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Mar24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Aperceberam-se do ruído de dez réis tilintando no fundo do mealheiro... do instante de imobilidade do Andrade e do jeito de marcha. Quando os passos se perderam no caminho, os Cletos foram direitos à frontaria da capela. O velho pôs a boca a uma lucarna e berrou para dentro:
  -- Óóóó!
  -- Para que ronca, homem?
  -- Podia lá estar aninhado algum pobre.
  -- Ora! Morcegos.
O Zé chegou-se à caixa das almas e experimentou abaná-la. Presa por dois gatos de ferro e couraçada de ferro, pedia esmola nos quatro caminhos, como a mão hirta e infatigável dum ermitão. O Cleto deu-lhe um murro sobre o tampo, sacudiu-a com toda a força e, mal sentindo chocalhar, declarou: 
  -- Está chocha.
Então o Zé, à mão-tente, descarregou-lhe uma pancada de baixo para cima com o olho da machadinha. E as moedas cuspidas contra o tampo falaram, soltaram cascalhadas zombeteiras.
  -- Não está tão chocha como isso!
  -- Olha, eu cá digo-te que vamos embora. É um grande pecado; já muita gente tem ficado tolhida. Além de que não tem cara de ter grande coisa dentro.
  -- Se quer, vá-se, eu não preciso de vossemecê.
O Zé insinuou o gume da machada entre o ferro e a grossa tábua de carvalho. Mas os ganchos seguravam-na como garras de avarento. Inutilmente tacteou a lâmina todas as juntas, sorrateira, capciosa, feroz. O velho, a tremer como um vime, agarrou da machada; mas em seus dedos, trémulos com a enormidade do cometimento, o ferro fugia, escorregava, acendia centelhas nas cabeças grossas dos cravos. E o filho safou-lha de repelão:
  -- Largue! Largue!
  -- Num relâmpago o Zé alçou a machada, descarregou-a, animada de todo o alento. Em dois golpes a caixa estava arrombada, estripada, as guarnições de ferro e a madeira fendidas como por uma cunha tremenda, que caísse do céu.
Transido e com a pressa do medo, o Cleto meteu a mão; o filho empurrou-o com uma cotovelada:
  -- Tire lá a pata!
  -- Olha que pode vir gente...
O Zé esbandulhou bem o cofre; depois, dizendo ao pai que aparasse no chapéu, varreu com a mão em rodo.
Um punhado de moedas tiniu, mas numa secura que os fez praguejar:
  -- Estamos roubados; não tem para mandar cantar um cego.
O Zé Cleto arrecadou o dinheiro e, apontando a caixa das almas com o ventre à mostra, exclamou:
  -- O melhor da mamata foi para o padre. Não há-de haver muito tempo que lhe pôs os cinco mandamentos... Gatuno!
O velho teve também um soluço de cólera, espoliado, defraudado em suas esperanças:
  -- Gatuno!» ...
                                              (continua)

Lucarna abertura no telhado, fresta, trapeira.

mão-tente m.q. mão-tenente

n substantivo feminino
m.q. mão-tenente

mão firme, segura; mão-tente

zombeteiras

n adjetivo e substantivo masculino 

1 que ou aquele que zombeteia, faz zombarias; zombador

Ex.: <temperamento z.> <era uma z. incorrigível>

n adjetivo 

2 em que há zombaria; que revela galhofa, troça, ironia ou escárnio

Ex.: respondeu-me com um sorriso z.

mamata

n substantivo feminino 

Uso: informal.

1 empresa ou administração pública que dá ensejo de vantagens pecuniárias a políticos e funcionários desonestos

2 ganho desonesto; vantagem pecuniária ilícita obtida em operação ou transação de órgão público por meio de suborno, tráfico de influência etc.; comedeira, ladroeira, negociata

3 negócio suspeito, em que há trapaça; arranjo, marmelada, negociata

"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"

publicado às 19:21