(...) «A senhora Mariquinhas arreou-se com o fato de domingo, para ir à vila ver julgar os Cletos. E, muito contente com a justiça da terra, a cavalo na égua parideira, de colcha branca na albarda, passou por entre as hortas. Nas ricas, o caldo apodrecia, e era sagrado nas pobres. Apenas as galinhas continuavam a sumir-se mailos cabritos, e no Verão aquelas melancias rúbidas, que matavam a sede a um arraial. E, não se distinguindo a mão misteriosa destes furtos, opinava ela que era alguém da quadrilha dos Cletos que sobrevivia para desassossego do povo.
Os Cletos, esses, estavam há muitos meses à sombra, com bilhete tirado para a costa de África. Ia ver a cara desses malditos, que lhe bifavam todas as noites um pão de quarta e traziam a gente em sobressalto, e o focinho da porca cilhada que tinha uma língua tão comprida que chegava para varrer o forno.
Lá pôde arranjar um lugar na audiência, pouco frequentada, de resto. E, regalada já de lhes contemplar as caras magras e tristes de fome e de vergonha, a sua alma palpitou, agradecida ao Senhor, quando em bela voz de celebrante, o juiz leu, após muitos e variados considerandos, a sentença seguinte:
«Em virtude da resposta dos senhores jurados aos quesitos compreendidos nos artigos ..., etc. ... do Código Penal (crimes de ofensas à religião do Estado, arrombamento com dano e escândalo público) em que se acha pronunciado o réu António Anacleto, casado, 63 anos de idade, natural da freguesia de Rio Pardo, desta comarca, condeno-o na pena de quatro anos de prisão maior celular ou na alternativa de seis anos de degredo em possessão de 1ª classe. Não condeno o réu nos selos e custas dos autos por ser pobre, como provou.»
A senhora Maria não conseguiu ouvir o final da sentença. Um choro convulso rompeu no banco dos réus, a que se seguiu na galeria o clamor do pequeno de doze anos e dos dois meninos, que berravam para chegar à mãe e porque viam chorar.
O senhor Juiz intimou silêncio e toda a sua beca negra e austera flutuou. O oficial veio enxotar as crianças, que uma serrana trouxera para darem os últimos beijos à mãezinha.
A senhora Maria Andrade ouviu pronunciar igual sentença contra o Zé Cleto. E foi de coração cerrado que ouviu invocar as atenuantes no libelo de Joana. Todavia, também era condenada em seis meses de prisão correccional por cúmplice e receptadora.
E enquanto, dentro da teia, Joana se desfazia em gritos, o velho Cleto se arrepelava e o Zé mostrava um ar idiota e insensível, expandia ela seu contentamento:
-- Bem haja o senhor Juiz, bem haja! Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
Os meirinhos e os circunstantes desataram às gargalhadas daquele desatino, e ela abalou para a aldeia, a alma cheia de gáudio, tocando com nervosos calcanhares a égua mazorreira, para levar depressa a novidade.»
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Mazorreiro — tardo, rude, bronco
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
mailo
n contração
Regionalismo: Portugal. Uso: informal. Diacronismo: antigo.
em companhia do; junto com o, a mailo, malo
Ex.: vi passar o João m. seu amigo
cilhado
n adjetivo que se cilhou