(...) «Jacinto ergueu-se e a sua voz tornou-se mais comovida, devotamente moldada em cólera.
  -- A ela, sim, à tua concubina. Lá no eterno pranto e ranger de dentes, se persistes, tu te arrependerás da cega idolatria! Mas, peço-te, meu filho, renega essa mulher!...
  -- A mãe dos meus filhos?!... Não me obrigue, não me obrigue... Não tenho dela o mais pequeno agravo... Tanto como uma unha negra...
  -- Pois é a condenação às penas eternas... que estás a lavrar com a tua porfia!
O homem soltou um rugido, rouco como estalar de trave. Rosária saiu de trás do frontal, aflita, a gritar:
  -- Ai, senhor Reitor, que mo mata!
Jacinto apertou a fronte com a mão espalmada e, baixando os olhos do céu, tornou tão baixo que mal se ouviu:
  -- Matar-lhe, mata-lhe vossemecê a alma, mulher.
De olhos dilatados, Isidro fitava a réstia de sol que flamejava.
  -- Se aqui era a fortaleza de Lúcifer para que me chamaram? Eu vou onde há pecadores, sim, mas pecadores que queiram ver a Deus.
As mulheres soluçavam e os pequenos ganiam desesperadamente.
  -- Não renuncias? -- tornou Jacinto em voz febril, no fervor último da sua santa arte, empenhado em sair vencedor contra os génios das sombras.
O almocreve desatou aos soluços, roufenhos como soprar de fole roto.
Brutal, feroz, Rosária empurrou o padre para fora de casa. Em voz sumida ele declarou:
  -- Sabem onde moro. Como ministro do Senhor na terra, estou sempre pronto a ouvir os pecadores. Fiquem-se com Deus.
  -- Desapareça! -- gritou-lhe Rosária, de punhos fechados.
Jacinto saiu, a alma lanceada da sua impotência perante um labroste, crente e pertinaz. Fora, nimbadas de sol, as vésperas sangrentas caíam do espaço. As folechas piavam nos sabugueiros. Um cordão de gente corria para a via-sacra.
Abriu o Breviário, onde indicava a rubra fita de seda, e continuou a reza. Mas não encontrou o doce ritmo dos salmos nem o rosal jucundo das iniciais góticas vermelhas do princípio das antífonas e dos hinos romanos. E entrou na residência, triste pela primeira vez depois de oito anos de ministério, enjoado na santa alegria de pastorear.
A horas de ceia vieram dar-lhe parte da morte do almocreve. No fundo de sua alma ressentida perpassou o versículo, ao passo que bebia o segundo gole do caldinho de cebola: 
  -- Eripe me, Domine, ab homine malo; a viro iniquo eripe me.»
 [-- Livra-me, Senhor, do homem mau; do homem ímpio, livra-me.]

                                                              *

Nimbar

n verbo 
 transitivo direto 
1 cercar de nimbo ou círculo luminoso; aureolar
 transitivo direto 
2 Derivação: sentido figurado.
tornar sublime; aureolar, gloriar, enaltecer

véspera

n substantivo feminino 
1 Diacronismo: antigo.
a tarde
2 dia que imediatamente antecede aquele de que se trata
Ex.: sábado é v. de domingo
3 menos us. e m.q. vésperas
ª vésperas 
n substantivo feminino plural 
4 os dias que mais proximamente antecedem um fato ou acontecimento
Ex.: às v. de seu casamento, apaixonou-se por outra mulher
5 Rubrica: liturgia.
na liturgia católica, a parte do ofício divino que tem lugar à tarde, entre 15 e 18 horas
6 Rubrica: música.
composição ou cântico sobre os textos dessa hora canônica

 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"