(...) «Logo que os rapazes acabaram de trincar a última dentada, o padre Claro foi à porta ver o céu. Não era da mansão dos anjos que se tratava, mas do passeadoiro das nuvens e dos ventos. E volveu a dizer que eram horas, se queria botar à vila a tempo de tomar a diligência.
D. Doroteia perguntou se não se esqueciam de nada. Norberto circunvagou o olhar numa operação remissiva de memória, palpou a carteira de couro, verificou que levava o canivete e o lenço de assoar. Restava ir ao quarto do irmão dar-lhe um abraço. A mãe, por curiosidade, acompanhou-o. Mas o leito ostentava a compostura da véspera, sem sinal de se terem deitado nele. Norberto compreendeu e Doroteia desatou em exclamações:
-- Aquela alma perdida não dormiu em casa. Já por lá anda metido de novo com a Amada. Olha que amor de irmão, nem um abraço te veio dar, meu filhinho...!
-- Trata de te aviar -- disse o padre em voz cada vez mais trémula e sentida -- que o carro não espera.
E, chamando-o de parte, deu-lhe dinheiro:
-- Aqui está para o caminho. Não tenho mais, mas todos os meses lhe mandarei. Vá com o santo Anjo da Guarda.
-- Três meses passam depressa -- proferiu com voz artificiosamente desenganada, enquanto metia, a chorar, os três mil réis no bolso.
Fora, neblina esfarelava-se em gotas miudinhas e mormacentas. A nascente, o céu acalentava uma vaga promessa de luz. Via-se reluzir a espinha dos telhados e o bordo dos beirais. O Toninho ajeitou a égua a um poiso e subiu; Norberto ia a montar, o padre gritou-lhe:
-- Não pedes a benção a tua mãe, malcriado?
Não andava habituado a despedidas daquelas e envergonhou-se. Por fim, lá engatilhou as mãos para a mãe que estava na calçada, ao lado dele. Coberta de lágrimas, ela abençoou-o e, insinuando-lhe a mão no bolso do colete, acrescentou num sopro:
-- Pega, é prò vinho. Olha que fui vender os ovos da pedrês para te dar.
Norberto pulou sobre a albarda atrás do Toninho e tangeu...
A égua bateu a calçada, abalou a trote e os dois velhos foram atrás das casas vê-los ir. À Doroteia, que soluçava, disse o padre, abrindo os braços no gesto que não olvidava do orate fratres: [orai irmãos]
-- A vida é um cilício que toda a gente traz amarrado aos rins!»
(continua)
mormacentas
n adjetivo
em que há mormaço
Ex.: dia m.
substantivo masculino
1 neblina quente e úmida, resultante de forte calor
2 temperatura abafada, quente
pedrês
adjetivo e substantivo de dois gêneros
1 que ou o que é pintalgado de branco e preto
1.1 Derivação: freqüentemente.
m.q. carijó (diz-se esp. de galináceo)
cilício
substantivo masculino
1 antiga veste ou faixa de crina ou de pano grosseiro e áspero us. sobre a pele por penitência
2 cinto ou cordão eriçado de cerdas ou correntes de ferro, cheio de pontas, com que os penitentes cingem o corpo diretamente sobre a pele
3 Derivação: sentido figurado.
sacrifício ou mortificação a que alguém se sujeita voluntariamente
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"