(...) «Ao cabo de um minuto de silêncio, Jacinto cravou olhos penetrantes nos olhos desvairados do homem, a apanhar o fio de ideias que podiam correr por trás daquela fronte orvalhada.
-- Então, alma do Senhor, persistes nos teus erros?
O almocreve torceu-se nas mantas, e desviou o olhar. O padre, maquinalmente, seguiu-lho até encontrar o lume que ardia na lareira. Através da penumbra figurou-se-lhe semelhante teatro, os gnomos roxos do lume baixando-se, erguendo-se, batendo uma sarabanda patusca no cepo de carvalho em brasas, lá longe, no infinito. Uma nesga de sol doirava a fuligem do frontal, estendendo por ele abaixo uma fímbria amarela de catafalco. Vinda de cima, pela telha de vidro, atravessava o ar como uma lança de oiro, em que o oiro estivesse ainda a caldear-se em ebulição insensata. Mas pela porta coava-se um vago luar do dia, carregado do perfume da alfazema e dos alecrins floridos.
-- Então não atendes o mensageiro do Céu? É o Demónio que te prende. Vade retro, Satana! Trazes os olhos vendados, abre-os para que o Bom Pastor te mostre o caminho. Tu és a ovelha perdida que Ele me manda buscar para o seu amantíssimo redil.
Jacinto tinha pressa em converter aquela alma, que há seis anos andava falha de direcção espiritual, vencer os sentimentos, que advinhava serem de bronze, no peito daquele bruto. Sobretudo, pretendia ser rigoroso no mester sacerdotal, dentro de que processava a arte de se conduzir com austera e precauciosa dignidade.
Jacinto sentou-se na cama e, pegando-lhe da mão flácida, que se lhe abandonava, pôs-se a acariciá-la, enquanto as suas palavras corriam doces, ele as via correr impregnadas da suavidade bíblica das Santas Páscoas. Por detrás dele a mulher soluçava.
-- Vá, meu filho, promete renunciar ao pecado...
As pálpebras do almocreve espremeram uma grande lágrima, que lhe banhou as narinas grossas e trementes como papel fino.
-- Perdão... nunca roubei nada a ninguém...
-- Em nome de Deus te perdoo. O que é preciso é que teus lábios renunciem...
-- Renunciar a quê? À Rosária?! Ah!...
-- Sim, a ela, à tua feia vida de pecado.
-- A ela, a desgraçadinha...?! Ah! não me obrigue!... Ah, não me obri...gue...» ...
(continua)
fímbria
n substantivo feminino
4 adorno constituído de bordado ou fios entrelaçados, ger. aplicado na borda de tecidos; franja
7 Rubrica: morfologia zoológica.
qualquer estrutura franjada
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"