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D. Beltrão era um velho sobranceiro, sempre a impar de orgulho, não se sabia se da fazenda mais que de Floripes, a graciosa, ou das cinzas dos avós, caldeadas de santo e navegador. Todas as manhãs, o seu regalo era subir ao mirante e, olhando em roda, proferir, num alarde de bazófia, diante de gregos e troianos e, se não havia tal séquito, com os seus botões, que eram de metal amarelo e falavam, como sempre foi condão de botões em casacas verdes: 

  -- Tudo quanto se avista é cá do Beltrão.

Mas para lá do campo descoberto, possuía ainda vinhedos, olivais e terras de granjearia, em que mourejavam feudátarias dez aldeias de ratinhos.

Assim prendada de dotes naturais e de fortuna, era sina de Floripes tornar-se o alvo de bastos e magníficos pretendentes. Durante dois meses -- que tantos esteve sua mão em hasta -- a estrada velha de laje que ligava o solar com a igreja e outras baronias faiscou ao tropel dos cavaleiros. E, diante das varandas alpendradas, em justa assanhadíssima de jaguares renhiu o garbo duns com as arcas de oiro doutros. Após laboriosas inculcas, optou D. Beltrão por um abastado gentil-homem que, nas suas quintas, podia dizer, embora fosse discreto como um raposo, espalmando à sua maneira o punhaço no peito, em ares de competição:

    -- Quem é o primeiro morgado da Riba-Tâmega, quem é?!» ...

(continua)