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Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Como el-rei tivesse grande estima por seu fiel vassalo D. Beltrão de Montalvo, mandou pregoar por cidades e lugares do reino uma recompensa de dez mil cruzados a quem lhe trouxesse com vida o nobre desaparecido. Acorreram príncipes das sete partidas, militares e aventureiros de ofício, e luzida e valorosa cavalgada partiu a bater os montes. Floripes, que se acolhera à corte em corpo bem feito de açafata, celebrada por uns, adorada por outros, grata a todos, chorava noite e dia, não havendo lenimemto de palavras, piscadela de olhos, toque de bandurras, odes votivas de poetas que lhe minorassem a paixão.
Ao cabo de ano, contado hora a hora pelas suas lágrimas, voltaram os expedicionários um a um, estropiados e desiludidos. A ninguém fora dado ganhar a alta e perigosa cartada de dez mil cruzados. Só um faltava: o alferes, mas desse não havia novas certas. Sabia-se que porfiava, e a ideia deste sacrifício passava na alma de Floripes como vaporoso e suave bálsamo. Continuamente, perguntava em seu cismar:
-- Trá-lo-á o bom alferes? E que bravo e simpático homem! Nem mesmo tilintava com o sabre!
E passaram meses, e passou outro ano, sem lhe chegar rumor dele, ou do pai.
Estavam perdidas as esperanças quando, a hora inesperada, um fidalgo arraiano pediu audiência a el-rei, nestes termos:
-- D. Raimundo de Resquitela, de parte de D. Beltrão de Montalvo.
Alvoroçou-se a corte que tal ouviu, e o fidalgo fronteiriço foi chamado.
-- Julguei que era extinta a estirpe dos Resquitelas -- observou el-rei para o camareiro. -- Se o não é, anda certamente abastardada. Estes plebeus metem-se como piolho na púrpura. Há-de ser preciso esborrachá-los não entre as unhas dos dois polegares, como contam que se via na corte de D. Carlota, mas a cachamorra.
Disse el-rei para D. Raimundo de Resquitela, homem dos quarenta, cara dura torrada do suão dos altos, mal foi introduzido:
-- O meu castelão não é descendente daquele D. Abúndio de Resquitela, homem terso e duro, das hostes do bem-aventurado D. Nuno, que salgava os fígados dos castelhanos, e os dava a comer em chouriços aos vilões?
-- É essa uma tradição fabulosa, senhor, inventada por um historiador espanhol, falho de imaginação. Mas sou, sou tetraneto desse valente espadeiro.
-- Sabeis então onde está D. Beltrão?
-- Sim, real senhor.
-- Onde está e porque não veio convosco?
-- Era arriscado empreendimento, para mim só, trazê--lo...
-- Dar-vos-ei uma força. E onde pára?
-- Numa serra, distante cinco léguas, das velhas do castelo que me foi berço. Onde só alcançam as águias...» ...
(continua)
publicado às 19:46