
...«Vá para as Pedras Negras, pegue num bacamarte e saia à estrada!
-- Ladra para aí, ladra! Farta-te de ladrar, velho das carochas! -- lançou-lhe Isaac, já de longe, perto da jeira do bacelo.
-- Vadio! Gastei com ele quatro contos, melhor fora deitá-los a um poço. Consumições, noitadas, trabalhos, quantos não passei por mor dele! Meu Deus, meu Deus, grande castigo me destes!
-- Não se consuma, meu senhor -- interveio D. Doroteia. -- Ele lá terá o pago! Uma alma perdida só anda para perder as mais; é deixá-lo. Se aldemenos comesse, bebesse, calaceasse e não andasse ligado a semelhante choldra!? Olha com quem se foi meter, a Amada, que foi de solteiro e de casado, do Praça, do Mões, de quem lhe piscou o olho! Todos estes Amados são raça de má colada.
(...)
Oh! os filhos saem ao pai. Tudo lhes serve, couves, galinhas, roupa dos estendedoiros. A Amada mãe não roubou uma saia de folhos à minha Rosa? E como se descobriu?... Vai-se para a Santa Eufémia e a zarga levanta a saia no bailarico. A Rosa reconheceu-a e foi ali um dia de juízo! Se hoje cerrarmos os olhos, meu senhor, comem tudo o que há na casa; nem uma praga de gafanhotos! Já me disseram que o Norberto anda a fairar às fraldas da Adelina, a mais nova. É o irmão que lhe mete os vícios no pêlo. Mas ela quer coisa de mais vulto; o Norberto não levanta a grimpa, oprimido do trabalho, coitadinho! Gostava dum potro como arranjou a irmã, vá encomendá-lo à parada da Cabeça da Ponte! Ai, senhor, anda o Demo nesta casa!
D. Doroteia acabou a soluçar, enquanto o padre, sentado nas escaleiras, se velava de ar sombrio e silencioso.
Lá ao fundo, meio ocultos pela terra dos valados, revoltos como trincheiras, os dois irmãos conversavam. O camponês, de mãos grossas sobre a pá cravada no saibro, ia ouvindo as mofas do irmão mais velho, o fidalgo de mãos alvas e preguiçosas. O ar claro e subtil trazia-lhes, entre o grunhir dos bácoros e os cacarejos das galinhas, as lamentações dos pais. O sol dobava às espaldas dos pinhais velhos e só chegava até eles a sua lhama translúcida.»
(continua)
mofa
n substantivo feminino
1 ato de mofar; troça, zombaria
Ex.: respondeu em tom de m.
2 pessoa ou coisa que é objeto de mofa
Ex.: escandaloso, serviu de m. aos presentes
lhama
n substantivo feminino
Rubrica: indústria têxtil.
tecido brilhoso, composto ger. de fio de prata ou de ouro, ou ainda de cobre dourado ou prateado
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"