(...) «Celebrou-se o resgate com alegres e estrondosas festas, a que não faltou a filarmónica dos zabumbas. Ao mesmo tempo era anunciado o casamento de D. Floripes com D. Raimundo de Resquitela, senhor de altas fidalguias do termo do reino, redouradas pelo bom monarca absoluto. O primeiro noivo de Floripes engordava em seus latifúndios aborrecido de aventuras, tendo mudado de cozinheira para melhor. Este cordon bleu era de França e sabia preparar-lhe a lagosta de cem maneiras e a orelha de leitão sauce diablotine, muito do seu gosto. O bom alferes, esse, arrastava pela corte alegre um ar calamitoso de desditado e uma espada cheia de glória e de ferrugem.
Grande arraial foi dado na véspera dos esponsais. Acudiu a primeira nobreza de Portugal e de Espanha e no pátio organizaram-se jogos de destreza e de folgar. E houve jogo de pau, exibiu-se um grupo de truões e bateu-se a galharda e a dança dos chifarotes. O contentamento não tinha medida; e Floripes, entre os ranchos jucundos, o que ninguém havia de julgar de sua alma, era uma rosa aberta da alegria.
Os convivas abancaram para o banquete, e as taças de cristal e vermeil coloriram com vinho velho de cem anos, genuíno das adegas beltranescas. Neste momento, porém, os brandões apagaram-se e toda a sala ficou mergulhada na escuridade.
-- Luz! -- urrou o senhor de Montalvo.
-- Aí vai, senhor! -- gritou Anastácia.
A aia surgiu, então, com uma luz lívida que empalideceu a sala. Todos os olhos incidiram sobre o estranho archote e viram a mão dum finado. Era a mão dum finado, branca e exangue, que radiava um clarão pálido de lua nova, como só há nos poemas.
D. Raimundo de Resquitela deu um pulo para Anastácia, mas braços rijos de lacaio seguraram-no:
-- Aí, seu teso! Não bula, que é melhor!
-- Nobres senhores -- exclamou a velha aia, com um ricto satisfeito que nem pedido às bruxas da Floresta Negra ao pescarem um anjinho -- aí está o capitão de ladrões que assaltou o solar, sequestrou o senhor D. Beltrão e intentava por aleivosia casar com a minha ama e senhora. Olha de que espiga se livrou, coitadinha! A mão que ela lhe decepou aqui está...
E, em salva de prata, exibiu a mão mirrada, um cadáver de mão que tirara da salgadeira dentre os chispes dos cevados. Ao mesmo tempo os lacaios desenfaixavam do braço de D. Raimundo a mão postiça, tão bem feita que só fabricada pelo Mafarrico, que faz tudo, até boa ortopedia.
-- Algemem-no de pés e mãos! -- ordenou o senhor de Montalvo.
-- De pés e mãos não pode ser, meu senhor D. Beltrão! Da canhota e do coto, sim... -- permitiu-se rectificar o proto-alveitar D. Hyacintho, muito exacto em anatomias quadrupedais. -- A mão foi-se à gaita...
Voltando-se para os convivas, todos eles maravilhados, acrescentou D. Beltrão:
Pois algemem-no pelo coto e a canhota! E resta pedir-lhes vénia: a festa fica adiada.
-- A festa continua, se vossa mercê, senhor pai, o consente... -- atalhou Floripes. -- Eis o meu noivo...
E, tomando-o pelo braço, boquiaberto, apresentou o heróico alferes que, a ombrear com a águia dos Montalvos, estadeava no brasão, campo partido de oiro e sinopla, o leão entrecambado dos Sanhudos.»
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 61) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»
literatura, ficção, narrativa gótica, conto
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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