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Declarada pernambucana, Lispector travou relações com grandes nomes da literatura brasileira de seu tempo
Giovana Proença
Na efeméride de seu centenário, comemorado em dezembro do ano passado, Clarice Lispector continua conquistando uma legião de adeptos de sua literatura e permanece como grande campeã de compartilhamento nas redes sociais, com suas célebres citações – ainda que grande parte nunca tenha sido registrada pela escritora, embora atribuídas a ela nas profundezas do selvagem mundo digital. A faceta enigmática da tônica lispectoriana, expressa nos escritos que fascinam leitores e colocam o nome de Clarice no mais elevado cânone da cultura brasileira, também se manifesta na biografia da escritora.
O nascimento na Ucrânia, a fuga da família decorrente da perseguição aos judeus, a difícil infância no Recife – transposta em contos como “Restos de Carnaval”. Os jantares e constantes mudanças às quais estava sujeita como esposa do diplomata Maury Gurgel Valente, o incêndio que a deixou com marcas pelo corpo e a morte no Rio de Janeiro, vítima de um câncer. A sequência de acontecimentos que foge a banalidade da vida se desenrola como um livro; a ideia foi aproveitada por Benjamin Moser, célebre escritor de não-ficção que se propôs a desvendar o mistério de Clarice na biografia homônima.
Declarada pernambucana, Lispector travou relações com grandes nomes da literatura brasileira de seu tempo: Lygia Fagundes Telles, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Lúcio Cardoso. A miscelânea de relações íntimas da autora está disponível no volume de correspondências Todas as cartas, edição em comemoração do seu centenário. Por ocasião do ingresso de Rachel de Queiroz a Academia Brasileira de Letras (ABL), Lispector escreve à Lygia a sugestão – em tons de presságio – de que a amiga ocupasse também uma vaga na Academia. Ainda que Clarice afirme que apesar do respeito que tem pela ABL, jamais aceitaria entrar na instituição, é categórica “Estão achando que sugiro mulheres demais? Não, é que a Academia Brasileira de Letras tem uma grande dívida com as mulheres” (Todas as Cartas, Editora Rocco, 2020 ).
O feminino na literatura lispectoriana
A asserção de Lispector na carta à Lygia nos leva ao primeiro ponto de destaque dentro da literatura de Clarice: as representações do feminino. Entretanto, antes de nos concentrarmos nos escritos da autora, é preciso localizar o contexto de sua produção. A escritora escreveu algumas de suas obras mais significativas como Laços de família e A paixão segundo G.H na década de 60, decênio que marca o limiar dos avanços significativos em relação a conquista dos direitos das mulheres, na chamada Segunda Onda do feminismo.
O primeiro romance de Lispector, Perto do coração selvagem, nos estrega uma protagonista singular, a ímpar Joana, em seu processo de descobrimento e contato com o mundo. O coração selvagem de Joana rumo à liberdade prefigura muitas das personagens da primeira coletânea de contos da autora, Alguns Contos. Cenas que denotam a tensão que transpassa uma geração de mulheres, que pela primeira vez têm um vislumbre da vida fora do lar, compõem a mescla das narrativas breves: a fuga de uma mulher, que deslocada, retorna à casa; a experiência da paixão fora dos muros do casamento, a resiliência da mulher abandonada “Ele voltaria, porque ela era a mais forte” (Clarice Lispector, “Trinfuo”, Todos os contos, Editora Rocco, 2016).
Ainda assim, os contos dessa primeira fase denotam o retorno. A vida fora do lar é apenas um vislumbre, rastro luminoso que atordoa as personagens clariceanas. Com carácteres literários marcantes, como Ana – que no conto “Amor” de Laços de Família sente sua vida confortável ameaçada pela visão de um cego mascando chicilete – ou a reflexiva G.H, Clarice desvenda o ser mulher em seu tempo e sua época pelo olhar minucioso de uma voz narrativa essencialmente feminina – como vemos poucas vezes na literatura em casos como Sylvia Plath e Ana Cristina Cesar – disposta a expor as problemáticas de um mundo renegado á clausura. É um equívoco analisar a obra de Lispector como devaneios de uma dona de casa. Em uma época de forte repressão nos âmbitos políticos e sociais no país, que refletiam na delimitação do papel da mulher, a autora foi capaz de antecipar a emancipação feminina na busca por liberdade de escolhas; revelando verdades profundas sobre a sociedade brasileira do limiar entre as duas metades do século XX.
A epifania como máxima e o revelar da alteridade
Na sacralidade, a epifania refere-se à aparição divina. Em termos literários, muitas definições podem abarcar o instante epifânico: compreensão súbita., revelação que se manifesta ao invadir sem licenças. De maneira imprevista, viu-se; e não se pode ignorar. James Joyce, grande expoente da literatura moderna, explora a epifania em seus textos. Pelo fluxo de consciência, o autor e a contemporânea Virginia Woolf ampliam a potência do momento epifânico, por meio do uso do fluxo de consciência, ou seja, quando o narrador parece ser suprimido e a história vem diretamente da mente das personagens.
Em Clarice, as personas navegam em mares de profundidade, camadas desveladas ao leitor a partir de momentos de crise por revelações de um súbito despertar para o mundo. Um cego masca chicletes; em terras brasileiras a epifania adquire contornos definidos dentro da obra lispectoriana. “Amor”, um dos mais notáveis textos de Laços de Família, lança mão do momento epifânico personificado: um cego mascando chicletes é o suficiente para Ana contestar toda estrutura família e social que se insere. Entretanto, a personagem retorna para sua rotina e antes de dormir, sopra “a pequena flama do dia”; em um desfecho capaz de desfazer as suposições que delimitam o conto como gênero menor dentro da literatura.
“O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada […] Um cego mascando chicletes mergulhara o mundo em escura sofreguidão” p. 149
Frequentemente considerado como a elevação do romance moderno na literatura brasileira, A paixão segundo G.H é a alteridade colocada em xeque – humano e animal travam batalha no ritual epifânico. Por apenas uma barata, a protagonista, definida apenas pelas letras G.H, vê sua individualidade e a própria condição humana questionadas. Assim, a alteridade pressupõe o contato com o outro. Em “O Jantar”, conto lispectoriano por excelência – ainda que não goze do reconhecimento de outros, como “Amor” – o narrador observador que se coloca quase na posição de voyeur, sente verdades desveladas sobre si mesmo e sua condição humana a partir da batalha travada de outro homem contra o próprio choro, demonstrando a agudeza da alteridade na literatura de Lispector.
Mas eu sou um homem ainda. Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer- eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruína. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue. (LISPECTOR,2016,205).
Considerações finais
O propósito dessa análise visa pontuar ao leitor os aspectos mais latentes do conjunto da obra de Clarice Lispector. Assim, nos concentramos na visão do feminino e na construção do que podemos chamar “A Narradora” dentro dos contos e romances da autora. Para além disso, definimos a epifania como centralidade dos enredos e nos pontos de flexão dentro dos escritos clariceanos, aliada aos recursos da literatura moderna, como o fluxo de consciência. A instauração do momento epifânico revelou ainda a alteridade como dispositivo da tônica lispectoriana, sendo o contato com o outro a abertura para a exploração da realidade.
Dentro disso, como último ponto dessa reflexão, expõe-se a contemporaneidade de Clarice Lispector e a desmistificação do rótulo que acompanha a escritora, erroneamente classificada como alienada em termos políticos, principalmente em comparação com a primeira geração moderna, que se dedicou às denúncias sociais dentro do romance de 30. Assim, transcreve-se um trecho do conto “Mineirinho”, que se centraliza no assassinato brutal do “facínora” de alcunha Mineirinho. No escrito, Clarice questiona o porquê da morte do “facínora” doer nela própria.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro. 386 387
A situação transfigurada em literatura por Lispector prefigura questões em debate no século XXI como a truculência policial e a questão de corpos sacrificáveis dentro da estrutura social vigente. Desse modo, torna-se claro que Lispector, além de expor habilmente a realidade do século XX no que tange as tensões de gênero manifestas em sua obra, também elucida problemáticas que rondam o Brasil não cordial desde a configuração como nação. Em conclusão, essa análise busca clarificar como uma leitura dirigida elementos que compõem a complexa tônica da literatura de Lispector, e a mantém, após um século, motivo de fascínio e objeto de estudo tanto por leitores quanto pela crítica especializada.