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Dez23
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Compreendia agora o meneio de Mafalda à beira do Sátiro tentador. Decerto que Alejandro possuíra o corpo, mas não o dominara; dominara a alma, mas não a possuíra. À puberdade em flor repugnavam a barba cã e o ânimo agreste do capitão de cavalos. Nela, todos os belos tesoiros da carne e do espírito estavam reservados para homem, igual a si, pelo menos em juventude. Por certo fora ele o eleito, ao menos, por um momento, o qual só por estúpida cobardia não soubera aproveitar. Agora, adeus!
Já semanas após semanas, em sua consciência brigavam luta de desespero o desejo sensual e o dever. Venceu aquele, como é de lei desde que o mundo é mundo, e no rescaldo germinou um amor envergonhado, destes que se evadem à própria sombra.
Nela, sem dúvida, a mística do amor tomara uma feição activa e determinada. Desejara, nada mais natural que cobiçar ser correspondida. Ante a imprecisão do amante, é próprio da mulher ser afoita. Com ela, à vaga satisfação do espírito, adivinhando-se amada, a natureza juvenil impõe a sua tirania. Mais os suspiros se perdem, mais os sentidos bradam. E Gil compreendia, compreendia agora os recursos de que o instinto de Mafalda se servira frente à estátua aliciadora. Fora até onde já era mais que ousadia ir; a ele o levá-la daquele traço em diante, pois que é escrúpulo da mulher, se não malícia do sexo, gostar de ser rendida, sentir na própria fraqueza sua desculpa e vitória.
Estas reflexões decorriam no cérebro de Gil lentas, em surdina, quase vagas, sob o zumbir de vespão da maforeira voz do Sátiro. E ele dava-se como réu de pelourinho, acima de tudo, pela torpeza com que se houvera naquela justa de galantaria.
Abrasado em febre, mal sua alma viu claro, passou uma noite de joelhos ao oratório de Nossa Senhora do Pilar. Tocara-o ela com a coroa na pia baptismal e, como madrinha, nunca lhe faltara com remédios em percalços da fortuna e da guerra. Naquela hora, o seu sorriso promissor irradiava, à chama da lâmpada perpétua, ainda mais benigno e amorável.
Do fundo de alma se lhe encomendou Gil, desventurado. Amava Mafalda de paixão pecaminosa, e não queria invocar para medianeira o Lírio de Jericó. Feia acção seria a sua, pois que ofendia o sexto mandamento e falseava a fé de amigo, embora dum desejo tão tirânico se não sentisse grandemente culpado, visto que rompera contra a sua vontade e não houvera forças humanas que o ceifassem. Em boa verdade, não lhe pesava remorso nem contrição no passo temerário que atravessava. Mas agora, não pedia à madrinha que lhe entregasse Mafalda, por ser uma fineza incompatível com a sua intemerata brancura, mas sim que o ajudasse a lavar-se da desonra em que ficara aos olhos de tão nobre dama. Que a Virgem o guiasse e prometia afastar-se da sedutora, ainda que tivesse de fugir para o cabo do mundo, e empregar em missas e obras de caridade todas as rendas de um ano.» ...
(continua)
publicado às 17:58