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Jan24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «O Isidro fartou-se de proferir bem-hajas, e ela tornou:

  -- Diga: vossemecê tem meninos?

  -- Sim, menina. Tenho um rapaz do primeiro matrimónio, e agora três pequenos e uma miúda, fora o que a graça de Deus guarda na barriga da mãe...

  -- Pois eu trago-lhe aqui dez tostões para doces, para os meninos, que manda a minha senhora. Com o hóspede que agora chegou, as perdizes caíram mesmo do céu.

O almocreve rejeitou o dinheiro; a moceta meteu-lho no bolso, à fina força:

  -- Se não aceita é uma ofensa; é uma ofensa que faz.

Abalou dali sem saber o que devia pensar daquele passo. Mas ficou confiado, certo de que o delegado se lembraria da boa febra das perdizes na hora do julgamento.

Foi para juízo. As testemunhas pronunciaram contra ele um depoimento esmagador. Quando o senhor delegado se ergueu na cadeira, um hálito de ar fresco penetrou no peito cerrado de Isidro. Dali a pouco, porém, fazia-te branco como a cera. Entre outros dizeres que não compreendia, o senhor do púlpito invocava-lhe a mancebia, os maus precedentes, a ruim fama de que gozava no povo.

  -- Tanto mexeu comigo -- dizia mais tarde o almocreve com os olhos rasos de lágrimas para o Cleto que esperara por ele -- que cheirei mal.

  -- Apanhaste a carga toda -- soprou o outro arqueando as sobrancelhas, e pondo-se a marchar à frente que a companhia dele agoniava.

Assim foi. Cadeia a remir, custas e selos, não bastavam vinte moedas.

O Isidro meteu para casa a arrepelar-se. Que ia ser da sua vida? Encontraram Isaac que andava à caça e que se chegou a eles a informar-se. Ouviu, ouviu e disse-lhe com fero semblante:

  -- Pois você fiou-se lá no tal fidalgote das dúzias?... É dos tais que comem a isca e sujam no anzol. Sabe o que eu fazia para me tornar lembrado? Ia-lhe deitar o fogo à casa. Céptico e engulhado, o Cleto observou:

  -- Pois quem quer dares e tomares com os cães da justiça?! Só os pobres do entendimento. São capazes de rilhar a madre a uma égua e ela a galope. O Isidro ficava sem a última aguilhada de terra.

  -- Não tenho onde cair morto...

  -- Melhor para ti que nunca mais morres! -- respondeu-lhe o Cleto sarcástico, cozido com a pouca-vergonha.» ...

          (continua)

aguilhada

a.gui.lha.daseparador fonéticaɐɡiˈʎadɐ 
nome feminino

antiga unidade de medida agrária equivalente a quatro metros quadrados
https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/aguilhada

publicado às 18:39