Clarice Lispector

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Clarice encontra Bataille: a carne embriagada

Por: Revista Fina

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2021-01-12 13:04

Literatura, Filosofia, Clarice Lispector, Georges Bataille, Transgressão, Interdito, Vida doméstica, Erotismo, Análise literária

[resumo] Em ensaio, pesquisadora discute as interfaces entre a escrita da contista Clarice Lispector e o filólogo Georges Bataille. Ao esmiuçar pormenores estilísticos, a autora mergulha nas construções de ambos, colocando luz em semelhanças e diferenças entre os dois intelectuais.

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Isabela Nunes

Em O mundo imaginário de Clarice, Benedito Nunes diz que Clarice Lispector “vislumbra a ação de potências irracionais, cósmicas, por sob a capa dos sentimentos comuns”. Para Clarice, o ordinário guarda um abismo traiçoeiro, ao qual sempre perigamos ceder. Por trás da razão, há a desrazão; por trás do domesticado, o selvagem; da ordem, o caos; do contido, o ilimitado. Por trás do de fora, há o de dentro. Nessa dualidade, para que se passe de um lado ao outro, basta um deslize: se alguém comete a imprudência de parar o andar dos dias por um instante a mais do que deveria, escreve Clarice em ‘Os obedientes’, “um pé afunda dentro e fica-se comprometido”.

A coletânea Laços de Família, em especial, revela que o mundo clariciano é um entremundo: suas personagens, em geral contidas pelas fronteiras de uma realidade regrada, perdem pé ao se depararem com a contingência infinita que essa mesma realidade esconde. Estão envoltas por uma barreira protetora de harmonia, mas essa barreira logo se vê rompida, crispada, estremecida. Ana vê um cego mascando chicles, Laura compra rosas brancas na feira, uma rapariga devaneia e se embriaga. A envolvê-las, aqueles limites do mundo racional que o homem impôs a si mesmo para controlar o caos de sua vida interior – e, assim, fundar a linguagem, o trabalho, a vida doméstica.

Mas, forçados esses limites, a razão dá lugar à íntima desordem. No cego, Ana encontra dentro de si algo que não pode conter. Nas rosas, Laura desata os nós que tornam seu mundo entendível aos outros. No devaneio, a rapariga abre mão dos laços que refreiam sua verdade animal. Em cada uma delas, há um transbordamento dos interditos (ou seja, das proibições) que as instituições, os valores sociais e a rotina doméstica lhes impuseram, e há uma passagem do domesticado ao caótico que é marcada pelo transgredir. A personagem que citamos, Laura, não deveria ter comprado as flores, mas comprou-as, enquanto a rapariga, consciente de sua inconformidade com o que é esperado dela, geme consigo mesma: ai que até me faltei ao respeito! Diante das pequenas e quase insignificantes violações no cotidiano dessas mulheres, abre-se um rasgo na ordem racional – e o caos, uma vez convidado, temporariamente dissolve os limites e transforma o mundo contido em insuportavelmente imenso.

Lispector, no entanto, não é a única autora do século XX a pensar a dualidade entre caos e ordem ou a transgressão que assinala a travessia de um ao outro. Um pouco antes de Clarice, o francês Georges Bataille refletia sobre questões parecidas: de acordo com ele, o homem pertence a dois mundos, o do interdito e o da transgressão, entre os quais sua vida, queira ou não, está dilacerada. O mundo do interdito é o que ele chama de mundo profano; é o mundo fundado pelo trabalho e pela razão – em Clarice, é o mundo da vida doméstica. O mundo da transgressão, por sua vez, é aquele que supera a ordem racional e a coloca em questão, suspendendo-a sem, no entanto, a extinguir. Como as personagens claricianas, o homem, para Bataille, está sempre na beira do abismo em que “um pé afunda dentro”:

Sempre nos esforçamos por adicionar às formas viáveis e sólidas, em que [a] vida se insere e limita seu desequilíbrio, as formas instáveis, inviáveis em certo sentido, em que esse desequilíbrio é afirmado. (BATAILLE, 2017, p. 269).

Se, como fazem as narradoras de Lispector, aproximarmos nosso olhar o máximo possível de suas personagens, poderemos analisar detidamente como as reflexões batailleanas nos ajudam a compreender esse mundo imaginário de Clarice, em especial aquele de Laços de

Família. Dentre os contos cujas protagonistas citamos, usaremos como guia para essa investigação o conto inaugural da coletânea, ‘Devaneio e embriaguez duma rapariga’.

Nessa primeira estória, Lispector brinca com a linguagem ao explorar a ambiguidade e os efeitos cômicos do português europeu. Nela, uma dona de casa, referida sempre como “rapariga”, olha-se em frente a três espelhos e, na ausência do marido e dos filhos, devaneia. Faz uma escolha: não preparar o jantar do esposo, não limpar a casa, não lavar as roupas. Ai que vagabunda me saíste, a rapariga censura a si mesma, “curiosa e satisfeita”. No dia seguinte, vai jantar a convite de um negociante e se embriaga. Nesse esqueleto narrativo, nada mais simples: uma mulher, uma casa suja e uma noite na Praça Tiradentes. No entanto, como vimos, a simplicidade clariciana é enganadora: mesmo no que tem de mais ordinário, a vida é um movimento que incessantemente invoca a explosão.

O conto é marcado por dois momentos, apontados no título: o devaneio e a embriaguez. Em essência, eles assinalam a transição entre dois planos, sobre os quais Bataille escreve: “de um lado, um mundo exterior (…), de que os animais fazem parte. De outro, um mundo do homem, essencialmente encarado como interior, como um mundo do espírito (do sujeito)”. O devaneio da rapariga consigo mesma, “a pensar, a pensar”, relaciona-se a esse mundo interior. Ela olha-se através dos três espelhos e, ao ver sua pele nua e fragmentada, ainda de dentro das barreiras protetoras da casa, põe em moção o desequilíbrio da transgressão: o espelho, com a imagem refletida estremecida pelos barulhos de fora, assinala a passagem para um mundo invertido, fora de ordem. Sem filhos ou marido que demandem seus cuidados, a rapariga se permite a regalia de afastar-se de seu papel como dona de casa:

“Durante o dia inteiro ficou-se à cama. Sua cólera era tênue, ardente. Só se levantava mesmo para ir à casa de banhos, donde voltava nobre, ofendida”. ((LISPECTOR, 2016, p. 137).

Para Bataille, a casa limpa e a faxina feita são simbólicas de uma “humanidade assexuada” que rejeita radicalmente a desordem dos sentidos e “ergue seus valores ao abrigo da violência e da imundície das paixões”. Nesse sentido, a pequena indulgência da rapariga em abster-se de suas tarefas domésticas é significativa, pois a casa suja crispa as barreiras que a protegem dessa imundície das paixões, tornando possível que a impureza do exterior se imponha sobre a harmonia asseada do de dentro. Somando a desordem da casa à visão da rapariga de seus próprios “seios entrecortados” nos espelhos, pode-se dizer que a abertura à transgressão se dá através de uma obscenidade suja – e, mais tarde, essa transgressão se consumará precisamente através do obsceno e do erótico.

De modo inverso, o momento da embriaguez é marcado pelo de dentro se insinuando sobre o de fora: a rapariga, junto ao esposo, deixa a casa para ir jantar “à tasca da Praça Tiradentes”, a convite de um negociante rico e fino. “Borrachona a mais não poder”, ela começa a se aproximar do mundo exterior de que falava Bataille, aquele de que os animais fazem parte. De acordo com o autor francês, a animalidade se entrelaça intimamente ao erotismo e à transgressão, uma vez que as necessidades animais do homem, entre elas o sexo, são o ponto essencial sobre o qual a maior parte dos interditos incide. Assim, o transgredir, especialmente quando relacionado à exuberância sexual, significa em nós a persistência do animalesco e responde ao que o animal tem de mais íntimo e de incomensurável. Com isso em mente, podemos entender melhor essa segunda parte do conto, em que a rapariga se move em direção à animalidade, ao erotismo transgressor e ao reconhecimento dela mesma como corpo.

Lispector, no entanto, não é a única autora do século XX a pensar a dualidade entre caos e ordem ou a transgressão que assinala a travessia de um ao outro. Um pouco antes de Clarice, o francês Georges Bataille refletia sobre questões parecidas: de acordo com ele, o homem pertence a dois mundos, o do interdito e o da transgressão, entre os quais sua vida, queira ou não, está dilacerada.

Essa realização de si como carne embriagada, animalizada, se dá de maneira progressiva. No plano narrativo, ela é indicada através do uso de palavras que remetem ao universo animal, como pasto e prenhe. Além disso, há expressões de duplo sentido, como cólera: segundo o dicionário Michaelis, o termo significa tanto “impulso violento” quanto “ferocidade dos animais; fereza, feridade, selvageria”.

Contudo, é no plano simbólico que a animalização ganha força. Ela é pressagiada ainda no início do conto, em meio ao devaneio: a rapariga suspira consigo um “ai, ai” que vem da rua “como uma borboleta”. Segundo o Penguin Dictionary of Symbols, a borboleta é o presságio de um visitante e está relacionada à ideia de metamorfose. É nesse mesmo momento do texto que a fragmentação da rapariga, já indicada pelos três espelhos, aparece de modo mais evidente: no parágrafo seguinte à aparição do inseto, ela conversa consigo mesma e o diálogo é narrado como se fosse entre dois interlocutores diferentes.

Para além do significado que lhes conferia Bataille, os animais, enquanto grupo, estão associados precisamente à essa ideia de fragmentação e são espelhos das motivações secretas do homem, assim como de seus instintos subjugados ou descontrolados. “Cada animal corresponde a uma parte de nós, integrada ou prestes a ser integrada em uma personalidade única e harmônica”. Assim, após o presságio de metamorfose da borboleta, a rapariga passa a caracterizar-se segundo diferentes animais: vaca, lagosta, escorpião; culminando na cristalização de sua animalidade quando a lua lhe batiza de cadela.

O primeiro dos bichos, a vaca, está ligado a um movimento de abertura na perspectiva da rapariga diante do mundo. No hinduísmo, vacas são nuvens inchadas com a chuva fertilizante que cai sobre a Terra. Para a rapariga, que “era-se aquela nuvem plena a se transladar sem esforço”, a chuva que a incha e fertiliza é o “vinho verde a esvaziar-se-lhe o copo”, e ela se diz madura e redonda como uma grande vaca. As palavras empregadas pela narradora –‘plena’, ‘redonda’, ‘grande’; além de ‘prenhe’, ‘gravidez’ e ‘garganta cheia e branca’, nas sentenças seguintes – relacionam-se à ideia de inchaço e indicam aumento, alargamento do mundo. Nesse firmamento que é abertura infinita, tudo se torna Um:

E quando estava embriagada, como num ajantarado farto de domingo, tudo que pela própria natureza é separado um do outro (…) unia-se esquisitamente pela própria natureza, e tudo não passava duma sem-vergonhice só, duma só marotagem. (LISPECTOR, 2016, p. 138).

Nesse sentido, é importante destacar que, para Bataille, a experiência da continuidade – em outras palavras, da Unidade – é dada na superação dos limites, na transgressão. Ao transpor os interditos que contém seu excesso interno, o indivíduo experimenta temporariamente a dissolução das fronteiras do Eu e torna-se um com tudo que é Outro. O excesso, a expansão, pertence ao universo antieconômico da desordem e “nos atrai a tudo que é mais do que o que é”: é o maravilhoso, o milagre; aquilo que está fora de todos os limites. “No sábado à noite a alma diária perdida, e que bom perdê-la”, a rapariga pensa. A insinuação da obscenidade, diz Bataille, oferece a possibilidade de um desnivelamento vertiginoso, e é significativo que a rapariga unifique o mundo em sua “sem-vergonhice”, em sua “marotagem” – não esqueçamos, aqui, do presságio de sua casa suja e aberta à imundície. Assim, esses três movimentos, de animalização, de expansão e de alma diária perdida, se unem ao sentimento da rapariga de estar, em sua embriaguez, “profundamente lançada numa vida baixa e revolucionante”– pois é o contrário da vida contida que lhe é própria.

Ao mesmo tempo, a corporificação continua a tomar o espaço interior da rapariga. Ao se caracterizar como o animal seguinte – a lagosta –, ela começa a reconhecer a própria “carne alva” e a “maldadezita de quem tem um corpo”. Sua fragmentação acelera e se intensifica: “agora ela não era lagosta, era um duro signo: escorpião”. Ainda de acordo com o Penguin Dictionary of Symbols, o signo do escorpião se entrelaça a um indivíduo que “só é realmente indivíduo quando dilacerado pelos ataques brutais do demônio interior que tem sede não de bem estar, mas de ser mais pleno”, mesmo que isso envolva a angústia de se viver “dividido entre a vocação divina e a tentação diabólica”. Se considerarmos a vocação divina como aquela dada pela ordem da vida doméstica e dos interditos, e a tentação diabólica como o anseio por superar os limites dessa ordem, vemos que o escorpião sinaliza o próprio movimento de transgressão. De fato, é a partir do reconhecimento de si como esse “duro signo” que a rapariga se lembra das fronteiras que a cercam e reconhece que só lhe é permitido transgredir porque ela está “protegida por uma situação”. Ao lhe reaparecerem os contornos de sua rede de proteção, ela se angustia – “Ai que infeliz que sou, minha mãe” – e sua sede de ser mais plena seca. O mundo, antes uno em sua expansão infinita, volta à sua descontinuidade:

E tudo no restaurante tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá Deus por toda a gente. (LISPECTOR, 2016, p. 140).

Se a transgressão é um movimento em direção ao excesso maravilhoso e milagroso, como entender a angústia da rapariga? Acontece que, para Bataille, o interdito e a transgressão travam um jogo: o movimento dialético que nos permite transpor o primeiro através da segunda não é desprovido de peso; em verdade, a angústia e o peso são um pré-requisito. A proibição que coloca o interdito é necessária, e, por vezes, é preciso reafirmá-la antes de ultrapassá-la. A transgressão não é sinônimo de sua dissolução, nem de negação ou de liberdade: “em tal momento e até este ponto, isso é possível – esse é o sentido da transgressão”, escreve Bataille. Sem os limites, a transgressão não teria encanto nem razão de ser, pois não seria superação de nada. “A náusea, depois a superação da náusea, seguida pela vertigem”: eis o que precede o transgredir. Assim, em sua embriaguez, a rapariga não destrói por completo a ordem que guia seu cotidiano doméstico, mas vive uma situação que a suspende temporariamente. A angústia surge bem quando ela retoma consciência de suas barreiras e de sua inconformidade com o papel que é esperado dela. Mas ao permitir-se, limitadamente, ocupar esse papel invertido, ela desencadeia o “impulso ilimitado da violência” e, em vez de impedi-lo, o reconhecimento do interdito acaba por tornar mais vertiginoso seu desequilíbrio. Desse modo, em “sagrada cólera”, a rapariga se corporifica ainda mais:

E, como entrefechara os olhos toldados, tudo ficou de carne, o pé da cama de carne, a janela de carne, na cadeira o fato de carne que o marido jogara, e tudo quase doía. (…) As coisas feitas de carne com nevralgia. (LISPECTOR, 2016, p. 141).

O que se dá, então, é um movimento contraditório no qual a angústia e a vontade de transgredir coexistem. O mundo aumenta – “E ela cada vez maior, vacilante, túmida, gigantesca” – e diminui: “tudo, no fundo, estava igual, só que menor e familiar”, enquanto cada vez mais a rapariga se encontra dilacerada entre sentimentos opostos: “desiludida, resignada, empanturrada, casada, contente, a vaga náusea”. Como vimos, é precisamente esse o alvoroço paradoxal da transgressão, haja vista que o homem nunca se desfaz de sua posição ambígua entre o humano e o animal, o ordenado e o desordenado, o descontínuo e o contínuo. A recusa ou o horror em transgredir, manifestados na angústia e nas exclamações de “ai, que cousa que se me dá!” da rapariga, não implicam a ruptura desse transgredir, e sim anunciam um acordo mais profundo: o de ir além da angústia. Depois da náusea, a superação. Assim, ao mesmo

tempo em que afirma sua tristeza, a rapariga também diz: “Ai que se sentia tão bem, tão áspera, (…), tão forte”.

É então que o verdadeiro sentido de sua transgressão, até agora apenas insinuado, se revela a ela. A rapariga se lembra de que, quando no restaurante, o negociante “encostara ao seu pé um pé debaixo da mesa”. E de que, na Praça Tiradentes, uma mosca pousara na pele nua de seu decote. “Ai que malícia”, exclama. A violação verdadeira não era aquela dada pelo devaneio nem pela embriaguez, e sim o jogo erótico que os dois momentos colocaram em moção e que fora pressagiado desde a visão da rapariga de seus próprios seios no espelho.

Voltamos, aqui, ao simbolismo dos animais: a mosca, ocupando papel similar ao da borboleta, consolida o presságio do início. Para as tribos Ninji, esse inseto é um símbolo de unidade – o que é significativo –, mas há outros sentidos possíveis: moscas procriam na imundície, carregam doenças e, com suas picadas e seu tamanho diminuto, violam todas as barreiras erguidas contra elas. Nesse sentido, simbolizam a corrupção e a obscenidade – e é importante considerar que a rapariga se lembra da mosca pousando em sua pele nua, “em plena Praça Tiradentes!”. Para Bataille, a nudez é um estado de comunicação que revela a busca de uma continuidade possível do ser para além do fechamento em si mesmo, enquanto a obscenidade, suscitada por essa nudez, anuncia “o jogo dos órgãos que se derramam na renovação de uma fusão” e suprimem todas as barreiras. Sob o augúrio da mosca e da “sujidade toda” que permeia sua casa e ela mesma, a rapariga pode, enfim, chegar ao êxtase de sua transgressão:

A lua. Que bem que se via. A lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadita. A deslizar, a deslizar… Alta, alta. A lua. Então a grosseria explodiu-lhe em súbito amor: cadela, disse a rir. (LISPECTOR, 2016, p. 144).

Sem desfazer-se da contradição que marca a superação do interdito – a “grosseria” que é também “súbito amor” –, ela assume um novo papel: o de cadela. A animalização, a corporificação e o erotismo transgressor chegam ao seu ápice. A cadela é um símbolo de potência sexual, de sedução, de castidade corrompida, de vitalidade incontida. Também para Bataille é um animal associado à sexualidade:

Só a experiência dos estados em que ficamos banalmente na atividade sexual, de sua discordância com as condutas socialmente aceitas, nos permite reconhecer um aspecto inumano dessa atividade. (…) Uma fúria bruscamente se apossa de um ser. (…) Como se uma cadela enraivecida tivesse substituído a personalidade daquela que recebia tão dignamente… (BATAILLE, 2017, p. 130)

De modo sutil, a insinuação do erotismo e de seu entrelaçamento com o abandono da vida doméstica já estava dada em momentos anteriores. Ao início do conto, a rapariga rejeita os carinhos do marido, pedindo que ele não a ronde como “galo velho”. Mas aceita o flerte do negociante, a quem o marido “deixa o cantar de galo”. Mais uma vez, o simbolismo animal é significativo, especialmente considerando sua duplicidade: porque anuncia o raiar do sol, o galo contra-ataca as más influências da escuridão – sentido que toma o marido como “galo velho”, rejeitado pela rapariga no anseio de precipitar-se na escuridão, na sujeira. Mas, para outros povos, como os budistas tibetanos, o galo representa a luxúria, a ambição e o apego à materialidade – sentido que toma o negociante com seu cantar de galo, desejado pela rapariga. Da mesma forma com que se fecha para os carinhos marido e abre-se para as atenções do comerciante, a rapariga recusa o mundo que quer lhe acariciar – “Mesa! gritou-lhe o mundo. Mas ela nem sequer a responder-lhe (…), que não me venhas a maçar com carinhos” – para aceitar o “súbito amor” daquele que, através da lua, lhe chama de cadela.

Nesse sentido, a ambiguidade da palavra rapariga, que em português europeu quer dizer moça mas em português brasileiro refere-se à prostituição, não passa despercebida: a carícia do marido faz com que ela “crepite como folha seca” porque, segundo Bataille, a repetição das relações sexuais no casamento faz com que elas percam seu sentido de transgressão, de erotismo. A prostituta, por sua vez, encontra-se na esfera oposta:

[No casamento], as relações sexuais tinham continuidade sem que a transgressão fosse sublinhada após o primeiro contato. (…) Na prostituição, havia a consagração da prostituta à transgressão. Nela, o aspecto sagrado, o aspecto interdito da atividade sexual não cessava de aparecer: sua vida inteira era votada à violação do interdito. (BATAILLE, 2017, p. 158).

Assim, as carícias ganham seu valor erótico para a rapariga na medida em que são obscenas, proibidas; na medida em que estão em inconformidade completa com o papel de pureza e ordem que lhe é designado e a transportam para a esfera inversa.

A lua, arauto da apoteose da dona de casa em cadela, é o último símbolo que marca a travessia para esse mundo às avessas. Ela se relaciona ao que há de mutável no feminino e representa a multiplicidade, remetendo à fragmentação da rapariga e sua passagem a uma lógica contrária à da vida doméstica. Mas o mais significativo, talvez, seja que a lua é associada a um caráter passivo ou reflexivo e, nesse sentido, espelhos são objetos lunares. Dessa forma, a inversão está marcada na própria estrutura do conto: ele se inicia com a rapariga observando a si mesma em um objeto refletor que, de dentro das barreiras protetoras dos interditos e da razão, lhe devolve uma imagem fragmentada e estremecida de si; e, de modo análogo, termina com outro objeto refletor que, fora dessas barreiras, no de fora da imundície das paixões, devolve à rapariga uma imagem oposta àquela que o mundo ordenado lhe designou com o papel de esposa e mãe. A lua rejeita essa imposição e reflete o contrário: o papel que lhe cabe é o de cadela. Aproximando-se da animalidade e reconhecendo-se como corpo erótico, a transgressão da rapariga é consumada e a vida doméstica, temporariamente superada: é transgredida, profanada, conspurcada.

O dilema da rapariga, assim como a sua violação animalesca, são exemplares do jogo de interdito e transgressão que permeia os entremundos de Clarice. Abrindo Laços de Família, ‘Devaneio e embriaguez duma rapariga’ inaugura também o tema central da coletânea: a ânsia da mulher contida – e em geral presa ao espaço doméstico e a papéis sociais bem-delimitados nos quais ela não cabe e de cuja limitação ela quer fugir – sua ânsia por pertencer, por perder pé, por encontrar uma continuidade para além de si mesma. As personagens dos contos guardam em si uma fome de excesso e expansão que, a despeito do lar, que é seu lugar por direito, as mantém em um eterno lugar nenhum: vivem dilaceradas entre a ordem doméstica e o caos interno, em equilíbrio fragilíssimo. Trata-se de mulheres governadas pela ambiguidade, pelo nunca se encontrar, pelo não pertencer nem ao mundo da proibição nem ao do transgredir. Mas talvez seja essa mesma a medida do encanto de Clarice: essa busca incessante que, nos momentos de íntima desordem, nos deixa entrever o infinito incontido que guardamos dentro de nós. Se ele é perigoso por estarmos sempre sujeitos a um mergulho sem volta em suas profundezas nada inocentes – como avisa Clarice, “um pé afunda dentro e fica-se comprometido” –, é o vislumbre desse excesso violento, secreto e por vezes maligno que nos aproxima de tudo aquilo que é extraordinário em sua ordinariedade. O que há de grandioso no devaneio e na embriaguez? Em si mesmos, nada. Mas, na fenda que abrem em direção ao infinito, à continuidade e à expansão, tudo: pois revelam um mundo invertido em que não há restrições para o ser. Ao adicionarmos a instabilidade às formas viáveis e sólidas, como diz Bataille, abrimos espaço para o encontro com o ilimitado e o absoluto; um encontro com tudo

aquilo que é mais do que o que é. Bataille acreditava que o êxtase se escondesse no vil, no sujo, no hediondo, em tudo, enfim, que coloca em jogo a dissolução das formas constituídas. Mas Clarice vai além: o sublime que guarda o perder-se dentro e fora de si está no cego, e nas rosas, e no embriagar-se, e em tudo que a vida tem de mais banal. Seu perigo e seu encanto está em tudo e em todos os lugares. Basta olhar.

Bem, basta ter a coragem de olhar e deixar-se afundar nessa ambiguidade inevitável que o tecido de viver costura, e que Clarice conhecia tão bem.

REFERÊNCIAS

BATAILLE, Georges. O erotismo. 1. ed, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. The Penguin dictionary of symbols. London: Penguin, 1996.

CIRLOT, Juan E. A Dictionary of Symbols. New York: The Philosophical Library, 1983.

LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. 1º ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.

NUNES, Benedito. “O mundo imaginário de Clarice Lispector”. O dorso do tigre, v. 2, p. 93-139, 1969.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

Leituras à Volta da Clarice Lispector

Por: author

Fonte: Leituras à volta da mesa | Publicado em: 2024-04-28 15:18

Clarice Lispector, Literatura Brasileira, Análise Literária, Estilo Literário, Crítica Literária

 


Alguns extratos de leituras relacionadas com Clarice Lispector. São citas textuais, quer da Clarice quer de outros escritores. Acho que podia ser uma boa forma de entrar en contato com a autora e para iniciar a nossa conversa. Lá está quase tudo, sem dúvida o mais importante, depois podemos partilhar nossas leituras e impresões.

“Clarice Lispector, o olhar e o silêncio”.

Elena Losada Soler

 “A literatura brasileira, poderosa, muito rica e sempre em transformação, recebeu em 1943 uma surpresa: Perto do coração selvagem, o primeiro romance de Clarice Lispector, cuja obra posterior -e de maneira especial os seus contos e relatos curtos- mudou todos os estereótipos, linhas e tradições e confirmou-se como uma das voices mais originais e densas dos últimos quarenta anos”.

“Um romance insólito desde o seu título, tomado do romance de Joyce Um retrato do artista quando joven, era um texto insólito porque era um romance sicológico, feminino e urbano, construido a partir do monólogo interior e no qual a trama estava praticamente desaparecida”. 

 “Ela (Clarice Lispector) aportaría percepções, não fatos, um olhar de mulher, um olhar urbano e um olhar contemporâneo, ou melhor fora do tempo, sob o signo da lúa, elemento constante no seu mundo literário.  Um olhar de mulher, se calhar tambem uma escritura de mulher.  As personagens femininas constituem abrumadora maioria na sua obra.  Mulheres lunares, intuitivas, que falam do seu próprio corpo, não como objeto para outro, mas como fisiologia e fonte de vida, como mostra Angela Pralini no conto A partida do comboio”.

 “Clarice é capaz de captar as mínimas sensações, os mínimos detalhes e de saber que nada, por pequeno ou banal que possa parecer, carece de importância.  O mundo do quotidiano, do sem história, que tem sido perante séculos o mundo da mulher, pode proporcionar innumeráveis surpresas, chega com saber olhar e entender esses signos de uma realidade subjacente. 

Porque a vida esta cheia de banalidade transcendente.  Na obra de CL a consciência infeliz surge nas suas personagens a partir de um incidente anodino.  A partir desse momento o que foi iluminado vivirá o seu drama existencial.  O instante atúa como desencadenante da descuberta do absurdo.  O quotidiano transforma-se assim na porta do mistério. 

A introspecção a partir da consciência da própria solidão é outra constante na sua literatura.  A consciência humana -consciência de infelicidade- vai achar o seu contraponto na sólida plenitude dos objetos e dos animais.”

 “Escrever é para ela uma forma de salvação e tambem uma forma de condenação. Porque escrever é perigoso, é entrar em contacto com outra realidade e ser o seu veículo.  Tenho medo de escrever, é tão perigoso. Quem o tentou o sabe. Perigo de revolver no oculto (…) Para escrever tenho que situarme no vazio.  O mundo não pode abranger-se apenas com a inteligência e com a cultura.”

 E se eu tenho que usar palavras, elas têem que ter un sentido quase corpóreo…Quero eu poder apahar com a mão a palavra. 

Há muitas coisas a dizer mas não sei como as dizer.  Faltam as palavras.  Mas rejeito inventar outras novas: as que existem devem dizer o que se pode dizer e o que está proibido. 

(…) O silêncio é o misterio puro que o homem habita cheio de medo, tentando enché-lo com barulho para não ter que ouvir o próprio eu.”

 “O conto é o vehículo perfeito para a escritura de Clarice Lispector.  A intensidade e condensação narrativa e estilística que o género exige são perfeitos para esta prosa rigurosa, tensa, feita da fixação de instantes.”

 “Todo o mundo de Clarice é deliberadamente frío, e, como o gelo, queima.

Com os meninos e os velhos os animais são os grandes protagonistas destes contos (…) Os animais de Clarice -galinhas, pintainhos, macacos, cavalos, sempre domésticos e habituais- são a última essência da vida, do fundo de todo o humano, o seu espelho e o seu temor”. 

 “Finalmente, para terminar, um último tema capital nestes contos: a solidão.  Quase todas as personagens são seres solitários, geralmente sem um nome.”

 “É possível que o conto seja a forma literária própria do século XX, assim como no XIX foi o romance.  Nesta nova linguagem a Clarice Lispector foi uma maestra indiscutível.


 “Glamour e Gramatica”. 

Benjamim Moser

 “A lendariamente bela Clarice Lispector, alta e loura, ataviada com os desaforados óculos escuros e a copiosa joalharia de uma grande dama do Rio em meados do século, correspondia à moderna definição de glamour.  Tendo trabalhado durante anos como jornalista de moda, ela sabia como se apresentar para esse papel, mas é no antigo sentido da palabra que Clarice é glamourosa: como uma feiticeira, literalmente encantadora, cujo nervoso fantasma assombra todos os ramos das artes brasileiras.”

 (…)

Mas o seu glamour é perigoso. “Tenha cuidado com a Clarice”, disse um seu amigo, décadas atrás, a uma leitora.  “Não é literatura.  É bruxaria”. 

 “Se Clarice foi uma grande artista, também foi uma esposa e uma mãe de clase média. (…) Esta obra é o registo da vida inteira de uma mulher, escrito ao longo da vida inteira de uma mulher”. 

 “Clarice era fundamentalmente desprovida de uma tradição.  (…) Os seus antecedentes de imigrante tornaram-na menos permeável às ideias feitas da sociedade brasileira.  (…) Ser estrangeira, por outro lado, permitiu-lhe eximir-se aos modos de agir habituais.  Foi uma alienação cultural produtiva, e a outra face da alienação é a liberdade.  A experiência de Clarice com ambas ressoa em toda a sua vida”. 

 “Novos assuntos exigem uma nova linguagem.  Parte da estranha gramática de Lispector pode remontar à poderosa influência do misticismo judaico, no qual foi iniciada por seu pai.  Mas outra parte dessa singularidade pode ser atribuida à sua necessidade de inventar uma tradição”. 

 Tanto em pintura como em música e literatura”, escreveu Clarice, “tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu”. “O esforço de superar estruturas aparentemente inevitáveis animou a arte moderna.  Tal como os pintores abstratos procuraram retratar estados mentais e emocionais prescindindo de uma representação direta, e os compositores modernos expandiram as leis da harmonia tradicionais, Clarice desfez as estruturas reflexas na gramática”. 

“Com palavras viradas do avesso, ela conjurou todo um mundo desconhecido -conjurando, igualmente a inesquecível Clarice Lispector: um Tchékhov feminino nas praias de Guanabara”. 

 








Texto originalmente publicado em Leituras à volta da mesa

Clarice em três tempos

Por: Giovana Proença

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2021-08-03 11:01

Literatura Brasileira, Clarice Lispector, Feminismo, Epifania, Fluxo de consciência, Alteridade, Análise literária

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Declarada pernambucana, Lispector travou relações com grandes nomes da literatura brasileira de seu tempo

Giovana Proença

Na efeméride de seu centenário, comemorado em dezembro do ano passado, Clarice Lispector continua conquistando uma legião de adeptos de sua literatura e permanece como grande campeã de compartilhamento nas redes sociais, com suas célebres citações – ainda que grande parte nunca tenha sido registrada pela escritora, embora atribuídas a ela nas profundezas do selvagem mundo digital. A faceta enigmática da tônica lispectoriana, expressa nos escritos que fascinam leitores e colocam o nome de Clarice no mais elevado cânone da cultura brasileira, também se manifesta na biografia da escritora. 

O nascimento na Ucrânia, a fuga da família decorrente da perseguição aos judeus, a difícil infância no Recife – transposta em contos como “Restos de Carnaval”. Os jantares e constantes mudanças às quais estava sujeita como esposa do diplomata Maury Gurgel Valente, o incêndio que a deixou com marcas pelo corpo e a morte no Rio de Janeiro, vítima de um câncer. A sequência de acontecimentos que foge a banalidade da vida se desenrola como um livro; a ideia foi aproveitada por Benjamin Moser, célebre escritor de não-ficção que se propôs a desvendar o mistério de Clarice na biografia homônima.  

Declarada pernambucana, Lispector travou relações com grandes nomes da literatura brasileira de seu tempo: Lygia Fagundes Telles, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Lúcio Cardoso. A miscelânea de relações íntimas da autora está disponível no volume de correspondências Todas as cartas, edição em comemoração do seu centenário. Por ocasião do ingresso de Rachel de Queiroz a Academia Brasileira de Letras (ABL), Lispector escreve à Lygia a sugestão – em tons de presságio – de que a amiga ocupasse também uma vaga na Academia. Ainda que Clarice afirme que apesar do respeito que tem pela ABL, jamais aceitaria entrar na instituição, é categórica “Estão achando que sugiro mulheres demais? Não, é que a Academia Brasileira de Letras tem uma grande dívida com as mulheres” (Todas as Cartas, Editora Rocco, 2020 ).  

O feminino na literatura lispectoriana  

A asserção de Lispector na carta à Lygia nos leva ao primeiro ponto de destaque dentro da literatura de Clarice: as representações do feminino. Entretanto, antes de nos concentrarmos nos escritos da autora, é preciso localizar o contexto de sua produção. A escritora escreveu algumas de suas obras mais significativas como Laços de família e A paixão segundo G.H na década de 60, decênio que marca o limiar dos avanços significativos em relação a conquista dos direitos das mulheres, na chamada Segunda Onda do feminismo.  

O primeiro romance de Lispector, Perto do coração selvagem, nos estrega uma protagonista singular, a ímpar Joana, em seu processo de descobrimento e contato com o mundo. O coração selvagem de Joana rumo à liberdade prefigura muitas das personagens da primeira coletânea de contos da autora, Alguns Contos. Cenas que denotam a tensão que transpassa uma geração de mulheres, que pela primeira vez têm um vislumbre da vida fora do lar, compõem a mescla das narrativas breves: a fuga de uma mulher, que deslocada, retorna à casa; a experiência da paixão fora dos muros do casamento, a resiliência da mulher abandonada “Ele voltaria, porque ela era a mais forte” (Clarice Lispector, “Trinfuo”, Todos os contos, Editora Rocco, 2016).  

Ainda assim, os contos dessa primeira fase denotam o retorno. A vida fora do lar é apenas um vislumbre, rastro luminoso que atordoa as personagens clariceanas. Com carácteres literários marcantes, como Ana – que no conto “Amor” de Laços de Família sente sua vida confortável ameaçada pela visão de um cego mascando chicilete – ou a reflexiva G.H, Clarice desvenda o ser mulher em seu tempo e sua época pelo olhar minucioso de uma voz narrativa essencialmente feminina – como vemos poucas vezes na literatura em casos como Sylvia Plath e Ana Cristina Cesar – disposta a expor as problemáticas de um mundo renegado á clausura. É um equívoco analisar a obra de Lispector como devaneios de uma dona de casa. Em uma época de forte repressão nos âmbitos políticos e sociais no país, que refletiam na delimitação do papel da mulher, a autora foi capaz de antecipar a emancipação feminina na busca por liberdade de escolhas; revelando verdades profundas sobre a sociedade brasileira do limiar entre as duas metades do século XX.  

A epifania como máxima e o revelar da alteridade 

Na sacralidade, a epifania refere-se à aparição divina. Em termos literários, muitas definições podem abarcar o instante epifânico: compreensão súbita., revelação que se manifesta ao invadir sem licenças. De maneira imprevista, viu-se; e não se pode ignorar. James Joyce, grande expoente da literatura moderna, explora a epifania em seus textos. Pelo fluxo de consciência, o autor e a contemporânea Virginia Woolf ampliam a potência do momento epifânico, por meio do uso do fluxo de consciência, ou seja, quando o narrador parece ser suprimido e a história vem diretamente da mente das personagens.  

Em Clarice, as personas navegam em mares de profundidade, camadas desveladas ao leitor a partir de momentos de crise por revelações de um súbito despertar para o mundo. Um cego masca chicletes; em terras brasileiras a epifania adquire contornos definidos dentro da obra lispectoriana. “Amor”, um dos mais notáveis textos de Laços de Família, lança mão do momento epifânico personificado: um cego mascando chicletes é o suficiente para Ana contestar toda estrutura família e social que se insere. Entretanto, a personagem  retorna para sua rotina e antes de dormir, sopra “a pequena flama do dia”; em um desfecho capaz de desfazer as suposições que delimitam o conto como gênero menor dentro da literatura.  

“O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada […] Um cego mascando chicletes mergulhara o mundo em escura sofreguidão” p. 149 

Frequentemente considerado como a elevação do romance moderno na literatura brasileira, A paixão segundo G.H é a alteridade colocada em xeque – humano e animal travam batalha no ritual epifânico. Por apenas uma barata, a protagonista, definida apenas pelas letras G.H, vê sua individualidade e a própria condição humana questionadas. Assim, a alteridade pressupõe o contato com o outro. Em “O Jantar”, conto lispectoriano por excelência – ainda que não goze do reconhecimento de outros, como “Amor” – o narrador observador que se coloca quase na posição de voyeur, sente verdades desveladas sobre si mesmo e sua condição humana a partir da batalha travada de outro homem contra o próprio choro, demonstrando a agudeza da alteridade na literatura de Lispector.  

Mas eu sou um homem ainda. Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer- eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue. (LISPECTOR,2016,205). 

Considerações finais  

O propósito dessa análise visa pontuar ao leitor os aspectos mais latentes do conjunto da obra de Clarice Lispector. Assim, nos concentramos na visão do feminino e na construção do que podemos chamar “A Narradora” dentro dos contos e romances da autora. Para além disso, definimos a epifania como centralidade dos enredos e nos pontos de flexão dentro dos escritos clariceanos, aliada aos recursos da literatura moderna, como o fluxo de consciência. A instauração do momento epifânico revelou ainda a alteridade como dispositivo da tônica lispectoriana, sendo o contato com o outro a abertura para a exploração da realidade.  

Dentro disso, como último ponto dessa reflexão, expõe-se a contemporaneidade de Clarice Lispector e a desmistificação do rótulo que acompanha a escritora, erroneamente classificada como alienada em termos políticos, principalmente em comparação com a primeira geração moderna, que se dedicou às denúncias sociais dentro do romance de 30. Assim, transcreve-se um trecho do conto “Mineirinho”, que se centraliza no assassinato brutal do “facínora” de alcunha Mineirinho. No escrito, Clarice questiona o porquê da morte do “facínora” doer nela própria.  

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro. 386 387 

A situação transfigurada em literatura por Lispector prefigura questões em debate no século XXI como a truculência policial e a questão de corpos sacrificáveis dentro da estrutura social vigente. Desse modo, torna-se claro que Lispector, além de expor habilmente a realidade do século XX no que tange as tensões de gênero manifestas em sua obra, também elucida problemáticas que rondam o Brasil não cordial desde a configuração como nação. Em conclusão, essa análise busca clarificar como uma leitura dirigida elementos que compõem a complexa tônica da literatura de Lispector, e a mantém, após um século, motivo de fascínio e objeto de estudo tanto por leitores quanto pela crítica especializada. 

Texto originalmente publicado em Revista Fina

Resenha – A Hora da Estrela – Clarice Lispector

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2013-08-09 13:31

Literatura, Resenha literária, Clarice Lispector, Escrita criativa, Análise de textos

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O que é boa literatura?

Você lê As Crônicas de Gelo e Fogo e fica impressionado com a grandiosidade que George R. R. Martin conseguiu imprimir à história. Impressiona-o como o autor é impiedoso com os personagens: parece-lhe importar somente a história, e nada mais. Ao mesmo tempo, impressionam-no tantos personagens vivos, eletrizantes, empolgantes, como Arya, Tyrion, Cersey, Jon, Bran e tantos, tantos outros.

Você lê Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios e… nossa!, como Marçal Aquino sabe contar uma história! Com o que poderia ser um melodrama, o autor cria algo denso, envolvente, contagiante…

Você lê 2666 e fica boquiaberto com a pretensão de Roberto Bolaño. Quem ele pensa que é para escrever uma história tal que contém mil outras histórias que chegam e vão embora e que mesmo assim conseguem enfeitiça-lo?

Você lê Flaubert e entende o que é a perfeição. As palavras, todas no lugar mais adequado. Os fatos, segundo a ordem mais precisa. As motivações, os adjetivos, as vírgulas, nada poderia nem deveria jamais ser alterado (como eu lamento não poder [ainda] ler Flaubert em francês!).

Aí você lê A Hora da Estrela.

E aí você pensa… pensa… pensa…

Não, você não pensa. Você mastiga. Você sente sua fome literária ser saciada, uma fome quase atávica que você nem sabia que tinha.

Você abre os olhos e vê que os exemplos anteriores, para usar algumas comparações bem toscas, eram como… madeira. Flaubert esculpia lindas, maravilhosas estátuas de madeira, George R. R. Martin constrói cidades inteiras de madeira, Roberto Bolaño faz alguma coisa bela e inominável de madeira. Clarice Lispector produz árvores.

Outra comparação tosca: linguagens de programação. George R. R. Martin brinca com Java, Flaubert, com C++, outro, com Basic. Clarice Lispector cria os algoritmos.

É isso mesmo que quero dizer: é outro nível, é outra realidade.

Não é preciso ser um apaixonado pela literatura para ter ouvido falar de Clarice Lispector, basta ter uma conta no Facebook. Claro que você não vai conhecer Clarice Lispector assim. Eu sempre mantive uma distância meio calculada dessa moça. Dessa nobre senhora. Via e vejo tanta gente idolatrá-la e comprei até alguns livros, mas ainda não tinha lido nenhum. Fiquei tentado a comprar Clarice, (com vírgula no final), de Benjamin Moser, a muito elogiada biografia da autora. Mas não me atrevi, pois não conhecia sua prosa.

Ontem comecei a corrigir essa falha literária no meu currículo. Aproveitei um vácuo e li A Hora da Estrela, que deve ser um dos mais odiados livros da história do vestibular. Não sei aí, onde você mora, mas aqui em Sergipe, por muito tempo este livrinho constava nas listas da federal.

Comecei a ler meio desdenhoso, confesso. Como falei, muita Clarice Lispector no Facebook dá nisso. Não pode ser tanto assim, pensei.

Aí leio o título e a sequência de “ou” e acho meio exagerado. Aí leio a dedicatória e acho muito louco. Aí começo a ler e o primeiro parágrafo já me conquistou inequivocadamente:

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”

E o segundo parágrafo, também:

“Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.”

E o terceiro ainda começa assim:

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.”

E eu comecei a ficar angustiado: como é possível se escrever assim?

O autor, o falso autor – Rodrigo S. M. – diz que vai contar uma história simples, e que tentará contá-la da maneira mais simples possível, apesar de ter que usar palavras.

“A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser mordenoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.”

É assim que sou obrigado a escrever esta resenha: reproduzindo trechos do livro. Ele todo é lapidar. Sabe aquele impulso que você tem de anotar aquela frase perfeita quando você está lendo. Eu sofro deste impulso. E resisti bravamente, porque o livro é todo impulso. Eu precisaria reescrever o livro inteiro no meu celular, o que comprometeria sobremaneira a minha velocidade de leitura.

Voltando – ou finalmente chegando – à história do livro, A Hora da Estrela conta a história de uma moça nordestina. Antes, porém, o autor intromete-se e revela que ele se sente tentado a usar palavras bonitas:

“É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudo substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordai? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaços de minha humildade que já não seria humilde – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela.”

Agora sim, a história: Macabéa é uma moça que perdeu os pais muito cedo, lá no sertão de Alagoas. Ela foi criada por uma tia beata que muito a maltratava. Depois da morte da tia, foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhará como datilógrafa, namorará um metalúrgico e verá uma cartomante ler que sorte grande a espera. Ah! E ela sente dor de dente.

Como Clarice Lispector descreve Macabéa? Leiam o parágrafo abaixo e digam-me se algo mais é necessário para criar/descrever alguém que vive, respira, sente dor:

“A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.”

Macabéa desculpa-se quando o chefe anuncia sua demissão. Não espera nada da vida e não faz a ela mesma pergunta alguma. É assim porque é assim.

“Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha.”

Preciso terminar por aqui, senão o livro vai todo nessa resenha.

Um lembrete:

“Também esqueci de dizer que o registro que em breve vai ter que começar – pois já não aguento mais a pressão dos fatos – o registro que em breve vai ter que começar é escrito sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada, refrigerante esse espalhado por todos os países. Alias foi ele quem patrocinou o último terremoto em Guatemala. Apesar de ter gosto do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem com servilidade e subserviência. Também porque – e vou dizer agora uma coisa difícil que só eu entendo – porque essa bebida que tem coca é hoje. Ela é um meio da pessoa atualizar-se e pisar na hora presente.”

Ao mesmo tempo em que a narrativa de Macabéa é uma falsa história, um mero pretexto utilizado por Clarice Lispector para falar de literatura, essa falsa história nos prende e nos importamos com Macabéa.

Clarice Lispector constrói uma obra contundente, pela qual você não passará incólume.

Não odeia A Hora da Estrela por antecipação. Não queira encontrar nele uma historieta qualquer. É literatura em estado bruto, com cem por cento de pureza. Leia devagar, mas com pressa. Leia de uma vez, mas digerindo.

Macabéa era uma tola, disse o falso autor, mas chorou quando ouviu Una Furtiva Lacrima, cantada por Caruso. Que, influenciável que sou, estou ouvindo exatamente agora.

Encerro aqui o que queria dizer sobre A Hora da Estrela. Lembrei-me agora que já li Clarice Lispector. Quando tinha uns catorze, quinze anos, li, na escola, O primeiro beijo e outros contos e A Paixão segundo G. H.. Lembro de algo? Não. Preciso reler? Sem dúvida.

A Hora da Estrela é um bom livro? Para mim, é mais que isso, me desculpem aqueles que o odiaram porque tiveram que enfrentá-lo por conta do vestibular.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Mostra põe Clarice Lispector em diálogo com artistas contemporâneas

Por: Revista Fina

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2021-11-23 10:00

Clarice Lispector, Artes visuais, Exposição Constelação Clarice, Literatura brasileira, Instituto Moreira Salles

Em cartaz em São Paulo, exposição possibilita novas leituras da obra da escritora a partir das artes visuais

Gabriela Caputo, Jornal da USP

Por ser uma criadora extraordinária, Clarice Lispector (1920-1977) ocupa um lugar particular na literatura brasileira, o que produz em torno da escritora uma espécie de mito — e todo mito isola. É o que pensa Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do Instituto Moreira Salles (IMS) e curador da exposição Constelação Clarice, em parceria com a crítica de arte Veronica Stigger, doutora pela USP. 

Inaugurada no IMS de São Paulo no dia 23 passado, Constelação Clarice celebra a obra e o legado da autora, em decorrência de seu centenário, comemorado em 2020. Com visitação até 27 de fevereiro de 2022, a entrada é gratuita, com agendamento prévio pela internet.

Para Ferraz, a novidade da mostra, dentre muitas já realizadas sobre a escritora, é que ela retira Clarice de sua solidão literária e a coloca em conversa com outras mulheres. Pela primeira vez, Clarice aparece em companhia. A proposta de Ferraz e de Veronica foi partir do interesse de Clarice pelas artes visuais, que aparece tanto nas próprias pinturas que produziu na década de 1970 quanto nas personagens artistas construídas em sua obra literária. Por isso, a exposição produz diálogos entre a obra de Clarice e produções de 26 artistas visuais contemporâneas à autora, como Maria Martins, Fayga Ostrower e Lygia Clark. Também são expostos cerca de 300 itens, entre manuscritos, cartas, fotografias e documentos do acervo pessoal de Clarice.

Clarice Lispector – Foto: Divulgação

“O primeiro passo dessa constelação foi desenharmos os núcleos fortes da obra da Clarice, as suas linhas de força”, explica Eucanaã Ferraz sobre o conceito adotado. “Fizemos essa espécie de mapa e chegamos a oito núcleos, aos quais acrescentamos pinturas de Clarice e recolhemos documentos e uma parte mais pessoal e biográfica dela.” A partir disso, a curadoria seguiu na direção do que é principal na exposição: a reunião de artistas mulheres que criaram no mesmo período que a autora, entre as décadas de 1940 e 1970.

“Cada um dos núcleos aponta para uma obsessão, um conjunto temático surgido na escrita de Clarice. O intuito não foi fazer dessa constelação uma história das artes visuais no Brasil — a ideia era partir da própria obra da escritora”, detalha Ferraz. Nesse sentido, a autora seria uma espécie de estrela central da constelação. Isso possibilita retirá-la da solidão do mito e colocá-la em um conjunto maior, demonstrativo dos pontos em comum entre as questões existenciais, políticas, místicas e artísticas de Clarice e de outras criadoras, explica o curador.

Essa conexão entre as obras de arte selecionadas e os trechos de textos de Clarice também permite expandir a compreensão de seus trabalhos literários. Na visão de Ferraz, o conceito de constelação também pode sugerir a construção, por cada espectador, de sua própria constelação. “O visitante vai se deparar com um sistema aberto, dentro do qual é ele próprio quem vai ter que fazer as ligações. Elas não são óbvias, não estão prontas. A exposição é uma nova interpretação, uma nova oportunidade de leitura da obra de Clarice, e que vai possibilitar outras novas leituras”, afirma. 

Dentre os diversos materiais apresentados, logo no início da mostra são exibidas 18 pinturas de autoria da própria Clarice, que foram produzidas sem ambições profissionais. De acordo com Ferraz, esses trabalhos simbolizam um desejo de Clarice por mais uma possibilidade de expressão, “que fosse simultaneamente uma maneira de dizer o que já dizia em sua escrita, mas ao mesmo tempo uma coisa nova”, pensa o curador. “Abrir mão da palavra era uma grande novidade, se libertar e buscar uma expressão mais bruta, mais livre.”

Outra relação possível está nos personagens da obra de Clarice que são criadores. “Talvez o maior exemplo seja a narradora de Água Viva, 1973, que é uma pintora em sua primeira tentativa de escrita. Ela estranha muito estar fazendo aquilo, porque nunca escreveu, só pintou até aquele momento. Isso é curioso”, reflete Ferraz. Para ele, o fato de Clarice ter pintado é muito coerente com “a criadora Clarice”.

Catálogo apresenta ensaios de especialistas da USP

Juntamente com a mostra, foi lançado um catálogo com textos críticos de especialistas na obra de Clarice, à venda na livraria do IMS. Textos elaborados pelos próprios curadores abrem o volume, que também apresenta um ensaio de Paulo Gurgel Valente, filho da escritora.

Manuscrito de Clarice Lispector, em cartaz na mostra promovida pelo Instituto Moreira Salles – Foto: Divulgação

“O catálogo é muito precioso, na medida em que é bem mais do que um catálogo que registra uma exposição. É um livro de ensaios sobre a obra de Clarice, organizado a partir dos núcleos que eu e Verônica desenhamos. Todos os textos são inéditos e foram escritos especialmente para o catálogo por críticos importantíssimos”, comemora Ferraz. Para o curador, é como se o catálogo fosse um mapa daquela constelação construída.

Dentre os especialistas presentes no catálogo estão os professores da USP Nádia Gotlib, Yudith Rosenbaum e José Miguel Wisnik. No texto O Corpo Desmontado, Nádia escreve sobre a presença do corpo na narrativa de Lispector, que, “como fonte, motivo e instrumento de exploração das profundezas da intimidade, surge acima de tudo como umbral de perspectivas de novos territórios, até então intocados, em direção a um não se sabe o quê, misto de aventura e de mistério”. 

Por sua vez, Yudith reflete em Na Contramão da Palavra: a Escrita de Clarice sobre o nascimento do ofício para a autora. “Duas fontes parecem gestar a palavra de Clarice: de um lado, demanda de amor, alimento e preenchimento; de outro, o vetor ético, que busca servir aos homens, ao mundo. Privação e excesso movimentam uma escrita nascida da contradição”, discorre.

Em A Coisa Social, Wisnik aborda a ausência de um foco sobre o social na obra de Clarice, diante da cobrança por engajamento feita a escritores no início da década de 1960. O porquê de não evidenciar a miséria e a injustiça “é exatamente porque essa verdade já lhe é conhecida, porque é a premissa inerente à sua relação com o mundo, que não será a razão de ser de sua escrita”, escreve o professor.

A exposição Constelação Clarice está em cartaz até 27 de fevereiro de 2022, no Instituto Moreira Salles (Avenida Paulista, 2.424, em São Paulo), de terça a sexta-feira, das 12 às 19 horas, sábados, domingos e feriados, das 10 às 19 horas. Entrada grátis, com agendamento prévio pela internet.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

Rosa Claríssima na minha prosa sem poema

Por: Revista Fina

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2020-12-12 19:27

Literatura brasileira, Clarice Lispector, Análise literária, Desigualdade social, Processo de escrita, Personagem Macabéa

Imagem/reprodução – A Hora da Estrela de Suzana Amaral

Segundo Clarice, a inspiração inicial para A Hora da Estrela é o ar perdido que um nordestino exibe ao chegar no Rio de Janeiro

Laura Pilan

A Hora da Estrela é o título definitivo de um dos romances mais conhecidos de Clarice Lispector. Além dele, a autora elaborou outras treze possibilidades – tão interessantes e munidas de sensibilidade poética quanto a que foi escolhida. A ideia de que um livro possa ter tantos nomes não é só instigante – é também encantadora. “O direito ao grito”, “Ela não sabe gritar” e “A culpa é minha” dão conta de diferentes aspectos da obra e dizem tanto sobre ela quanto é possível em tão poucas palavras.

Não há opinião mais equivocada acerca da literatura de Clarice Lispector do que a concepção de que seus textos são domésticos e afastados do contexto político do país. Com talento inquestionável, a autora é capaz de uma imersão profunda na alma e na mente do indivíduo e, simultaneamente, de um olhar que abrange o universal. Ela nunca esteve alienada de seu momento histórico – pelo contrário.

Clarice olha diretamente para as chagas sociais, as toca e as expõe. É provável que A Hora da Estrela seja a sua mais brutal exposição da miséria, mas o contraste entre as classes sociais é explorado desde A Paixão Segundo G.H., por meio da própria G.H. e da figura invisível de Janair. Segundo Clarice, a inspiração inicial para A Hora da Estrela é o ar perdido que um nordestino exibe ao chegar no Rio de Janeiro.

Esse deslocamento é representado através de Macabéa – a invenção de Rodrigo S. M., o narrador. Ele se identifica como o escritor, de modo que a mulher nada mais é do que sua personagem, sua ficção. Nessas circunstâncias, o romance é a mais pura expressão da literatura sobre literatura. Aqui, o crucial é o modo como a história é contada. Rodrigo cria uma personagem diametralmente oposta a ele.

O principal fator que os distingue é a classe social: o status dele permite a escrita e a posição dela só tolera o silêncio. Se o narrador é o retrato típico do intelectual brasileiro em todas as suas vaidades, é inevitável que o leitor questione os seus direitos de retratar a miséria que desconhece. Para atingir seus objetivos, Rodrigo precisa se despir dos adornos da linguagem: a fim de narrar a trajetória de Macabéa, é exigido que ele se empobreça.

O narrador é a mediação fundamental entre Clarice e Macabéa, que precisa dele para existir. Como escritor, Rodrigo domina a história. Enquanto personagem, ela só tem presença e jamais o controle da própria vida. Deste modo, o homem sabe que Macabéa existe. A protagonista, indefesa, não sabe da existência dele. Diante dela, Rodrigo S. M. ergue-se como uma espécie de figura divina, onipotente e onisciente, enquanto Macabéa é sua criatura.  Mas ele ainda é humano.

Em sua condição, possui tantas limitações quanto todos nós. É a escrita que constrói seu poder máximo – absoluto e inquestionável – de vida e morte. Macabéa é um instrumento de Rodrigo, uma ferramenta para cumprir um objetivo: o grito. Cria-se um abismo intransponível entre os dois, tornando-o cada vez mais importante e condenando-a à precariedade. A construção de Macabéa é realizada através da negação dos próprios desejos e repressão do corpo. Em face deles, a mulher não é só impotente como também é incapaz: não compreende as próprias vontades e não sabe como expressá-las, uma vez que não possui recursos para manifestar seus sentimentos.

A sua opressão data do início de sua vida. Se para Macabéa o café frio é um luxo, demonstra que, dentro de sua condição miserável, não consegue se enxergar de outro modo. Imersa em fraquezas e debilidades, o prospecto de um futuro agradável é a mais acessível de suas fantasias. A visita à cartomante é mais do que uma busca por certezas. Trata-se de uma demanda por possibilidades e por esperança.

Plantada no apartamento de madama Carlota, recebe a previsão enganosa de que um homem estrangeiro e rico apresentaria o desejo de casamento. Tomada por alegria, Macabéa é impedida de preparar-se para a tragédia que a aguarda ao atravessar a rua. Ela morre sem conhecer a felicidade que lhe foi prometida.  Certa vez, Clarice Lispector afirmou que não escrevia esperando alterar qualquer coisa.

Sem dúvidas, Macabéa morre da mesma forma que sempre existiu. O romance não se propõe a apresentar uma saída ou uma solução – A Hora da Estrela é um silêncio e também uma pergunta. A autora não buscava transformar o mundo através dele e é provável que estivesse certa. Contudo, é impossível que o leitor seja o mesmo ao ler a primeira linha e ao fechar o livro pela última vez. Enfim, que não se esqueça: “por enquanto é tempo de morangos”.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

Clarice, sem aspas

Por: Bruno Pernambuco

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2020-11-29 14:39

Clarice Lispector, Literatura brasileira, Citações falsas na internet, Identidade literária, Memória afetiva

imagem Doodle – reprodução

Clarice Lispector. A sua escrita nunca se esgota, a verdade também nunca se esgota nela. Cada fragmento de mentira é um espelho a quem deseja se enxergar, e a escrita de Clarice é tão grande que nela cabem os reflexos de todas as aflições.

Bruno Pernambuco

Clarice é uma escritora onipresente, e, mais que isso, de uma ubiquidade curiosa. Seu nome é como um selo de aprovação, um sinal que permite a qualquer coisa a possibilidade de ser dita, uma autorização de existência, garantindo o seu valor. Qualquer frase ganha sua existência através de uma escrita mística, penumbrosa e ao mesmo com a luz de uma absoluta simplicidade. Porque a sua escrita nunca se esgota, a verdade também nunca se esgota nela. Cada fragmento de mentira é um espelho a quem deseja se enxergar, e a escrita de Clarice é tão grande que nela cabem os reflexos de todas as aflições.

A falsidade, se bem que esse termo mal cabe – não se mostra apenas naqueles casos mais assombrosos – “um dia sem rir é um dia desperdiçado”, disse ela, junto com mais uma infinitude de autores que, de Chaplin a Bob Marley, figuram nesse panteão dos grandes frasistas – mas naquelas frases belas, criadas, que deixam em quem não se recorde de coração sua obra completa uma dúvida autêntica com respeito à autoria.

Um pôr do sol aparece laranja, com um rastro de mar ao fundo, e em letras brancas se anuncia uma frase que tateia a linha entre a autoajuda e a alta literatura. Um olhar sério e penetrante da autora anuncia de maneira pesarosa a mais tonta das citações inventadas. Qualquer coisa que mereça aplauso – mesmo que um tímido, retido, envergonhado – por qualquer motivo, é digno de ser frase de Clarice Lispector. Clarice tornou-se um cobertor para tudo que luta contra a chatice da vida, contra a pilhéria, a humilhação, a tortura.

A onipresença faz com que uma única Clarice se desdobre em muitas. Isso pode ser boa uma notícia, tendo em vista o perigo de escassez que uma literatura única pode causar. Qualquer boa escrita, que valha ser lida, é uma escrita que é para todos, mas no caso de Clarice, não é uma única, ela copia-se em milhares de pessoas, ela tem milhares de faces, ela se contradiz mais do que o faz qualquer autor, ela tem mais nuances, mais sutilezas, que aparecem em pílulas descartáveis, completamente esquecíveis.

Clarice nunca deixou de escrever, mesmo que hoje ela o faça por mãos de outros. Sua obra ainda é tecida. Um fio d’água escorre desde Água Viva até o presente, marcando uma obra que ainda é escrita. Novos fragmentos de G.H. e de Macabéa constantemente se descobrem, e, afinal, nenhuma delas ainda disse tudo o que tinha para dizer. A escrita de Clarice é estritamente clássica, à sua revelia, inevitavelmente ela tomou essa dualidade para si. Essas frases de mil Clarices me têm um endereço muito certo.

Me fazem lembrar de uma época em que eu, novinho e tonto, ia com outros redatores desta Fina – tão jovens quanto, mas menos tontos que este que vos escreve – entre as mágoas de juventude discutir Clarice. Me lembro de uma anotação em que eu jurava, do alto da minha tonteza, que para a autora tinha calhado o pior destino possível. Que a pior coisa que podia acontecer a um escritor era deixar o leitor encafifado, querendo entender seu mecanismo.

O mais grave erro possível seria que o escritor deixasse o texto como um segredo a ser desvendado, em vez de envolver inteiramente a quem o lê, de fazer com que a história fosse uma parte a mais do eu – ou algo que o fizesse crescer para poder incorporar. Hoje entendo que Clarice é, mais que admirada, amada, intensamente.

Suas tantas faces e tantas frases, as que realmente são suas, e as que podem ser de qualquer pessoa, não são suas, são de cada um que as lê – a invenção contida nessas pílulas deixa cada um mais junto da autora, para, aos poucos tecer sua própria felicidade clandestina. A internet por vezes deixa as intimidades um pouco públicas demais. Mas talvez seja a única forma que temos de alcançar os mortos.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

1560) As entrevistas de Clarice (13.3.2008)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2010-01-01 00:00

Clarice Lispector, Jornalismo literário, Entrevistas, Literatura brasileira


Estou lendo a coletânea de entrevistas feitas por Clarice Lispector quando trabalhava na imprensa. O livro (Clarice Lispector entrevista, Rocco, Rio, 2007) traz 42 diálogos que Clarice travou com escritores, artistas plásticos, etc., dos quais 23 já haviam sido publicados numa coletânea anterior (De corpo inteiro) e 19 são inéditos. 

Clarice escreveu em revistas (Vamos Ler!, Fatos & Fotos, Manchete) e jornais (A Noite, Jornal do Brasil). O tom coloquial das entrevistas (onde às vezes ela fala tanto quanto o entrevistado) nos revela sua pessoa de uma maneira mais superficial, mas mais visível, do que a sua prosa às vezes obscura.

Clarice entrevistadora é aquilo que os falantes de inglês chamam de “candid”. Inesperadamente sincera e direta, ela faz em voz alta comentários que em geral a gente deixaria subentendidos. Confessa detalhes pessoais sem intenção de exibicionismo, apenas por estar vivendo um momento de conversa franca com uma pessoa amiga. 

Suas entrevistas eram na verdade bate-papos com pessoas que ela conhecia bem. Cada um desses diálogos envolve elogios recíprocos, admissíveis num encontro entre duas pessoas que se gostam mas que têm a consciência de ser personalidades públicas aos olhos do leitor. Mesmo a sós, são diálogos travados com um olho no leitor, como se estivessem num talk-show de TV.

O que os salva de serem uma rasgação-de-seda permanente é essa franqueza de Clarice, uma pessoa de emoções instáveis, hiper-sensibilidade, sinceridade abrupta. 

Um episódio bem descritivo de sua maneira de ser é contado num poema de João Cabral (“Contam de Clarice Lispector”, em Agrestes, 1981-85). Clarice está em casa com alguns amigos falando sobre a morte, recordando episódios dolorosos e engraçados sobre a morte de outras pessoas. Chega então outro grupo de amigos que vêm do futebol, entusiasmados, e passam a monopolizar a conversa discutindo a partida, “gol a gol”. E a última estrofe conclui: 

Quando o futebol esmorece 
abre a boca um silêncio enorme 
e ouve-se a voz de Clarice: 
“Vamos voltar a falar na morte?”.

As respostas dos entrevistados de Clarice são visivelmente copidescadas por ela, porque vemos em todas a mesma polidez sintática, a mesma correção vocabular, e aquele leve artificialismo que se instala na linguagem oral quando é filtrada pelos parâmetros saia-justa de linguagem escrita. 

Às vezes Clarice tomava apontamentos, outras vezes levava um gravador. Alguns depoimentos são tão longos e taxativos que me dão a impressão de respostas fornecidas por escrito, e não de um diálogo testa-a-testa. 

Os diálogos mais surpreendentes, para mim, são os que ela trava com figuras do mundo do futebol (Zagalo, João Saldanha). A relação pessoal mais distante que ela tem com os entrevistados dá um peso extra às respostas pessoais que extrai de cada um. No geral, são conversas inteligentes e leves, em que o leitor aprende tanto com as perguntas quanto com as respostas.





Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

0517) Claríssimo espectro (14.11.2004)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-08-01 00:00

Clarice Lispector, Literatura brasileira, Análise literária, Biografia, Estilo literário



Era ininteligível à maneira das plantas, dessas trepadeiras que se expandem buscando a luz, que parecem imóveis, mas basta a gente ir lá dentro tomar um copo dágua que na volta ela já avançou mais um ladrilho. 

Perguntava um pouco o tempo inteiro. A caligrafia era tumultuada, evitava as linhas do caderno como se evita um tiroteio, as palavras dispersadas em várias direções por um terremoto silencioso.

Ainda hoje seu rosto é um mistério de olhos amendoados e malares salientes, cercado por penteados e roupas dos anos 50. Erguia o cigarro como se não lhe pertencesse. Escrevia em transe, aos arrancos, aos ziguezagues. 

Deus a definiu um dia como um círculo cuja circunferência estava em toda parte e o centro em nenhuma. Debatia-se na gosma espessa do tempo, retida no insuportável presente, vendo o calendário fluir à sua volta, escorrer sem remissão. Sua vida foi um afogamento. Suas mãos eram arcos e eram cordas.

Passou entre nós como um fantasma para o qual fôssemos nós os transparentes, nós e as forças que nos movem: paixão, coração, prazeres. Através da matéria, enxergava o balé das forças, a hierarquia inconstante das vontades, a fatalidade serena que impele a gota de chuva rumo ao chão e o chão rumo à gota de chuva. 

O destino descascou sua vida, enxaguou-a de tempestades, esboroando tudo menos a pedra lavrada das palavras.

Em volta dela, aonde fosse, movia-se aquele umbral. Falava de coisas ausentes como se estivessem sentadas ali naquela mesma sala. Óculos, xícara, leque, biscoito, batom: tudo isto era feito da mesma substância cristalina das mãos que os tocavam. Seu comércio com o mundo era solerte, na cumplicidade que as meras coisas mantêm entre si quando não estão sendo observadas.

Criava a loucura como quem cria um cachorro num apartamento. Aceitava o fato de que crescemos como uma árvore ao contrário, onde cada galho ramifica-se em outros galhos mais grossos, e estes em outros mais grossos ainda. Aceitava o gigantesco desperdício que é viver. 

Quando tinha insônia, aconchegava-se ao travesseiro e ao consolo de não estar numa madrugada fria, levando chuva num ponto-de-ônibus deserto. Tinha um corpo sem terra, uma mente sem teto. Escutava os pensamentos de todo mundo o tempo inteiro e não conseguia se concentrar nos seus. Pensava que ser todo mundo era uma obrigação, e que não estava sabendo se desincumbir direito.

Para ela, o ser e o não-ser eram as duas asas do ser. Via numa parede o que se vê nos espelhos, e via no espelho o que se vê nas janelas. Viveu separando com um bisturi as fibras do melodrama. 

Sobreviveu à própria infância. Passou a vida com um anzol cravado na língua da alma. Todas as noites um anjo a visitava, mas nunca lhe disse nada. O mundo passou por ela como o sol por uma peneira. Um sorriso oblíquo morava em sua boca, como se ela não soubesse que era apenas uma mulher feita de cacos de vidro.







Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

As nuances de G.H

Por: Revista Fina

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2020-11-24 18:13

Literatura, Clarice Lispector, Fluxo de consciência, Feminismo, Existencialismo, Análise literária

O livro se assemelha a um mergulho na consciência de G.H., nossa narradora e personagem principal, tal que nos faz nadar em pensamentos que não são nossos.

Angélica Cigoli Frangella*

Publicado em 1964, A paixão segundo G.H. é mais uma das obras clariceanas que nos propõe uma literatura que nos vira do avesso. Apesar de parecer um romance comum em primeira pessoa, o livro se assemelha a um mergulho na consciência de G.H., nossa narradora e personagem principal, tal que nos faz nadar em pensamentos que não são nossos, mas que de repente passam a parecer tanto conosco.

G.H., bem como diversas outras personagens das narrativas de Clarice, é uma mulher rica que reflete acerca de sua posição social – a posição que exerce por ser mulher. Tendo se dedicado à arte da escultura, era também conhecida por este trabalho, por mais que feito de forma amadora. O reconhecimento a coloca em uma posição diferente nessa configuração de ser mulher: “Para uma mulher essa reputação é socialmente muito, e situou-me, tanto para os outros como para mim mesma, numa zona que socialmente fica entre mulher e homem. O que me deixava muito mais livre para ser mulher, já que eu não me ocupava formalmente em sê-lo.

De uma cobertura, G.H. toma café da tarde e enrola bolinhas de miolo de pão, pensando em organizar o que agora já não mais seria arrumado pela empregada doméstica que havia ido embora. G.H. estava só com seu fluxo de consciência. Pensa, fuma um cigarro, pensa mais um pouco, olha para aqueles treze andares que caíam do edifício: começaria a organização pelo quarto da empregada. Esperando que aquele ambiente estivesse escuro e mofado, G.H. decide que abriria as janelas para deixar luz entrar; também jogaria água sobre a poeira incrustada no chão e veria lama se formar a partir da sujeira; a madeira dos móveis apodreceria com o tempo – e G.H. estaria ali, olhando.

A primeira de suas surpresas começa ao se deparar com um ambiente completamente diferente do que tinha em mente: “Esperara encontrar a escuridão, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. […] Da porta eu via agora um quarto que tinha uma ordem calma e vazia.”. Superada tal frustração de descobrir um cômodo que era de mais luz que qualquer outro canto de sua casa, começa a organização: mal inicia a limpeza e se depara, ao colocar a cabeça dentro do escuro de um armário, com a tal da barata que faria, ao final daquele dia, G.H. ser outra – ou ainda ela mesma, só que consciente. Esmagando a cabeça da barata contra a porta do armário, inicia-se uma odisseia de devaneios acerca de o que é essa construção que resulta no viver? Aquelas antenas e a gosma branca que sai do inseto era a vida olhando para G.H.? As conclusões e inacabados pensamentos que resultam desse inesperado encontro são daquelas grandes preciosidades que temos a sorte de ler. A paixão segundo G.H. é um livro que vale a pena ser sentido – e, com sorte, nessa trajetória talvez o leitor também se depare com algo que se assemelhe à asquerosa barata e, brilhantemente, conclua algo como G.H.: “a vida se me é“.

Terminada a leitura, ainda fica um certo incômodo alojado no peito. Se voltamos para o início do livro e lemos a mensagem a possíveis leitores, é provável que sintamos que decepcionamos Clarice: talvez nossa alma ainda não esteja formada o suficiente, nem para ler o livro, nem para encontrar uma dessas baratas. A paixão segundo G.H. é um ponto para além de um horizonte que a vista não enxerga.

*Nota da autora do texto: Dedicado à Beatriz Boldrini

Texto originalmente publicado em Revista Fina

As nuances de G.H.

Por: Revista Fina

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2020-12-12 19:23

Literatura brasileira, Fluxo de consciência, Crítica literária, Existencialismo, Condição feminina

O livro se assemelha a um mergulho na consciência de G.H., nossa narradora e personagem principal, tal que nos faz nadar em pensamentos que não são nossos

Angélica Cigoli Frangella, Especial para Fina

Publicado em 1964, A paixão segundo G.H. é mais uma das obras clariceanas que nos propõe uma literatura que nos vira do avesso. O livro se assemelha a um mergulho na consciência de G.H., nossa narradora e personagem principal, tal que nos faz nadar em pensamentos que não são nossos, mas que de repente passam a parecer tanto conosco. G.H., bem como diversas outras personagens das narrativas de Clarice, é uma mulher rica que reflete acerca de sua posição social – a posição que exerce por ser mulher.

Tendo se dedicado à arte da escultura, era também conhecida por este trabalho, por mais que feito de forma amadora. O reconhecimento a coloca em uma posição diferente nessa configuração de ser mulher: “Para uma mulher essa reputação é socialmente muito, e situou-me, tanto para os outros como para mim mesma, numa zona que socialmente fica entre mulher e homem.

O que me deixava muito mais livre para ser mulher, já que eu não me ocupava formalmente em sê-lo.” De uma cobertura, G.H. toma café da tarde e enrola bolinhas de miolo de pão, pensando em organizar o que agora já não mais seria arrumado pela empregada doméstica que havia ido embora. G.H. estava só com seu fluxo de consciência. Pensa, fuma um cigarro, pensa mais um pouco, olha para aqueles treze andares que caíam do edifício: começaria a organização pelo quarto da empregada. Esperando que aquele ambiente estivesse escuro e mofado, G.H. decide que abriria as janelas para deixar luz entrar; também jogaria água sobre a poeira incrustada no chão e veria lama se formar a partir da sujeira; a madeira dos móveis apodreceria com o tempo – e G.H. estaria ali, olhando.

A primeira de suas surpresas começa ao se deparar com um ambiente completamente diferente do que tinha em mente: “Esperara encontrar a escuridão, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. […] Da porta eu via agora um quarto que tinha uma ordem calma e vazia.”.

Superada tal frustração de descobrir um cômodo que era de mais luz que qualquer outro canto de sua casa, começa a organização: mal inicia a limpeza e se depara, ao colocar a cabeça dentro do escuro de um armário, com a tal da barata que faria, ao final daquele dia, G.H. ser outra – ou ainda ela mesma, só que consciente. Esmagando a cabeça da barata contra a porta do armário, inicia-se uma odisseia de devaneios acerca de “o que é essa construção que resulta no viver?” Aquelas antenas e a gosma branca que sai do inseto era a vida olhando para G.H.?

As conclusões e os inacabados pensamentos que resultam desse inesperado encontro são daquelas grandes preciosidades que temos a sorte de ler. A paixão segundo G.H. é um livro que vale a pena ser sentido – e, com sorte, nessa trajetória talvez o leitor também se depare com algo que se assemelhe à asquerosa barata e, brilhantemente, conclua algo como G.H.: “a vida se me é”.

Terminada a leitura, ainda fica um certo incômodo alojado no peito. Se voltamos para o início do livro e lemos a mensagem a possíveis leitores, é provável que sintamos que decepcionamos Clarice: talvez nossa alma ainda não esteja formada o suficiente, nem para ler o livro, nem para encontrar uma dessas baratas. A paixão segundo G.H. é um ponto para além de um horizonte que a vista não enxerga.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

[análise] Ao som de um coração selvagem

Por: Giovana Proença

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2020-12-12 19:20

Literatura Brasileira, Clarice Lispector, Teoria Literária, Modernismo, Crítica Literária

O genial título Perto do coração selvagem foi retirado de uma citação de James Joyce, referência epifânica na obra de Clarice

Giovana Proença

No raiar de Clarice Lispector. Assim Antonio Candido, frequentemente considerado o mais notório crítico literário brasileiro, nomeou sua análise sobre Perto do coração selvagem. O livro é o primeiro romance da escritora, que completa o seu centenário em dezembro deste ano. A alcunha de Candido provou-se certeira, ao se constatar a frutífera carreira literária que consagraria Lispector no cenário do romance moderno brasileiro.

Mais do que a inovação estilística, rara nos tempos que conflitam as duas metades do século XX no país – salvo exceções, dentre as quais se destaca a própria Clarice – Perto do coração selvagem sintetiza a tônica da literatura lispectoriana: a correlação entre fato corriqueiro e  metafísica. O cerne da questão se concentra na epifania “banhos, passeios, encontros” – tudo floresce na interioridade de Joana, a inesquecível protagonista do romance. O genial título Perto do coração selvagem foi retirado de uma citação de James Joyce, referência epifânica na obra de Clarice, ao lado de Virginia Woolf também no uso do fluxo de consciência.

O perto também adquire concretude na visão de Candido, que afirma o livro como romance de aproximação, fugindo a rótulos prontos e engessados dentro do romance psicológico que estava em voga na época da produção clariceana.  Dual, dupla, deslocada; Joana é a protagonista-problema. Um prato cheio para a psicanálise.

Revestida das perdas, dos laços desatados, Perto do coração selvagem acompanha seus encontros com o outro, e consigo mesma, na famosa receita de alteridade de Lispector. A falta dos pais, a solidão e a repressão efervescem nas relações da vida adulta. As peças-chave, esparsas, montam o quebra-cabeça das conexões problemáticas do romance.

Nessa dosagem entre interioridade e abertura ao mundo exterior, Clarice Lispector compõe o desvendamento da psiquê e do espírito humano; e mostra a que veio a etiqueta lispectoriana.  Perto do coração selvagem ocupa posição pioneira no conjunto da obra de Clarice. Cenas que se tornariam conhecidas pelo revelar metafísico da banalidade – a visão de uma barata, um cego mascando chicletes – têm sua gênese nas experiências de Joana, no despertar para o mundo.

Interior e exterior se fundem em uma mescla de impressões na viagem da protagonista por seus encontros. Estamos, sem dúvidas, no raiar de Clarice Lispector: a trajetória de uma estrela fulgurante que, após um século, ainda nos atordoa – e atormenta – com o rastro luminoso de sua eclosão.

imagem/capa da edição de verão, por Ligia Zilberzstejn

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Publicado por Giovana Proença

Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença

Texto originalmente publicado em Revista Fina

1330) Que mistério tem Clarice (17.6.2007)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2009-10-01 00:00

Clarice Lispector, Literatura Brasileira, Psicologia, Inconsciente, Introspecção

A propósito de uma exposição sobre Clarice Lispector que ocorre em São Paulo, Zuenir Ventura, num artigo no “Globo”, perguntou-se, e a nós: “Como uma escritora tida como hermética, inacessível, introspectiva, é capaz de tanto sucesso de público?” A pergunta do mestre Zuenir é a mesma que me fiz por muitos anos, até perceber que não tem resposta porque é uma pergunta iludida, uma pergunta cujas premissas não batem com a realidade. Eu, por exemplo, me perguntava como é que uma autora tão intelectual conseguia ser tão lida, copiada, citada e imitada por adolescentes. Ora, não é bem isso. Se existe uma autora brasileira que não é intelectual é Clarice. Ou melhor: ela não é intelectual no sentido livresco-erudito da palavra, e sim no sentido metafísico, no sentido em que o jagunço Riobaldo é um dos grandes intelectuais da nossa literatura.

Clarice não é uma racionalista: é uma intuitiva que usa palavras simples e diretas para exprimir sensações mentais tortuosas e obscuras. Introspectiva? Isso, sim. Tudo que lhe acontece é da retina para dentro. Ela é capaz de escrever um livro inteiro narrando os poucos minutos de contemplação mútua entre uma mulher e uma barata numa cozinha. Enredo não era seu forte, porque quando ela começa a contar uma história a história dispara a galope para dentro dela e começa a contá-la. Tudo acontece dentro da mente dela. Mesmo quando descreve uma cena com pessoas almoçando e conversando numa sala não temos a impressão de ver a sala, e sim de estar olhando uma foto de Clarice e na pupila do seu olho estar acontecendo a cena, como se fosse uma janelinha do YouTube.

Num texto publicado aqui (“Claríssimo Espectro”, 14.11.2004) falei que ela criava a loucura como quem cria um cachorro dentro do apartamento. Era o seu estilo de conviver com o paradoxo, de dizer “eu sou mais forte do que eu”, “Eu não sou Tu, mas mim és Tu” e outros paradoxos lógicos que a Razão não comporta mas que são a essência da Literatura. Para a lógica aristotélica, A é A e B é B, e a questão acaba aí. Para a sensibilidade literária, A pode ser B. Ou pode ser X, pode ser 345, pode ser um coelho correndo em cima de um muro. Qualquer coisa, no momento da fagulha poética, pode ser qualquer outra, porque o Inconsciente (isto que popularmente é chamado de “emoção”) é o amálgama que “dá liga” entre as duas, que as funde numa única essência. E o Inconsciente não é racional. Pode ser analisado racionalmente, como descobriram Freud, Jung, etc., mas ele próprio não funciona pelas leis da Razão e da Lógica.

Por que motivo os adolescentes em geral entendem e amam Clarice? Porque em seus momentos de introspecção é assim que eles se sentem, são A e são Não-A ao mesmo tempo, movidos pelo choque e antagonismo entre corpos em plena metamorfose, pressões familiares e sociais, obrigação de tomar partido em disputas que não entendem, exigências e dilacerações que os deixam sem saber se são uma pessoa ou uma barata.

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

Vertiginoso relance

Por: Revista Fina

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2020-12-12 19:34

imagem/reprodução Maureen Bissiliat

É fato que Clarice baseia suas obras ao se apegar nas entrelinhas dos fatos corriqueiros

Angélica Cigoli Frangella

Constantemente nos deparamos com obras literárias que lemos e logo entendemos: “aqui há um aprendizado que ainda não consigo apreender”. É comum que esse sentimento se mostre presente em nós quando, diante de um grande nome da literatura, sobretudo, quando evocada ao de Clarice Lispector, “romancista do instante” e autora que faz os desprevenidos se atentarem à vida.

É para tanto que a discussão do texto “Vertiginoso relance”, da crítica literária Gilda de Melo e Souza, evidencia tão importante passo ao longo do caminho para a compreensão da obra clariceana. É fato que Clarice baseia suas obras ao se apegar nas entrelinhas dos fatos corriqueiros.

Para além de um desenvolvimento de narrativa que procura nos imergir nesses acontecimentos, significativos em grau que apenas uma escritora tão sensível poderia dar-se conta, Clarice notoriamente “está sempre virando a realidade diante para trás, desconfiada de que é no avesso da trama que poderá decifrar, afinal, o jogo escondido dos fios […]”.

O que há de tão importante em notar tal aspecto de sua literatura, porém? Simples: é isso o que nos possibilita compreender que suas personagens e enredos estão lutando contra o fato de que narrar esse tal de Presente já é estar falando de um Passado; ou seja, “é uma luta contra o instante fugaz, um esforço desesperado para deter o tempo, fixar o momento num relance, definir o que não se define […]”.

Ler um romance de Clarice é penetrar, ao mesmo tempo, no que há de superficial e sublime nessa coisa tediosa que é estar vivo. Talvez o momento divisor de águas de nossas vidas não seja um grande evento, mas sim um momento sentado à mesa, fazendo bolinhas de miolo de pão, ou ouvindo esperançosamente o futuro diante a uma cartomante.

É por isso que Clarice acorda os desprevenidos – o narrador não apenas narra, como também sussurra: “Atenção ao que está por vir! Atenção!”. Talvez o ponto alto de sua literatura seja justamente compreender que o que há de valioso não são as passagens que percorremos em nossos anos, mas o valor que a elas atribuímos.

Pela forma que Gilda de Melo constrói brilhantemente sua discussão acerca de obras como A maçã no Escuro, passamos a identificar novas maneiras de apreciar não só a prosa de Clarice, mas também os nossos dias que se parecem tanto com os de G.H. e Macabéa. O grandioso é compreender: “Para Clarice Lispector um instante será suficiente para toda a narrativa. E a sua tarefa vai ser, justamente, a de narrar esses ‘momentos que não se narram’ […]” – e é aí que mora a preciosidade e mágica de suas palavras.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

Livro: A hora da estrela – Clarice Lispector.

Por: umapaixaochamadalivrosblog

Fonte: Umapaixaochamadalivrosblog | Publicado em: 2020-01-20 19:37

literatura brasileira, análise literária, resenha, identidade

Boa tarde, leitores.

Este livro ganhei em e-book. Sei da magnitude da autora, porém durante a vida adulta, não me lembro de ter lido nada dela, o que é vergonhoso. Eu escolhi esse #livro porque parecia um bom início, de poucas páginas, uma história aparentemente comum para conhecer o trabalho dela.  Porém nada há de comum na autora. Ela se utiliza de um narrador-personagem masculino para nos fazer entender muita coisa. Como o preconceito e a injustiça entre autor e personagem. Um estilo único. A história é fluída, porém a inserção de pensamentos do autor dificulta um pouco. E acho que essa é a base do livro mesmo. Com análises, aprendizagens importantes, Clarice e Macabéa nos cativam. O início do livro é tedioso, mas ganha agilidade e o final do livro, ainda que esperado, é impactante. A simplicidade e humildade pretendida por Clarice é um ponto fundamental no texto.

A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo por seu autor, o escritor Rodrigo S.M. (um alter-ego de Clarice Lispector), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, incapaz de comunicar-se com os outros, ele conhece um pouco mais sua própria identidade. A descrição do dia-a-dia de Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como datilógrafa, o namoro com Olímpico de Jesus, seu relacionamento com o patrão e com a colega Glória e o encontro final com a cartomante estão sempre acompanhados por convites constantes ao leitor para ver com o autor de que matéria é feita a vida de um ser humano.

Beijos e até a próxima 📚.

#ahoradaestrela #claricelispector #rocco #2008 #literaturabrasileira #notatres #leitora #lendo #metadeleitura #ficcao #romance #drama.

Texto originalmente publicado em Umapaixaochamadalivrosblog

AMIZADE CLANDESTINA

Por: cortinasabertas

Fonte: cortinas abertas | Publicado em: 2014-10-27 11:32

Teatro, Amizade, Infância, Comédia, Sensibilidade humana

Inspirada em Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, a peça das Alegres Comadres Cia. Cênica e da Curious Cia. de Teatro é uma comédia que trata com graça de temas humanos fundamentais, dentre eles a amizade. Assim como na doçura feminina da Clarice, no texto de Cleide, com enredo inspirado também na vivência das atrizes, o espetáculo é rico em sensibilidade.

Em cena, as atrizes falam de doença sem sofrimento, apesar de terem muito sentimento. Também estão presentes no palco diferentes personalidades, que nos fazem pensar sobre as diferenças entre os seres humanos e os desentendimentos bobos que alimentamos todos os dias.Tratando de gente, a peça também leva a pensar sobre como somos tudo o que somos desde crianças e como a infância permanece sempre presente em nós.

Para rir e pensar.

Fui embora do teatro com os pensamentos mais esticados.

No vídeo, um aperitivo:

Texto originalmente publicado em cortinas abertas

Novidade – “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2026-01-27 12:45

literatura brasileira, análise literária, Clarice Lispector, ficção

Uma das singularidades da escrita de Clarice Lispector é a forma como incorpora o que é fugaz e volátil, numa obra literária em perpétua reinvenção.

*A hora da estrela* surge em rota de colisão com outras ficções da escritora, colocando em cena Rodrigo, um escritor, e Macabéa, uma datilógrafa desvalida que vive num quarto alugado, no Rio de Janeiro. É Rodrigo quem narra a história de Macabéa, mulher onde desaguam todos os infortúnios: órfã e feia, inadaptada na cidade, ocupa os tempos mortos a ouvir rádio, sozinha. Rodrigo, o cosmopolita frívolo, inveja secretamente a liberdade interior da infeliz Macabéa.

Publicado pouco antes da morte de Clarice Lispector, em 1977, *A hora da estrela* tornou-se, nas últimas décadas, um dos seus mais amados romances. É aqui que a escritora destapa o motor da sua inquietação criativa e se aproxima, desarmadamente, do mistério da vida e da morte, despedindo-se do mundo com uma obra de arte meteórica, excêntrica e universal.

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros

Clarice na TV Cultura, 1977

Por: blogs oswald

Fonte: Prefácio Cultural | Publicado em: 2011-10-07 18:32

Clarice Lispector, Literatura brasileira, Entrevistas, TV Cultura

Eis uma das mais importantes entrevistas com escritores da história da TV brasileira.

O escritor José Arrabal, que conheceu Clarice no Rio de Janeiro nos anos 70, certa vez me contou que a escritora era uma criatura verdadeiramente singular. A entrevista da Cultura, que vi depois de nossa conversa, numa fita VHS, confirmou o que Arrabal me havia dito: Clarice foi uma mulher única; dura, doída, assustadoramente profunda.

Destaco, na entrevista, entre os muitos aspectos interessantes, o fato de Clarice comentar sobre aquela que pra mim é sua obra máxima – A hora da estrela -, quando o livro ainda não passava de um projeto em execução.

Vale a pena ver. Vale a pena rever.

 

Texto originalmente publicado em Prefácio Cultural