(...) «Tive então, num encolher de ombros, uma frase esbelta, de capa e espada, que lhe fez tremer as entranhas: 
  -- Devorar o resto e queimar os miolos.
  -- Ai! e minha pobre filha?
  -- Sua filha, minha senhora, é muito encantadora, muito virtuosa, muito prendada para não encontrar um partido como a menina Ângela.
  -- E o tempo que tem perdido com o senhor?
  -- Minha senhora, quando a sua filha pôs os pés nesta casa não contraí compromisso nenhum com ela. Aqui dentro há o valor de 35.000 a 40.000 francos. Só aquele mandarim, que está ali em cima do piano a rir da gente, vale em oiro cem vezes quanto pesa. É tudo dela.
Calou-se a boa matrona e acabei de sossegá-la, quando, após me haver convidado a assegurar-lhe a posse em tabelião, prometi todas as escrituras desta vida e uma saudade eterna lá no alto.
Mal a mamã e sua odorífera menina retiraram, a Surflamme, correndo a enroscar-se-me ao pescoço e roçando-me a face, miou:
  -- A mamã é tola, dize! Meteu-se-lhe em cabeça casar-me contigo e, pronto, tiveste de sofrer a carraça. Não a mandaste pentear macacos, mas levou as mesmas voltas. Bem hajas tu!
Beijei-a sorrindo e ela, mergulhando a distância os olhos nos meus, tornou:
  -- Não estás arruinado, pois não?
  -- Para lá caminho. Por ora, ainda há para o beefsteak.
  -- A mamã é tola... Julga-se muito esperta!
Hélia beijou-me, abraçou-me, arrastou-me para os seus braços e, perante aquela entrega à minha malícia manifesta, amei-a, amei-a. Era alguma coisa a ternura de Satanás rendido à fragilidade confessa do bichinho de saias.» ...

                                                                                  (continua)