(...)«-- Muito obrigada. Agora todos os meus cuidados, deixe-me que lhe diga, são esta criança que o senhor prendeu e lhe vota uma paixão de morte.
-- À qual correspondo...
-- Decerto. Eu sei quanto o senhor a estima, porque ela para mim não tem segredos. Mas olhe, amor, amor passa a vapor, ainda mais com moços estrangeiros que hoje estão aqui, amanhã em cascos de rolha. Não quer dizer que eu duvide do seu carácter, senhor Barrelas, não. Como mãe, queria apenas perguntar-lhe: que pensa do futuro da minha Hélia?
-- O que penso? Penso muito bem. E o que pensa ela, e a senhora sua mamã?
-- O que pensamos?... Olhe, a falar-lhe franco, senhor Barrelas, nós pensamos que, se Hélia é farta e mimosa hoje, amanhã pode não sê-lo.
-- Sim, há contingências...
-- Pode não sê-lo, porque basta o senhor deixar Paris...
-- Não penso nisso.
-- Mas pode ser obrigado a fazê-lo...
-- Posso.
-- Que faria então de minha filha?
-- E que faria Hélia nessa conjuntura?
-- Senhor Barrelas, vamos ao fim: se ama minha filha como ela o ama, porque não há de assegurar-lhe o futuro?
-- Hem?
-- Porque não casa com a pobre criança? É tão gentil!...
Fiquei um momento hesitante sobre se devia socorrer-me do cinismo ou da franqueza. O cinismo divertir-me-ia até à porta da mairie, a franqueza levar-me-ia a despir a luva branca que me protege das mãos sujas. Optei pela resposta eclética:
-- Mas, minha senhora, eu sou celibatário por princípio e pela força das circunstâncias. Em princípio, porque o casamento não resolve o problema da felicidade para ninguém; pela razão do momento, porque não estou em estado financeiro de casar. Tenho a fortuna comprometida, como é fácil reconhecer...
Joguei então com os números que o caseiro me expedira, empilhados debaixo do pesa-papéis; fui persuasivo e patético. E senti o sumo deleite de ver rolar uma lágrima nas faces da mamã, rendida ao meu silogismo final.
-- Que conta fazer?» ...
(continua)