
A minha vontade de ler este autor surgiu depois de o ter visto conversar com Tati Bernardi, uma escritora de que gosto muito, no Fólio, no final do ano passado. Podem ver a conversa aqui.
Quem matou o meu pai
Em «Quem matou o meu pai», Édouard relata o retorno à cidade natal onde cresceu, numa das regiões mais pobres de França, perante a doença do pai.
É também o retorno a uma infância dolorosa, onde teve de lidar com a vergonha dos pais por ser diferente:
- Porque é que tu és assim? Porque é que te portas sempre como uma rapariga? Toda a gente na aldeia diz que és paneleiro, e nós que aguentemos a vergonha por causa disso, toda a gente se ri de ti. Não percebo porque é que fazes isso. (da mãe)
(...)
Uma noite, no café, disseste diante de toda a gente que preferias outro filho em vez de mim. Durante semanas, tive vontade de morrer. (do pai)
Édouard também aborda o tema da pobreza em França e a relação da masculinidade (ou de uma certa ideia de masculinidade com a mesma).
A masculinidade - não te comportes como uma rapariga, não sejas paneleiro - equivalia a sair da escola o mais depressa possível para se provar aos outros que se era forte, o mais cedo possível para se mostrar que se era insubmisso e, portanto, pelo menos é o que deduzo, ao construir-se a própria masculinidade era-se privado de uma outra vida, de um outro futuro, de um destino social diferente que os estudos poderiam tornar possível.
É um livro pequeno, que se lê de um só fôlego, mas intenso, com uma escrita poética e incisiva.
O colapso
Se o livro anterior se foca na morte do pai, «O colapso» foca-se na morte do irmão que o autor não via há 10 anos e que tinha graves problemas de alcoolismo. Quando ele é internado, Édouard vai ter com a mãe para tratar dos pormenores da sua morte, enquanto vai refletindo sobre o seu passado conturbado com o irmão.
Ele estava morto mas ela era a única que tinha o direito de o fazer morrer. Ele tinha 38 anos.
Mais um livro intenso e muitíssimo bem escrito. Estou fã deste autor.
Falta-me ler um livro do autor (Para acabar de vez com Eddy Bellegueule) para completar esta trilogia.