Faz tempo que não escrevo por aqui. Andei ocupado, bastante. Vocês nem imaginam! Nossa, não queiram estar na minha pele… e preencha todo o restante de umas 5 ou 6 linhas com mais lamúrias sobre como sou mais sofrido do que todos vocês.
É muito humano isso, né? Gostamos de chorar nossas pitangas, de apontar o quanto somos miseráveis e sofredores, mas somente quando essa choradeira não implica na denúncia de alguma falha. Aí a coisa muda de figura e ninguém quer ser o sofrido miserável que merece atenção.
A falta de tempo é muita ocupação, muito trabalho, virtude. A doença é uma armadilha fatídica da existência, um sofrimento injusto. A falta de dinheiro igualmente… enfim, gostamos de contar misérias, de nos pintarmos assim. É uma espécie de massagem barroca no ego. E digo barroca porque, pra quem não sabe, o estilo artístico que alçou lugar nas escolas como “arma da Igreja contra os protestantes” é cheio dessas inversões fabulosas. A morte que transfigura-se em alegria, a escuridão que valoriza a luz, o sofrimento culmina em graça.
E por falar em Igreja, foi justamente lá que me ocorreu o pensamento do qual esse texto se expande. Já notou como aquele deveria ser um espaço de humildade e recolhimento e torna-se facilmente um palco para pessoas desfilarem suas virtudes? Uma cantora que se pavoneia e coincidentemente serve apenas em datas muito especiais, com a casa cheia. Um líder de pastoral que se ouriça todo pra falar no final da missa e anunciar as conquistas de sua “equipe”. Homens e mulheres que enchem os peitos, vaidosos, por assumirem cargos de responsabilidade em algum movimento carismático.
E quem é protestante ou de qualquer outra religião nem adiante se vangloriar de não fazer parte disso aí… é humano e, portanto, está em todos os lugares, todas as religiões.
Eu já fui ateu e creio que muita gente já sabe disso. Expliquei brevemente minha conversão num vídeo lá no canal. Mas enfim, isso não importa e sim saber que um dos motivos de minha fuga da fé foi esse padrão. Passei por muitos lugares e em todos encontrava isso… Ora, se nem isso Deus consegue limitar, só pode ser um conto de fadas mesmo.
Sei que assim como eu muitos acabam se distanciando de suas práticas de fé pelos mesmos motivos. Nossa vida já é tão tomada de hipocrisia, de egoísmo, de vaidades e vilanias, ter de lidar com isso também no meu espaço de diálogo com Deus parece ser algo realmente absurdo. Melhor rezar sozinho em casa!
Há vários problemas com esse “em casa” mas não vou elaborar aqui por não ser o propósito. Pensemos por enquanto apenas no quanto o vício, a hipocrisia, aquela necessidade de exibir-se, que você vê no coleguinha todo domingo pode ser um fator edificante, de reconhecimento de sua própria miséria.
Falando como Cristão, é justamente esse o norte pessoal de nossa fé: reconhecer nossas misérias e buscar a purificação em Jesus Cristo. Creio que outras religiões tenham princípios similares. Eu sei que Fulano é vaidoso e usa a pastoral pra se promover. Sei também que Beltrana trai o marido e fica posando de santa enquanto emite seus agudos no coral. Mas pense no padre de O Poder e a Glória, de Graham Greene: covarde, bêbado, que colocou no mundo uma bastarda… mesmo sendo padre! E como poderia ser diferente? Sei que não sou melhor, por mais que eu seja tentado a achar toda vez que os vejo alçados a papeis de destaque. A miséria deles também é a minha e eu próprio tenho meus inúmeros problemas, inúmeros vícios, inúmeros pecados. Inclusive, será que presto tanta atenção por escrúpulo ou por inveja, ressentimento? O que me garante que quando vejo Fulano inflar o peito no altar não sou eu o protagonista do Subsolo de Dostoiévski?
Conviver com isso é um exercício constante de humildade, de entender que não somos melhores que ninguém. E Deus é tão perfeito que até esse detalhe ele fez questão de arquitetar. Quem já leu Santo Agostinho ou ao menos tem acompanhado nossas reflexões semanais, sabe que nada é por acaso e nada está livre da influência divina.
Um abraço e espero que tenham gostado desse texto de quaresma feito às pressas, afinal, já disse que estou sem tempo, né? Vocês nem imaginam…