(...) «Manhã cedo, veio o Cleto e, sem dizer bus, tirou o aparelho, cangalhas e latas do leite para a rua. De soslaio, o cavalo seguia-lhe a manobra, à espera do cachação que era, de costume, o leva-arriba. Mas, desta feita, o dono entrou e saiu sem lhe tocar.
Afeito à volubilidade dos homens, não lhe causou o facto estranheza. Sabia que era fado seu marchar, e as amenidades da ilusão desaconselhava-lhas o velho instinto de malhadiço. E voluptuosamente foi-se deixando ficar deitado na palha, que nunca a cama era tão doce como de manhãzinha, entre o sossego da noite a extinguir-se e horas ásperas de jornada a tropicar.
Estava nesta grata lasseira, ouviu lá fora um zurro. Ouviu-o retumbar uma, duas vezes, zurro perfeitamente jactancioso e optimista de jumento estupidarrão e bem tratado. E, depois dum segundo de casuística, vencido mais que tudo pela curiosidade, ergueu-se e foi espreitar. O Cleto aparelhava a  azémola que de véspera o revezara na jornada para a vila, enquanto Joana, toda meiguiceira e atenciosa, lhe ia chegando à boca, uma a uma, molhadinhas de trevo.
  -- Mas que grande lambão! -- considerou para consigo, roído de inveja ante o rival, de olhinhos semicerrados de gozo, orelhas guichas satisfeitas, a retraçar o que lhe davam. Mas aquilo era um autêntico esbulho! Uma pitança assim, trevo da horta à hora do dejejuadoiro, a quem cabia senão a ele? Cabia, pois não cabia, e saindo fora resolutamente, pregou uma dentada no burro, e apresentou o focinho à mão liberal de Joana. Mas o Cleto descarregou-lhe de mão aberta duas cutiladas nas orelhas, e ele voltou para a loja triste e odiando.
Moinou à solta todo o santo dia, tosando as febras e giestas dos cômoros, no meio das boieirinhas que andavam ao cibato e não tinham medo dele. E à boca da noite recolheu ao estábulo contente e meio farto.
Uma vez ainda empreendeu o Cleto deitar-lhe a cilha; metade por manha, metade por fraqueira, deitou-se no chão, e nem a poder de castigo ou de afagos se prestou à manobra. O dono dali em diante passou a largá-lo todas as manhãs à gandaia, e ele, ainda que sob o despeito de tamanho desprezo, sentia-se conformado com a mofina. Livremente ia pastar pelos atalhos e ribanceiras das fontes, mas limitava-se a rondar em volta do povo, que não lhe consentiam os esparavões nas jogas deitar mais longe. E ao bater das ave-marias era certo na loja, folgado, regalado das ervinhas e incensos de Nosso Senhor, menos dorida a pele sobre os ossos.
                                                                                          (continua)
Guicho — esperto, espevitado, vivo.
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dejejuadoiro
n substantivo masculino
m.q. desjejum
n substantivo masculino 
1 ação ou efeito de desjejuar(-se)

2 alimento que se ingere pela manhã para quebrar o jejum
mofina
n substantivo feminino 
1 circunstância adversa; situação dolorosa; desdita, infortúnio, desgraça, azar
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"