(...) «O Isidro meteu na boca da justiça as vinte e duas moedas que lhe rendera o macho. Foi um dia de luto naquela casa. A Rosária consumiu as meninas dos olhos a chorar; três dias e três noites orneou o Contrabandista pelo amigo. Quando alguma besta passava na rua, alvoroçava-se todo, gemendo de esperança.
A primeira vez que se encontrou com o cavalo do leiteiro, ele, que era tão orgulhoso e soberbo, quase o beijou; e, dali para o futuro, ainda muitos passos distante, já o seu relincho lhe dava a salvação.
O garrano do Cleto também estranhou vê-lo só, sem o parceiro. De olhar triste, o macho pouco lhe soubera contar: o Toiregas tinha ficado à porta dum homem de carapuça, ele viera para a loja, só, ao cair da noite. Não conhecia o resto: para eles, as coisas nunca tinham fim. 
E lá continuava, mais resignado e saudoso, como naquele dia, de rota para uma aldeia próxima a levar azeite. A tarde declinava. E deixando o Cleto atrás em sua ronceirice, foram dar à porta da taverna ainda com sol.
Sentado num mocho, à fresca, que não era hora de freguesia, o vendeiro catava a filha. O almocreve salvou:
  -- Viva lá, tio Joaquim!
  -- Olá, seu Isidro, então por cá?
O almocreve, de rédeas na mão, adoçando a voz, explicou ao que vinha. Trazia-lhe ali uma carga de azeite, claro como o oiro, verdadeiro como Cristo, mesmo a matar para a couve troncha e o bacalhau da Semana Santa. Como era ocasião de se gastar o dobro, havia de estar precisado...
Sem interromper a trabalhosa tarefa dos polegares, o taverneiro ripostou-lhe num sorriso velhaco. "Ah! ainda tinha azeite, e o mundo, amigo, estava-se ninando para festas e santidades. Tanto lhes servia o azeite como a banha de cerdo..."
(...)
  -- Pois ainda tenho azeite -- repetiu o taverneiro ao cabo de momentos.
  -- Breve o gasta. Filhoses e bolos-podres bebem nele como sanguessugas.
(...)
  -- E note que o último nem por isso agradou muito...
Torcendo os lábios sob o chapelão, redarguiu o almocreve com voz untuosa:
  -- Pois se nem Cristo agradou a toda a gente e mais era Deus! Este é o que se chama o suco da azeitona... Deixo-lho barato... um cruzado... medida velha...
A língua do taverneiro estalou:
  -- Irra, mais em conta o traz o Corneta! E ele anda para o povo...
O Isidro deu-lhe uma gargalhada que resumia todas as tranquibérnias do rival. Olha o Corneta! Havia lá tiborneiro maior?! De resto, o artigo andava pela hora da morte.
E como o vendeiro, um ciganão, amuasse, escorregou-lhe na orelha um preço imperceptível:
  -- Tem razão de queixa?
Mas a boca de má esquadria retorquiu-lhe:
  -- Valha-o Deus, seu Isidro, valha-o Deus!
Uns homens que vinham da trabuzana, peito à mostra, a enxugar o suor às costas das mãos, pediram meio quartilho. O taverneiro entrou dentro a aviá-los, e ele quedou à porta, mirada aqui, mirada além, deitando contas à vida.
O macho fitava-o com olhos de piedade, brandindo por costume, que as moscas já não mordiam, a comprida cauda. Entardecia a olhos vistos. Os cordeiros recolhiam dos campos a estalar de fartos, e os galos juntavam as fêmeas num gó-gó baixo e imperativo de monarcas. De quando em quando, passava um cachorro, de rabo entre as pernas, rente aos muros, avezado a furtar-se à habitual surriada dos rapazes.» ...
                                                                                                                                    (continua)
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Ninar fazer ó-ó; não fazer caso.
Tranquibérniasburlas, vigarices, trapaças.