(...) «Com o peito a sangrar, não porque a sua vida estivera em risco, mas porque topara transviadas as mansíssimas ovelhas, o que superava todas as barreiras da surpresa, foi o servo de Deus deitar-se, queixoso, aos pés do metropolita. Era outro, porém, o arcebispo, e à porta do Paço estava a descarregar uma récua que chegara de S. Pelaio, ajoujada com dízimos de arregalar o olho. E secamente lhe foi dito que o que estava feito feito estava, e o sobrinho se colara na abadia de patena e cálix, que era, como quem diz, de pedra e cal.

Conformou-se Gonçalo com estas razões e, de alma chorosa, mais uma vez assentando quanto são caducos os firmais humanos, se recolheu ao ermo. Cavou uma choça no barro, alpendrou-a com ramos, propondo entregar-se ali a rigorosa ascese até Deus ser servido chamá-lo. Bulia perto um corgozinho, e nele e nos frutos silvestres se foi restaurar. Não sentiu em redondo frauta de zagal, nem ferra de estorgador. Pois logo na manhã do segundo dia, vieram aves de todas as bandas, o carriço bonifrate, o pardal travesso e chalreador, a calhandra perluxosa, o tejasno monástico, o pintassilgo mestre de solfa, toda a voz musical daqueles bosques, toda a asa daquele céu, e poisando sobre a cabana, cantando, pareceu a Gonçalo que com ele rezavam laudes à Virgem Mãe. E porque não haviam de ser anjos encarnados nos seres bonitos da terra? Em prova real do milagre, a todo o âmbito, nos lesins da fraga e na toalha de areia, cresceu a relva e desabrochou um jardim que nem que Maio tivesse chegado ali da terra gorda da promissão. E, por tanto, vendo Gonçalo ali o dedo de Deus, se debruçou sobre o solo a beijá-lo. E, logo de seguida, abençoou os passarinhos e a mão que para ali os arrebanhara.» ...

  (continua)