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Dez23
I - Jardim das Tormentas. 1913.
Manuel Pinto
(..) «Ao cabo de catorze anos, que tantos consumiu em visita e adoração à Terra Santa, desde os lugares murados onde um deus manjou do nosso negro pão, até as veigas onde a santa jerica pastou erva, voltou o padrinho. E à entrada da dilecta S. Pelaio, esfregou os olhos. Esfregou os olhos a tanto que mudara tudo, que chegou a supor-se num dos pesadelos diabólicos dos anacoretas! A aldeia tinha crescido, galgando do outeiro para a planície o casario de colmo e até de telha moirisca, os meninos eram homens feitos, muitos dos velhos pó sepulcral, e -- oh turpitudo! -- como se fosse dia de festa, de salto reconheceu que o pecado volvera a assentar ali seus largos e possantes arraiais. De lés a lés da praça, bailadeiros e bailadeiras batiam, tocando castanhetas com as mãos, suas chulas desenvergonhadas, e o sobrinho, o seu imediato em Cristo, com amiga e filhos à beira, sacripanta num rancho sacripanta, imolava a perna gorda e loura dum chibarro de espeto. E, oh cego e cometedor visco das riquezas! breve se informou de que se havia provido na freguesia, tendo-o dado a ele, beato Gonçalo, como cativo e morto nos ergástulos dos infiéis!
Depois de esfregar os olhos, a divina revolta acordou no peito do peregrino. Das profundas da alma invocou um bom ensino do Céu para a populaça, e para o tredo sacerdote e mau sobrinho todos os flagelos que mirram o corpo e mirram o ânimo e fazem do excomungado um chupadinho das carochas. Mas os saltarinos continuaram a tripudiar na ribaldeira e o padre a deglutir a boa fêvera apetitosa. Subiu então a um paredal e rompeu em voz irada a bradar e a maldizer. E o povo acudiu em grande bulha, homens, crianças, anciãos -- a gente que santificara -- e, depois de lhe ouvirem o protesto, à testa deles o reitor, de cenho carregado, em seguida de rosto alvar, com chufas e à pedrada o correram para longe.
E ele, que remédio, deitou a fugir para não ser o émulo de Santo Estevão, glória que não lhe assistia disputar por nenhum jus. Sozinho no descampado o pobre homem vergou a cabeça e meditou. E, meditando, daquele e doutros passos concluiu quanto o poder do Demónio é mais resoluto que o de Deus. Basta que Ele ou os seus ministros tornem costas, se descuidem embevecidos na obra feita, se ponham a ouvir o canto do rouxinol, para que a virtude cristã estiole como planta mimosa ao sol vândalo de verão. E Gonçalo perguntava-se e não achava réplica:
-- Porque é que o mal é o mais forte?»...
(continua)
publicado às 19:14