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Dez23

I - Jardim das Tormentas. 1913.

Manuel Pinto

(...) «Com discreta etiqueta, o cavaleiro obsequiava uma e reverenciava outra. Para a sobrinha a breve mesura e benquerença fraternal, para a tia todo o preito e rasgada cortesia. E em repartir-se entre ambas punha tanto engenho e proporção que D. Sol, desvanecida, murmurava:
  -- Não há como D. Gil para saber ocupar o seu lugar.
Com o tempo, pareceu à velha senhora que, daquela homenagem à sua pessoa, a sobrinha cobrava não sabia que sombras; e um dia, de olhos nos olhos, teve com ela curto colóquio:
  -- Dizia-te uma coisa, mas havias de guardar segredo...
  -- Ora essa! Então não guardo! Sou por lá algum saco roto?!
  -- Então ouve: Já reparaste que D. Gil anda sempre triste, melancólico... como se o minassem os cuidados?... Não reparaste? Se não é paixão, parece-o.
   -- Ah! -- exclamou Mafalda reprimindo um suspiro.
  -- É verdade! -- tornou D. Sol de olhos cravados nela, como unhas de açor numa pomba. -- Olha, eu to conto, mas vê lá, nem ao travesseiro o digas. D. Gil morre de amores por uma condessinha de França, que lhe paga na mesma moeda. Mas, sabes... fecharam-na numa torre... lá está fechada vai em anos, porque os pais não querem nada -- vê lá o disparate -- com os espanhóis. Contou-mo Alexandro, que lho contou ele.
  -- E admira que D. Gil ande triste!? -- pronunciou Mafalda erguendo e fitando o olhar nas pupilas da velha coruja. -- Nada mais natural que as penas dela ele as padeça dobradas das suas!
Tranquilizou-se D. Sol, e os dias continuaram a correr doces e remansosos contra as frestas altas do solar de Santisteban. Tinham em que entreter-se de sobra as nobres damas, além do rosário, que para a velha era o comum recreio, do bastidor ou de ouvir tanger viola, doce passatempo de Mafalda. No sentir de ambas, as visitas de D. Gil não eram períodos menos folgados. Costumava ele, um dia entre outros, vir beijar-lhes a mão e trazer novas da guerra. Com gentil disposição o retinham horas, que lhes pareciam momentos, encantadas do encantado cavaleiro. Em redor, as donzelas enleavam-se, por seu turno, em ensilvado colóquio acerca da campanha e das festas que nunca viam fim nos tempos cheios dos Dons Filipes, embora com guerra nos estados, ladrões no termo e a peste em casa.
Chegaram, finalmente, notícias de D. Alejandro, trazidas por um próprio. A inesperada resistência dos portugueses dilataria a guerra por tempo que só Deus seria servido determinar. O senhor de los Balbazes impacientava-se com as escaramuças na raia, escaramuças travadas -- dizia ele -- quando os espanhóis se metiam pelo Alentejo dentro, a pilhar os porcos dos montados, ou quando o adversário, assaltando de repelão os soalheiros da Andaluzia, arrebanhava das aldeias meia dúzia de chicas. Os exércitos tinham dó de se matar, e o capitão de cavalos sentia uma nobre e castelhaníssima vergonha.» ...
                                                                                 (continua)

publicado às 19:10