Fotografia da minha autoria

Tema: Um livro escrito por uma mulher

Avisos de Conteúdo: Tráfico, prostituição, droga, 

morte, violência, tortura, cenas explícitas

A cidade de Guimarães, conhecida como o berço de Portugal, transporta no seu regaço uma História ímpar. E como o berço representa a origem - e uma permanente sensação familiar -, procurei que o tema mensal de junho, para o Alma Lusitana, privilegiasse a mulher e esse colo inesgotável. Por isso, parti à descoberta do livro de Cláudia Cruz Santos, que nos reserva uma presença feminina bastante inspiradora.

«Queres ser somente uma reprodutora num mundo 

onde não és vista como uma igual porque és mulher?»

A Vida Oculta das Coisas é um relato que une protagonistas, aparentemente, distintos, mas que se cruzam através das teias improváveis do destino. Além disso, e num plano com maior importância, centra-se nas condições precárias em que jovens oriundas de outros países são mantidas, nos riscos que correm no quotidiano, no quanto são usadas para fins lucrativos, como se fossem coisas e não pessoas, e no mundo da prostituição. E é neste ambiente que somos impelidos a refletir sobre os contextos que se manifestam ao nosso redor, mas que não somos capazes de decifrar, porque focamo-nos tanto na nossa bolha.

«(...) as coisas são sempre menos simples para quem 

as vive por dentro do que para quem as vê por fora»

Em simultâneo, é percetível a pobreza - monetária e de espírito - e o peso de tradições que são, ainda, tão severas para as mulheres, retirando-lhes direitos básicos, nos quais se incluem a liberdade de ser e de escolher. E é, também, por estes aspetos que a narrativa nos choca e nos revolta, porque continua a existir uma proximidade gritante com a realidade. Creio, portanto, que a autora construiu um enredo imprescindível, que se molda a várias perspetivas dentro da mesma esfera e que nos empatiza para um problema muito maior que nós e que carece de uma resposta urgente, tendo em vista a proteção de seres mais vulneráveis, enganados com falsas promessas de um futuro melhor.

«Há no final da frase um silêncio incómodo, 

parecem ficar muitas coisas por dizer»

Se há algo que esta obra despertou em mim foi a consciência que a nossa jornada poderia ser completamente diferente, caso nos cruzássemos com outras pessoas. Porque existe quem nos afunde e existe quem nos salve. E é graças à insistência de alguém que se insere no segundo grupo que o desfecho pode ser escrito com outra entoação. É por isso que personagens como Viriato são fundamentais: porque não têm receio de analisar os seus privilégios e de testar os seus limites, para que o mundo seja um lugar bem mais seguro e muito mais justo.

«O sofrimento encolhe se for acompanhado»

A Vida Oculta das Coisas não omite o sofrimento, a solidão, a dependência e a traição. Mas, apesar disso, tem uma aura de amor comovente. Embora preferisse que algumas passagens fossem menos céleres - e questione a presença de uma personagem em específico -, é inegável que é um grito de revolta. E uma possibilidade de recomeçar.

«As verdadeiras respostas não nos chegam nas palavras dos outros»

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