O livro se assemelha a um mergulho na consciência de G.H., nossa narradora e personagem principal, tal que nos faz nadar em pensamentos que não são nossos

Angélica Cigoli Frangella, Especial para Fina

Publicado em 1964, A paixão segundo G.H. é mais uma das obras clariceanas que nos propõe uma literatura que nos vira do avesso. O livro se assemelha a um mergulho na consciência de G.H., nossa narradora e personagem principal, tal que nos faz nadar em pensamentos que não são nossos, mas que de repente passam a parecer tanto conosco. G.H., bem como diversas outras personagens das narrativas de Clarice, é uma mulher rica que reflete acerca de sua posição social – a posição que exerce por ser mulher.

Tendo se dedicado à arte da escultura, era também conhecida por este trabalho, por mais que feito de forma amadora. O reconhecimento a coloca em uma posição diferente nessa configuração de ser mulher: “Para uma mulher essa reputação é socialmente muito, e situou-me, tanto para os outros como para mim mesma, numa zona que socialmente fica entre mulher e homem.

O que me deixava muito mais livre para ser mulher, já que eu não me ocupava formalmente em sê-lo.” De uma cobertura, G.H. toma café da tarde e enrola bolinhas de miolo de pão, pensando em organizar o que agora já não mais seria arrumado pela empregada doméstica que havia ido embora. G.H. estava só com seu fluxo de consciência. Pensa, fuma um cigarro, pensa mais um pouco, olha para aqueles treze andares que caíam do edifício: começaria a organização pelo quarto da empregada. Esperando que aquele ambiente estivesse escuro e mofado, G.H. decide que abriria as janelas para deixar luz entrar; também jogaria água sobre a poeira incrustada no chão e veria lama se formar a partir da sujeira; a madeira dos móveis apodreceria com o tempo – e G.H. estaria ali, olhando.

A primeira de suas surpresas começa ao se deparar com um ambiente completamente diferente do que tinha em mente: “Esperara encontrar a escuridão, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. […] Da porta eu via agora um quarto que tinha uma ordem calma e vazia.”.

Superada tal frustração de descobrir um cômodo que era de mais luz que qualquer outro canto de sua casa, começa a organização: mal inicia a limpeza e se depara, ao colocar a cabeça dentro do escuro de um armário, com a tal da barata que faria, ao final daquele dia, G.H. ser outra – ou ainda ela mesma, só que consciente. Esmagando a cabeça da barata contra a porta do armário, inicia-se uma odisseia de devaneios acerca de “o que é essa construção que resulta no viver?” Aquelas antenas e a gosma branca que sai do inseto era a vida olhando para G.H.?

As conclusões e os inacabados pensamentos que resultam desse inesperado encontro são daquelas grandes preciosidades que temos a sorte de ler. A paixão segundo G.H. é um livro que vale a pena ser sentido – e, com sorte, nessa trajetória talvez o leitor também se depare com algo que se assemelhe à asquerosa barata e, brilhantemente, conclua algo como G.H.: “a vida se me é”.

Terminada a leitura, ainda fica um certo incômodo alojado no peito. Se voltamos para o início do livro e lemos a mensagem a possíveis leitores, é provável que sintamos que decepcionamos Clarice: talvez nossa alma ainda não esteja formada o suficiente, nem para ler o livro, nem para encontrar uma dessas baratas. A paixão segundo G.H. é um ponto para além de um horizonte que a vista não enxerga.