O genial título Perto do coração selvagem foi retirado de uma citação de James Joyce, referência epifânica na obra de Clarice

Giovana Proença

No raiar de Clarice Lispector. Assim Antonio Candido, frequentemente considerado o mais notório crítico literário brasileiro, nomeou sua análise sobre Perto do coração selvagem. O livro é o primeiro romance da escritora, que completa o seu centenário em dezembro deste ano. A alcunha de Candido provou-se certeira, ao se constatar a frutífera carreira literária que consagraria Lispector no cenário do romance moderno brasileiro.

Mais do que a inovação estilística, rara nos tempos que conflitam as duas metades do século XX no país – salvo exceções, dentre as quais se destaca a própria Clarice – Perto do coração selvagem sintetiza a tônica da literatura lispectoriana: a correlação entre fato corriqueiro e  metafísica. O cerne da questão se concentra na epifania “banhos, passeios, encontros” – tudo floresce na interioridade de Joana, a inesquecível protagonista do romance. O genial título Perto do coração selvagem foi retirado de uma citação de James Joyce, referência epifânica na obra de Clarice, ao lado de Virginia Woolf também no uso do fluxo de consciência.

O perto também adquire concretude na visão de Candido, que afirma o livro como romance de aproximação, fugindo a rótulos prontos e engessados dentro do romance psicológico que estava em voga na época da produção clariceana.  Dual, dupla, deslocada; Joana é a protagonista-problema. Um prato cheio para a psicanálise.

Revestida das perdas, dos laços desatados, Perto do coração selvagem acompanha seus encontros com o outro, e consigo mesma, na famosa receita de alteridade de Lispector. A falta dos pais, a solidão e a repressão efervescem nas relações da vida adulta. As peças-chave, esparsas, montam o quebra-cabeça das conexões problemáticas do romance.

Nessa dosagem entre interioridade e abertura ao mundo exterior, Clarice Lispector compõe o desvendamento da psiquê e do espírito humano; e mostra a que veio a etiqueta lispectoriana.  Perto do coração selvagem ocupa posição pioneira no conjunto da obra de Clarice. Cenas que se tornariam conhecidas pelo revelar metafísico da banalidade – a visão de uma barata, um cego mascando chicletes – têm sua gênese nas experiências de Joana, no despertar para o mundo.

Interior e exterior se fundem em uma mescla de impressões na viagem da protagonista por seus encontros. Estamos, sem dúvidas, no raiar de Clarice Lispector: a trajetória de uma estrela fulgurante que, após um século, ainda nos atordoa – e atormenta – com o rastro luminoso de sua eclosão.

imagem/capa da edição de verão, por Ligia Zilberzstejn

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Publicado por Giovana Proença

Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença