção. O que fazer depois com a palavra recessão, que tem outro significado e que se lê exactamente da mesma forma?

10 - O que é que o povo mandou? Inquéritos em que 65% das pessoas rejeitaram o acordo, umas 30% não sabem o que é, e o resto diz que sim? E que salvo erro umas 28 em 30 universidades e editoras consultadas disseram que não? Além de muitos linguistas? Porque é que é aprovado o acordo contra a vontade do próprio povo? Mesmo uma petição com 120.000 assinaturas foi apresentada a 50 deputados dos quais 49 faltaram e uma apareceu e ignorou. Para ir mesmo à Assembleia, só com uma ILC!

11 - Os Portugueses devem estar mesmo no fundo. A falar do glorioso povo do passado e ninguém quer saber da língua. Os Espanhóis nunca aceitariam um acordo destes para os obrigar a falar como os Argentinos! Os Bascos, são apenas uns 100.000 ou 200.000 a falar Basco, nunca desistiram até ao fim e agora têm até a língua Basca como oficial no seu pequeno "país". Só o Português é que deixa andar e desleixa a língua e deixa que outros façam o que querem dela...

12 - Estamos nós a defender letras como "C" em Directo que realmente são úteis, têm a sua função, e lá fora há línguas que mantêm letras que dizem ser desnecessárias, como "Dupond" ou "Dupont" em Francês o T permanece só porque não é lido, vamos suprimi-lo ? Apagar porquê? É difícil perceber para que servem e por isso cortamos? Agora um espectador passou a espetador = aquele que espéta o quê?

13 - Há mais falantes nativos de Inglês mais Espanhol juntos (Espanhol mais ainda que Inglês), que passam de um bilião de nativos, e mais de 2 biliões de falantes não nativos das mesmas, do que os 200 milhões de Brasileiros. Estarmos a afastar a língua de 2 biliões de pessoas para ficarmos mais próximos do Brasil é disparate.

Mais uma vez, para facilitar a vida aos Brasileiros, vamos dificultar a vida a quem quer aprender Português lá fora e tornar a língua portuguesa mais obsoleta.

Vejam: "Actor" aqui, "Actor" no Latim, "Acteur" no Francês, "Actor" no Espanhol, "Actor" no Inglês, "Akteur" no Alemão, tudo com o "C" ou "K", e depois vêm os Brasileiros com o seu novo: "Ator" (devem ser Influências dos milhões de Italianos que foram para o Brasil e falam "attore").

Algumas outras: Factor, Reactor, Sector, Protector, Selecção, Exacto, Baptismo, Excepção, Óptimo, Excepto, Recepção etc, "P", "C", etc. Estamos a fugir das origens, do mundo, para ir atrás dos Brasileiros.

14 - Alguém quis saber do resto das colónias que não falam da mesma forma que os Brasileiros? Só ao Brasil é que interessou o Acordo (Portugal foi o único que cedeu).

Tenho amigos Angolanos que dizem falar como o Português - PT e nunca quiseram o dialecto-BR nem o Acordo, não foram consultados! O Brasil quer tornar-se dono da língua portuguesa porque pertence ao G20!?

15 - O Galego-Português da Galiza, o da variante da AGLP, é mais parecido com o Português de Portugal neste momento que o próprio dialecto -BR. Os Brasileiros têm alterado a língua sem se preocupar com o resto do mundo, porque é que temos de ser nós a pagar pelos seus erros e prepotência?

16 - Sempre odiei instalar um software e ver que vem tudo em Português do Acordo, e fóruns também, em que uma votação é uma "ENQUETE" (sei lá como foram inventar isto), em que um utilizador é um usuário, em que "apagar" é "DELETAR" (do "Delete" Inglês, por incrível que pareça nos seus dicionários), ou Printar, ou etc. Por vezes sou obrigado a utilizar softwares em Inglês para aguentar... Como haverá agora Português-PT e o dialecto-BR ao gosto de cada um, se só existirá um "Português"? Eu quero sites e softwares que entenda e na minha língua e isso SÓ É POSSÍVEL mantendo o português-PT e o dialecto-BR separados! Senão será tudo misturado para sempre! E depois lá vamos nós "enquetar" (votar) e coisas assim (enquetes = votações)...

17 - A prova do ponto 16, é que o próprio Google Translator já só tem o "Português" e tudo o que escreverem ficará no dialecto-BR, e até "facto" que ainda não mudará já aparece lá como "fato", é bom que nos habituemos pois será o que virá nos próximos acordos, bem como "oje", "abitação", aja, aver = existir etc.

18 - No Brasil mesmo não sofrendo as alterações que temos, há milhões contra o acordo também por coisas insignificantes como a supressão do "trema"!!! Vejam na net!! Nós com alterações brutais, muito contentes sem fazer nada!!!

19 - Existirão sempre pseudo-intelectuais em todas as línguas que irão dar a vida pelo acordo (sem querer ofender ninguém), achando que é o ideal, e que salvará o país e que dará emprego ao país, e até que sem isto a Língua Portuguesa morre e haverá uma língua "Brasileira".

A variante dialectos-BR nunca poderia ser uma língua independente como "Brasileiro" só pelas alterações que fazem, não há esse perigo, teria de ser radicalmente mudada (nunca acontecerá) de propósito para o efeito. Não inventemos.

A variante dialecto-BR nunca poderia ser considerada outra língua.

E não deixem que pseudo-intelectuais nos tratem como burros só porque defendemos a língua.

São chicos espertos, pessoal de manias ou megalomanias para a defesa do acordo (existirão também pessoas decentes a defendê-lo é certo).

20 - Nada impede que haja uma espécie de concordância mais simples em que digam apenas que incluímos palavras deles e nossas num dicionário universal mas SEM IMPOR regras a ninguém. No futuro cada um dos países só alterará a SUA PRÓPRIA variante com acordo dos outros, sem impingir aos outros essas mudanças, apenas para evitar que as mudanças no Brasil possam ir ainda mais longe e arruinar ainda mais o Português das restantes colónias. Nada impede isso.

21 - Com o Português unido, como ficará a bandeira oficial? Já se vê por todo o lado a bandeira do Brasil no Português, mas se tivesse Brasil para o dialecto-BR e a Portuguesa para Português-PT, ainda era aceitável, apesar de sabermos que só há uma bandeira oficial que é a Portuguesa, mas é difícil impedir o patriotismo Brasileiro, com tudo unido, haverá a tendência das empresas adoptarem a bandeira do país que tem mais população, o Brasil. Então as variantes da língua?

22 - Cada vez que me lembro que lá se escreve "mais" em vez de "mas" porque falam no fundo "mais" com o sotaque têm a tendência de passar para a escrita a forma como falam.

Em futuros acordos seremos obrigados a escrever também: "eu fui lá MAIS não vi ninguém".

Há a tendência de se escrever como se fala.

“Presidenta” está nos dicionários, só falta transformar o “Presidente” em “Presidento”, era só o que faltava...

Há muito tempo que o Brasil anda a adulterar a língua sem ninguém intervir, e agora ALTERAM A NOSSA!

23 - Existem formas de travar este acordo!

Petições ou clicarmos num LIKE no Facebook não fazem nada. Há uma ILC em movimento que será entregue em breve, prazo final para impedir esta desgraça.

Porque temos de imprimir um miserável papel e enviá-lo, porque é para a Assembleia, mas quem é que diz ser contra e fica sem agir?

Se 20 pessoas assinarem, fica a 2 cêntimos cada o envio dessas assinaturas por correio. É só colocar num marco de correio! Houve uma ILC antes, e entrou na Assembleia, e anulou uma lei de Arquitectura.

As ILC's podem ter esse poder. É uma forma do POVO LEGISLAR. Do povo criar leis, e acabar com leis. O Governo fez isto sem apoio de ninguém e nós podemos tentar fazer algo para corrigir. Quem é o Governo para legislar sobre a língua, sem apoio dos letrados e da ciência e academia de letras, ilegitimamente?

24 - Há mil outras razões para dizer não ao acordo, mas... para quê? Estas não chegam?

25 -Para terminar fica uma frase de Edmund Burke: "Tudo o que é necessário fazer para que o mal triunfe, é que os homens bons nada façam." Neste caso, tudo o que é necessário fazer para que o Acordo triunfe, é que NÓS continuemos à sombra da bananeira, a deixar o tempo passar. Porque o Acordo foi aprovado e se ninguém lutar contra ele, já cá anda.

A RTP está a dar um triste espectáculo, faz disso a sua Bandeira.»

«O laxismo nacional – Do fim dos chumbos ao (des)acordo ortográfico» (*)

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Uma abordagem do ex-ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho.

E o que pensará a actual ministra da Cultura de Portugal, Graça Fonseca, acerca das matérias que aqui se abordarão?

reforma-ort.jpg

« (…) Entretanto, no âmbito nacional, a expectativa é sobretudo em relação ao Orçamento de Estado para 2020, o que contudo não impediu uma viva, e bem necessária, controvérsia no Parlamento sobre o fim dos chumbos no Ensino Básico (até ao 9º ano). Medida que, se em abstracto só pode merecer aplauso, no caso concreto português exigiria medidas de apoio aos alunos e às escolas que estão a anos-luz do que a situação actual permite. O risco é pois grande de se estar perante mais uma vitória do laxismo, mais um triunfo do facilitismo que tão caro nos tem saído. A terminar, e porque aqui é, mais do que de laxismo, é de uma total irresponsabilidade política que se trata, abordo o (des)acordo ortográfico, que se nada se fizer vai tornar a nossa língua numa língua minoritária no âmbito do português global, com - a seguirmos as projecções feitas para meados do século - 8 milhões de pessoas, no quadro de 400 milhões de falantes do português, a seguirem um "acordo" que mais ninguém segue, tornando assim o nosso português num mero dialecto. (Manuel Maria Carrilho)

***

Estou completamente de acordo com o Dr. Manuel Maria Carrilho, nos temas que aborda neste vídeo, obrigatório ouvir.

O que ele disse sobre o AO90, já o venho dizendo há muito. Mas dito por mim, que importância terá? Nenhuma. Porque, para os acordistas, sou a "maluquinha de serviço". O que vale, não sou a única!

Contudo, dito por um ex-ministro da Cultura, espero que tenha toda a importância, e que seja ouvido no Parlamento, porque seguimos por um caminho lamacento, em direcção a um abismo cultural, sem precedentes em Portugal, porque abancada no Parlamento está gente  muito insciente a manobrar a engrenagem. (Isabel A. Ferreira)

Vídeo.PNG

[Eliminado mais um vídeo inconveniente] 

Presidente da República Portuguesa dá entrevista com sotaque brasileiro

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Ler o que Sua Excelência disse é uma coisa. Ouvir é outra.

«Lá vem a Nau Catrineta, que tem muito que contar, ouvi agora senhores uma história de pasmar»…

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa (ou deverei dizer República Luso-Brasileira?) dá uma entrevista no Palácio de Belém, usando um sotaquezinho brasileiro, e diz ele: «Estou a fazer um enorme esforço para não falar à brasileira». Mas falou.

(Ver vídeo mais abaixo).

Sim, senhor Presidente da República Portuguesa, deve ficar preocupado, preocupadíssimo, porque são muitos os Portugueses que, depois do que ouviram, na entrevista que deu ao jornalista brasileiro Pedro Bial, ficaram surpreendidos, decePcionados, estarrecidos, arrepiados, horrorizados, tristes, com a subserviência do Chefe de Estado Português a um país que, apesar de filho de Portugal, é estrangeiro. Ficará para a História com dois cognomes: «Celinho das Selfies" e Dom Marcelo Rebelo de Sousa, o Subserviente. 

[O vídeo foi retirado, para eliminar as provas do que aqui se diz]

Repare-se nas construções frásicas: meu irmão, meu avô, meus filhos, meu pai, minha campanha, de minha conta. Já não diz o meu irmão, o meu avô, os meus filhos, o meu pai, a minha campanha, da minha conta… (surripia os artigos, como fazem os Brasileiros).

E na fonética: prôfêssor, dêlirante, ôlhando, rêcandidátura, dêcido, considêrá, pôndêrá, Vêrão, Brásiu, eu me lembro, me levou, êducáção, subêsêcretário de estado, meu estilo é diferente, as duas comunidades se descobriram, uma relação muito formau, me adaptei, está acompanhando (usa os gerúndios).

O que é isto?

Este não é o Português Europeu. O Português do meu País. Não é o Português que o Chefe de Estado Português deva usar, quando está a representar Portugal, como Chefe de Estado Português.

Isto é inadmissível. Muito mau, senhor presidente. Não faça esforço. Já se espalhou. Está no Palácio de Belém, como Presidente da República, não como avô, ou pai, ou amigo dos brasileiros. Nem sequer está no Brasil. Também não está num "café" a bater um papo com um amigo brasileiro, ou com os netos.

Estava a dar uma entrevista no Palácio de Belém, como Presidente da República Portuguesa, a uma estação de televisão brasileira.

Pedro Bial não prescindiu da Língua dele, para entrevistar o PR português. Porém, o PR português prescindiu da sua Língua para dar a entrevista. Quanta subserviência!

Agora entende-se porque se remete ao silêncio, na questão do AO90, e despreza a opinião pública portuguesa, e não responde, como é de seu DEVER, às cartas que lhe escrevemos, a este respeito.

Não surpreende que a sua popularidade esteja a cair vertiginosamente. É que nem todos, em Portugal, são bajuladores.

Ao ouvir esta entrevista, senti vergonha do Chefe de Estado do meu País. E, inegavelmente, Marcelo Rebelo de Sousa não representa Portugal, nem milhares de Portugueses, que pensam como eu. Não me representa.

Isabel A. Ferreira

"Cansei-me… rendo-me…"

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Não, isto não me diz respeito. Talvez um dia isto possa acontecer-me, mas só quando Portugal já não tiver a mínima hipótese de ser um país digno e independente. Então não me restará outra opção senão render-me ao invasor. Por enquanto ainda há esperança.

Recebi este texto via e-mail. Traduzido por M. Helena Damião e Isaltina Martins, e partilho-o para que todos os que se dignarem a lê-lo possam reflectir sobre o modo como os adultos e os governantes estão a contribuir para o aniquilamento de uma sociedade que se quer moralmente, intelectualmente e culturalmente saudável, e a comprometer, de um modo insano, o futuro das nossas crianças e dos nossos jovens. (Isabel A. Ferreira)

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Leonardo Haberkorn

Origem da imagem:
https://www.eldia.com/nota/2016-9-14-renuncio-a-dar-clase-vencido-por-el-celular

Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor uruguaio, era professor numa universidade de Montevideo. Corre na Internet um artigo seu publicado em papel, em 2015, com o título "Me cansé... me rindo...", onde declara ter deixado o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.

Tomámos a liberdade de o traduzir, pois, por certo, ele tocará muitos professores e directores de escolas portuguesas. Desejável é que tocasse instâncias superiores e, de modo mais alargado, a sociedade.

"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade.

Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o Facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.

Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.

Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais.

Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.

Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal.

Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem sentido em estar informadas.

Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa? Sim!

Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado.

É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.

Chega um momento em que ser jornalista é colocar-se na posição do contra. Porque está treinado a pôr-se no lugar do outro, cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho.

E então vê que estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. Que a incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.

Que lhes foram matando a curiosidade e que, com cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, os ensinaram que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda.

E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim.

O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio.

Eles queriam que a aula terminasse.

Eu também."

Tradução: M. Helena Damião e Isaltina Martins

Marcelo Rebelo de Sousa levou o "afeto" (“âfêtu) português a Angola, e Angola retribuiu-lhe com o afeCto angolano

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Sexta-feira, 8 de Março de 2019

E isto é muito bom, porque haja alguém que mantenha a Língua Portuguesa do lado de cá do Atlântico e preserve a sua europeialidade.

Vimos também o Presidente João Lourenço (Angola) e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (Portugal) a discursarem em directo, num canal de televisão angolano.

E como foi igualmente muito bom ver algo em direCto, porque há tanto tempo que não se vê nada assim, em Português correcto, nas televisões portuguesas!

DIRECTO1.png

tags: angola, atlântico, joão lourenço, joão relvas, lusa, língua portuguesa, marcelo rebelo de sousa, portugal, presidente joão lourenço, presidente marcelo rebelo de sousa, televisões portuguesas

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Mais «nove argumentos contra o acordo ortográfico de 1990»

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

O texto que aqui transcrevo, hoje, da autoria de Manuela Barros Ferreira, ex-investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, é mais um excelente contributo contra o aberrativo “acordo ortográfico” que constitui um inominável crime imposto politicamente à Língua Portuguesa, de acordo com o ex-presidente da Comissão Nacional da Língua Portuguesa, professor Vítor Aguiar e Silva.


Por que é que os governantes de Portugal, incluindo o Chefe de Estado, continuam agarrados a este aberrativo acordo, é algo que ultrapassa todo e qualquer entendimento.

Porém, uma coisa é certa: Portugal pagará bem caro esta ingressão pelo Reino da Estultícia, bem como todos os protagonistas desta fraude.

Isabel A. Ferreira

Aguiar e Silva.png

Texto de Manuela Barros Ferreira

«Qualquer crítica - e qualquer defesa - que se baseie sobretudo em insultos não é crítica nem defesa: é mero desabafo. Não vale nada. Por isso apresento uma série de argumentos relativos à eficiência operativa do OA90 e a aspectos de ordem linguística, educativa, sociológica, diplomática, económica e de preservação patrimonial que me levam a não concordar com a sua aplicação.

  1. Argumento da pouca eficácia

O AO 90, em vez de diminuir o número de palavras que se escreviam diferentemente em Portugal e no Brasil, aumentou-o consideravelmente. Segundo um estudo de Maria Regina Rocha (que exclui três tipos de vocábulos), 2.691 palavras que se escreviam de forma diferente mantêm-se diferentes; apenas 569 que eram diferentes se tornaram iguais; 1.235 palavras que eram iguais tornaram-se diferentes e, destas, 200 mudaram apenas em Portugal, dando origem a soluções aberrantes como aceção, conceção, confeção, contraceção, deceção, impercetível..., enquanto no Brasil se continua a escrever acepção, concepção, confecção, contracepção, decepção, imperceptível, etc. (cf. “A falsa unidade ortográfica”, Jornal Público, 19.01.2013, retomado em http://ciberdúvidas.iscte-iul.pt/.)

  1. Argumento de ordem fonológica

Uma das características da língua portuguesa falada em Portugal é a chamada “elevação das vogais átonas”, ou seja: para nós, a pronúncia das vogais “a”, “e” e “o” em posição tónica não é a mesma que a que têm em posição átona. Compare-se o primeiro “a” de “casa” com o de “casinha”: na primeira palavra o “a” é aberto, e na segunda o “a” é fechado. Compare-se o “e” de “mesa” com o primeiro de “meseta”: em “mesa” pronunciamos “ê”, em “meseta” o “e” é mudo. Mesmo que esse “e” desapareça da fala e digamos “mzeta”, continuamos a perceber que se trata de “meseta”. Dizemos “tolo” com “ô” mas em “tolice”, o “o” é fechado. Esta regra é de aprendizagem automática, desde a primeira infância. Existem excepções, por motivos etimológicos e de paradigma morfológico: caveira, dilação, especar, especular, padeira, relator, retrovisão e algumas mais. Algumas dessas palavras até costumavam, até certa altura, levar um acento grave para indicar que a vogal era aberta: pàdeira e rètaguarda por exemplo. Hoje ele só subsiste como indicador da junção do artigo “a” com a preposição “a” e com os demonstrativos aquele, aquela, aquilo (“Dei um bolo à Maria”, “Àquele nunca falo”). Em 1971 no Brasil e em 1973 em Portugal foi eliminado dos advérbios de modo, e assim “sòmente” e “fàcilmente” passaram a escrever-se “somente”, “facilmente”. Considerou-se inútil porque “os falantes da língua sabiam como se pronunciavam as palavras”. Foi talvez essa a primeira “facada” que os legisladores da língua deram na transparência que a escrita devia ter para quem o português não era a língua materna – como era o caso da maior parte dos nativos das colónias de então. Noutros casos subsistia, porém, o recurso a letras etimológicas, com a função de indicar que as vogais que as precediam eram abertas. É o caso de “nocturno”, “espectador”, “tractor”. Sem esse auxílio, a regra de fechamento da vogal que não tem acento tónico tende a aplicar-se. É por isso que o AO 90 induz a que se leia “nuturno” ou, quando muito, “nôtúrno”; “espetador” como um derivado de “espeto” e “trator” com “a” fechado, vocábulo que não existe. Quer dizer, o AO aumentou desmesuradamente o número das excepções a uma regra de pronúncia que permitia uma leitura intuitiva.

  1. Argumento de ordem morfológica

Há um princípio básico de qualquer ortografia: a coerência morfológica. O AO 90, seguindo estritamente a produção fonética, exige que se escreva “os egípcios são os nativos do Egito”. Conserva-se, e muito bem, o “p” do “egípcio” porque se pronuncia, mas em “Egito” perde-se a ligação gráfica entre o nome do país e o dos seus habitantes.

  1. Argumento de linguística histórica

A língua portuguesa é, como todas as línguas naturais, um produto da História. A nossa deriva maioritariamente do latim, tem muitas raízes gregas, muitas achegas vocabulares árabes, tem remodelações renascentistas, tem neologismos oriundos das nações até onde viajou e dos variadíssimos povos, objectos e ideias que aqui foram chegando através dos séculos. A escrita reflecte essa riqueza.

Sobretudo com o Renascimento, a nossa língua sofreu um impulso extraordinário. A partir dessa altura foram criadas ou recuperadas numerosas palavras com base no grego e latim. Não falemos nos termos da Botânica, Medicina, Biologia, Química, que não há lugar nem tempo para tamanha empresa. Falemos apenas de um processo: o da criação de palavras derivadas.

Se repararem bem, a coerência morfológica que mencionei acima, é coisa que aparentemente falha: as palavras derivadas muitas vezes diferem daquela que lhes deram origem. Por exemplo, “lunar” e “luneta” não derivam de “lua”, “pedal” não deriva de “pé”, “lacticínio” não deriva de “leite”, “nocturno” não deriva de “noite”. Todas estas (e tantas, tantas outras...) palavras foram criadas, não a partir da palavra portuguesa (que sofreu todas as evoluções que o tempo imprimiu à raiz latina), mas sim directamente a partir do étimo latino, recuperado por pessoas eruditas: “luna-”, “pede-“, “lacte-“, “nocte-“. Uma coisa é o ter-se a pronúncia do latim transformado por via popular, através dos séculos (perdendo o “n“, o “l” e outras consoantes sonoras intervocálicas, transformando “–ct” em “-it”, etc.) outra coisa é criar-se uma palavra nova, aproveitando, reciclando um étimo já longínquo para fazer frente às novas necessidades de vocabulário. Deste modo, muitas das nossas palavras derivadas conservaram o étimo latino a partir do qual foram criadas. Elas fazem parte do património da língua, veiculando uma dupla marca de origem: social (erudita) e temporal (tardia).

CONSTANÇA CUNHA E SÁ.jpg

  1. Argumento educativo

Como ensinar a uma criança que “soturno” se lê com “o” fechado, pronunciado “u” na maior parte do país, e a palavra “noturno” se lê com “o” aberto”? A resposta é fácil: não se fala no assunto e fica o caso arrumado. Como ensinar a uma criança que da palavra “noite” se formou “noitada”, mas que “noiturno” e “noitívago” não existem, o que existe para o AO 90 é “noturno” e a dupla grafia “notívago” e “noctívago”?

Não seria mais fácil escrever estas últimas com “ct” e dizer-lhe que são palavras entradas na língua por via erudita e não por via popular? E que, se elas, crianças, comeram papa “láctea”, esta é outra palavra também erudita, tal como “lacticínios”? Escrever “laticínios” não remete para outra coisa a não ser para “lata”. Talvez a lata de leite condensado que se vende nos supermercados?

  1. Argumento sociológico

Antes de 1990 já existiam duas grafias em Portugal: a norma de 1945, muito bem destrinçada e explicada em Prontuários Ortográficos; e uma grafia difusa, sempre em reconstrução e evolução - a das mensagens juvenis - caracterizada pela simplicidade extrema, minimalista, com consoantes isoladas representando palavras, sem pontuação, nem cedilhas nem tiles. Esta tendência não fez senão acentuar-se com a generalização do uso electrónico. É nesta situação dicotómica que se insere uma terceira forma ortográfica, a do AO 90. Os defensores da norma de 45 agridem verbalmente os defensores da de 90 e vice-versa. E os jovens? Uns são penalizados nas notas por escreverem à antiga algumas palavras-ratoeira; outros são menosprezados porque escrevem à sua, deles, moda “simplex”; e os que escrevem “à moderna” deixam de respeitar as edições existentes na biblioteca da sua escola e inclusive invocam o pretexto da “confusão gráfica” para deixarem completamente de ler.

Se o AO 90 não é um erro sociológico, não sei o que será.

  1. Argumento diplomático

O Acordo Ortográfico de 1990 tinha-se proposto unificar a escrita de todos os países de língua oficial portuguesa. Este objectivo não foi conseguido. Portugal impôs unilateralmente uma grafia que não tem o acordo de todos.

Diz-se que o AO 90 foi feito, essencialmente, para aumentar as vendas de livros portugueses no Brasil. Para isso pretendia unificar a escrita. Não unificou. Temos, por exemplo, acentos agudos onde os brasileiros têm acentos circunflexos (fenómeno /fenômeno, o que corresponde a uma efectiva diferença de pronúncia); e eliminamos o “c” e o “p” que são pronunciados em palavras brasileiras e não o são nas correspondentes portuguesas. Por exemplo, no Brasil: respectivo, perspectiva, recepção; em Portugal, segundo o AO: respetivo, perspetiva, receção, embora os “e” destas palavras não se pronunciem como os de “repetido” e “recessão”.

Angola e Moçambique não assinaram o AO 90 (o que me parece um grande exemplo de bom senso, sobretudo se tivermos em conta o argumento que se segue). A opinião destes países de língua oficial portuguesa devia ter sido ponderada e tida em conta pelo governo português antes de avançar para uma “situação de facto” extremamente difícil de reverter.

  1. Argumento económico

O que seria economicamente mais recomendável?

Adoptar como obrigatório o AO 90 em nome de futuras vendas de futuros livros, tornando obsoletas as bibliotecas existentes? Ou manter a escrita de 1945, com todo o enorme acervo literário e científico que produziu?

Leiamos as palavras da escritora moçambicana Paulina Chiziene:

“Quantos dicionários Moçambique terá de comprar de novo? Quantos livros terá de mandar reescrever? Quantos livros de escola terão de ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que vale a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um “c” e um “p” do que está escrito? [...] Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”. (Tradutores contra o Acordo Ortográfico).

  1. Argumento da preservação patrimonial

É natural que uma língua que se começou a escrever e ensinar há relativamente pouco tempo – por exemplo, o mirandês, no fim do século XX – não tenha qualquer obrigação de respeitar formas que os portugueses foram elaborando ao longo dos séculos. Porém a mim parece-me que todos nós, portugueses, que dispomos de uma língua escrita desde, pelo menos, D. Afonso II, temos obrigação de manter o mais possível as marcas históricas das palavras que até nós chegaram.

A grafia portuguesa já em tempos renunciou a algumas marcas históricas: por exemplo, o “ph” e os “ll” etimológicos (pronunciados “f” e “l”), dado que esse modo de escrever induzia a leituras erradas, e podia, por isso mesmo, ser descartado. Porém o AO 90 vai longe demais, ao afectar de modo evidente a leitura das vogais não acentuadas e a íntima conexão lógica que existe dentro de cada paradigma vocabular.

Ao modificar-se a escrita, com base numa (suposta) maior facilidade da sua aprendizagem, estabeleceu-se uma enorme confusão nessa mesma escrita e perdeu-se a possibilidade de jovens e menos jovens compreenderem os mecanismos de formação das palavras. Perdeu-se o nexo entre elas.

Para terminar:

Outra coisa ainda deveria ser tida em conta: ao renunciar de modo cego às marcas históricas, este “acordo” insere-se num movimento global de apagamento da memória e de negação da História. Terrível movimento, que cada dia se torna mais evidente e que deixará sem raízes, sem passado, uma série de povos, se não a maioria. E que já está deixando o mundo à deriva, presa dócil de todas as tiranias. Admiramo-nos do modo como estão sendo destruídos monumentos, museus, cidades, inúmeras etnias e línguas. Este desrespeito, este crime que hoje nos parece abrupto, começou devagar, por pequenas coisas, aparentemente insignificantes.

É inelutável? Será irreversível? Há quem diga que é demasiado tarde para recuar. Mas talvez ainda se possa fazer qualquer coisa. Mesmo este Acordo, que ainda não está instaurado em todo o mundo lusófono, é passível de emendas fundamentais.»

Fonte:

https://expresso.pt/opiniao/2016-05-11-Nove-argumentos-contra-o-Acordo-Ortografico-de-1990?fbclid=IwAR1n2KUHP_zz4-OkvPvvzlZeEv6buCuMEOyts0ziqH_-1I0MjT37RMgQ3fs#gs.j8YF0LQe

***

Apenas a morte é irreversível

Não, a situação caótica provocada pela aplicação ilegal do AO90, em Portugal, não é inelutável, nem irreversível. Nada é irreversível, neste mundo, a não ser a morte. Tomemos por exemplo o GALEGO, que andou perdido, com a introdução do Castelhano, nos finais do século XV, e passados “os séculos escuros” (XVI, XVII e parte do XVIII) o Galego foi recuperado, porque «contou sempre com defensores entre os galegos, com gente que lutou pela dignificação e defesa da sua Língua na Galiza, tradição reivindicativa procedente das classes sociais cultas, e que esteve acesa ininterruptamente até à actualidade» in «Historia da Lingua Galega», de Xosé Ramón Freixeiro Mato e Anxo Gómez Sanchez.

E hoje o Galego é novamente escrito e falado na Galiza, a par do Castelhano, mas tudo se encaminha para que predomine novamente.

A Língua Portuguesa será recuperada, com toda a certeza, e não precisaremos de séculos, porque existem defensores que por ela lutam, e que manterão acesa esta luta até que o AO90 seja extinguido.

E assim como se anda por aí a enganar as crianças a escrever a própria Língua Materna à brasileira, sem os cês e pês, onde eles são necessários, e uma acentuação e hifenização absolutamente parvas, mais facilmente se retomará o ensino correCto da Língua, porque enganar nunca foi sinónimo de ensinar, e é mais fácil ensinar uma Língua com lógica, do que uma linguagem ilógica, como é a que o AO90 preconiza. 

Querem um exemplo? 
«No Egito
os EgíPcios acolhem com todo o carinho os egiPtólogos que vão para o país ensinar EgiPtologia nas escolas.»

(Os excertos destacados a negrito no texto de Manuela Barros Ferreira são da  minha responsabilidade )

Isabel A. Ferreira

«Serão os Africanos de expressão portuguesa a virem ensinar aos Portugueses a escrever correCtamente a sua Língua»

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Recebi, via e-mail, uma carta de um ex-professor do Ensino Secundário, a qual aqui transcrevo, com a devida autorização, e que traça um retrato real da vergonhosa e inconcebível situação que se vive actualmente em Portugal, à conta do AO90.

A publicação desta carta insere-se numa acção a levar a cabo, brevemente, pelo Movimento em Prol da Língua Portuguesa (MPLP), que a seu tempo será divulgada.

Para já, fiquemos com a referida carta e com este grito de Pedro Barroso.

Sim, seremos milhões a não compreender o assassinato do NOSSO PORTUGUÊS.

Pedro Barroso.PNG

Carta de António Vieira

(Os excertos a negrito são da minha responsabilidade).

Sr.ª Isabel A. Ferreira

Não vou tomar-lhe tempo com os argumentos esgrimidos contra esta aberração (ou acordo "mortográfico" na lúcida e muito oportuna tirada jocosa do Dr. António Bagão Félix), dado que os mesmos são já sobejamente conhecidos.

Fui professor do Ensino Secundário até há cerca de um ano, na Escola Secundária José Estevão, em Aveiro (actualmente sou empresário) e pude constatar diversas posturas de Colegas meus professores de Português: uns abertamente contra, mas "rumorejando" em silêncio (dado que a chantagem exercida pelas chefias e a preservação do posto de trabalho "falam sempre mais alto").

Outros, arvorados em "progressistas" de "ideias avançadas e arejadas" apoiam a aberração em causa, mas furtam-se a um debate sério (presumo que alguns deles colaborem com Editoras de manuais escolares e os "trocos" suplementares vindos ao fim do mês venham sempre a calhar!, há sempre quem se venda por um prato de lentilhas).

Na minha modesta opinião, penso ser de aproveitar os seguintes pontos:

1º- O Ministro da Educação actual, Tiago Brandão Rodrigues, é contra o "AO 90” e faz parte da plataforma no "Facebook" (foi uma agradável surpresa eu ficar sabedor deste dado crucial).

2º- Angola já declarou a não-conformidade com o AO90 e declarou que o não o irá ratificar. (Moçambique, parece-me não ter uma posição muito definida, julgo que o que pretende é que lhe ofereçam os manuais escolares à borla, seja em que grafia for). Penso que se houver pressão por parte de algumas figuras políticas de peso no sentido de se moverem "nos bastidores" (é assim que as coisas se processam sempre) algum resultado poderá ser atingido). Mas do que não tenho dúvidas é que se houvesse um número suficiente de professores que declarassem uma resistência frontal e adoptassem uma atitude de desobediência deliberada (semelhante à de uma greve), o peso do número não deixaria de constituir um argumento inultrapassável, tanto mais que o Ministro da tutela também se encontra do mesmo lado da "barricada", assim, por meio duma "arregimentação" através das redes sociais (isto hoje é facílimo), numa iniciativa sincronizada, aí não tenho dúvidas de que a questão ganharia outros contornos, não de uma solução definitiva, mas lá que o barco apanhava um forte "rombo" não tenho quaisquer dúvidas.

Tenho a certeza duma opinião emanada pelo Doutor Menezes Leitão (Prof. Catedrático de Direito em Lisboa e Presidente da Associação de Senhorios) segundo a qual "iremos passar pela vergonha de serem os Africanos, nossos ex-colonizados, a virem tornar a ensinar aos Portugueses a escrever correctamente a sua Língua (no site "Moçambique e o AO90").

E, sintomaticamente, é negativa a apatia e impavidez do nosso Povo totalmente "embrutecido" com a bola, com o Ronaldo, etc. que se acomoda e adopta uma postura totalmente distinta dos nossos vizinhos aqui do lado (galegos, catalães, etc.) que defendem os seus idiomas com unhas e dentes, embora já se assista a algum inconformismo (fui testemunha duma conversa de rua aqui em Aveiro, há algum tempo de pessoas falando contra o AO90), mas ainda há dias na "receção (?)" do escritório duma empresa, questionei a funcionária que respondeu: «...agora com o acordo ortográfico..." e eu perguntei-lhe: mas qual acordo? de quem, com quem? e ela não fazia a menor ideia do que eu estava a referir. E como esta, muitas outras pessoas, dentro do espírito de "carneirada e... Maria vai com as outras!".

Entrego-lhe em mãos estas duas sugestões, fico grato pela atenção dada a este breve e singelo libelo pessoal de inconformidade.

Com um abraço, subscrevo-me atenciosamente,

António José Ferreira Simões Vieira»

***

Não podia estar mais de acordo com tudo o que António Vieira escreveu, nomeadamente quanto à postura dos professores, que se quisessem, já tinham acabado com este desacordo.

A chantagem das chefias são um vergonhoso modo de impor algo que está para além da racionalidade. Contudo, as pessoas não deviam aceitar placidamente essa chantagem, até porque ninguém seria despedido por desobedecer a algo que é ILEGAL.

Isabel A. Ferreira

Agora já sabemos: Marcelo Rebelo de Sousa evita falar sobre o AO90 para “não abrir uma querela”

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Signifique isto o que significar. Tenha a intenção que tiver.

Porém, a verdade não é que Marcelo evita falar, a verdade é que Marcelo recusa-se a falar sobre algo que está a afectar gravemente a sociedade portuguesa (e apenas a sociedade portuguesa, e mais nenhuma outra sociedade da dita lusofonia) naquilo que, culturalmente, ela tem de mais precioso: a Língua Materna. Marcelo emudeceu desde que foi a Moçambique e regressou com a intenção de reabrir o debate. Cá chegado, parece que levou com uma moca na cabeça, e, como se diz por aí, perdeu o pio.

E o silêncio não é compatível com a Democracia (se não me engano, foi da boca da senhora Ministra da Justiça, que ouvi esta frase, num canal de televisão, já não me lembro a propósito de quê).

Mas sim, é verdade. O silêncio de Marcelo não é compatível nem com a Democracia, nem com a transparência que se espera de um Chefe de Estado, que vê (ou não verá?) o seu maior símbolo a destruir-se, afundado na ilegalidade e na inconstitucionalidade, e tudo isto a ser contestado bastamente pelos portugueses, e Marcelo cala-se, sabe-se agora, para «não abrir uma querela». E à conta de não querer abrir uma querela, o Chefe de Estado Português prefere destruir a Língua Materna dos Portugueses.

Aconteceu no passado dia 19 de Novembro do corrente ano, em entrevista à Rádio Nacional de Angola. Questionado, entre outras questões, sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que Angola ainda não ratificou, tal como Moçambique, Timor-Leste e Guiné-Bissau, Marcelo Rebelo de Sousa disse esta coisa curiosa: evita pronunciar-se, “para não abrir uma querela”, embora acompanhe “com interesse” as posições dos vários países da CPLP, se bem que um interesse muito desinteressado.

O que o Chefe de Estado Português devia ter dito, e não disse,  foi que segue com manifesto desinteresse todos os protestos que diariamente muitos portugueses lhe dirigem a este propósito, e que, questionado sobre o assunto, recusa-se a responder.

A Rádio Nacional de Angola teve sorte.

E Marcelo disse mais. Disse que: «Muito ruído introduzido pela minha pronúncia não facilitava a convergência», e defendeu a necessidade de “aproximar realidades que têm muito em comum, mas, legitimamente, têm posições próprias”. Essa é uma matéria que poderá vir, porventura, a ser equacionada, se os responsáveis políticos entenderem que merece, a nível de CPLP ou a nível meramente informal, uma troca de impressões adicional no futuro”. Isto significa dar uma no cravo, outra na ferradura. Significa ser NIM. E os NINS nunca fizeram avançar a Humanidade.

Isto foi o que o actual Presidente da República Portuguesa se lembrou de dizer sobre esta questão gravíssima, que já gerou o caos ortográfico em Portugal, e mantém as crianças portuguesas na ignorância da própria Língua Materna.

Repare-se no jogo de Marcelo: «Muito ruído introduzido pela minha pronúncia não facilitava a convergência». Mas que convergência? Se apenas Portugal está interessado em ajudar o Brasil a impor a sua grafia, para “dominar o mundo” como já ouvi dizer? Não esquecer de que as reformas de 1911 e  1945 foram rejeitadas pelo Brasil; não esquecer que essas reformas não impuseram uma ortografia estrangeira;  não esquecer que o Brasil, de ex-colónia passou a uma potência estrangeira, e nem Portugal, nem nenhum outro país da dita CPLP tem de adoptar a grafia de uma ex-colónia sul-americana,  se têm uma Língua culta e europeia como língua oficial, ainda que nessa ex-colónia eles sejam milhões. Nos EUA eles também são milhões, e nem por isso a Inglaterra abdica da sua British Language.

Que necessidade é essa de aproximar realidades, se essas realidades já estavam aproximadas, antes de imporem o AO90, e neste momento estão desaproximadas, porque apenas Portugal está a aplicar a grafia brasileira preconizado pelo AO90? E como é óbvio e salutar, cada país, dito lusófono, legitimamente tem posições próprias, porque todos têm personalidade própria e são países livres. Não têm de estar a seguir o Brasil, nesta coisa da ortografia. Cabo Verde, já se desligou. E os restantes países não se vergaram. Só Portugal, servilmente, se vergou.

E isto não é assunto para resolver no futuro, senhor Presidente da República Portuguesa.

É assunto para resolver hoje, agora, imediatamente. Urgentemente, antes que disto saia uma geração cheia de analfabetizados, como já existem na função pública servilista, nas escolas servilistas, na comunicação social servilista e nos anunciantes e demais  cidadãos desinformados.


Os outros países, ditos lusófonos, não têm pressa nenhuma em resolver isto, porque não correm o risco de se encherem de analfabetizados, porque não aplicam o AO90.

Mas, nós, Portugueses, temos urgência em eliminar este acordo, porque foi introduzido em Portugal ilegalmente, à força e, em muitos casos, mediante chantagem. E as crianças portuguesas estão a ser as mais prejudicadas. E isto, num país livre e soberano, constituiria um crime de lesa-infância.

Portanto, senhor Presidente da República Portuguesa, é da maior prioridade que V. Exa quebre o silêncio e abra todas as querelas necessárias, para que este acordo à portuguesa seja eliminado da face da Terra, por não servir os interesses da lusofonia e, muito menos,  os interesses dos Portugueses e de Portugal.

Isabel A. Ferreira

Fonte da notícia:

https://observador.pt/2018/11/19/marcelo-admite-que-se-pode-ir-mais-longe-na-liberdade-de-circulacao-dos-nacionais-da-cplp/#

«Pela Língua Portuguesa contra o "acordo"!»

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-15 00:00

Andando eu a “limpar” o meu e-mail, deparei-me com um texto actualíssimo, arquivado como algo precioso, escrito em 2011, por Victor Santos Carvalho, e que aqui reproduzo, na esperança de que possa servir de orientação aos “distraídos” governantes portugueses que sujaram a escrita, estando a contribuir para o analfabetismo funcional em Portugal (como se já não bastasse o elevado índice do outro analfabetismo), e, pior, ainda não se deram conta disso.

BASTA! Portugal merece melhor sorte.

Milton.PNG

No Brasil o AO90 resume-se apenas aos hífenes e acentuação, e causa esta reacção ao Milton Ferretti Jung! Agora imagine-se em Portugal, que a somar aos mal engendrados hífenes e acentuação, temos de levar com a mutilação de centenas de palavras, que se afastaram da matriz da Língua, e pertencem apenas à Variante Brasileira do Português,  que nada tem a ver connosco.

***

(Nota: os excertos a negrito são da responsabilidade da autora do Blogue)

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Pela Língua Portuguesa contra o "Acordo"!

Posted By: Victor Santos Carvalho

To: Members in Pela Língua Portuguesa contra o "Acordo"!

PELA SUSPENSÃO IMEDIATA DO ACORDO ORTOGRÁFICO! → LEIA, DIVULGUE E ESCREVA AOS SEUS GOVERNANTES E DEPUTADOS!

Em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico

in Público, 25 de Junho de 2011

Carta aberta ao Primeiro-Ministro, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e ao Ministro da Educação

PELA SUSPENSÃO IMEDIATA DO ACORDO ORTOGRÁFICO

Senhor Primeiro-Ministro

Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros

Senhor Ministro da Educação, do Ensino Superior e da Ciência

  1. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO) foi aprovado em 1990 pelo Parlamento e ratificado pelo Presidente da República em 91, sendo mera adaptação do Acordo de 86, abandonado por força da reacção da opinião pública portuguesa. Ao contrário do AO de 86, que teve divulgação nos meios de comunicação portugueses, a redacção e tramitação do AO de 90 ocorreram discretamente, longe do olhar e escrutínio público dos portugueses.
  1. Enquanto reforma ortográfica, o AO é um desastre: não assenta em nenhum consenso alargado, não foi objecto de discussão pública, não resulta do trabalho de especialistas competentes (a julgar pelas imprecisões, erros e inconsistências que contém e pelos problemas que cria) e vem minar, pela introdução generalizada e irrestrita de facultatividades ortográficas, a própria noção de ortografia. Tudo isto foi devidamente apontado por intelectuais e linguistas portugueses ao longo dos últimos 20 anos em pareceres, artigos e livros ignorados pelas entidades responsáveis. O único parecer favorável (assinado em 2005 por um dos co-autores do AO!) é o da Academia das Ciências, instituição que patrocinou a criação do acordo.
  1. Os vícios do AO enquanto instrumento jurídico configuram mentiras gritantes vertidas em lei. No preâmbulo diz-se que «o texto do Acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos países signatários»; deste debate não há vestígio nem se conhece menção. A Nota Explicativa do AO refere estudos prévios dos quais não há registo, apresenta argumentos sem sustentação científica sobre o impacto do AO no vocabulário português (baseados numa lista desconhecida de 110 000 palavras e ignorando a importância de termos complexos, formas flexionadas de nomes e verbos e índice de frequência das palavras) e “explica” de forma confusa os aspectos mais controversos da reforma, p. ex. a consagração, como expediente de “unificação ortográfica”, de divergências luso-brasileiras inultrapassáveis com o estatuto de grafias facultativas. Algumas dessas divergências existiam antes do AO (‘fato’ ~ ‘facto’, ‘ação’ ~ ‘acção’, ‘cômodo’ ~ ‘cómodo’, ‘prêmio’ ~ ‘prémio’, ‘averígua’ ~ ‘averigua’, etc.); outras são criadas pelo próprio AO (‘decepção’ ~ ‘deceção’, ‘espectador’ ~ ‘espetador’, ‘falamos ~ ‘falámos’, ‘Filosofia’ ~ ‘filosofia’, ‘cor-de-rosa’ ~ ‘cor de laranja’, etc.). Pelo AO a palavra ‘decepcionámos’ (e outras similares) passaria a escrever-se correctamente em todos os países lusófonos de quatro maneiras diferentes (‘decepcionámos’, ‘dececionámos’, ‘decepcionamos’, ‘dececionamos’). O termo ‘Electrotecnia e Electrónica’ (designação de curso, disciplina e área do saber) poderia ser escrito de 32 maneiras diferentes, sem que o AO ofereça qualquer critério normativo. Sendo um tratado entre oito estados soberanos que reivindicam uma matriz cultural partilhada, o AO deveria ter concitado aceitação plena de (e em) todos os países signatários. Tal não aconteceu, o que, 21 anos após a sua assinatura, é prova dos problemas por ele criados.
  1. Da VI Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP de 2010 resultou a Resolução sobre o Plano de Ação de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projeção da Língua Portuguesa, com a seguinte recomendação (III.5): «Nos pontos em que o Acordo admite grafias facultativas, é recomendável que a opção por uma delas, a ser feita pelos órgãos nacionais competentes, siga a tradição ortográfica vigente em cada Estado Membro, a qual deve ser reconhecida e considerada válida em todos os sistemas educativos.» Esta recomendação destitui, por si só, o AO de qualquer fundamento: como se pode defender simultaneamente um acordo que pretende unificar as tradições ortográficas vigentes nos Estados signatários através de facultatividades gráficas, e, ao mesmo tempo, propor-se que o problema das grafias facultativas se resolva pelo reconhecimento oficial de tradições ortográficas divergentes, logo, não unificadas?
  1. Ninguém conhece as consequências reais do AO na sociedade portuguesa, pois nenhum estudo de avaliação de impacto foi feito e ninguém sabe estimar os custos da sua aplicação — que não serão só de ordem financeira — pois não há estudos de avaliação custo/benefício. Se os grandes projectos de Estado exigem a realização de estudos preparatórios — recorde-se que o aeroporto da Ota foi, após 30 anos de indecisão, abandonado por causa de um estudo técnico —, como se pode exigir menos relativamente à língua portuguesa escrita? A Lei de Bases de Protecção do Património Cultural inclui no conceito e âmbito do património cultural a língua portuguesa, nestes termos: «enquanto fundamento da soberania nacional, é um elemento essencial do património cultural português.» (art.º 2.º, n.º 2). É menos importante a estabilidade de um ‘fundamento da soberania nacional’ do que um aeroporto?
  1. Que o Estado português se proponha adoptar o AO sem um vocabulário normativo que não seja o vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa estipulado pelo art.º 2.º do AO (violando assim um tratado que assinou e ratificou) revela apenas a ligeireza com que esta matéria tem sido tratada e a incontrolada flexibilidade da aplicação prática do AO. Afinal, nenhum tratado internacional pode ficar sujeito a interpretações locais ou aplicações de carácter regional ou nacional.
  1. O domínio da ortografia, sabe-se hoje, faz parte intrínseca da competência linguística dos falantes; não é simples “roupagem gráfica” da língua. E, como é reconhecido não só por académicos, mas por instituições internacionais como, p. ex., a OCDE no relatório PISA 2003, a literacia — pedra angular da aquisição de todos os saberes formais e de todo e qualquer processo de aprendizagem escolar — pressupõe (em termos linguísticos estritos) o domínio de uma ortografia codificada estável, para além de um vasto conhecimento vocabular, gramatical e fonético.
  1. O AO não serve o fim a que se destina — a unificação ortográfica da língua portuguesa — e assenta no pressuposto falacioso de que a unificação ortográfica supriria as diferenças já antigas entre português europeu e português do Brasil, de ordem fonológica, lexical e sintáctica. Mesmo que a unificação a 100% fosse possível (e o AO reconhece que não é), escrever de igual forma dos dois lados do Atlântico não assegura a compreensão mútua daquilo que é (cada vez mais) diferente e divergente.
  1. Por atentar contra a estabilidade ortográfica em Portugal e integridade da língua portuguesa, o AO atenta contra o progresso e desenvolvimento do povo português em época particularmente difícil da sua História.
  1. O AO é um erro monstruoso que VV. EE. têm o poder de corrigir, suspendendo a sua aplicação.

João Roque Dias, Tradutor Certificado pela Associação Americana de Tradutores *

António Emiliano, Professor de Linguística da UNL, autor de Fonética do Português Europeu e de Apologia do Desacordo Ortográfico *

Francisco Miguel Valada, Intérprete de Conferência junto das Instituições da UE, autor de Demanda, Deriva, Desastre – Os Três Dês do Acordo Ortográfico *

Maria do Carmo Vieira, Professora de Português e Francês do Ensino Secundário, autora de Ensino do Português

* Administradores do grupo ACORDO ORTOGRÁFICO NÃO! no Facebook

***

Para além deste texto, encontrei um outro, também muito revelador: o e-mail do Dr. Pedro Passos Coelho acerca do Acordo Ortográfico, datado do mesmo ano:

Bulletin from the cause: Pela Língua Portuguesa contra o "Acordo"!

Posted By: Victor Santos Carvalho

To: Members in Pela Língua Portuguesa contra o "Acordo"!

E-mail de Pedro Passos Coelho acerca do Acordo Ortográfico

Acedi ontem ao site de campanha de Pedro Passos Coelho, e porque aprecio este candidato pela sua juventude e inteligência, enviei-lhe um mail para saber qual a sua opinião acerca da questão do acordo ortográfico. Mostrou a sua simpatia e atenção ao responder hoje mesmo. Fiquei contente por saber que ele partilha da visão de que o acordo é errado. Se eu fosse militante do PSD com certeza votaria nele. Um dia que se candidate a primeiro-ministro terá o meu voto. Fica a transcrição.

Caro Ruben Azevedo

Já tenho afirmado, em resposta a essa questão colocada por jornalistas, que o acordo que Portugal assinou há vários anos atrás (porque tal acordo já foi assinado) não representa nenhum benefício para a língua e cultura portuguesa, pelo que não traria qualquer prejuízo que não entrasse em vigor. De resto, não vejo qualquer problema em que o português escrito possa ter grafias um pouco diferentes conforme seja de origem portuguesa ou brasileira. Antes pelo contrário, ajuda a mostrar a diversidade das expressões e acentua os factores de diferenciação que nos distinguem realmente e que reforçam a nossa identidade. Aliás, considero míope a visão de que o mercado brasileiro de cultura passará a estar aberto aos autores portugueses em razão da homogeneidade da grafia, pois que o interesse desse mercado pela nossa produção só pode depender do real interesse pelas nossas especificidades e aí a suposta barreira do grafismo não chega a ser uma barreira, pode ser um factor de distinção que acentua o interesse pela diferença.

Com os melhores cumprimentos

Pedro Passos Coelho

Reprodução integral de “post” publicado no blog “Cenáculo de um (pseudo) filósofo”, em 20 de Maio de 2008, da autoria de Ruben D.

***

Bem, pelo que aqui vimos, dirigir cartas abertas aos governantes e presidente da República expondo o óbvio tem sido o mesmo que “falar para bonecos”.

A atitude do governo português e da presidência da República não é normal, não é democrática, não é racional.

Então o que será?

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Isabel A. Ferreira

Falemos o que falemos, façamos o que façamos, os decisores políticos portugueses e brasileiros ensurdeceram e estão dispostos a tudo, até a afrontar os Portugueses, e destruir a Língua de Portugal para impor a Variante Brasileira do Português

Por: author

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-14 14:54

 

Marcelo Rebelo de Sousa está no Brasil com uma delegação de 11 ministros, à qual se juntará Luís Montenegro, para reforçar a cooperação entre os dois países, em áreas como a Cultura e a Educação, mas não só, como se isso fosse possível, tal o fosso cultural e educacional que existe entre Brasil e Portugal. Sei do que estou a falar.

 

E das duas uma: ou o Brasil cede à Cultura e Educação portuguesas, ou Portugal cede à Cultura e Educação brasileiras, sendo que pelo que temos visto do que está a passar-se relativamente à destruição da Língua de Portugal em favor da Variante Brasileira do Português, à qual indevidamente os brasileiros chamam Português e assinalam-na com a bandeira brasileira, retirando da Internet a Língua de Portugal, estamos mesmo a ver para que lado o tal reforço de cooperação irá prevalecer.

 

Há a expectativa de que sejam assinados acordos de cooperação nas áreas já referidas, mas também na saúde, economia, ciência, tecnologia, defesa, segurança, justiça, ambiente e comércio, durante a 14ª Cimeira Brasil-Portugal, que ocorrerá amanhã, dia 19 de Fevereiro.


Daqui poderíamos esperar que o bom senso prevalecesse e que os dois países cooperassem um com o outro SEM subserviência da parte portuguesa e SEM imposições colonialistas da parte brasileira, como até agora tem acontecido.

  

Podíamos esperar que não tendo dado certo a tentativa de acabar com a Língua de Portugal e implantar a Variante Brasileira do Português, sendo tal atitude contrária às boas relações que se querem entre dois países que são pai (Portugal) e filho (Brasil) que já tiveram uma história comum,  interrompida pelo Grito do Ipiranga. É que a partir do momento em que o filho sai de casa  devia seguir a sua vida independentemente do pai, não esquecendo, porém, o RESPEITO a ele devido.


E o que está a passar-se, o que vemos, ouvimos e lemos por aí, é um desrespeito dos mais profundos do filho em relação ao pai, como se não fosse a existência do pai, o filho jamais existiria, e este último só não é maior do que já é, se não estivesse agarrado às calças do pai.

 

A enviada especial da Antena 1 ao Brasil, Inês Ameixa, registou as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que classificou de especial e diferente a ligação entre os dois países, apesar de erros cometidos no passado.

 

Apesar de erros cometidos no passado????

 

Que erros? Não saberá o chefe de Estado de Portugal que o que se passou no passado nada tem a ver com erros, mas com hábitos e valores dessa época dos quais os Portugueses hodiernos não têm culpa alguma, para estarem a baixar as orelhas àquele que pretende ser o dono disto tudo, alegando esses erros para se impor e exigir reparos, que muito servilmente os políticos portugueses estão dispostos a pagar, envergonhadamente, sem um pingo de dignidade? Não podemos julgar a História pelos valores dos tempos contemporâneos.  Devemos, isso sim, é aprender com o que de mau e mal se fez, nesse passado, para não ser repetido.


Isto é a prova da submissão dos liliputianos, que já foram grandes, mas amesquinharam-se, estando agora avassalados ao Grande Olho que os espreita e intimida.

Esperamos que esta visita dos representantes de Portugal ao Brasil não nos deixe envergonhados, perante o Mundo.

 

Isabel A. Ferreira


Fonte da notícia aqui, onde pode ouvir-se um excerto curto do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa.

 

Boletim Letras 360º #682

Por: author

Blog: LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO | Publicado em: 2026-03-14 14:00

William Blake foi um visionário que, em conversas espirituais com filósofos, pintores, profetas e poetas, criou uma obra poética e pictórica vigorosa e única, na qual se destacam poemas como “Songs of Innocence and of Experience”, “The Marriage of Heaven and Hell”, “Milton: A Poem in Two Books” e “Jerusalem: The Emanation of the Giant Albion”.  Em Milton: um poema em dois cantos, Blake dá voz poética à sua interlocução com Milton ao trazer o autor de Paradise Lost (Paraíso perdido) para dentro de seu poema e guiá-lo rumo à Cidade das Artes, paraíso da imaginação na poética blakeana. Blake e Milton se unem e com eles o poema propõe a união de todos os contrários como motor divino de transformação da existência terrena.  Publicado em edição bilíngue pela Editora da UnB, o livro tem tradução de Juliana Steil e é enriquecida por dois importantes paratextos: a “Nota de tradução”, em que Steil reflete sobre os desafios rítmicos e simbólicos da obra, e o ensaio introdutório “Um imenso número de versos sobre um grande tema”, do professor Mark Crosby (Kansas State University), que contextualiza a gênese do poema, as camadas autobiográficas e a inserção no mitopoético blakeano. Você pode comprar o livro aqui.
Stefan Zweig e uma imagem da opressão imposta pela guerra.
Mendel, o livreiro é uma novela que foi escrita em 1929 e publicada, em folhetim, no jornal diário vienense Neue Freie Presse e narra a história de um espantoso alfarrabista que passa os dias sentado na mesma mesa de um dos cafés de Viena. Com a sua memória enciclopédica, Mendel é admirado pela clientela culta que recorre aos seus serviços. Em plena Primeira Guerra Mundial, quando o Império Austro-Húngaro e a Rússia se encontravam em campos opostos, Jakob Mendel é enviado para um campo de prisioneiros, injustamente acusado de colaborar com os inimigos da Áustria. Quando finalmente é solto, Mendel e o mundo já não são os mesmos. Uma breve e comovente história, uma homenagem de Stefan Zweig ao mundo dos livros e aos livreiros. Publicação da Arte & Letra; tradução de Gisele Eberspacher. Você pode comprar o livro aqui.
Romance de estreia do escritor Karim Kattan, um marco da literatura palestina queer contemporânea entrelaça lirismo, erotismo e uma reflexão sobre sobrevivência e memória .
A narrativa nos apresenta a vida de Faiçal, jovem que retorna sozinho a Jabalayn, na Palestina, após a morte da tia. Separado de seu companheiro, George, ele reencontra o antigo casarão da família, local carregado de lembranças, segredos e delírios. Nesse retorno, passado e presente se confundem, criando um espaço limiar onde o protagonista revisita não apenas a casa da sua infância, mas a própria história, em uma terra marcada pelo apagamento. O autor constrói um romance em que cheiros, vozes e imagens atravessam as paredes de uma casa em decomposição. Mais do que um romance sobre herança, O palácio das duas colinas propõe uma reflexão sobre identidade, política e, sobretudo, de um desejo queer que insiste em sobreviver, mesmo em um mundo em ruínas.  Vencedora do Prêmio dos Cinco Continentes da Francofonia em 2021, a obra, traduzida por Gabriel Semerene. O livro é publicado pela editora Ercolano. Você pode comprar o livro aqui.

Nova edição e tradução da obra-prima de Joseph Conrad.

A partir de sua experiência concreta no Congo, em 1890, Conrad faz uma reflexão sobre as trevas que habitam dentro e fora de nós nesse romance clássico do século XX. A obra relata a viagem de Marlow, comandante de um barco a vapor, que se embrenha pela selva africana para resgatar Kurtz, maior comerciante de marfim, que está sem se comunicar há muito tempo. Durante a viagem, Marlow se depara com as maiores perversidades da exploração colonial dos europeus contra os africanos. Essa visão sombria leva Conrad a mergulhar nos meandros tenebrosos da mente humana, numa narrativa densa, repleta de suspense e horrores. Coração das trevas sai agora pela editora Cultura com tradução de Guilherme Gontijo Flores. Você pode comprar o livro aqui.

O novo livro do poeta Thiago Ponce de Moraes.
Ao estampar na capa de seu novo livro de poemas a palavra “celacanto”, peixe que é considerado um “fóssil vivo” por representar espécies extintas há dezenas de milhões de anos, Thiago Ponce de Moraes convoca os leitores para uma reflexão sobre o tempo do fazer poético, ou melhor, sobre a persistência da vida — e da poesia — num tempo hostil. Note-se, ainda, que o título-peixe permite ouvir o nome de Paul Celan, poeta fundamental para o autor, e também “canto”, um dos vários nomes da poesia. Dividido em sete partes, Celacanto cobre um arco vasto e coeso de questões. Vasto, sim, porque os poemas movem-se entre o amor, a chegada dos filhos, a partida dos avôs e de um amigo, a escrita, a escuta, o silêncio. Mas todas essas indagações estão lançadas no “abismo do presente”, em que “o porvir se afunda”. Não é por acaso que todas as seções, desde seus títulos, são marcadas pela temporalidade (“A pré-história dos sentidos”, “Depois da colisão”, “O tempo da peste”, “A eternidade mantém-se nos limites”, “Demorar-se no sonho dos bichos”, “Uma data em cada mão” e “Antes”). O poeta é “hóspede do instante”, mas quer saber o que persiste em tudo que se transforma, e busca, em cada verso, “fazer um furo/ no futuro/ lançar uma bomba/ ao futuro”. Por isso, a convocação para que o celacanto, um peixe “contra a lógica do tempo”, desvende “aquilo que insiste em nós” (somos nosso próprio fóssil?). Por isso, descascar as palavras para ver o que elas escondem, o que arrastam do passado. Por isso, manter-se vivo, manter a poesia viva em meio à “fúria obscura/ da passagem do tempo”. Publicação do Círculo de poemas. Você pode comprar o livro aqui.

Nono livro de poemas de um dos mais consagrados poetas, contistas e tradutores brasileiros em atividade, este volume traz Paulo Henriques Britto em sua melhor forma
Avesso ao sentimentalismo, aos arroubos, à autocomiseração, o autor criou uma poética extraordinária, com linguagem afiada e irônica, equilibrada entre o ceticismo e a descrença. Embora os poemas de Paulo Henriques Britto sugiram resignação e pessimismo, uma segunda leitura pode revelar o sentido oposto. A própria insistência em escrever — em tentar encaixar o mundo na forma fixa do verso — opera como um “impulso visceral, orgânico,/ que mantém o cérebro ativo/ e combate ataques de pânico”. Como ele demonstra na série “Intransitivas”, a função terapêutica da poesia não pode ser descartada: “É palavra em lugar de droga,/ espécie incorpórea de ioga”. Não se trata, é claro, de imaginar que o poema possa oferecer soluções para os problemas do mundo ou dar fim às nossas angústias individuais. Longe disso. Mas o humor mal-humorado e desesperançoso do poeta atesta que “o poema cria uma existência/ não real, mas não de todo improvável,/ uma presença falsa que compensa”. É nessa ausência, ou falsa presença, que a poesia mostra ser capaz de oferecer “o gosto, o som, a cor” e, assim, curiosamente, cumprir “o que promete”. Embora é publicado pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
Mario Vargas Llosa e os desafios da escrita literária.
Como transformar uma ideia em uma obra literária? Por onde começar essa aventura? De onde vêm as histórias que os romances contam? Essas são algumas das perguntas que o Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, trata com franqueza e sensibilidade neste breve e impactante livro. Em uma série de reflexões em forma de cartas, Vargas Llosa responde às inquietações de quem deseja trilhar o caminho da escrita. Combinando experiências pessoais, análise de grandes obras e discussões sobre técnica narrativa, o autor reflete sobre elementos essenciais do romance — como tempo, espaço, narrador e ritmo — e oferece preciosos conselhos sobre os mais variados temas, como disciplina e vocação. Ao revelar como a literatura pode ser uma forma de entender o mundo e a si mesmo, ele reafirma a importância da imaginação e da liberdade criativa. O resultado é uma aula magistral sobre o ofício da escrita para todos que partilham da paixão pelos livros. Com tradução de Ari Roitman, Cartas a um jovem escritor sai pela Alfaguara. Você pode comprar o livro aqui.

Da Letônia para o Brasil.
Situado na Letônia soviética, este romance acompanha gerações de mulheres marcadas pelo mesmo ciclo de silêncio e resistência. A mãe, uma ginecologista brilhante, mas sufocada pela ideologia comunista, é punida por desafiar o sistema e exilada em um vilarejo do interior. A filha cresce ao seu lado, tentando compreender e redimir essa mulher que, em nome da sobrevivência, chegou a negar-lhe o próprio leite. Considerada uma das autoras mais influentes da prosa letã contemporânea, Nora Ikstena reflete sobre maternidade, culpa e perdão nesta poderosa narrativa que apresenta o corpo e a memória como territórios de luta. O leite da mãe é publicado pela editora Rua do Sabão; tradução de Adriana Zoudine. Você pode comprar o livro aqui.

Lydia Davis e o ofício de escrever.
Um livro que disseca mistérios da escrita — prolongamento, como sabemos, dos mistérios da leitura. Segundo Michel Laub, Lydia Davis faz isso com uma erudição particular, criando uma espécie de teoria literária a partir da própria experiência e gosto, e uma generosidade que não abdica da fluidez e do sabor. Partindo de sua dupla atividade de ficcionista e tradutora, Lydia Davis discorre nestes ensaios sobre vários aspectos da (sua) escrita. A influência das prosas não convencionais; a revisão obsessiva; a transformação de eventos reais em ficção; diários, arquivos, fragmentos, notas, hábitos: tudo isso é aqui matéria de reflexão em um estilo leve, inventivo e apaixonado. Esta edição, com uma seleção inédita de textos, apresenta ao público brasileiro a brilhante faceta de ensaísta da autora, já amplamente reconhecida como uma das maiores contistas em atividade. Um pato amado é assado sai pela Martins Fontes; tradução de Camila von Holdefer. Você pode comprar o livro aqui.

A crítica de Heloisa nos tempos Buarque de Hollanda.
Crítica e rebeldia reúne os textos que Heloisa Teixeira publicou no Jornal do Brasil entre 1980 e 2005, período em que ainda assinava como Heloisa Buarque de Hollanda. Escritos de forma intermitente ao longo dessas décadas decisivas de transformação política e cultural no país, os artigos revelam, em movimento, a formação de uma intelectual pública capaz de interpretar o Brasil em suas tensões, promessas e contradições. Com escrita ao mesmo tempo rigorosa e aberta ao risco, Heloisa transforma a crítica em laboratório: investiga a emergência de novas linguagens, acompanha a força das culturas marginalizadas e antecipa debates que só ganhariam centralidade décadas depois. Seus textos articulam universidade e espaço público, teoria e experiência, mostrando que a crítica pode ser também uma forma de intervenção cultural. Ao percorrer poesia marginal, feminismos, cultura digital, memória política e transformações da autoria, este volume revela uma obra que permanece pulsante e atual ― um arquivo vivo de ideias que continuam a interpelar a cultura brasileira. Organizado por André Botelho e Caroline Tresoldi, o livro é publicado pela Bazar do Tempo. Você pode comprar o livro aqui.

O único romance de Dalton Trevisan é o novo título no projeto de reedição da obra do escritor pela Todavia.
Em A Polaquinha, publicado em 1985, encontramos uma jovem funcionária de um hospital, a polaquinha do título, que se prostitui para pagar os estudos. Suas noites são uma sequência de homens que podem ser casados, violentos, sombrios e até ocasionalmente gentis. Nas palavras de Otto Lara Resende, uma busca cheia de culpa e castigo e perdição, mas onde há também o amor, no caso pelo feioso e asmático João. Você pode comprar o livro aqui.

Tal como concebido por Katherine Mansfield. A editora Nós publica Bliss e outras histórias com tradução de Ana Carolina Mesquita.

Judith Teixeira por inteira. Sai no Brasil a obra reunida da poeta. Com organização, notas e estudo introdutório de Fabio Mario da Silva é a primeira vez que os leitores brasileiros têm acesso à literatura da poeta portuguesa. Feito da editora Polifonia.

Mary Oliver. Outra poeta que chega pela primeira vez ao Brasil. O Círculo de Poemas publica Pequenas glórias, reunião de três livros concebidos na maturidade da poeta estadunidense. A tradução é de Patricia Lino.

O quinto livro da Coleção Estudos Saramaguianos. Produzida pela editora Moinhos, a sequência de títulos que exploram diversos aspectos da obra do escritor português Prêmio Nobel de Literatura recebe, agora, O espaço da memória em José Saramago: literatura e autobiografia, de Denise Noronha Lima.

A princesa de Clèves. A editora Ercolano publica uma edição de luxo com as ilustrações exclusivas de Christian Lacroix e traducao inédita de Jorge Coli deste romance que se sagrou entre os mais importantes da literatura francesa do século XVII.

Morreu Alfredo Bryce Echenique.

Alfredo Bryce Echenique nasceu em Lima, em 19 de fevereiro de 1939. Formou-se em Direito pela Universidade de San Marcos, instituição à qual regressaria para obter o Doutorado em Letras; a vida acadêmica se prolongou fora do seu país: estudou literatura francesa clássica na Sorbonne e foi professor em diversas instituições na França, Itália, Grécia, Alemanha e Espanha, país onde se exilou durante os anos de ditadura. Considerado pela crítica um continuador dos modelos literários estabelecidos com Julio Cortázar, Manuel Puig ou Julio Ramón Ribeyro, Echenique construiu um vasta obra estruturada pelo conto, novela, romance e ensaio. No Brasil, saíram, entre outros títulos A vida exagerada de Martin Romaña, O homem que falava de Otavia de Cadiz e Um mundo para Julius. Entre os prêmios que marcaram o reconhecimento da sua obra estão o Prêmio Nacional de Literatura (1972) e FIL de Literatura (2012). O escritor morreu no dia 10 de março de 2026, na sua cidade natal.

1. Nem santos nem anjos, de Ivan Klíma (Trad. Aleksandr Jovanovic, Record, 336p.) A partir das experiências e incertezas de uma dentista divorciada nascida no dia da morte de Stálin, este romance revisita a história de três gerações desde a Segunda Guerra à República Tcheca do começo deste século. Você pode comprar o livro aqui

2. RUR, de Karel Čapek (Trad. Erick Fishuk, Aleph, 258p.) Um futuro em que todos os trabalhadores são robôs até que sua fórmula de fabricação é adulterada para desenvolverem a capacidade de odiar. A sátira de 1920 que deu origem ao termo robô e antecipou o medo da IA. Você pode comprar o livro aqui

3. Appassionata, de Helena Kolody (Arte & Letra, 128p.) Um conjunto de poemas inéditos publicado duas décadas depois da morte da poeta paranaense. Você pode comprar o livro aqui

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

Neste 14 de março de 2026, celebramos o centenário de Carlos Heitor Cony. No Instagram do Letras, um recorte em que o escritor brasileiro comenta sua relação com o trabalho da escrita do romance. Aqui.

O site do Instituto Moreira Salles dedicado à obra de Clarice Lispector disponibilizou um longo ensaio de Elizama Almeida que explora o conceito de desedição a partir dos manuscritos que deram origem ao romance póstumo Um sopro de vida. É uma oportunidade de o leitor mergulhar no complexo universo de anotações da escritora. 

BAÚ DE LETRAS

Neste endereço, o leitor encontra algumas das nossas incursões pela obra e biografia de Carlos Heitor Cony: um breve perfil, as resenhas de A tarde da sua ausência e Pessach: a travessia, escritas por Rafael Kafka.

O jornalista e escritor português Mário Zambujal também foi outro nome que nos deixou esta semana. No nosso arquivo, o leitor encontra duas resenhas de Pedro Belo Clara de dois livros do autor: Crónica dos bons malandros, talvez o livro mais conhecido dele; e Serpentina

De Alfredo Bryce Echenique, Rafael Kafka, escreveu em 2020, uma resenha de A vida exagerada de Martín Romaña, um romance, segundo ele, “primordial para entendermos a dimensão do realismo mágico e de sua influência literária e política”. 
A arte toda é truque. A literatura também.

«Acordo ortográfico. Marcelo foi “inoportuno e precipitado” ou “corajoso e prudente?» - «Marcelo dá força aos opositores do Acordo Ortográfico». Quem ou o quê silenciou Marcelo, para tramar a Língua Portuguesa?

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-14 00:00

Mal chegou a Portugal, embalado sabe-se lá por que bons ventos, ou simplesmente disposto a fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa, Marcelo fez umas brilhantes declarações, que deixaram os Portugueses Pensantes (digo Pensantes porque os há por aí sem um pingo de capacidade para  PENSAR, seja o que for), esperançados na devolução da Grafia Portuguesa a Portugal, e na destruição total de um acordo, que nunca chegou a ser Acordo, mas simplesmente uma fraude de contornos muito obscuros.

Para nosso grande espanto, feitas essas declarações, Marcelo Rebelo de Sousa remeteu-se a um silêncio que, de tão silencioso, tornou-se tão ruidoso como um trovão, que dura até aos dias de hoje.

E a pergunta que se impõe é a seguinte:

Quem ou o quê silenciou Marcelo, para tramar a Língua Portuguesa?

Os dois textos, que aqui transcreverei, foram publicados no dia 04 de Maio de 2016, depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter visitado Moçambique. Passados que são oito anos, nem Angola, nem Moçambique, nem São Tomé e Príncipe, nem Timor Leste ratificaram o falso acordo, a Língua Portuguesa deteriorou-se de um modo galopante, e está a ser indecentemente USURPADA pelo Brasil, que anda por aí a usá-la como isco, com o intuito de que a Variante Brasileira do Português seja Língua Oficial da ONU, NÃO como Variante, mas como um Português adulterado, a fazer de conta que é Português.

Perfeita vingança do chinês.

E Marcelo continua cego, surdo e mudo acerca desta questão, como se ela nada tivesse a ver com a NOSSA identidade.

Será esta a função de um Presidente da República Portuguesa?

Não será este o momento de virar o bico ao prego?  

Isabel A. Ferreira

***


«Acordo Ortográfico. Marcelo foi "inoportuno e precipitado" ou "corajoso e prudente"?»

Declarações do Presidente renovaram as esperanças dos opositores do AO. Marcelo diz que é "prematuro" falar em mudanças, mas o tema está de novo no debate público. Malaca Casteleiro diz que o PR "está a pôr o carro à frente dos bois".

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Foto-montagem: RR

O "cidadão Marcelo Rebelo de Sousa" é contra o novo Acordo Ortográfico (AO) e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa vê na hipótese de Moçambique e Angola não ratificarem a nova grafia «uma oportunidade para repensar essa matéria».

Esta quarta-feira, Marcelo foi mais cauteloso. Disse ser "prematuro" falar de eventuais mudanças nesta matéria "no quadro português", sem que haja "elementos precisos" sobre o AO vindos de Angola e Moçambique.

Mas a polémica voltou. Comentando as declarações de terça-feira, o linguista Malaca Casteleiro, favorável ao novo AO, considera que o Presidente "está a pôr o carro à frente dos bois" na questão, enquanto o escritor Mário Cláudio saúda uma declaração «acertadíssima e prudente».

Malaca Casteleiro acusa Marcelo de ter tido «uma declaração prematura e inoportuna». «Com todo o respeito, acho que o senhor Presidente da República, usando uma expressão dele, está a pôr o carro a frente dos bois, porque o governo de Moçambique já aprovou o acordo, que está para ratificação no parlamento», declara o professor de Letras, em entrevista à Renascença.

«Não se percebe esta declaração prematura e inoportuna, sinal de precipitação», reforça Casteleiro, argumentando que não se pode «andar para frente e para trás numa questão como esta, que é muito séria».

«Foi tão difícil chegar aqui...Andamos numa guerra ortográfica quase cem anos, desde 1911», desabafa o linguista.

«Não se percebe porque é que essa questão é agora levantada, quando o acordo está em vigor em Portugal, no Brasil, em Cabo Verde e em São Tomé, estando em vias de estar também em Timor-Leste e em Moçambique, país que já elaborou o vocabulário ortográfico nacional, que é um requisito necessário», acrescenta.

Malaca Casteleiro lembra ainda a existência do «Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que é um organismo da CPLP, que tem a sua frente, como directora executiva, a professor Marisa Mendonça, moçambicana, que está a desenvolver o seu trabalho no sentido de o acordo ser implantado em todos os países».

Um acordo que "não funciona"

Opinião oposta tem o escritor Mário Cláudio, opositor do novo acordo, que encara a declaração presidencial como «uma decisão muito corajosa e desejada pela maioria das pessoas».

«Este acordo que suscitou paixões - muito mais do lado dos detractores do que do lado dos defensores - não funciona e não funcionará, nem cá nem lá, nos outros países de língua portuguesa», antevê o escritor do Porto.

Mário Cláudio lamenta ainda que «continuemos divididos na escrita, entre os que respeitam e não respeitam o acordo», situação que classifica como «anómala e pouco saudável para a língua portuguesa».

«Não restará nada da continuidade desta espécie de divórcio entre 'acordistas' e 'não acordistas'», adverte o vencedor do Prémio Pessoa 2004.

Neste quadro, a declaração do Presidente da República «introduz algum clima pacificador», sendo "acertadíssima e prudente". Para Mário Cláudio, tudo fica agora «dependente da reunião de alguns factores» para que o gesto de Marcelo tenha o efeito que pretende, que é a anulação do acordo.

Fonte:

https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2016/05/04/acordo-ortografico-marcelo-foi-inoportuno-e-precipitado-ou-corajoso-e-prudente/53344/

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«Marcelo dá força aos opositores do Acordo Ortográfico»

Presidente da República admite "repensar" nova grafia. O «cidadão Marcelo Rebelo de Sousa» é contra o novo AO.

Defensores da revogação ou revisão do Acordo Ortográfico (AO) aplaudem a posição do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que admite que a questão possa ser reponderada, e consideram que a melhor solução era um referendo.

No domingo, e na sequência de uma notícia do "Expresso”, o Presidente disse que há «Estados relevantes» que estão em ponderação sobre o AO e que se deve acompanhar essa ponderação e «depois ver se há razões para reponderar em Portugal». Angola e Moçambique ainda não assinaram o Acordo.

A notícia do “Expresso” foi reforçada na segunda-feira. Em entrevista à RTP África, durante a sua visita de Estado a Moçambique, Marcelo afirmou: «Nós estamos à espera que Moçambique decida sim ou não ao Acordo Ortográfico. Se decidir que não, mais Angola, é uma oportunidade para repensar essa matéria.»

O chefe de Estado português referiu que «o Presidente da República, nos documentos oficiais, tem de seguir o Acordo Ortográfico». «Mas o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa escrevia tal como escrevem os moçambicanos, que não é de acordo com o Acordo Ortográfico», acrescentou.

“Grande pragmatismo político”

«O Presidente sabe perfeitamente que só se pode falar em Acordo quando outros países também o ratificarem. Só Portugal, neste momento, é que está a usar o AO», disse à Lusa Rosário Andorinha, presidente da Associação Nacional de Professores de Português. A associação entregou em Abril ao Presidente um documento no qual se contesta o AO.

O AO entrou em vigor em 2011, mas continua a ser tema de debates. Há mesmo quem questione a sua legalidade.

«Saudamos vivamente a posição corajosa do Presidente, como homem de elevada cultura e revelando grande pragmatismo político», disse à Lusa o professor universitário Ivo Barroso, um dos que mais se tem batido contra o Acordo de 1990.

Ivo Barroso lembrou que Marcelo assinou um manifesto contra o Acordo em 1990, promovido pelo Movimento contra o Acordo Ortográfico e pelo Grémio Literário.

A Presidência foi questionada (por outro professor) quanto ao uso do Acordo, tendo respondido que o Presidente da República segue as regras do AO, «sem prejuízo de desenvolvimentos futuros», conta Ivo Barroso. «Até agora as vias políticas estavam bloqueadas, com este passo certeiro» do Presidente só podem melhorar, diz.

Rosário Andorinha defende que a questão deve ser referendada, apesar da confusão que ia gerar, porque «o processo não foi natural» e foi «uma imposição» que as pessoas não aceitaram bem. Só Portugal é que o usa e em termos de falantes é uma minoria, acrescentou.

Governo não comenta, só “aguarda”

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, afirmou na segunda-feira que Portugal «aguarda serenamente» a conclusão da ratificação do acordo ortográfico pelos membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que ainda não o fizeram.

O ministro lembrou que o AO «é uma convenção internacional adoptada pelos países da CPLP», que «já foi ratificada e encontra-se em vigor em Portugal e em mais três países».

«Como ministro dos Negócios Estrangeiros, não preciso de acrescentar mais nada nem devo», disse apenas.

Questionado se a posição do Presidente da República sobre o acordo ortográfico poderá fazer Angola e Moçambique hesitar quanto à ratificação, Santos Silva escusou-se a comentar e limitou-se a remeter para as declarações do chefe de Estado.

O estado do acordo

Dos membros da CPLP, Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe têm o AO em vigor, num total de 215 milhões de falantes de português a usar a nova grafia.

Já em Angola, o acordo «não foi autorizado a nenhum nível governamental», apesar do investimento financeiro do país na plataforma digital do vocabulário ortográfico comum, segundo a responsável do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, Marisa Mendonça.

Em Moçambique, a norma aguarda ratificação pelo parlamento, estando o processo atrasado devido à mudança de Governo.

A situação de «muita instabilidade política» na Guiné-Bissau faz com que a aplicação do acordo naquele país dificilmente seja uma prioridade e, em Timor-Leste, «a difusão, o uso e a implantação da língua portuguesa» têm primazia face à aplicação da nova norma, disse à Lusa a mesma responsável.

Quanto à Guiné Equatorial, que aderiu à CPLP em Julho de 2014, não assinou o acordo, mas a reimplementação da língua portuguesa que está a ter lugar no território será feita segundo a nova grafia, assegurou Marisa Mendonça, que sublinhou à Lusa o facto de o IILP em caso algum «se sobrepor aos Estados-membros» na decisão de aplicar o acordo.

Fonte:

https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2016/05/04/marcelo-da-forca-aos-opositores-do-acordo-ortografico/53336/

O que espero de um Presidente da República Portuguesa ainda não encontrei em nenhum destes candidatos presidenciais às eleições de 2026, e esse é o grande tabu dos debates...

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-14 00:00

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... nem nestes, nem em nenhum dos outros candidatos.

Nenhum deles sabe escrever correctamente a Língua Oficial de Portugal na sua grafia em vigor, de jure: a de 1945.

E quem não sabe honrar o símbolo maior da Identidade Portuguesa, NÃO serve para ocupar o maior cargo da Nação.

Como cidadã portuguesa, livre pensadora, com deveres e direitos consignados na Constituição da República Portuguesa (CRP), entre eles, o direito de voto, tenho o direito de exigir determinados requisitos para que o próximo presidente da República seja digno de ocupar o trono do Palácio de Belém.

O que espero?

1 - Espero que o próximo representante da República Portuguesa, cumpra escrupulosamente e acima de tudo, o que, no acto de posse, irá jurar, perante todo o País:

«Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido, e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa» [CRP].

Funções que, apesar de juradas, até agora não foram cumpridas fielmente pelos investidos, nesta função. Foi o caso do ainda presidente Marcelo Rebelo de Sousa, no que à questão da Língua de Portugal diz respeito.

2 - Espero, especificamente, e porque esta é uma das minhas bandeiras, que mantenha intacto, um dos maiores símbolos da identidade portuguesa: a sua Língua, que foi vendida como uma mercadoria menor a um país estrangeiro  cuja única motivação é uma desmedida e insultuosa apetência para espezinhar a Língua de Portugal e fazê-la desaparecer do rol das Línguas cultas indo-europeias.

3 - Mas não só. Existem motivos políticos obscuros que estão a destruir, intencionalmente, a Língua de Portugal.

Espero que o próximo presidente da República não permita que este linguicídio vá avante, até porque a aplicação do AO90, que o governo português impôs ao funcionalismo público, incluindo os que deveriam ser os primeiros a rejeitar tal imposição, os professores de Língua Portuguesa, é ilegal e inconstitucional, de acordo com abalizados juristas, não estando, deste modo, a ser nem defendida nem cumprida a CRP, por quem de direito.

4 - Espero igualmente, que o novo Presidente saiba honrar, com dignidade, a Cultura Portuguesa (a minha outra bandeira) da qual não faz parte a crueldade e a violência contra seres sencientes. Algo que não enobrece um Povo que se quer civilizado, evoluído e culto. Mas também a História de Portugal, que está a ser reescrita ignorantemente, espezinhando a CRP descaradamente.

5 - Finalmente espero o que todos esperamos que um Presidente da República faça pelo país que representa, no que respeita à governação do País, à corrupção reinante, às injustiças e desigualdades sociais, enfim, o que todos nós já sabemos, por não ser tabu.

Posto isto, como cidadã portuguesa, livre pensadora, com deveres e direitos, só me resta desejar que o próximo Presidente da República não me desiluda, como me desiludiu Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República, como me desiludiu como cidadão comum e como professor universitário com responsabilidades no Ensino, Educação e Cultura Culta.

Se o próximo Presidente da República me desiludir, não me terá nunca como uma inimiga, porque a minha genética não permite germinar, dentro de mim, inimizades, mas ter-me-á, seguramente, e com todo o respeito, como uma grande pedra no sapato.

Isabel A. Ferreira

comentários:

De Fernando Coelho kvistgaard a 10 de Dezembro de 2025 às 12:55

Muito bem Isabel. Muitos deveriam ler este blog. O problema é que são poucos os que se compenetram da importância, que uma Língua tem, para definir uma nação e um povo.

Fernando, são muitos os que lêem este Blogue. O problema é o que refere: são poucos os que se compenetram da importância, que uma Língua tem, para definir uma nação e um povo.

De ontem para hoje, o Blogue foi visto por 75 pessoas, número que varia em cada dia, e por vezes chegam a ser centenas num só dia. No meu outro Blogue, mais polémico, já cheguei a ter 45 mil comentário, em 24 horas, (isto é verdade, e não dei conta do recado, nem os li todos).

Tudo depende do conteúdo da publicação.

No Blogue da Língua:
No mundo (visitas ontem: 09/12/2025):
Brasil, China, Dinamarca, Estados Unidos, França, Itália, Reino Unido
Em Portugal (visitas ontem: 09/12/2025):
Lisboa, não definido, Caldas da Rainha, Coimbra, Porto, Póvoa de Varzim, Vila Nova de Gaia, Covilhã, Alverca do Ribatejo, Belas, Entroncamento, Fátima, Oliveira do Bairro, Pinhal Novo, São Domingos de Rana, Setúbal.

A ordem dos países e das localidades segue o número de pessoas que visitam o Blogue.

Onde tenho mais leitores é no Brasil, na China (talvez em Macau) e em Lisboa.

Os países estrangeiros variam bastante, e por vezes tenho uma lista enorme. Desta vez só vieram estes.

Não me preocupo, porque sei que as mensagens que deixo no Blogue chegam à África, América do Norte, América do Sul, Ásia, Austrália e Europa. Chega onde importa.

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Não votarei em candidatos às eleições presidenciais que NÃO saibam escrever correCtamente a Língua Portuguesa

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-14 00:00

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Estes são os candidatos a Presidente da República Portuguesa/2026, que têm mais visibilidade pública, mas há mais alguns, que não constam aqui, porque não têm qualquer possibilidade de chegar ao pódio, o que não significa que não sejam importantes ou não mereçam estar aqui. Não é isso.

Em cima, da esquerda para a direita: Henrique Gouveia e Melo (independente); António José Seguro (independente); André Ventura (Chega); Catarina Martins (Bloco de Esquerda).

Em baixo, da esquerda para a direita: Luís Marques Mendes (PSD); António Filipe (PCP); João Cotrim Figueiredo Iniciativa Liberal); Raul Perestrello (independente).

O que têm em comum estes e todos os outros candidatos que aqui não estão?

Nenhum deles sabe escrever correCtamente a Língua Portuguesa, a Língua dos Portugueses, a Língua de Portugal.

Andei a investigar e já vi que todos, mesmo todos, os candidatos a presidente da República são acordistas, ou seja, seguem a cartilha do acordo ortográfico de 1990 (AO90), que nos impinge a grafia brasileira, que, para o Brasil, é correta (lê-se currêtâ, como em carreta), mas que para Portugal é completamente incorreCta.

Como é possível?

Como querem ser presidentes da República, estando a violar a Constituição da República Portuguesa?

Poderão fazer, com honra e verdade, o juramento solene de Presidente da República Portuguesa ao dizerem

«Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa. — Constituição de 1976, Art. 127.º.»

e escreverem segundo a cartilha do AO90?

Bem sei que a democracia portuguesa é uma democracia escrita com um "" minúsculo, como os que a sustentam, e talvez por isso, em Portugal (coisa inédita e insólita!) cada um escreve como lhe dá mais jeito.

Se o próximo presidente da República NÃO souber escrever correCtamente a Língua Portuguesa será igual ou pior ao que nos vai deixar, sem honra nem legado algum, do qual os Portugueses possam orgulhar-se.


Se os candidatos a PR não arrepiarem caminho e chegarem à conclusão de que, insistindo em grafar à brasileira, irão atraiçoar o juramento solene que terão de fazer na tomada de posse do cargo, e no exercício das suas funções irão cometer uma série de violações, tais como:

-- da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (CSPCI);

-- e por arrasto, da Constituição da República Portuguesa (CRP);

-- da Convenção de Viena de 23 de Maio de 1969, pelo AO90;

-- da violação da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira (COLB) de 10 de Agosto de 1945, aprovada pelo Decreto-Lei Nº 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, decreto-lei que continua em vigor na ordem jurídica nacional, porque, até à data, não foi anulado, nem substituído por um novo Decreto-Lei.

têm de saber que serão maus presidentes e estarão a trair Portugal e os Portugueses.

Posto isto todos os Cidadãos Portugueses Pensantes NÃO devem votar em nenhum candidato acordista, porque quem NÃO escrever correCtamente a Língua Portuguesa, e estando em vias de cometer tantas violações, NÃO merecerá representar Portugal nem os Portugueses, como aquele que deixará o cargo NÃO mereceu, e por tal imerecimento será julgado pela História.

NÃO votaremos em candidatos que NÃO saibam honrar Portugal e a sua Língua, logo a Língua que, de acordo com o que José Pacheco Pereira disse numa entrevista no passado dia 10 de Junho, e, todos nós que pensamos, concordamos que é um dos factores mais importantes para a identidade de ser português.

E é essa identidade que o próximo Presidente da República deverá defender, para merecer ocupar tão alto cargo.

Conclusão: ou votamos em branco [já agora, os votos em branco deviam ter a respectiva percentagem em cadeiras vazias no Parlamento, para indicarem o descontentamento dos Portugueses, que ao fim e ao cabo também votaram um voto útil] ou NÃO votamos.

Isabel A. Ferreira

comentários:

De Fernando Kvistgaard a 18 de Outubro de 2025 às 12:25

Como é óbvio, os cês e pês da nossa Língua, por não se pronunciarem, foram suprimidos com AO90 para a escrita se uniformizar com a do Brasil. É por isso que se mantêm em Portugal os 'H/h' no início de palavras como hoje, homem, honra, hotel e muitas outras: É que, no Brasil, todas elas mantêm o agá. Heureca!

A Língua Portuguesa, com a reforma de 1945, não era perfeita, mas nada é perfeito nesta vida, e mesmo com algumas imperfeições, a Língua evoluía naturalmente, e estava quase, quase perfeita.

Porém, com a intenção de facilitar a escrita para baixar o nível dos analfabetos no Brasil, eles começaram a suprimir os "cês" e os "pês", a torto e a direito, sem critério algum, e com um desconhecimento gritante da Gramática Portuguesa, do Latim e do Grego. Alguns desses "cês" e "pês" escaparam. Foram poucos. E foi essa simplificação desconcertada, que nos quiseram impingir. Digo quiseram, porque nem todos foram na cantiga, apenas os servilistas e os menos instruídos se vergaram a tal impossível unificação

Quanto aos “agás”, Fernando, no Brasil nem todas as palavras mantém o H, como, por exemplo, em “umidade”. E agora vá-se lá saber porquê.

De Susana Bastos a 18 de Outubro de 2025 às 14:05

Cara Isabel, ainda falta a candidata Joana Amaral Dias, que ao que parece rejeita o "coiso". Será a única?

Cara Susana, a Joana Amaral Dias não consta da minha lista, por dois motivos: primeiro, como já expliquei no meu texto, não tem possibilidade de vencer; segundo, porque grafa de acordo com cartilha do AO90.
Porém a cara Susana diz-me que ela «ao que parece, rejeita o “coiso”». Pois fica-se pelo parecer, porque ela usa USA o “coiso” de FACTO.
Convido-a a ir à página dela do Facebook aqui
https://www.facebook.com/joanamaraldias

E leia os textos que ela tem lá escritos.
Principalmente o texto que começa por: «Sabem como é que a minha filha do meio ficou órfã antes de nascer?»
Neste texto ela grafa “25 de abril” (erro crasso para uma desacordista: ela grafa “rececionadas» e “respetivas ” (dois monos criados pelo AO90, que os Brasileiros grafam à portuguesa, excePcionalmente)

Se continuar a ler os textos dela, o AO90 está lá. E se isto NÃO é ser acordista... o que será ser acordista?

Além disso, investiguei todos os outros candidatos, e todos escrevem pela cartilha do AO90.

Não sobra um, para escrever correCtamente o Português e merecer o voto dos Portugueses Pensantes.

E isto é uma VERGONHA!!!!!

De Susana Bastos a 30 de Outubro de 2025 às 17:08

Cara Isabel, mas acaso António Filipe ou Raul Perestrello (quem?) têm hipóteses de ganhar? Não acho que seja critério.
Em relação a Joana Amaral Dias, rejeitou o AO expressamente neste vídeo: https://www.facebook.com/watch/?v=1002293428760816
Tanto quanto sei, não aplica o AO sempre que pode, excepto se os seus textos forem convertidos na imprensa. Quanto ao que aponta, podem ser apenas deslizes, porque vejo lá muitas palavras sem AO, o que não acontece com os restantes candidatos.

Cara Susana, na verdade, nem António Filipe, nem Raul Perestrello têm qualquer hipótese de virem a ser Presidente da República, no entanto, estão nesta lista, por serem figuras publicamente mais conhecidas, do que todas as outras. Terei de reformular o meu texto.

Quanto à Joana Amaral Dias, ela pode dizer o que bem entende, mas uma coisa é dizer, e outra coisa é fazer.

Como é possível a Joana dizer “que se opõe vivamente ao AO90” e na sua página do Facebook escrever de acordo com a cartilha do AO90?

Já levaria ela este tema para os discursos da Campanha Presidencial? Já discutiria o tema publicamente na televisão?

Não me parece.

Essa de dizer que ela não aplica o AO90 sempre que pode, não é nada, bem como permite que os seus textos sejam convertidos na imprensa. Uma pessoa que é CONTRA o acordo, jamais o aplica, seja em que circunstância for, e jamais permite que os seus textos sejam convertidos, nem que NÃO sejam publicados. Jamais. Será simplesmente uma NIM. E ser NIM não é nada, nesta questão.

Na página do Facebook dela, ela aplica o AO90 SEMPRE. Não é por deslize. E se aparecer uma no cravo, outra na ferradura, aplica o MIXORDÊS, que é pior ainda.

Cara Susana, nenhum dos candidatos a PR/2026 sabe escrever escorreitamente a Língua Portuguesa, logo, não são candidatos que sirvam para o País, nem para os Portugueses não-servilistas.

De Susana Bastos a 30 de Outubro de 2025 às 17:15

Acrescento, aliás, que os livros de Joana Amaral Dias são todos editados sem AO, incluindo o mais recente deste ano, que tem lá nota explícita. Sugiro que reveja a sua posição.

Cara Susana Bastos, se os livros da Joana Amaral Dias são todos editados sem o AO, incluindo o mais recente deste ano, porquê escreve na página do Facebook, em acordês e mixordês?

Uma pessoa que escreve em Português correCto, não anda por aí a escrever “incurrêtamente”, conforme as conveniências de uns e de outros. Certo?

Manterei a minha posição até que veja um Português escorreito na sua página do Facebook, onde muita gente vai “beber” as ignorâncias que por lá se escrevem, e ela traga a público a sua veemente convicção de ser CONTRA o AO90.

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«Portugal já não é mais Portugal», haja quem tenha a coragem de o dizer alto, e numa Língua que não mais pode ser considerada portuguesa

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-14 00:00

«Portugal é um braço do Paquistão e da Índia», disse ele, mas, no Brasil, há quem diga que Portugal é o 28º Estado brasileiro. Vou mais por aqui, uma vez que os governantes portugueses são vassalos desta ex-colónia. 

Concebo que Portugal seja um braço não só do  Paquistão e da índia, como também do Bangladesh, de Angola, de Cabo-Verde, de Moçambique, de Timor-Leste, de São-Tomé-e-Príncipe,  da Guiné-Bissau e até de outras comunidades estrangeiras, menos visíveis.

Mas do Brasil, Portugal é o corpo inteiro.

E ele diz que quem está entregando Portugal está desonrando os seus antepassados.

É isso aí!  Mas não só estão a desonrar Portugal, como estão principalmente a desonrar os seus próprios filhos, os seus descendentes, não lhes deixando o País que os nossos antepassados ergueram com muito sangue, suor e lágrimas,  para que as gerações futuras pudessem dizer que tinham um País! 

Eu faço parte da última geração que ainda teve um País. Os meus filhos e os meus netos e os que ainda hão-de vir, já não podem dizer o mesmo, porque já começam a ser apátridas dentro do seu próprio País: sem Língua, sem História, sem Cultura, sem Futuro.

E isto graças aos que por um prato de lentilhas hipotecaram a própria coluna vertebral.

Isabel A. Ferreira 

comentários:

De Fernando C. Kvistgaard a 26 de Maio de 2025 às 19:52

Ai Isabel, tanta verdade, tanta verdade!
Pode apagar se achar menos ético ou adequado, nas Portugal está a tornar-se na lixeira do mundo. E o CHEGA tem razão.

E as verdades são para se dizer, doa a quem doer.

Seja ou não ético ou adequado a verdade é que ando sempre a dizer que Portugal é a cloaca da Europa.

E também ando sempre a dizer que o Chega sabe aproveitar essa circunstância.

Mas nada se faz para mudar de paradigma.

Depois queixam-se.
A incompetência deles faz a força do Chega.

Não é triste, caro Fernando?

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Falemos o que falemos, façamos o que façamos, os decisores políticos portugueses e brasileiros ensurdeceram e estão dispostos a tudo, até a afrontar os Portugueses, e destruir a Língua de Portugal para impor a Variante Brasileira do Português

Blog: O Lugar da Língua Portuguesa | Publicado em: 2026-03-14 00:00

Marcelo Rebelo de Sousa está no Brasil com uma delegação de 11 ministros, à qual se juntará Luís Montenegro, para reforçar a cooperação entre os dois países, em áreas como a Cultura e a Educação, mas não só, como se isso fosse possível, tal o fosso cultural e educacional que existe entre Brasil e Portugal. Sei do que estou a falar.

E das duas uma: ou o Brasil cede à Cultura e Educação portuguesas, ou Portugal cede à Cultura e Educação brasileiras, sendo que pelo que temos visto do que está a passar-se relativamente à destruição da Língua de Portugal em favor da Variante Brasileira do Português, à qual indevidamente os brasileiros chamam Português e assinalam-na com a bandeira brasileira, retirando da Internet a Língua de Portugal, estamos mesmo a ver para que lado o tal reforço de cooperação irá prevalecer.

Há a expectativa de que sejam assinados acordos de cooperação nas áreas já referidas, mas também na saúde, economia, ciência, tecnologia, defesa, segurança, justiça, ambiente e comércio, durante a 14ª Cimeira Brasil-Portugal, que ocorrerá amanhã, dia 19 de Fevereiro.


Daqui poderíamos esperar que o bom senso prevalecesse e que os dois países cooperassem um com o outro SEM subserviência da parte portuguesa e SEM imposições colonialistas da parte brasileira, como até agora tem acontecido.

Podíamos esperar que não tendo dado certo a tentativa de acabar com a Língua de Portugal e implantar a Variante Brasileira do Português, sendo tal atitude contrária às boas relações que se querem entre dois países que são pai (Portugal) e filho (Brasil) que já tiveram uma história comum,  interrompida pelo Grito do Ipiranga. É que a partir do momento em que o filho sai de casa  devia seguir a sua vida independentemente do pai, não esquecendo, porém, o RESPEITO a ele devido.


E o que está a passar-se, o que vemos, ouvimos e lemos por aí, é um desrespeito dos mais profundos do filho em relação ao pai, como se não fosse a existência do pai, o filho jamais existiria, e este último só não é maior do que já é, se não estivesse agarrado às calças do pai.

A enviada especial da Antena 1 ao Brasil, Inês Ameixa, registou as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, que classificou de especial e diferente a ligação entre os dois países, apesar de erros cometidos no passado.

Apesar de erros cometidos no passado????

Que erros? Não saberá o chefe de Estado de Portugal que o que se passou no passado nada tem a ver com erros, mas com hábitos e valores dessa época dos quais os Portugueses hodiernos não têm culpa alguma, para estarem a baixar as orelhas àquele que pretende ser o dono disto tudo, alegando esses erros para se impor e exigir reparos, que muito servilmente os políticos portugueses estão dispostos a pagar, envergonhadamente, sem um pingo de dignidade? Não podemos julgar a História pelos valores dos tempos contemporâneos.  Devemos, isso sim, é aprender com o que de mau e mal se fez, nesse passado, para não ser repetido.

Isto é a prova da submissão dos liliputianos, que já foram grandes, mas amesquinharam-se, estando agora avassalados ao Grande Olho que os espreita e intimida.

Esperamos que esta visita dos representantes de Portugal ao Brasil não nos deixe envergonhados, perante o Mundo.

Isabel A. Ferreira


Fonte da notícia aqui, onde pode ouvir-se um excerto curto do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa.

comentários:

De João Barros da Costa a 21 de Fevereiro de 2025 às 10:53

O Primeiro-Ministro Luís Montenegro e o Presidente brasileiro Lula da Silva acordaram a contratação de docentes brasileiros de PORTUGUÊS para darem aulas no Ensino Básico (1º Ano de Escolaridade ao 4º Ano de Escolaridade)...

As crianças portuguesas vão passar a ter uma influência directa da
língua brasileira nas escolas.

A alteração da grafia portuguesa do PORTUGUÊS primeiro.
A alteração da fala do PORTUGUÊS depois.

Aparentemente, a intenção dessas pessoas é a uniformização do
PORTUGUÊS. A língua brasileira passará a ser a língua oficial de
PORTUGAL.

Desde 25 de Abril de 1974 que o patriotismo é atacado.
Desde 25 de Abril de 1974 que o nacionalismo é atacado.

Fazem falta associações (legalmente constituídas) cujos fins
sejam defender PORTUGAL e os PORTUGUESES.

Nasci em Lisboa em 1961.
Vivi doze anos durante o "ESTADO NOVO".
Vivo há mais de cinquenta anos numa pseudo democracia.

As revoluções são cíclicas...

Cumprimentos.

João Barros da Costa

JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

Caro João Barros da Costa, isto a ser verdade há que tomar providências.
É gravíssimo.

De Diana Coelho a 21 de Fevereiro de 2025 às 17:25

É, de facto, gravíssimo. No entanto, grande parte dos portugueses parece já ter adormecido e perdido o interesse pelo futuro do país. O rumo que Portugal está a tomar preocupa poucos. O que realmente capta a atenção são as redes sociais, os telemóveis, o futebol, as aparências. Quem tem uma casa e um emprego tende a ignorar estes alertas, sem perceber que, no futuro, poderá ser a vez dos seus filhos enfrentarem um país sem oportunidades, sem perspectivas, sem identidade – um país que os próprios portugueses ajudaram a destruir.

Se nem a Língua Portuguesa, que nos define enquanto povo, é valorizada, como esperar que o sejam noutras questões essenciais? E não me venham com a treta da evolução, com o discurso de que "o AO90 é evolução" e que "as línguas evoluem" – blá, blá, blá. O Acordo Ortográfico de 1990 representa tudo menos evolução. É um atentado à coerência da Língua, à sua história e à nossa identidade cultural.

Eu faço a minha parte: transmito aos meus alunos e aos meus filhos o orgulho na nossa Língua e Cultura, sempre recusando o AO90.

Como estou tristemente de acordo consigo, Diana Coelho! A sua análise está perfeita.

O que mais agrava isto tudo é o não-quer-saber dos PAIS, nomeadamente dos mais instruídos, porque as crianças e jovens serão (já são) as maiores vítimas desta usurpação da Língua de Portugal e da vassalagem dos políticos portugueses prestada ao país ex-colonizado que nunca aceitou a colonização portuguesa como um facto consumado, e sem a mínima possibilidade de retorno. Em nenhum outro tempo se conjugaram tais condições. Qualquer analfabeto sabe disto.

Esta “vingança do chinês”, ou seja, impingir-nos a língua brasileira sub-repticiamente, com o aval dos vassalos portugueses, bem instruídos para tal, anda a ser preparada desde tempos muito recuados, mas só agora é que pode ser posta em prática porque foram reunidas as condições ideais para o golpe final: um povo amorfo, que recuou para tempos idos, sobre o qual as redes sociais, os telemóveis, o futebol, as aparências, como diz e muito bem a Diana, exercem uma influência perniciosa que se junta à ignorância optativa, e que se lixem os filhos, as crianças, que, ao menos, quando crescerem, poderão escolher ir para os estrangeiro estudar e procurar uma sociedade mais civilizada, mais culta, mais livre da vergonhosa vassalagem que impregna Portugal de um pestilento cheiro a mofo.

Nesta nefasta sociedade portuguesa temos de nos sujeitar às ordens ditatoriais de governantes vassalos, que não pugnam pelos interesses de Portugal. Teremos?

O “acordo ortográfico de 1990” representa a estupidez mais maciça de que há memória no nosso desventurado País.

Se ao menos houvesse milhares de Dianas Coelho em Portugal, não estaríamos à beira de sofrer um genocídio linguístico, que fará desaparecer Portugal do mapa da Península Ibérica.

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