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Jan24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Logo que Azagaia sossegou, o cavaleiro disse: 
  -- Vamos lá! O seu, menina, é realmente um animal catita, mas contra este é como a ovelha para a gazela. Custa-lhe a mão de sua filha, senhor D. Beltrão de Montalvo.
  -- Basta de insolências! -- trovejou o fidalgo.
  -- Partamos! -- proferiu o facecioso troquilhas por entre dentes.
Abalaram os dois corcéis; logo às primeiras upas Azagaia deixou adiantar Vingança a perder de vista; a sua inferioridade foi tão manifesta que o mais subtil letrado, da escola tomística, não saberia sofismá-la. 
Satisfeito em realizar os desejos, ainda que agastado pela derrota, propôs D. Beltrão:
  -- Pode entregar as rédeas, que vão ser-lhe contados os seis mil cruzados...
  -- Seis mil cruzados?! Mais me custou a criação.
  -- Sejam oito mil.
  -- Puh! Pouco menos que isso gastam à manjedoira.
  -- Homem, essa! Comem pérolas... caviar?
 -- Comem erva e fava... e até grão, mas há seis veterinários ao seu serviço, e todas as manhãs vem esse grande proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira que lhes palpa a mouçó, lhes coça as partes, lhes examina a espéculo o ânus, como faz ao seu rei...
  -- Dez mil, quer?
  -- Mais gastei a adestrá-los.
  -- Quanto pede?
  -- Quanto já pedi, senhor D. Beltrão.
O fidalgo, engasgado de cólera após estas palavras atrevidas, chamou a criadagem, que era um exército. Arrancaram as rédeas das mãos dos pajens e, a um sinal de D. Beltrão, o mordomo desatou uma barriguda saca de coiro. E, enquanto contava dez mil cruzados ao cavaleiro, que sorria, o fidalgo proferiu, abanando a cabeça em ameaça:
  -- Podia-lhe fazer amargar as impertinências, senhor... senhor quê? Vamos, senhor coudel, e, vê, mando-o em paz com a quantia que ofereci. Dez mil cruzados, Baptista, nem mais um ceitil... Já sabia, não tem que se queixar. Vá... vá, diga o que quiser, mas não esqueça que muito paciente foi D. Beltrão Montalvo de Trastâmara, do ramo lusitano de Riba-Doiro, estreme de malado e bastardia!
Para coroar a façanha, D. Beltrão convidou Floripes e o noivo, que assistira embasbacado a todos os lances, a montarem os estranhos corcéis. Ele cavalgou Vingança, Floripes Relâmpago e o morgado Tigre. Mas antes que dessem brida, ouviu-se zumbir no ar um assobio cadenciado e musical e os cavalos arrancaram. À carga cerrada, primeiro, nem demónios a fugir para o meio do inferno. Depois os lacaios viram-nos tresmalhar e correr para a linha do horizonte como galgos endiabrados. Quando volveram olhos para o que estava à sua volta, cavaleiros e pajens dos cavalos enfeitiçados haviam desaparecido. Azagaia corria em roda, crinas eriçadas, nitrindo lamentosamente, mais desesperado que a burra de Balaão antes de conseguir convencer o amo dos verdadeiros desígnios de Deus.»...                                                                                                                                                      (continua)

publicado às 19:15