(...) «As malhadas eram para os Cletos o período das vacas gordas.
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Os Cletos traziam atrás deles, pelas malhas, toda a familagem: a Joana, reles coanheira, e os pequenos, que, à sombra quente das medas, jogavam com bugalhos e maçãs-cucas. Este séquito fazia dizer aos senhores da malhada:
  -- Com uma novena destas, os pimpões não ficam baratos.
O Zé granjeava neste período com que pagar na taverna e comprar um terno de saragoça; o Cleto com que adquirir umas fornadinhas de pão e vestidos de cotim para as crianças. O Zé, além disso, ficava armado para a festa da Lapa, que batia quase sempre ao fim das malhadas. Aí, então, pagava vinho como um brasileiro acabado de chegar e, embebedando-se, envolvia-se em rixas de que sempre saía com a cabeça rachada. E era pelo estendal de bazófias e filistrias que os moços na terra lhe tinham respeito e as raparigas o viam com olhos de ternura.
No Verão levavam os Cletos esta vida airada de cigarra. Mas chegava o Inverno e sentiam-se fora de si, fora do meio, como belos animais que acompanham o sol em matéria de dar ao mundo a quota de préstimo com que os dotou a natureza. Em vez de pulsos esforçados tornavam-se precisas mãos pacientes e maneirinhas. Quando no cabanal do padre Claro se acabavam os troncos de árvore, o pai Cleto punha-se a tecer palhoças, pouco buscadas e mal vendidas.
À noitinha, ia armar "ferros" nos tourais de coelho e fios às lebres na linha das demarcações. Saíam por via de regra frustradas as suas canseiras, e lá continuava a tecer os polainos de junco, indolentemente, ao lado do filho, que tocava harmónio, ou dormia de papo para o ar, tendo passado a noite na vida marota. Diante de dois tições,  Joana remendava, e as semanas e os dias decorriam assim tremendamente vazios, mais fastidiosos que a chuva miúda, ping-ping-pang, ao cair do telhado para as escaleiras.
Às vezes o Zé ia pirangar, com as moças, pelas quintãs, e Joana saía ao mato. O Cleto, vendo-se só, com o apetite sempre desperto, passava busca à salgadeira e bifava o que lhe caía debaixo da unha, naco de toucinho, ou chouriço reservado para os dias santos. E despedia a imolá-lo na taverna com este ou aquele súcio dos povos vizinhos, a quem tivesse vendido um par de polainos.
Debalde esporteirava Joana contra a gula do homem:
  -- Um alma do diabo destes, que não tem onde cair morto, e lambisqueiro como um abade! É preciso fechar tudo a sete chaves, senão... olho vê, pé vai e mão pilha.
A carmear o junco, o Cleto desatava a berrar e jurava pela sorte dos filhos que não havia tocado na salgadeira.
  -- Assim Deus me salve se pus dedo molhado na ucha da grande filha da puta!» ...
                                                                                 (continua)

Coanhar separar o palhiço na eira.
Filistrias flostrias. » Flostriar — foliar, brincar.
Esporteirardisparatar à porta, proclamar.
Lambisqueiro petisqueiro, lambareiro, guloso.