(...) «O senhor padre Jacinto acabou de rezar matinas, parando, rolando pelo caminho em ziguezagues negligentes. Depois, marcando a leitura do Breviário com o registo de carmesim, meteu pela rua fora, a passo rápido.
Seria meio-dia, caía um grande sol e a matraca da paroquial, a um quarto de légua, soava incessantemente. Não se ouvia outro rumor, não bulia uma folha, hortas e casas encantadas sob a cogula de oiro do céu assoalhado; apenas as abelhas zumbiam na borragem e alecrim da Persília. Lânguidas e risoteiras, pelos alpendres, as raparigas catavam-se umas às outras.
Estava ou pareceu-lhe estar uma verdadeira atmosfera de Endoenças e, recuando devotamente a alma sobre o mundo, o coadjutor, sugestionando-se, aspirava o perfume do linho com que as matronas na noite de quarta-feira urdiram a corda deicida, e da mirra que Madalena verteu nas Cinco Chagas. E num murmúrio interior, suavemente magoado do crime remoto dos homens, proferiu:
-- Pater, dimitte illis...
Ao tropear de Jacinto, as galinhas levantavam-se da sombra minguante, alvoroçadas e rabujando. E, de olhos a escorrer pela sotaina abaixo até às fivelas de prata polidas, ia alinhavando, ruminando períodos apenas esfalcados da grave homilia do domingo.
Ao chegar à porta larga da quintã, ergueu a cabeça com brusquidão:
-- O homem que está à morte, é aqui? -- perguntou a uma mulher que corria atrás dum galo.
-- É, sim, senhor Reitor, é aqui.
-- E vossemecê é-lhe alguma coisa?
-- Sou irmã.
Entraram juntos em casa. Contra os taipais, brunidos da fuligem, Cristo afogava-se num mar negro, sem fundo. E flores de exagerado pistilo de prata desbotavam entre os seus braços e a cruz.
Três pequenos surgiram saltando, de focinho lavado de fresco a enodoar de alvura o fato muito sujo. E dando de cara com Jacinto, eles que mal o lobrigavam escorrendo oiro e sedas nos mistérios lindos do altar, ficaram estarrecidos.
-- O senhor Reitor desculpe, a casa é de pobres!
Mas ele observava os pequenos e, muito apiedado, perguntou:
-- Estes desgraçadinhos são filhos...?
-- São, sim, senhor Reitor... São dele, coitadinhos? -- acrescentou em ar de duplo entendimento, que não escapou ao seu espírito evangelizante.
Um dos garotitos dobrou a cabeça e, de olhos a rir, começou a namorá-lo por baixo das melenas. O padre afagou-o e deu-lhe uma maçã que trazia.
-- Então o homem assim está mal?
-- Ai, senhor Reitor, a todo o momento parece que vai despedir. Só há bocadinho deu acordo para saber o que era feito do macho.» ...
(continua)
Cogula
n substantivo feminino
Rubrica: termo eclesiástico, vestuário.
espécie de túnica larga, sem mangas, us. por certos religiosos monacais, como, p.ex., os beneditinos
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
Esfalcado — desbastado.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693