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Dez23

I - Jardim das Tormentas. 1913.

Manuel Pinto

(...) «O carregador veio buscar as malas. Peguei no chapéu e na bengala e disse:
  -- Vamos, que o comboio é às dez e cinco.
  -- Vamos! Vamos, quem?
  -- Quem? Nós ambos, Ninette.
Beijei-a na boca, amontoei-lhe a toque, as luvas e o regalo sobre os braços.
  -- Assim não; assim não se toma uma decisão tão grave.
Empurrei-a para o táxi-auto, passámos pela concierge de Ninette, e às dez e cinco tomámos o rápido para Berlim. Na noite seguinte estávamos na Friederichstrasse. Altas horas, Ninette dizia-me:
  -- E a Surflamme?
  -- ?
  -- Bebe lumes-prontos em champanhe?
  -- ?
  -- Distrai-se com o empregado de Félix Potin?
  -- ?
  -- Continua mais galdéria?
Amei Ninette 24 horas. Ela amava-me muito por mim e infinitamente por si. Amava-me como se ama em verdade, de amor directo e inquebrantável. Ninette era Ninette.
Andei pela Itália e pelo Egipto, passeando a esbelta rapariga, que os homens me cobiçavam. Debalde implorava a Ilusão infinita que me iludisse. Provara a peçonha da Ciência pela boca da Surflamme, e ficara envenenado. Receava a cada momento que o meu eu estoirasse na loucura irreprimível que o trabalhava. Porque as coisas, os seres, a fragante Ninette apareciam-me, sem o véu da ilusão, em suas subjacentes ossadas.»
                                              H. B.
                                 (Hilário Barrelas)

publicado às 18:14