Luana Rodrigues

Crédito da imagem: Qui a tué mon père, peça teatral encenada e escrita por Édouard Louis, dirigida por Thomas Ostermeier durante sua estreia no Théâtre de la Ville Paris, em setembro de 2020. Foto de  Jean Louis Fernandez.

Michel Foucault, ao propor a “função-autor”, desloca o autor da posição de origem do texto para um papel de operador discursivo, cuja função é regular a circulação, a leitura e a interpretação das obras. O autor, nesse sentido, deixa de ser apenas o sujeito criador e passa a ocupar uma posição que articula textos, instituições, discursos e práticas sociais. Essa perspectiva permite compreender como, em autores contemporâneos como Édouard Louis, o gesto de escrita e o gesto performativo são inseparáveis, pois ambos participam de um mesmo processo de construção de sentido e de poder simbólico.

Meu texto anterior publicado aqui no blog comentava a peça Histoire de la violence, escrita por Édouard Louis, adaptada e dirigida por Thomas Ostermeier. Hoje, gostaria de analisar brevemente Qui a tué mon père, concebida por Louis em colaboração com Stanislas Nordey, que também a dirigiu. Uma versão dramatúrgica mais recente foi encenada por Ostermeier, na qual o próprio Louis atua. O objetivo é examinar de que modo a noção de função-autor se reconfigura quando o corpo do escritor passa a ocupar o espaço cênico, seja por meio de sua presença direta (no caso do espetáculo de Ostermeier), seja pela mediação de outros intérpretes (opção dramatúrgica de Nordey).

Qui a tué mon père nasce da interlocução entre literatura e performance. Louis revisita a relação com o pai, reencontrando-o após anos de distância e descobrindo um corpo debilitado pela doença e pelo trabalho exaustivo. O texto transforma a experiência pessoal em denúncia política, nomeando explicitamente os responsáveis por políticas que condenaram seu pai e, por extensão, uma classe inteira à invisibilidade. Ao escrever para a cena, Louis não apenas traduz o vivido, mas o reinscreve num espaço institucional que redefine a circulação e a recepção de sua narrativa: o teatro torna-se o lugar em que o testemunho se converte em gesto público, assim como já havia feito com a publicação do relato.

No entanto, na encenação dirigida por Stanislas Nordey, a autoria de Édouard Louis  instaura um novo regime de visibilidade sobre os modos de recepção de sua obra, pois a encenação de si atribuída a um ator, redefine o espaço de enunciação e inscreve Louis e seu relato nos domínios do teatro, o que desdobra sua performance textual em performance do corpo também.  A passagem do texto à performance transforma a leitura em experiência coletiva e sensorial, convertendo o ato literário, mais uma vez, em acontecimento político.

Ao interpretar o texto, Nordey não encarna apenas o personagem de Louis, mas o próprio ato de enunciação, tornando visível a tensão entre o texto escrito e o corpo que o atualiza, entre o testemunho individual e a enunciação pública. Ao fazer de um ator o seu duplo, Louis reinscreve o “eu” no campo do outro, convertendo a confissão em ato teatral e a memória pessoal em discurso coletivo. O palco, nesse sentido, não é mero espaço de exposição, mas de mediação: ele filtra, amplifica e redistribui a experiência, conferindo à palavra literária uma nova densidade sensorial e política. Assim, a performance de Nordey reconfigura o lugar do autor, tornando-o simultaneamente presente e ausente, fora de cena, mas inteiramente inscrito na estrutura representacional que ele próprio concebeu.

A versão de Qui a tué mon père dirigida por Thomas Ostermeier, por outro lado, desloca o foco dessa mediação para o próprio corpo do autor. Aqui, é o próprio Édouard Louis quem interpreta seu texto, encarnando simultaneamente o escritor, o narrador e o personagem. Essa sobreposição rompe a distância entre o sujeito da escrita e o corpo em performance, instaurando uma presença radical que tensiona os limites entre arte e vida. O pai, ausente, é representado apenas por uma cadeira, símbolo de uma ausência material e afetiva. Diante dela, Louis fala, canta e dança, revivendo fragmentos da infância e da violência social que o formaram. O corpo do autor, nesse contexto, torna-se o lugar onde a memória é reinscrita, um corpo que carrega, performa e testemunha as marcas da experiência.

Entre a autoria mediada por Nordey e a presença direta em Ostermeier, a obra de Édouard Louis revela as tensões contemporâneas entre visibilidade, corpo e discurso. Em ambos os casos, o teatro se torna o espaço onde a função-autor se reinventa como prática performativa. Louis transforma o ato de narrar em ato de resistência: seu corpo, seja representado por outro, seja presente em cena, regula e redefine a leitura de sua obra, articulando texto, instituição e performance. A função-autor, assim, deixa de ser uma assinatura textual para tornar-se uma prática viva, um modo de habitar o discurso e o espaço público. Essa alternância entre presença e ausência, entre exposição e delegação do corpo, revela uma nova concepção de autoria, em vez de ocupar um lugar fixo, o autor contemporâneo circula entre diferentes esferas de mediação, como a cena, o texto e as redes sociais, e produz significados que dependem de sua visibilidade e corporeidade. O caso de Édouard Louis ilustra como literatura e teatro se tornam dispositivos de autorrepresentação e crítica social e abre novas possibilidades para pensar o autor no século XXI.