18
Mar24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Nessa tarde Isaac Claro sentia a inebriante regaleira de viver. A Primavera, o amor e a força andavam em volta dele como três aias de bom servir. Já os centeios apendoavam, e chegara o tempo das romarias e arraiais. Grimpadas às cerejeiras, as raparigas debicavam as cerejas, de pé nu e perna morena à dependura por entre os ramos, e, nas hortas, os mostajeiros serôdios, de tão esquisito sabor, começavam apenas com a inflorescência.
Isaac, como todos os ociosos civilizados da aldeia, tinha o culto da bela sazão, nada o encantando tanto como os dias de sol, em que a figura dos homens, pelos caminhos, se nimba de tons soberbos, velasquenhos, de rei da criação, e a melancolia é varrida da fisionomia das coisas. Andava satisfeito, além disso, no amor-próprio: o rapaz que lhe cortejava a amante atirara-o pela porta fora, a cachação e a pontapé; e ela, volvidos dois meses de ruptura, voltara a ser a amante apaixonada, rendida agora, de todo, à sua soberania de macho. Mas, acima de tudo, saboreava a revolução muda que, involuntariamente, provocara no seio de Adelina. A mulher acordara nela ao contacto da mal disfarçada voluptuosidade que ao pé de si se estava vivendo e, mormente, ao contacto das fortes manifestações da sua varonia. A inveja e o ciúme estremeciam a cada palavra na boca da mocinha; se ele aparecia, chorava, e punha-se a tremer, como uma paveia ao vento, sempre que se fechava com a irmã na Casa da Roda. Uma vez fora surpreendê-la a chorar e, sob os seus afagos, desandara cabisbaixa, num amuo em que a puberdade alvoroçada retrocedia a jeito de criança.
Entendedor em psicologia feminina, Isaac fremia de todos os palpites daquele sangue e coração revoltos. Não era já uma só vez, nem duas, que se surpreendia de imaginação enliçada ao gozo prelibado duma perversão. E revolvendo-se na impureza, descia a uma das reflexões superficiais que acodem automaticamente, que nem sequer são importunas e se esvaem qual zumbidos no ar: como se poderia aguentar entre as duas?! Diabo de sortalhão!
Estava assim cogitando, a limpar a caçadeira, quando a Maria Carradas apareceu a passos de fera:
-- Muito boa tarde!
-- Muito boa tarde.
-- Venho buscar o dinheiro que ainda me deve...
Isaac ergueu-se a puxá-la para um canto, donde os pais não ouvissem. Em voz desabrida, retorquiu-lhe a criatura:
-- Se me tira de parte para se desculpar, perde o tempo. Quero cá o meu dinheiro, o mais é nisga.
-- Quem lho nega, mulher?!
-- Quem mo nega?! E vai em quatro meses para me dar uma bisbórria! Homens, até parece propósito!
-- Sossegue, vai-se-lhe pagar. Quanto lhe devo?
-- Nem você sabe quanto me deve! Vá, pergunte à sua amiga quanto me deu...
-- Deu-lhe sete mil réis, não é verdade? Restam catorze... Amanhã, o mais tardar depois, lhe serão entregues.
-- Quero-os para aqui já. Promessas e cantigas não enchem barriga. Mas que fadário! Raios partissem o cordão e a hora em que tive a ideia de lho vender! Olhe, senhor Isaac: paga o que deves, sararás do mal que tens. Não podia pagar, não comprasse...
-- Cale-se, mulher! Já lhe disse que, depois de amanhã o mais tardar, recebe a importância. As coisas nem sempre correm...
-- Não me importa, quero cá o meu dinheiro!
-- Não o tenho aqui, como lho hei-de dar?
-- Ai sim? Vou-me queixar ao senhor padre Claro...» ...
(continua)
Apendoar — deitar bandeira (o milho).
n verbo
transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo
1 galgar (elevação) com o auxílio dos pés e das mãos, subir (a), trepar (a); escalar
Ex.: <g. a serra> <grimpou nas árvores> <agarrou-se à pedra e pôs-se a g.>
prelibado »» prelibar
n verbo
transitivo direto
sentir prazer antecipadamente ao pensar em (algo); antegozar, antefruir
Ex.: p. as delícias da viagem
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
publicado às 19:58