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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Ambicioso. Presunçoso. Colossal. Ousado.

Esses são alguns dos primeiros adjetivos que vêm à mente ao terminar a leitura de 2666, considerada a magnum opus do escritor chileno. De que trata o livro? Como consta na orelha da edição da Companhia das Letras, há dois temas recorrentes e que seriam caros ao autor: violência e literatura. Muita violência e muita literatura.

Na hora de resumir a história de 2666 é que os adjetivos no início deste texto ficam evidentes. O livro é dividido em cinco partes, idealizados pelo autor para serem publicados como livros separados:

“A parte dos críticos”, que conta a história de um grupo de críticos literários obcecados por um obscuro escritor chamado Benno von Archimboldi. Eles estão entre as maiores autoridades mundiais na obra deste escritor, que há várias décadas não é visto e que ao longo dos anos vai adquirindo prestígio, a ponto de começar a figurar na lista dos indicados ao Prêmio Nobel de Literatura. Os quatro críticos se tornam amigos e começam a envidar esforços por um objetivo comum: encontrar seu ídolo. Mas a tarefa não é fácil, e eles acabam chegando a uma pista estranha, que aponta a possibilidade de Benno von Archimboldi ter visitado Santa Teresa, cidade fictícia localizada no México, na fronteira com os Estados Unidos. Lá, nos eventos acadêmicos de que acabam participando, sempre centrados na figura do escritor alemão, conhecem Amalfitano, que é o personagem principal da segunda parte do livro. No final dessa primeira parte tomamos conhecimento – ainda de forma superficial – de que em Santa Teresa muitas mulheres vêm sendo brutalmente assassinadas há vários anos, a grande maioria delas da mesma forma: estupro seguido de estrangulamento (o livro é inspirado nos crimes reais ocorridos em Ciudad Juárez, onde mais de 300 mulheres foram assassinadas entre 1993 e 2003).

“A parte de Amalfitano” concentra-se num professor de filosofia da Universidade de Santa Teresa. Ele foi abandonado pela esposa meio louca e teme que sua bela filha seja uma das vítimas dos assassinatos de mulheres.

“A parte de Fate” apresenta um novo personagem: Oscar Fate, um jornalista americano que trabalha para um jornal de interesse afroamericano de Nova York cobrindo questões sociais, mas que acaba tendo que substituir um colega na cobertura de uma luta de boxe entre um americano e um mexicano na cidade de Santa Teresa. Lá ele toma conhecimento dos assassinatos e fica interessado em investigar os crimes.

“A parte dos crimes” detalha os crimes ocorridos em Santa Teresa a partir de 1993 até 1997. Quando digo detalhar, é detalhar mesmo. O autor simplesmente usa mais de duzentas páginas para relatar caso a caso mais de cinquenta crimes ocorridos naquele período. Entre as narrativas dos crimes ele vai desenhando um panorama da cidade, da pobreza, da corrupção, da ineficiência policial. Em alguns dos casos, Bolaño simplesmente relata de forma sucinta algum crime, informando em tom jornalístico o dia, se a vítima havia sido identificada ou não, a forma como foi morta e como a polícia não conseguiu descobrir pistas sobre o assassino. Noutros casos, entretanto, o escritor adentra alguma história da vítima, ou alguns dos procedimentos policiais ou dá início a uma outra história que parece nada ter a ver com o assassinato, apenas para culminar com um fato que estabelece um vínculo frágil com aquela morte.

“A parte de Archimboldi” volta ao escritor alemão, contando sua história desde a infância, humilde, de um menino meio estranho, filho de um veterano da Primeira Guerra, que ele descreve como perneta e de uma mulher caolha. Este menino sonhava em ser escafandrista e só encontrava felicidade no fundo do mar. Foi à guerra e depois de muitas voltas, acabou se tornando escritor. Apenas no final da história se esclarece o vínculo entre Benno von Archimboldi e os assassinatos em Santa Teresa.

Parece confuso? Não se preocupe, é bem mais confuso que isso quando você põe os olhos no livro. Não conheço outro autor que se utilize da ideia de história dentro de historia como Roberto Bolaño faz aqui em 2666. É impressionante. O que impressiona também é como ele cria personagens apenas para deixá-los no meio do caminho, abandoná-los à própria sorte. Ele investe um tempo considerável em estabelecer personagens críveis, reais, tridimensionais, apenas para que eles sumam em definitivo e o leitor (eu) fique com aquela sensação estranha de ter sido ludibriado, sem saber como, nem por quem, nem por quê.

Aqui devo fazer um parêntese: 2666 é uma obra póstuma. Pouco tempo depois de Bolaño entregar a seu editor a primeira versão do livro (que então contava com quatro partes e meia completas, mas não sei qual era a meia parte incompleta), ele morreu. Uma nota no final da edição em português explica que apesar de ser a primeira versão, muito pouco faltava para ser alterado, segundo o próprio Bolaño garantira ao seu editor na época. Isso é importante esclarecer porque o livro não tem um fechamento como é comum às histórias em geral. É como se Bolaño abrisse por alguns instantes a janela daquele incrível mundo que ele criou (várias janelas, aliás, janelas para cada personagem, para cada história que habita o imenso mundo de 2666), deixasse que nós acompanhássemos suas criaturas e depois fechasse, lacrasse, destruísse o acesso à janela sem maiores nem menores explicações. O pior (melhor, mais intrigante) disso tudo: a história funciona!!! Bolaño é um contador de histórias absurdamente bom!!!

Voltando ao assunto da história dentro da história dentro da história, cito um exemplo marcante, mas apenas um dentre vários:

O jovem Hans Reiter (verdadeiro nome de Benno von Archimboldi) estava na guerra, em terreno russo. Ele entra numa casa abandonada e descobre o diário de um judeu chamado Ansky escondido numa espécie de forno. Isso é o ponto de partida para um pequeno parêntese na história de Archimboldi. Um pequeno parêntese de umas cinquenta páginas! Não só a história de Ansky é contada, como relata-se como o judeu conheceu e se tornou amigo de Ivanov, um escritor de ficção científica propagandista do regime comunismo. Mas não para por aí: o autor também relata as aspirações artísticas de Ivanov, suas influências literárias, seus sonhos de se equiparar aos grandes autores russos e, pasmem!, o escritor chileno chega a detalhar a trama do seu principal livro, aquele que deu projeção a Ivanov, contando-a de cabo a rabo.

No meio dessas histórias dentro de histórias, Bolaño encontra espaço – e se há algo que não parece preocupá-lo é o espaço – para fazer reflexões, especialmente sobre a literatura. Uma das mais interessantes parece ser autorreferente, já que ele confronta as obras menores e as obras-primas, ousadas, imperfeitas, colossais:

“A menção a Trakl fez Amalfitano pensar, enquanto dava uma aula de forma totalmente automática, numa farmácia que ficava perto da sua casa em Barcelona e a que costumava ir quando precisava de um remédio para Rosa. Um dos balconistas era um farmacêutico quase adolescente, extremamente magro e de óculos grandes, que de noite, quando a farmácia estava de plantão, sempre lia um livro. Uma noite Amalfitano perguntou a ele, para dizer alguma coisa enquanto o jovem procurava nas prateleiras, de que livros gostava e que livro era o que estava lendo naquele momento. O farmacêutico respondeu, sem se virar, que gostava de livros do tipo A metamorfose, Bartleby, Um coração simples, Um conto de Natal. Depois disse que estava lendo Bonequinha de luxo, de Capote. Sem considerar que Um coração simples e Um conto de Natal era, omo o nome deste último indicava, contos e não livros, era revelador o gosto daquele jovem farmacêutico ilustrado, que talvez em outra vida tenha sido Trakl ou que nesta talvez ainda lhe estivesse reservado esrever poemas tão desesperados quanto seu distante colega austríaco, que preferia claramente, sem discussão, a obra menor à obra maior. Escolhia A metamorfose em vez de O processo, escolhia Bartleby em vez de Moby Dick, escolhia Um coração simples em vez de Bouvard e Pécuchet, e Um conto de Natal em vez de Um conto de duas cidades ou de As aventuras do sr. Pickwick. Que triste paradoxo, pensou Amalfitano. Nem mais os farmacêuticos ilustrados se atrevem a grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminhos no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou o que dá na mesma: querem ver os grandes mestres em sessões de esgrima, mas não querem saber dos combates de verdade, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que atemoriza a todos nós, esse aquilo que acovarda e põe na defensiva, e há sangue e ferimentos mortais e fetidez.”

 Ainda sobre obras-primas, outra reflexão:

“Fui escritor, fui escritor, mas meu cérebro indolente e voraz me comia as entranhas. Abutre do meu próprio Prometeu ou Prometeu do meu próprio abutre, um dia me dei conta de que podia vir a publicar excelentes artigos nas revistas e jornais, e até livros que não desmereceriam o papel em que estavam impressos. Mas soube também que jamais conseguiria me aproximar ou enveredar por aquilo que chamamos uma obra-prima. O senhor vai me dizer que a literatura não consiste unicamente em obras-primas mas está, sim, povoada de obras ditas menores. Eu também acreditava nisso. A literatura é um vasto bosque e as obras-primas são os lagos, as árvores imensas ou estranhíssimas, as eloquentes flores preciosas ou as grutas escondidas, mas um bosque também é composto de árvores comuns, de matagais, de charcos, de plantas parasitas, de cogumelos e florezinhas silvestres. Eu me enganava. As obras menores, na realidade, não existem. Quero dizer: o autor de uma obra menor não se chama fulaninho ou cicraninho. Fulaninho e cicraninho existem, disso não há dúvida, e sofrem e trabalham e publicam em jornais e revistas e de vez em quando até publicam um livro que não desmerece o papel em que está impresso, mas esses livros ou esses artigos, se o senhor olhar com atenção, não são escritos por eles.”

E finalmente esta, diretamente ligada à anterior, sobre o que causa medo num escritor:

“De que Ivánov tinha medo?, Ansky se perguntava em seus cadernos. Não do perigo físico, já que como ex-bolchevique muitas vezes esteve perto da detenção, da prisão e da deportação, e embora não se pudesse dizer que fosse um tipo valente, também não se podia afirmar, sem faltar com a verdade, que fosse uma pessoa covarde e sem peito. O medo de Ivánov era de índole literária. Isto é, seu medo era o medo que sente a maioria daqueles cidadãos que um belo (ou horrendo) dia decidem transformar o exercício das letras e, sobretudo, o exercício da ficção em parte integrante das suas vidas. Medo de serem ruins. Também, medo de não serem reconhecidos. Mas, sobretudo, medo de serem ruins. Medo de que seus esforços e seus labores caiam no esquecimento. Medo da pisada que não deixa marca. Medo dos elementos do acaso e da natureza que apagam as marcas pouco profundas. Medo de jantarem sozinhos e de que ninguém repare na sua presença. Medo de não serem apreciados. Medo do fracasso e do ridículo. Mas sobretudo medo de serem ruins. Medo de habitar, por todo o sempre, o inferno dos escritores ruins.”

Mas nem só de reflexões e de histórias dentro de histórias e de histórias sem fim vive 2666. Roberto Bolaño é um escritor bastante criativo, dono de um estilo forte, que ora flerta com o erudito, ora é desbocado, não tendo nenhum pudor de usar termos chulos para se referir ao sexo, que está sempre presente na narrativa, como na vida.

Não posso deixar de destacar dois momentos (dentre vários) que revelam esse escritor que sabe como dar vida a uma cena e como desenhar em nosso cérebro uma imagem.

Na primeira ele descreve um homem muito, muito feio:

“Haas dividia a cela com outros cinco detentos. O que mandava era um sujeito chamado Farfán. Tinha cerca de quarenta anos e Haas nunca tinha visto um homem mais feio. O cabelo crescia a partir da metade da testa, tinha olhos de ave de rapina postos como que por acaso no meio de uma cara de filiação suína. Era barrigudo e fedorento. Tinha um bigode ralo, que crescia de forma desigual e ao que costumavam aderir restos minúsculos de comida. Nas raras ocasiões em que ria, fazia-o como um burro e só nesses momentos seu rosto parecia suportável.”

Na segunda ele descreve o medo absoluto:

“- E como é o olhar de medo absoluto? – Popescu perguntou a ele.O médico arrotou um par de vezes, remexeu-se na poltrona e respondeu que era um olhar como se fosse de piedade, mas piedade vazia, como se à piedade, depois de um périplo misterioso, só restasse a pele, como se a piedade fosse um odre de pele cheio d’água, por exemplo, nas mãos de um cavaleiro tártaro que se interna na estepe a galope e nós o vemos diminuir até desaparecer, e depois o cavaleiro regressa, ou o fantasma do cavaleiro regressa, ou sua sombra, ou sua ideia, e traz consigo o odre vazio, já sem água, pois durante a viagem bebeu-a toda, ou ele e seu cavalo beberam toda, e o odre agora está vazio, é um odre normal, um odre vazio, na verdade o anormal é um odre inchado de água, mas o odre inchado de água, o odre monstruoso inchado de água não concita o medo, não o desperta, nem muito menos o isola, em compensação o odre vazio sim, e foi isso que ele viu na cara do matemático, o medo absoluto.”

O livro é longo – 852 páginas – e a leitura constitui um desafio algumas vezes árduo. Destaco aqui a quarta parte do livro, referente aos crimes. No meio daquele relato jornalístico – crimes, crimes e mais crimes – Bolaño vai contando sua história e desenhando uma figura do México, de Santa Teresa, das superstições reinantes, do machismo, da corrupção policial, das relações promíscuas entre crime organizado e política, mas tudo de forma bastante lenta. O formato cansa, mas ao mesmo tempo me prendeu e eu não queria parar de ler, atrás de uma conclusão para aquela história.

Claro que não houve conclusão, como já ressaltei, mas posso afirmar que, como refletiu Amalfitano, 2666 é um daqueles livros imperfeitos, torrenciais, que abrem caminhos no desconhecido. É um livro no qual seu autor luta contra aquilo, esse aquilo que atemoriza a todos nós, esse aquilo que acovarda e põe na defensiva, e há sangue e ferimentos mortais e fetidez.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5.