(...) «A mãe por vezes, deixando escurecer os agravos que, nas contínuas quezílias, recebia do filho, rogava-lhe em voz de piedade: 
  -- Oh! Zé, se tu fosses pedir uma tigela de farinha para as migas...?!
Com maus modos, o filho recusava-se; mas, vendo-a soluçar, seca como as palhas, acabava por dizer que ia buscar uma braçada de verças à primeira horta que calhasse. Ela opunha-se, e por Deus Nosso Senhor lhe suplicava que o não fizesse à hora do dia, que ia morrer a uma cadeia. O Zé largava de repelão e, metendo para os quintais, à luz do sol, com mão tão lesta como descarada, fazia um molho, que trazia debaixo do braço, pelo povo acima, à vista de quem queria ver.
(...)
  -- Ora a maroteira! -- rosnava-se no povo. -- Todas as hortas são deles. Têm bom corpo, trabalhem, vão para a Terra Quente servir um amo.
Descoroçoada com tanto murmurar, a namorada do Cleto voltou-se para outro.
Cheio de desespero, o Zé enroscou-se mais na sua preguiça, entre a fome, duas tocatas de harmónio, e a fogueira sempre acesa, que andavam bem sortidas as tapadas do monte. O resto do tempo passava-o com o filho do Reitor, que lhe nutria o vício do cigarro e, encobertamente, trazia tudo o que podia arrebanhar em casa, toucinho, feijões secos, mesmo roupa branca. Só dinheiro não trazia, porque andava arredio dele como da graça de Deus -- chalaceava Isaac.
Numa tarde de lazeira, em que não havia migalha no açafate, nem gota na almotolia, o Zé comunicou ao pai o projecto que ruminava há tempos, olhos sobre as brasas a esmoer-se em farelo branco. O pai Cleto respondeu em modos desabridos:
  -- Homem, que ideia estuporada! Tu queres a nossa desgraça.
À noite o filho voltou à carga, procurando deslumbrá-lo. O pai manifestou a mesma relutância, em voz alta, mais mole apenas:
  -- És tolo, rapaz; és tolo!
O filho exasperou-se na sua boa fé:
  -- Já lhe disse, é um rufo, e dentro há uns bons pares de mil réis. De noite, vá lá saber-se quem foi!
O  velho ficou calado e ele afirmou que, cerca de dois anos antes, pelos seus próprios olhos, vira contar obra de doze mil réis. Só após longo silêncio o pai respondeu:
  -- Não; é um pecado muito grande.
  -- Vossemecê é maluco; o padre é quem a esvazia! Não é pecado para ele e era pecado para nós?!
A mãe, desconfiada, veio espreitar à porta e os dois calaram-se.» ...
                                                       (continua)

Verças berças, couves.

Rufo momento, instante.

almotolia

n substantivo feminino 

1 pequeno vaso de folha, de forma cônica e gargalo estreito, us. sobretudo para azeite e outros líquidos oleosos

2 (1880) 

pequena vasilha, com bico estreito e comprido, própria para lubrificar maquinismos por meio de compressão ou dispositivo ejetor

etimologia

ár. almutlia 'vaso de barro vidrado para azeite', der. do v. tala 'untar, brunir; vidrar algum vaso'; f.hist. sXIV almetolia, sXIV almotelia

"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"