Fotografia da minha autoria

«Uma fábula contemporânea e intemporal»

Avisos de Conteúdo: Referência a Violação; Discriminação, 

Relacionamento Abusivo, Suicídio; Linguagem Explícita

A curiosidade em relação à obra de Maria Velho da Costa era enorme, sobretudo, depois de me terem aconselhado a autora, mas fui adiando o encontro por temer uma escrita demasiado complexa, afastando-me da mensagem. Como não podia estar mais enganada, porque descobri uma das minhas histórias favoritas.

UM LIVRO QUE SE NORTEIA PELA HOMBRIDADE

Myra é assertivo, sem rodeios e jogos de palavras. Pelo contrário, privilegia, antes, um plano de contrastes, no qual parece mais fortalecida a maldade, as trevas e o viver à margem da sociedade. Dividido, talvez, em três momentos centrais, permite-nos acompanhar o percurso de uma jovem emigrante de Leste, que surge «nas areias da portuguesa Caparica». Deambulando sem rumo, perdida, «com o destino traçado em cruz», espera-lhe um caminho de pouca luz, mas sempre amparada por uma personagem bastante particular: o cão Rambo.

«Um nome é um destino. E depois?»

Há passagens muito duras, que expõem o pior do ser humano. E há apontamentos que, só mais tarde, nos deitam ao chão, porque ficam a amadurecer na nossa memória, até compreendermos bem a perda, a falta de empatia. Por oposição, encontramos uma escrita quase melancólica, que nos envolve e vicia, ao ponto de não querermos parar de ler. Creio, portanto, que é neste equilíbrio, neste tom duplo, que o enredo se eleva, porque explora a dor física e psicológica, o medo, a capacidade de sobreviver, a desconfiança e o amor; e porque, de uma forma muito clara, jogando sempre com os opostos, há quem se consiga reinventar e, ainda assim, perder-se na rota traçada, por culpa das circunstâncias. E isso faz-nos sentir cada ponta de ironia e de revolta.

«Fui proibida de existir. Fui roubada de poder ser»

O livro norteia-se pela hombridade, mostrando-nos como podemos criar laços de puro afeto, mesmo no meio de tantas ruínas, desigualdades e relações de poder. Apesar disso, não podemos ignorar a marginalidade, o desencanto, a crueldade das ações e o retrato de um «país que desaprendeu de olhar o outro». Em vista disso, encontramos uma narrativa de procura e de abandono; encontramos uma narrativa que é uma autêntica viagem de reflexão, que nos magnetiza e que nos faz sentir toda a angústia, a incerteza e a fraca esperança.

«Porque é que os humanos adiam tudo, até ser tarde de mais?»

Terminei Myra emocionalmente destruída, mas muito grata por ter priorizado esta obra tão extraordinária.

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