(...) «Alumiado de esperança em tanto negrume, foi pensando em D. Mafalda que enviara contra-ordem e na moça pobre que desposaria consoante o voto. Que floresta de contradições era a alma das mulheres! Razão tinha Fr. Benito de los Angeles quando, no confessionário, ao ouvir-lhe um pecado de amor, benevolamente admoestando, dizia: Ignis, mare, mulier, tria mala. Voltando, depois, a debater em sua consciência ora concursos prósperos ora contrários, figurou-se-lhe impossível uma saída airosa. E foi sob a sinistra impressão que chegou a casa, em que se fechou, ordenando aos pajens que não abrissem nem ao próprio Santíssimo Sacramento.
Dois dias e duas noites lhe escutaram os passos invariáveis, de cá para lá, de lá para cá, nas salas desertas, e os solilóquios demorados em que se embrenhava. Ao terceiro dia -- contra a recomendação expressa -- bateram à porta da câmara em que ele errava como fera delirante. Abrindo num assomo de cólera, deparou-se-lhe uma dama que escondia o semblante em negra mantilha.
-- Venho pedir-vos perdão! -- disse ela avançando a passo lento e descobrindo-se.
Era bem D. Mafalda que ali chegava, endolorida, branca como as açucenas, e de olhos pávidos. Era bem ela, enigmática e divina, possuída de impulsos diversos como o fogo e como o mar.
-- Perdão!... de quê, senhora? -- proferiu Gil, a voz quebrada de surpresa.
-- Da minha crueldade.
-- Louvada seja ela que vos trouxe.
-- D. Gil, os despejos do vosso grande orgulho ofenderam-me...
-- Pois, maiores que fossem os desconcertos do meu orgulho, benditos seriam eles para agora mais humildemente rojá-los a vossos pés!
E, depois de lamentarem as imprudências, contou Mafalda que não fora possível embargar a mensagem que D. Sol despachara ao seu marido. O segundo estafeta voltara no dia seguinte depois de estoirar o cavalo para lá da Ponte de Guadarrama -- e os olhos dela começaram a correr em fonte.
-- E agora?... Fujamos para longe de Castela, quereis?
D. Gil ficou hesitante e proferiu:
-- Não, tenho que dar a D. Alejandro o direito de desafronta...
-- Conheço-lhe o génio. É homem para mandar-vos matar...
-- Morrerei feliz tendo-vos no pensamento...
-- Desgraçados de nós!
Corria pelas faces de Mafalda pranto copioso. Gil enxugou-lho; com beijos secou os olhos -- de pretos e chorosos -- cisternas sem fundo, adormecidas. E amaram-se de paixão centuplicada pelo perpassar dos espectros. Acima de sua febre de amor, um galope doido de cavalo reboava, ouviam-no percutir as lajes e ferir lume, um cavalo que avançava feroz na campina rasa para Madrid.»
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 43) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Tentação do Sátiro»
literatura, ficção, romance, drama
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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