(...) « -- Então, mulher, vende-se um macho -- balbuciou Isidro, de lágrima no olho, para Rosária que chorava como uma vide.
  -- Caiu a maldição em nossa casa!
Sombriamente, o almocreve aparelhou as bestas, assoou o Jaime, e despediu-se:
  -- Até logo, mulher!
  -- Aonde vais, cabo dos trabalhos?
  -- Vou ter com o Pinto, de Vilarinho; se ainda der as vinte e duas moedas e um quarto pelo Toiregas, tem besta.
Assim se chamava o macho, do nome do homem que o criara -- nome que nunca mais perdeu através da longa catréfia de donos que o tiveram à manjedoira.   
  -- Fica-te com Deus -- e, cavalgando e picando, soaram as lajes da calçada e riram as campainhas dos machos a sua tarantela alegre.
Estava um dia brando, sem sopro de aragem nem sol de crestar; grandes vagas de sombra arrastavam pela terra suas asas de corvos descomunais. Mas, pela folha, o canto das mondadeiras repercutia aos jubilosos tons da Primavera.
Um adiante de outro, os machos choutavam lestos e regalados. Das veigas, para o rio, subia um hálito perfumado de centeios a pular ao sol, e eles, tanto como as demais criaturas, eram sensíveis à natureza, tendo consciência da boa quadra com os caminhos enxutos e a serra vestida pelo maio tintureiro. Davam-lhes solércia e leveza as albas claras e entorpeciam-nos os poentes macerados. A hora quente do meio-dia era a que mais lhes instilava ânimo garboso e vivaz. 
(...)
Mal despediam do povo, palpitavam logo pela direcção e jeito do amo o destino da jornada. Conheciam de cor as aldeias em redondo, e as portas, enramalhetadas com loiro, das tavernas. Aí quedavam muitas vezes e esperavam o dono tempo sem fim. De princípio tiveram veleidades de chamá-lo e orneavam. Depois, reconhecendo quanto a sua voz era vã, permaneciam mudos, no Verão batendo a pata a sacudir a mosca, no Inverno, de olhos semicerrados a dormitar. E humildes e resignados aguardavam que o Isidro, volvidas às vezes muitas horas, voltasse trôpego das pernas, borracho e por isso mais brutal. Eles reconduziam-no sonolento, ou a cabecear no aparelho, com o mesmo passo fiel e de alma não menos submissa, sem errar um palmo, noite fora.
Ao pescoço, como uma abelha zunideira, tiniam as campainhas. Posto que impiedosas, tangendo-os sempre para a frente, gostavam de as ouvir. Eram a voz do mundo quando o almocreve, pelas noites escuras, desaparecia sobre a albarda, encolhido na sombra muda, que lhes falava dos seres universais. E, dim-dlim-dim, não erravam caminho.
À força de bater as cercanias, haviam-se familiarizado com estradas, caminhos e atalhos, quintas e casais, penhas e florestas. Tudo apreendiam os seus olhos e mediante eles tudo contavam à natureza e se contavam uns aos outros, nanja aos homens, que não eram bastante simples ou sagazes para os compreender. Nas horas folgadas, o almocreve desdobrava sobre eles uma cantiga, colorida como os giestais em maio. E tornava-se-lhes a carga mais leve e mais curtas as distâncias. Não tinham amor ao dono, sem que contudo lhe votassem ódio. Os homens eram todos os mesmos, sabiam-no à força de andar de mão em mão.» ...
                                                                                   (continua)

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Nanja   não, nunca.