(...) «Patinhando na terra empapaçada de leite, decidiu-se o Cleto a desaparelhá-lo. Ao barulho das latas, os pastores assomaram pelos barrocais, e gritou-lhes:
  -- Botai aqui a mão, rapazes!
Acudiram daqui, dalém, com a gaita no surrão e a cacheira no ar; e uns pela rabadilha, outros pela samarra, puseram o cavalo em pé. O Cleto amimou-o e, reajustando o aparelho e tampando os potes com o resto do leite, tangeu-o com brando jeito: 
  -- Anda lá... anda, alminha do Senhor!
Entesou-se, crispou todas as energias no arranco e rompeu a andar. Mas o seu passo era incerto, titubeante, aos torcilhões, onde vou eu cair.
  -- Está a ensaiar o passo de dança -- disse um pastor com sorriso alvar.
  -- Não bota à vila, coitadinho! -- sentenciou outro em tom de reprimenda ao gracioso.
O Cleto engalfinhou-lhe os dedos pelas clinas a ampará-lo. Mas breve as pernas do cavalo fraquejaram de novo, sacudidas por tremor que se espraiava pelo soventre, e ajoelhando com brusquidão caiu para a banda, desamparado, como se o estatelasse um raio.
O Cleto sovou-o a pontapés, arrepelando-se e chamando-se um desinfeliz da sorte.
  -- Vá por besta, tio Cleto! -- sugeriu um dos rapazes.
Experimentou ainda pô-lo em pé, ora à força de catanada, ora com vozes de incitamento. Mas o animal nem buliu, de olhos esgazeados, perdidos num horizonte de bruma.
O Cleto deu-lhe um último trompaço na morca e, a praguejar, desafivelou a cilha e safou as cangalhas para fora. Depois de as depositar num penedinho com os potes, meteu esbaforido para a aldeia à cata de quem lhe emprestasse uma jumenta. E deixou-o para ali, rodeado de cães que, língua em colher, lambiam o leite do chão.
Quando reapareceu com um jerico, o cavalo estava sobre os joelhos, e mansamente roía os tojos do caminho. E, movido por um sentimento, não saberia dizer se de utilidade, se de dó, enxotou-o na direcção do povo a pontapé, depois à pedrada até vê-lo ir.
Trôpego e triste, espontando as urzes e os fetos novos, encaminhou-se o garrano para o estábulo, indiferente a tudo o mais, e essa noite dormiu-a a sono solto.» ...
                                                                                                              (continua)

Surrão — bolsa de coiro dos pastores, fato velho, desmazelado.
Trompaço — encontrão, cachação, murro.
Morca — barriga, bandulho, focinho, pequeno peixe.
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