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Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Mas o tumulto na noite aproximava-se, arremetia para a escadaria... Vozes roufenhas discutiam, praguejavam. Uma muralha de ombros veio colar-se contra a porta, impando, descarregando o alento todo. Os gonzos nem rangeram sequer.
A voz do mendigo clamou:
-- Está bem, está bem, nós vamos embora, mas entregue o candeeiro...
-- Que candeeiro!
-- A mão, que era de minha avó...
-- E arde?
-- Arde, mas não queima.
-- Deixá-lo, não lhe pego...!
-- Vai a porta dentro!...
A mão continuava a arder sobre o escabelo, lívida como o luar e, como o luar, não queimando a sua chama. Floripes tentou apagá-la, mas nem a fole de ferreiro tremeria aquela sinistra luz.
-- Entregue a mão do finado, que lhe dá azar... -- tornou a voz.
-- Pois sim -- respondeu Floripes reflectindo. -- Passe a sua mão pela gateira...
O homem assim fez, e ela lha cortou cerce com o machado que ali estava. E o sangue, esparrinhando e alagando tudo, apagou a mão morta incandescente. Ainda que às escuras e morta de medo, Floripes tinha esperanças que o pior já passara. Lá fora, no escuro, a quadrilha debandava em pressurosa tropeada. E foi tal o escarcéu que a aia despertou por fim. Logo que de tudo foi ciente, proferiu:
-- Fui lograda com a laranja. Não sei o que me subiu à cabeça, quando a comi, que tombei na cama como uma defunta. Agora, menina, só lhe peço que me deixe guardar essas duas mãos para memória...
-- Pois guarda... mas salga-as bem salgadas. Se lhes não deitas uma arroba de sal em cima, largam para aí um fedor que não há há quem pare com a peste.
Regressou D. Beltrão com a promessa de el-rei vir ser padrinho de Floripes. Muito maravilhado ficou do que sucedera; mas como aquilo era alto feito para ser lavrado no brasão de sobresselente, nem com a palavra mais branda castigou a quebra de suas ordens.» ...
(continua)
publicado às 19:05