(...) «Uma noite, depois de cear, quando as lenhas estavam cortadas e empilhadas, à mão da cozinheira, o menino veio dizer à mãe que os Cletos tinham metido, cada um, o seu tropeço de broa no bolso, grande como burro.
Mal viraram costas, a senhora Maria Andrade correu ao açafate a verificar. E, ainda que encontrasse comido o mesmo pão de sempre, desatou em altos brados:
-- Excomungados, levaram-me um pão de quarta. Oh! lobos os devorem!
Ao outro dia, os Cletos cearam, espreitados por muitos olhos. E, antes de dar graças, todos viram que, sorrateiramente, cada um alforjava na véstia a sua fatia de centeio. A senhora Mariquinhas pôde exclamar, triunfante:
-- Ah! que há muito eu notava a diferença no açafate! O inocentinho não mentia. Gatunos!
O senhor Andrade, para quem a desafronta conjugal era questão de faca ao peito, despediu os Cletos dois dias antes de terminar a arrumação das lenhas. E a toda a gente a sua senhora foi dizendo:
-- Vejam lá que manhas eles têm! Ainda hão-de acabar por sair à estrada.
Entre os jornaleiros não houve outra coisa em que falar. Até mesmo o latagão do Sem-Tempo, molangueiro e lorpa, abria as queixadas de jacaré:
-- Abrenúncia, eu cá antes queria morrer à fome!
-- Hão-de ir morrer nas Pedras Negras! Ele é um grandessíssimo cornudo e o filho um valdevinos que só está bem ao pé das marafonas.
Ergueu-se grande burburinho no povo. O Zé Cleto andou a rondar-lhes a casa, de focinho torvo. Joana veio-lhes à porta perguntar quanto devia pelas côdeas que seu homem e seu filho levaram para os meninos.
A senhora Maria Andrade, que lá tinha os seus podres e teve medo da língua dela, afiada como lanceta, desdisse-se, não teve pejo de meter os pés pelas mãos, gaguejando um rosário de lampanas. Mas em voz alta, assim que Joana voltou as costas, perante este mundo e o outro, para que fossem todos muito boas testemunhas, foi clamando que, se aparecesse morta ou ferida, do filho do Cleto se queixassem.» ...
(continua)
Tropeço — naco duro.
Lampanas — petas, intrujices, lerias, mentirosos.