Fotografia da minha autoria

Tema: O livro favorito de alguém de que gostes

A leitura é um processo muito emocional. E pessoal também. Por isso, acredito que todos temos ritmos distintos para a explorarmos - quer no que diz respeito à predisposição temporal que dedicamos a cada obra, quer pela própria vontade em abraçar esta arte. Eu demorei a estabelecer esse vínculo afetivo, no entanto, consegui o improvável e inspirei uma pessoa especial a priorizar a literatura na sua jornada.

O tema de março para Uma Dúzia de Livros apela a este elo tão umbilical. Portanto, tive em consideração um livro que, não sendo o seu favorito, marcou bastante a minha mãe: Sonhos Proibidos, de Lesley Pearse. A capa delicada não permite antever a viagem inquietante que nos espera, mas é daquelas histórias que nos desarrumam por dentro, atendendo a que nos leva a colocar inúmeros aspetos em perspetiva e, talvez, a sentirmo-nos gratos pelo rumo do nosso destino. Porque todos temos que gerir privações e reviravoltas, mas o cenário descrito, página após página, é de uma angustia avassaladora, porque nos faz mergulhar pelo mundo obscuro do tráfico de mulheres e da prostituição. E o mais revoltante é perceber que a idade é um fator tão determinante e que tratam as meninas/mulheres como se fossem um simples objeto.

Tenho o cuidado de não revelar muito dos enredos, quando partilho as minhas críticas literárias, pois não pretendo condicionar uma hipotética leitura. Porém, sinto que é necessário assinalar esta ponte para clarificar a premissa. Porque Belle tem 15 anos e viveu toda a sua vida num bordel, em Londres, sem perceber a dinâmica do lugar [graças à mãe e à ama, que sempre a protegeram nesse sentido], até que o descobre da pior maneira possível, assistindo ao homicídio de uma das raparigas da casa. E é neste curto espaço de tempo que se vê emaranhada numa rede criminosa, muito mais complexa do que aparenta ser. Raptada, afastada do único lar que conheceu, é feita prisioneira, sendo, posteriormente, vendida. Os dois anos que se seguem serão dolorosos, humilhantes, de uma violência gritantes, não só pela situação, mas também pelo desprezo direcionado às prostitutas, claramente catalogadas como seres inferiores. E é neste registo de maldade, manipulação, desonestidade e desrespeito que os nossos valores são colocados à prova, bem como o nosso lado racional, uma vez que há uma revolta imediata pela desumanidade dos acontecimentos.

Basta um momento para o nosso futuro mudar por completo. E isso torna-se evidente à medida que avançamos na história. Além disso, é interessante perceber as metamorfoses de Belle, forçada a sobreviver e a perder a sua inocência, que acaba por apreciar a luxúria do seu novo estilo de vida, mas sem perder o foco principal: regressar a Seven Dials e às suas pessoas. Posso estar enganada, claro, mas creio que parte desse fascínio seja um mecanismo de defesa, minimizando as saudades e mantendo por perto o seu passado familiar. Assim, embora retrate uma tragédia, este livro também preserva traços de esperança, até porque, no meio do caos - e da miséria - há sempre alguém disposto a dar-nos a mão. Infelizmente, a realidade abordada não é tão desfasada do nosso presente, mas a tenacidade da protagonista - e não só, pois tem uma rede de apoio extraordinária, que nunca deixou de a procurar - impulsiona-nos a agir e a lutar por justiça. Mais do que nunca, é perentório quebrar este ciclo, que subsiste, inclusive, através de outro problema grave: a corrupção, neste caso, policial.

A autora, conhecida por criar narrativas fortes, desenvolveu um belo trabalho de investigação em relação aos locais onde passa a ação e à temática central. Em simultâneo, com uma escrita fluída e envolvente, transporta-nos para um ambiente dicotómico, onde reina o ódio e a vingança, mas também a coragem, o amor e a amizade. Ainda que seja pautado por uma abordagem romanceada, é inegável o impacto que tem em nós, a começar pelas conjeturas que desperta na nossa alma. Testemunho da perversidade humana, um dos grandes pilares da obra é a raiz sólida das relações interpessoais. É o assumir de erros. A não desistência. O saber agarrar segundas oportunidades. E o doce conservar de um sonho. Com o coração no sítio certo, há sempre um propósito a guiar-nos.

Sonhos Proibidos exige-nos algum estofo, porque há passagens explícitas. Duras. E agoniantes. Contudo, é um livro que tem tanto de dramático, como de belo, impelindo-nos a distinguir o certo e o errado e a compreender que há pessoas boas e más em qualquer parte - umas de berço, outras por circunstâncias da vida. Belle foi obrigada a seguir o seu caminho, praticamente, sozinha, desamparada de colo, provando que, em todas as épocas, houve mulheres cheias de garra, a quebrar as vicissitudes da sua condição. Portanto, mais do que um romance, é uma história de superação. Mesmo quando tudo nos assusta, a vontade de viver consegue superiorizar-se. E, se possível, levar-nos a casa.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Talvez ele tivesse adivinhado que ela não estava desejosa de voltar para casa e que a ideia de um passeio a tentava, pois pegou-lhe na mão, enfiou-a debaixo do braço e começou a andar» [p:12];

«Sentira qualquer coisa especial naquele dia em que ele a abraçara e a reconfortara e não duvidava de que os dois teriam passado a ser namorados se não tivesse sido raptada» [p:176];

«- Até as prostitutas têm coração - disse, enquanto se esticava até ao outro lado do beliche para prender o lençol lavado. - Na realidade, algumas de nós até temos corações maiores do que as pessoas normais» [p:376];

«O barulho de qualquer coisa a bater era agora muito mais forte e, repentinamente, Étienne percebeu o que estava a ouvir» [p:508];

«Se alguém era o nosso melhor amigo, alguém que não queríamos perder, e se desejávamos essa pessoa, se isso não era amor, o que era?» [p:598].

// Disponibilidade //

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥