Lílian Miranda

Créditos da imagem: Lingomba ya Muta Nionso, Zemba Luzamba, 2023
No mês de Julho participei de dois eventos dá área de História, o encontro estadual da ANPUH Bahia, que ocorreu na UESC, em que pude compartilhar com pesquisadores da historiografia o que tenho desenvolvido no mestrado acerca das relações entre história, ficção e arquivos, e também estive presente na conferência “De escravista a abolicionista: Trajetória de uma família negra na Bahia c. 1807-1930” ministrada pelo professor João José Reis. O evento ocorreu na ALBA e fez parte do 19° Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia.
Em suas primeiras palavras, Reis provocou a plateia com uma frase que chamou minha atenção pelo tom polêmico com que começou sua fala: “História não é ciência”. Na mesma hora, anotei no meu bloco de notas “mas por quê?”
Nesta palestra, o autor delineou os caminhos da nova pesquisa que está desenvolvendo e as impossibilidades diante dos arquivos que não encontrou ou daqueles de que ainda está à procura. Reis narrou a história de Manoel Joaquim, um ex-escravizado que se torna dono de cativos, enriquece bastante e perpetua a fortuna legando-a a seus descendentes. Avançando na linha do tempo, seus filhos e netos também se destacam ao se associarem a outras figuras notáveis da história oficial do Brasil, e assim, gerações depois, a família, que emerge num contexto escravocrata, passa a figurar nos cenários de luta pelos direitos das pessoas negras no Brasil.
É interessante ver como funcionam as lacunas na pesquisa em arquivos. O autor aponta a invisibilidade das mulheres influentes da família ao longo das gerações, que somem dos documentos ou que aparecem vertiginosamente.
Fazendo a leitura de O Alufá Rufino, pude encontrar também mais uma evidência dessas imprecisões do documento. Ainda que a narrativa preserve as datas, os testemunhos, depoimentos e eventos que conversam entre si, é possível encontrar também trechos que demonstram que existem muitas lacunas a ser preenchidas:
Rufino declarou ter deixado o Rio Grande do Sul e seguido para o Rio de Janeiro “quando começava a guerra dos Farrapos”, segundo a notícia de sua prisão publicada no Jornal do Commercio em 1853. Tanto essa notícia como a transcrição de seu depoimento dão a impressão de que a viagem para o Rio se seguiu logo ao registro de sua alforria em meados de dezembro de 1835. Há, no entanto, a possibilidade de uma história alternativa a essa. Já dissemos que por ocasião da suspeita de conspiração malê em Porto Alegre, em 1838, os papéis então confiscados foram enviados à cidade de Rio Grande e ali interpretados por um liberto haussá, a quem se dera o nome de José no Brasil.
Em Um um defeito de cor, Gonçalves aproveita o documento e constroi sua ficção, sem compromisso com o que de fato aconteceu. Ao observar o trabalho do historiador em O Alufá Rufino, me deparo com a evidência e o factual, mas também com uma forma de pensar a história que precisa elaborar hipóteses sobre o que não é verificável, mas apenas imaginável. Será que a afirmação de que “história não é ciência” se apoia também nesse discurso que permite afirmar que “há, no entanto, a possibilidade de uma história alternativa a essa”? Mas como falar dessa história que falta ou que se faz presente no que não se mostra como evidência?
Ao revisitar Vidas rebeldes, belos experimentos de Saidyia Hartman, me encontro com as fronteiras entre história e ficção sendo estreitadas, pois ainda que seja tudo verdade, Hartman parece olhar para o arquivo como quem diz: há possibilidade de uma história alternativa que corresponde ao provável e ao possível de ter acontecido. E tudo isso a partir de uma sólida pesquisa em arquivos e documentos, anos dedicados à investigação.
Minha pesquisa me leva a investigar como Gonçalves lida com a historiografia para escrever seu romance. Esse movimento me interessa também porque desperta minha atenção para o modo como a própria historiografia tem lidado com as lacunas, com as possibilidades especulativas para construir uma outra história.