É possível dizer, sem medo de errar, que as cidades definem não só o futuro de quem as habita, mas o de todo o planeta: elas são o principal motor de transformação no mundo contemporâneo. Considere, por exemplo, que as urbes abrigam cerca de 60% da população da Terra — o que é ainda mais expressivo no Brasil, onde, de acordo com o Censo 2022 do IBGE, 87,4% da população vivem em cidades1. No entanto, elas constituem também os lugares onde as lacunas sociais se tornam mais profundas, especialmente nos chamados territórios “emergentes” do Sul Global, nos quais as condições de desigualdade são alarmantes. Para se ter uma ideia: se o Brasil fosse um grupo de 100 pessoas, a metade mais pobre ficaria com, aproximadamente, apenas 2% da riqueza; situação semelhante ocorre em grande parte do Sul Global. 

Diz Oriol Bohigas (1925-2021), o arquiteto e urbanista que liderou a transformação espacial de Barcelona tendo no horizonte as Olimpíadas de 1992: “A cidade deve poder ser lida como um livro escrito pelo desenho urbano; se o design é bom, o cidadão entende seu lugar no mundo.”

Um olhar sensível, como o que salta das páginas de Pequenas tentações: cidades, arquitetura e outros passeios, de Eduardo Andrade de Carvalho, é a porta de entrada para entender por que vivemos de uma forma ou de outra em determinado lugar. A obra, recém-lançada pela BEĨ Editora, nos convida a navegar pelas urbes com mais clareza — e querer saber por que alguns conseguem “viajar” sem resistência e outros não. Afinal, por que há localidades onde nos sentimos seguros enquanto outras, de aparente semelhança, provocam um medo que nos paralisa, mesmo sem ameaças concretas à vista? Por que existem lugares nos quais sentimos um frescor no meio de verões rigorosos e, em outros, com condições climáticas parecidas, parecemos derreter? Por que em algumas cidades correm águas limpas e abundantes, enquanto, em outras, os rios foram enterrados e poluídos — sendo a água a fonte da vida ainda não substituível por qualquer tecnologia feita pela humanidade? 

Eduardo Andrade de Carvalho, autor de Pequenas tentações: cidades, arquitetura e outros passeios. Crédito: Renato Parada.

Simplicidade e força

Como arquiteto-urbanista, ao terminar a leitura do livro de Eduardo Andrade de Carvalho me pergunto: o que há de diferente nas cidades onde podemos objetivamente viver bem? As urbes que hoje conseguem se “escrever” e se “expressar” claramente para o habitante, o visitante ou o mero transeunte seguiram princípios simples, porém fortes no design e no âmbito do que deve ser priorizado: elas criaram lugares (itinerários) entre um e outro espaço (por exemplo, entre um parque e uma escola); encontraram soluções espaciais a partir do uso de dados e da compreensão profunda dos territórios (recursos próprios das abordagens da economia e das ciências sociais); transformaram o desenho urbano na escala das necessidades dos moradores, dando-lhes dignidade.

Ou seja: as boas cidades não só construíram casas, escolas, parques ou calçadas como também entenderam de que maneira as pessoas vivem em um determinado lugar, quais são suas emergências, e, com essa perspectiva, propuseram maneiras de conduzir-guiar-transportar seus cidadãos entre dois pontos — como no caso da escola e do parque, para continuarmos na mesma linha. As urbes que lidam, por exemplo, com o modo pelo qual as pessoas se deslocam facilitam as rotinas dessa população circulante quando atentam para possíveis entraves à mobilidade de tais cidadãos, priorizando a sua solução. O resultado disso são cidades fáceis de viajar, de descobrir, de “ler”; enfim, são lugares melhores para se viver.

Espaços para a democracia?

No texto “Em defesa das calçadas”, Eduardo Andrade de Carvalho escreve algo que parece óbvio, todavia frequentemente é esquecido:

Não é à toa que Jane Jacobs, no clássico e maravilhosamente bem escrito Morte e Vida de Grandes Cidades, dedica os três primeiros capítulos a calçadas e a questões da vida urbana que dependem diretamente delas: segurança, contatos e, curiosamente, assimilating children. Para Jane Jacobs, o movimento de pessoas numa calçada não é importante apenas para a segurança da rua ou para estreitar a relação entre os habitantes do mesmo bairro: a calçada — que é também um ambiente para crianças se divertirem sob o olhar de adultos — tem ainda uma função pedagógica, civilizadora.

Em muitos lugares — inclusive em São Paulo — as calçadas não são consideradas públicas e sim uma extensão de uma casa, de um edifício; ou seja, não fazem parte daquilo que constrói a cidadania, o espaço comum, o lugar compartilhado e de encontro. 

Em termos de urbanismo, uma das transformações mais emblemáticas do século 20 aconteceu exatamente em Barcelona nos anos 1990. O citado Oriol Bohigas foi o líder do desenho urbano por trás do grande projeto que abriu a cidade ao mar, trouxe equipamentos educacionais e culturais para os bairros mais distantes (e pobres) e buscou conexões ambiciosas dos centros com as periferias. Conforme mencionado antes, a pretexto dos Jogos Olímpicos de 1992, o arquiteto e urbanista colocou a metrópole catalã “na boca de todo o mundo”. Antes de assumir o cargo de Delegado de Planejamento Urbano da cidade, a partir do qual desencadeou as mudanças, quando ainda estava no Laboratório de Planejamento Urbano de Barcelona, na Universidade Politécnica da Catalunha, Oriol já refletia sobre a necessidade de tornar as cidades mais conectadas. Assim, no momento em que surgiu a oportunidade para isso, colocou em prática uma ideia profundamente simples e revolucionária: não se trata apenas de técnica ou de conhecimento; trata-se de tornar as urbes mais democráticas; de gerar espaços para a expressão da identidade coletiva (como as calçadas, aliás). 

Tal mudança não ficou apenas no discurso. Oriol implementou em Barcelona o “urbanismo de proximidade”, que, em vez de criar enormes projetos rodoviários ou construir infraestruturas monumentais, procurou responder às necessidades básicas das pessoas “de casa para fora” — para que, em seu ambiente próximo, pudessem resolver alimentação, educação, saúde, cultura, recreação e bem-estar; além disso: que isso acontecesse em territórios integrados. Dessa maneira, o desenho urbano da metrópole espanhola deixou uma lição e tanto. Transformou-se, na verdade, em valor político; foi protagonista de encontros e ressaltou o papel democrático dos espaços. 

Transformações urbanísticas em Barcelona reforçaram o papel democrático dos espaços públicos.

Derrubando muros

No design urbano, existem lugares que convidam a reflexões, por meio das quais é possível “se envolver em conversas”. Algo como um diálogo com uma cidade ocorre quando o autor de Pequenas tentações revela sua experiência ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro:

Mas a primeira impressão do paulistano que se hospeda num bairro como Copacabana, por exemplo, é que o carro não é apenas desnecessário: ele é antes de tudo um incômodo (…)

(…) Porque Copacabana tem uma densidade populacional suficiente para justificar o pequeno comércio local, aberto à rua — o que dispensa a viagem com carro a shopping centers no subúrbio.

(…) Essa população mora em edifícios geralmente com comércio no térreo, sem muros, alinhados à calçada — como acontece nas cidades mais agradáveis do mundo, como Paris e Roma. Essa relação amigável do edifício com a rua, como recomendada por Jane Jacobs em Morte e Vida de Grandes Cidades, deixa o ambiente mais vivo, mais transparente — e, portanto, mais seguro. (Ao contrário do que acontece em bairros paulistanos como o Morumbi, onde muros infinitos deixam a cidade deserta, criam becos e, claro, espaços ideais para assaltos.

É assim que, muitas vezes sem saber — para responder a modelos de desenvolvimento que não queremos ou não sabemos questionar —, afastamo-nos das “cidades ideais para viver, de referência”, colocando barreiras, colocando muros. 

Permita-me apresentar o oposto disso, recorrendo à minha trajetória profissional.

A história do Urbanismo Social começou a ser escrita em Medellín nos momentos mais difíceis — quando ela era a cidade mais violenta do planeta — e implantou em seus territórios projetos, formas de encontro e de habitar os bairros mais desiguais de um modo melhor. Restituiu dignidade. 

Alejandro Echeverri, arquiteto, designer, líder do Urbanismo Social soube — com a cumplicidade do então prefeito de Medellín, Sergio Fajardo (2004-2007) — contextualizar e inovar. Não se tratava de repetir como autômato as lições de seu professor Bohigas em uma cidade latino-americana, mas de usar o que aprendeu para enfrentar os desafios próprios do Sul e dos trópicos globais: pobreza, desigualdade, violência-tráfico de drogas, recursos públicos limitados para combater problemas, corrupção… 

A metrópole colombiana experimentou, então, uma grande mudança urbana (e cultural) por meio da implementação de projetos que buscavam conectar vários equipamentos e setores da cidade com melhorias no espaço público em ruas, encostas, praças e parques; da construção e recuperação de infraestrutura (de várias escalas) para educação, cultura, recreação e empreendedorismo; de melhorias na habitação e no habitat em áreas com riscos de deslizamentos de terra (ambientes altamente frágeis). Tudo isso, priorizando as áreas de menor índice de desenvolvimento humano que, como se sabe, usualmente também apresentam os indicadores mais assustadores de desigualdade e violência; indicadores esses, em grande medida, oriundos de décadas sem investimento sustentado; sem tratamento integral dos problemas urbanos e acesso a oportunidades. 

Pacificada, a favela Comuna 13 se tornou um dos pontos mais visitados por turistas em Medellín. Foto: Nacho Doce/Reuters.

Mais uma vez, a surpresa e a transformação de uma cidade — o desaparecimento de muros físicos e mentais — vieram graças a um desenho urbano cuidadoso e bem executado, com projetos emblemáticos e desencadeadores de mudanças, mais do que com grandes planos que, pela sua escala e afastamento, desconheciam a vida, afetos e as histórias das comunas, bairros e ruas. 

Tempos — e decisões — passaram a priorizar o cotidiano de estudantes, cuja visão se ampliou com o desaparecimento de seus muros escolares e a inclusão de espaços públicos para brincar e se encontrar. Tempos para pensar nas mulheres, sempre líderes em casa e nos bairros, em sua necessidade de socializar no espaço público, cuidar (de filhos, netos, famílias e comunidades). Bancos nos parques, creches de qualidade e oportunidades para as pessoas se tornarem empreendedoras em seu próprio bairro. Tempos para mudar a vida de centenas de milhares de jovens que queriam ir para a universidade, entretanto eram excluídos antes pelo projeto de sua cidade. Eram moradores de Medellín que não podiam ir de um lugar para outro em ruas arborizadas e seguras, mover-se de bicicleta por uma ciclovia ou fazer uso de um sistema de transporte público integrado — como os melhores do planeta — sem ter que gastar quase toda a renda de sua família apenas na tarifa; uma realidade que, com projetos de mobilidade e conectividade de grande e pequena escala, mudou em vários lugares da metrópole.

Minha experiência na Empresa de Desenvolvimento Urbano (EDU) da Prefeitura de Medellín, entre 2004 e 2007 — onde fui um jovem (e sonhador) arquiteto que trabalhou na transformação de bairros, instalações, grandes territórios, e também em ruas e “mentes” estreitas —, ensinou-me o valor político do urbanismo quando aplicado nas cidades (e não apenas teorizado ou proposto em teses ou pesquisas); quando, enfim, ele se torna desenho de qualidade voltado para as pessoas que têm mais dificuldades; aquelas que vivem nos territórios vulnerabilizados.

Um mundo em movimento?

De volta a Pequenas tentações

Doug Saunders — correspondente do jornal canadense The Globe and Mail em Londres — visitou dezesseis países, trinta cidades, pesquisou durante três anos e chegou a uma conclusão que espera não passar despercebida: o evento mais importante do século 20 está acontecendo na nossa periferia. O mundo está passando hoje, segundo Saunders, pela última grande etapa de migração humana do campo para a cidade: “nós vamos acabar este século como uma espécie completamente urbana”, escreve. Este movimento inclui dois ou três bilhões de pessoas — aproximadamente um terço da população mundial — e afetará (ou melhor: já está afetando) diretamente todos nós.

(…) Porque, para Saunders, antes de assistente social ou polícia, habitantes de uma arrival city precisam de crédito, educação, cidadania e estímulo a abrir pequenos negócios.

(…) Parla é uma cidade na Espanha que assumiu seu caráter de “cidade de chegada” e, com apoio do governo espanhol, montou uma infraestrutura para receber imigrantes marroquinos, que conseguiram abrir restaurantes, educar seus filhos entre espanhóis e se integrar socialmente. Como em qualquer cidade, o desenho urbano é fundamental para que uma comunidade de imigrantes funcione bem.

Passagens como essas da obra de Eduardo Andrade de Carvalho remetem, sem escalas, a um sem-número de questões para quem vive e se preocupa com as urbes contemporâneas. Como se sabe, o mundo está em crise, da mesma forma que as cidades (ou vice-versa): estão aí, escancaradas, as mudanças climáticas, a migração dolorosa, a exclusão, a desigualdade, a desinformação. Onde está a saída? O que fazer? 

Teddy Cruz, arquiteto e urbanista baseado na fronteira entre San Diego e Tijuana, diz que “as crises urbanas de hoje exigem novas teorias, novas formas de praticar, diferentes formas de saber e fazer”2. Da Universidade da Califórnia, com projetos pequenos, contudo fortes (sem o apoio de governos ou dos grandes setores privados), ele e os imigrantes nos mostram que há caminhos de encontro. Não basta fazer bons projetos se estão longe das pessoas. Aqueles que os “habitam” lhes darão sentido — ou não, se não houver criação coletiva. Não bastam somente discursos ou conversas: é preciso criar projetos e neles chegar a acordos e cooperações. Sua maneira de trabalhar ilumina um caminho para aquilo que o urbanismo tem potencial para ser em tempos de transformações e incertezas: uma ferramenta de mediação que universidades, especialistas e organizações públicas ou privadas podem usar. Com rigor técnico, perspicácia e capacidade de execução, esse “laboratório de soluções de fronteira” nos ensina que, mais do que respostas, precisamos renovar as questões sobre o que devemos fazer e como devemos fazer nas cidades contemporâneas, especialmente nas do Sul Global.

Capa do livro de Eduardo Andrade de Carvalho, lançado pela BEĨ Editora.

Presente e futuro

Uma cidade é um livro aberto, continuamente reescrito — sempre em construção, mudando, entregando novas histórias a quem quiser e puder “lê-la”. Suas ruas, calçadas, parques ou edifícios guardam memórias de sucessos e de fracassos em seu planejamento (ou aninhamento), de interesses imobiliários e de decisões políticas que foram tomadas. 

O livro de Eduardo Andrade de Carvalho, ao fim e ao cabo, funciona como um amigável convite para viajarmos e lermos as cidades — um passo fundamental para as transformações e mudanças que nossos tempos e problemas exigem, de modo que possamos projetar e moldar o futuro do planeta.


Juan Sebastián Bustamante Fernández é coordenador do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, arquiteto e urbanista.

Notas

  1.  Banco Mundial, 2022. ↩︎
  2.  Cf. https://cruzforman.com/filter/research ↩︎