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Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Perto de chegar à Ponte de Segóvia, ouviu atrás de si um tropel áspero de ferraduras que rapidamente vinha engrossando. Abrandou a andadura e viu chegar, à rédea solta, um lacaio dos Santisteban:
-- Para onde é a ida? -- perguntou.
-- Carta para D. Alejandro...
Gil compreendeu que ia naquele cavalo negro de ébano, que galopava mais que o vento, o anúncio da sua tropelia e, porventura, a sua sentença de morte.
(...)
Mas certo de que não temia a espada de D. Alejandro, nem a morte honrosa, mas o opróbrio público e a morte traiçoeira, com redobrado fervor se apegou à Virgem do Pilar.
Às portas, quase da cidade, outro cavalo corrente relampejou por ele. Reconhecendo pela brancura sem tacha El Judío, de D. Alejandro, bradou para o homem que o montava:
-- Que pressa é essa?
-- Sustar o portador mandado a Badajoz.
-- Quem mandou?
-- D. Mafalda, minha senhora.
Gil picou de espora para ele e, dando-lhe uma mancheia de dinheiro, disse:
-- Corre! Se o apanhares tens o dobro.
-- Não há-de ser fácil, senhor D. Gil. Àquele cavalo poucos o batem na ligeireza. Não basta que Pepe tenha um instante de descuido...
-- Corre!
O homem cravou a espora nos ilhais do animal... voou. Não havia dúvida que aquele cavalo branco, mandado com o fito de embargar o primeiro mensageiro, tinha poucas probabilidades de alcançar o cavalo negro de mau agoiro. E, quem sabe, nada mais que o afinco de cumprir a missão, era uma vantagem que lhe levava. Um pouco de sorte e a Virgem do Pilar por seu lado, e o milagre não era coisa de espantar.»
(continua)
publicado às 18:18