(...) «Mercê de tais dotes, foi Gonçalo, logo após a missa nova, encomendado na abadia de S. Pelaio, onde côngrua e pé-de-altar não eram escassos, não senhor, mas o pecado cavalava nédio e à solta como porco montês nos pauis. Tanto que, mais de uma vez, o primaz fora surpreendido a clamar, de olhos fitos no horizonte abominável:
  -- Arrasai-a, Senhor, como a Sodoma!
(...)
Em despeito da ruindade dissuasora, mal a igreja vagava, surgiam os párocos a disputá-la,  e a luta do zelo devoto só via tréguas quando o dedo de Deus, pelo seu vigário na terra, houvesse indicado o titular.
Foi, pois, Gonçalo sagrado na igreja serrana com grande ferro dos muitos presbíteros que queriam ir moer os braços a foiçar a erva daninha e balofa que ali crescia. E, em verdade, tão daninha e pujante era que, mal ali aportou o jovem servo de Deus, as pernas lhe vergavam de horror. O vício era denso e extenso como a caruma nos pinhais onde nunca entrou engaço. E, no fundo de sua alma, comparou-se Gonçalo a José entre as corruptas egípcias e a Daniel no covil dos ladrões. O matrimónio -- sacramentum magnum -- com suas leis, era ignorado, mais ignorado que o grego, que pintar as unhas, que o uso do chinó, embora abundassem os calvos. Viviam à lei da natureza homens e mulheres, inçando de maneira tal que bem assinalava quanto a raça era joio em vez de seara mondada pelos obreiros da Redenção. Em dias certos do ano, reuniam-se entre chulas e descantes, e o arraial via apagar as últimas estrelas na casa de Pilatos. Ali, comendo e bebendo à tripa forra, no meio de beijos e toques impudicos, ajustavam os feios concubinatos.
  -- Quero-te a ti, Maria! -- Quero-te a ti, meu Zé! -- diziam os amantes. -- Viva lá, então -- respondiam os pais -- quem casado é! -- termos eram os do ritual com que contraíam e selavam suas maridanças. E não precisavam de mais para encherem o curral de filhos e serem felizes os mariolas. Raros os que estivessem ligados pelo nó sacratíssimo da indissolubilíssima estola, pois que, sendo broncos e endemoninhados, lhe preferiam a fácil liberdade das mancebias. Quando os pares se fartavam um do outro, adeus meu bem, por aqui me vou! Para mais, eram supersticiosos, pois que tementes aos Numes, nunca faltando em Maio a ir espetar ramos nos campos, por certo havendo herdado as baldas da paganidade.
Tudo isto entreviu Gonçalo e tão abalado ficou, fremente de santa raiva, turvo da vista escandalizada, que, prostrando-se no adro, de mãos erguidas, repetiu a imprecação do arcebispo:
  -- Arrasai, Senhor, esta infame Sodoma, para cúmulo, labregal como uma madrigueira de bichos!» ...
                                                    (continua)